Série - Os mistérios da vida e da morte (parte 1)

Qual é o significado da existência humana na infinita vastidão do Universo?

, por Redação

Num debate estimulante, três estudiosos do budismo discutem a vida e a morte. O presidente da SGI, Dr. Daisaku Ikeda, o responsável pelo Departamento de Estudo da Soka Gakkai, Katsuji Saito, e os vice-responsáveis Takanori Endo e Haruo Suda.

Todos temem e se entristecem ante a morte. Isso é natural. No entanto, quando nos esforçamos para superar a dor e a tristeza causadas pela morte, tornamo-nos mais conscientes da dignidade da vida e desenvolvemos o sentimento de compartilhar os sofrimentos de outros como se fossem nossos próprios sofrimentos.

Daisaku Ikeda

Saito: É difícil considerar a vida e a morte como questões pessoais. Por mais eloquente que alguém possa ser em filosofar sobre a vida ou em expor as teorias de vida e morte, tudo será inútil se, lá no fundo, a pessoa considerar essas questões como pertinentes apenas às outras pessoas.

Um médico relatou que foi somente após a morte de seu filho que pôde compreender o significado da vida. Ele revela que antes, quando curava um paciente, inflamava-se de orgulho médico. "Com a morte de meu próprio filho, pela primeira vez comecei a refletir sobre a morte de meus pacientes. Quando passei a encarar isso não mais como 'a morte de outra pessoa', mas sim como 'a minha própria morte', tive o desejo de desaparecer por sentir-me envergonhado e com peso na consciência".

Endo: Essa é uma confissão de partir o coração.

Pres. Ikeda: A experiência de perder um ente querido nos impulsiona a obter uma compreensão mais profunda da vida. Jossei Toda, o segundo presidente da Soka Gakkai, costumava falar sobre a profunda tristeza que sentiu quando perdeu sua filha. Ele havia falecido alguns anos antes de ele ter se convertido ao budismo.

Ele se recordava de como havia chorado durante toda a noite segurando aquele corpo frio em seus braços:

O dia em que minha filha morreu foi o dia mais triste da minha vida. ...Pensei comigo mesmo: 'E se minha esposa morrer?' Aquilo me fez derramar lágrimas. Então, ela realmente faleceu. Mais tarde, pensei o que faria se minha mãe morresse. Com certeza, eu era muito apegado à minha mãe. Refletindo mais profundamente sobre os acontecimentos, estremeci ao pensar sobre minha própria morte.

Enquanto estive preso durante a guerra, dediquei algum tempo à leitura do Sutra de Lótus, e um dia, subitamente, obtive a compreensão. Finalmente havia encontrado a resposta. Levei mais de vinte anos para solucionar a questão da morte. Eu havia derramado lágrimas durante uma noite inteira por causa da morte de minha filha, estremeci ao presenciar a morte de minha esposa e ao pensar que eu, também, iria morrer. Foi por eu ter sido capaz de, finalmente, solucionar esse mistério que me tornei o presidente da Soka Gakkai.

Para os seres humanos, o medo da morte é natural. Até o presidente Toda se abalou diante da morte. É impossível alguém não ter estremecido diante da morte, ou ser completamente indiferente à vida ou à morte. O único caminho é se esforçar arduamente a fim de desenvolver esse estado inabalável de vida.

Todos temem e se entristecem ante a morte. Isso é natural. No entanto, quando nos esforçamos para superar a dor e a tristeza causadas pela morte, tornamo-nos mais conscientes da dignidade da vida e desenvolvemos o sentimento de compartilhar os sofrimentos de outros como se fossem nossos próprios sofrimentos.

Endo: Compreendo bem suas palavras. Eu próprio me vi em tal situação. Doze anos atrás, meu filho mais velho, então com quatro anos de idade, contraiu broncopneumonia e morreu subitamente. Naquela época, não soube o que fazer para conter minha dor. Fiquei atordoado. No entanto, graças ao contínuo encorajamento que recebi do senhor, presidente Ikeda, e dos outros companheiros, pude encarar de frente a realidade da morte do meu filho. Sinto uma profunda gratidão pelo apoio que recebi de todos.

A partir daquele dia, sempre mantendo suas palavras em minha mente - "Você irá, definitivamente, compreender a razão disso" -, passei a orar com uma determinação muito maior. Estudava o Gosho e devorava suas orientações. Encontrei um novo significado em tudo. Passei a encarar tudo de forma diferente. Senti como se minha vida tivesse sido purificada. Acredito, sinceramente, que se eu não tivesse passado pelo sofrimento da perda de meu filho, provavelmente não teria sido capaz de desenvolver a profunda convicção na fé que possuo hoje. E, lamentavelmente, teria continuado com minha limitada capacidade de compreender a sinceridade das pessoas ou a profundidade da vida. Devo até acrescentar que estou pessoalmente convencido de que meu filho já nasceu novamente.

Pres. Ikeda: Também estou convicto disso. O budismo ensina o princípio da unicidade de pais e filhos. O senhor está proporcionando esperança a várias pessoas ao dialogar sobre o Sutra de Lótus e compartilhar sua própria existência sobre a eternidade da vida. Por meio de seus esforços na fé, a vida de seu filho está una com sua própria vida. Seja em qual fase estiver, na vida ou na da morte, por causa da unicidade de pais e filhos seu filho poderá compartilhar todos os benefícios de seus esforços.

Endo: Sim. Muito obrigado.

Pres. Ikeda: A vida é longa. No entanto, não será sempre como um céu límpido. Haverá dias chuvosos e outros de furiosos vendavais. Porém, aconteça o que acontecer, enquanto mantivermos nossa fé, no final tudo se transforma em benefício. O presidente Toda costumava dizer: "Enquanto possuírem fé, tudo em sua vida será benefício. Por outro lado, se perderem a fé e alimentarem dúvidas, tudo se transformará em punição.". Devemos conduzir nossa vida com uma fé inabalável na eternidade da vida. Por meio de nossas vitórias nesta existência, poderemos comprovar a eternidade da vida. Esse é o ensino contido no Sutra de Lótus e no capítulo "Revelação da Vida Eterna do Buda". Aconteça o que acontecer, devemos continuar vivendo, temos de sobreviver; esse é o espírito desse capítulo.

Fonte:

Direitos de publicação exclusivos da Editora Brasil Seikyo Ltda. Copyright 2012.