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há um mês

Uma vida que não se abala por nada

Redação

28/06/2026

Uma vida que não se abala por nada

Eu me chamo Amanda, moro em Maringá (PR) e pratico o Budismo Nichiren há 8 anos. Nasci em uma família católica, mas, sinceramente, nunca me senti pertencente à comunidade da igreja que frequentava.

Desde pequena, gostava de usar shorts largos, camisetão e boné e era apaixonada por luta, futebol e carros. Tudo aquilo que era visto como “coisa de menino”.

Por volta dos 16 anos, comecei a entender quem eu era e me reconhecer como uma mulher lésbica. Nesse processo, vieram muitos conflitos. Eu me sentia deslocada, principalmente, em ambientes religiosos. Percebia os olhares, os comentários, o julgamento. Além disso, carregava um sentimento de culpa, como se estivesse vivendo em pecado e fosse errado viver como eu era. Ao mesmo tempo, dentro de mim, existia um pensamento muito forte: se Deus não erra, então, eu não podia ser um erro. Por conta dessa contradição, convivi com a ansiedade e a depressão desde muito nova.

Em 2018, aos 26 anos, entrei em depressão profunda após o término de um relacionamento. Eu não conseguia enxergar futuro. Mesmo tendo pessoas ao meu redor, a sensação era de vazio e isolamento.

Foi nesse momento que, assistindo a um documentário sobre religiões, me lembrei que uma amiga da minha ex-companheira era budista. Resolvi entrar em contato com ela. Como era fim de ano, a organização estava em recesso e ela ficou de me avisar assim que as atividades voltassem. Aquele fim de ano foi muito pesado para mim, mas, em janeiro, como prometido, ela me chamou para uma reunião para convidados perto da Universidade Estadual de Maringá (UEM).

Aceitei o convite, porém, estava receosa. Carregava toda aquela bagagem de julgamento que sentia ao entrar em ambientes religiosos, então, fui esperando que passaria por algo parecido. Mas, para a minha surpresa, foi completamente diferente!

Assim que cheguei à casa onde aconteceria a reunião, fui recebida pela Dona Hilda, uma senhora japonesa de mais de 80 anos, pequenininha e com uma presença enorme. Ela me abraçou com um sorriso sincero e disse: “Seja bem-vinda! Fico muito feliz de ter você aqui”.

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Sra. Hilda, Beatriz e Amanda

Pode parecer simples, mas aquele momento me marcou profundamente. Naquele abraço, eu senti algo diferente. Durante toda a reunião, todos foram muito solícitos, acolhedores e respeitosos. Ninguém me olhou de cima a baixo nem me julgou pela forma como me vestia, pela minha aparência ou por ser quem eu era.

Continuei frequentando as atividades, porém, mesmo me sentindo bem, ainda existia um certo receio. Eu queria ter certeza se o Budismo Nichiren era realmente diferente de tudo o que eu já tinha vivido. Então, comecei a fazer muitos questionamentos a um veterano. Eu levava temas que, em outros ambientes religiosos, eram tratados como pecado ou algo condenável: LGBT+, transgeneridade, aborto e tantos outros assuntos.

No fundo, eu aguardava o momento em que o budismo fosse falhar comigo, mas isso nunca aconteceu. A cada pergunta, encontrava respostas cheias de humanidade, respeito, responsabilidade e acolhimento. Respostas que ampliavam o olhar em vez de reduzir a vida a julgamentos. E foi aí que entendi: se eu fosse ter uma fé, teria que ser no budismo da Soka Gakkai.

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Veteranos

Com a orientação dos veteranos e o apoio dessa amiga que me apresentou a prática, fui participando das reuniões para convidados. E, com menos de um mês, tive minha primeira vitória.

Eu morava a poucas quadras do trabalho e, todos os dias, recitava daimoku na ida e na volta, enquanto caminhava. Aos poucos, comecei a ter mais ânimo para levantar da cama, tomar a medicação para ansiedade e depressão e buscar ajuda psicológica. Numa dessas idas, percebi algo muito forte: aquela tristeza profunda que me acompanhava há tanto tempo não estava mais ali e, pela primeira vez, me senti genuinamente feliz.

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Pais e sobrinho

Foi nesse momento que decidi me converter ao Budismo de Nichiren Daishonin. Conversei com meus pais, que me apoiaram, pois viram o quanto a prática estava me fazendo bem. No dia 28 de março de 2018, na casa da Dona Hilda, recebi o Gohonzon. Esse momento foi ainda mais especial porque minha mãe, mesmo sendo católica, participou da cerimônia de conversão e fez gongyo comigo.

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Pouco tempo depois, recebi a visita das responsáveis do grupo Cerejeira. Eu já conhecia um pouco da atuação delas e sabia que o uniforme era um vestido rosa, o que, para mim, era uma questão muito delicada.

Sempre tive uma relação muito forte com a forma como me visto, porque tem a ver com a minha identidade, com a forma como me reconheço no mundo e com o meu conforto. Então, naquele momento, eu recusei o convite para fazer parte do grupo e expliquei, com sinceridade, que o vestido era algo que eu não usaria de jeito nenhum. Não era um capricho. Durante muitos anos, minha família insistiu para que eu usasse roupas mais femininas e, por muito tempo, cedi para agradar os outros. Lembro de uma ocasião, na formatura de uma prima, que minha mãe me fez usar vestido e salto. Naquele dia, chorando, eu disse para ela: “Essa vai ser a última vez. Nunca mais me peça para usar uma roupa que eu não me sinta confortável”.

As responsáveis do Cerejeira conversaram comigo com muito carinho e me fizeram a proposta de usar apenas o uniforme esporte, com camiseta polo, calça jeans e tênis, e, depois, veríamos como ficaria o uniforme social. E foi assim que aceitei participar. Pouco tempo depois, a organização anunciou o uniforme de inverno do grupo: um terno rosa. Eu lembro da felicidade que senti porque, finalmente, poderia usar o uniforme social e não teria que renunciar quem eu era.

Hoje, olho para trás e vejo que fazer parte do grupo Cerejeira foi uma das melhores decisões da minha vida. Foi ali que me desenvolvi de forma exponencial, conheci pessoas que me apoiaram, me treinaram, acreditaram em mim e contribuíram profundamente para meu crescimento, tanto dentro da organização quanto na vida pessoal e profissional.

Com o tempo, fui entendendo mais o verdadeiro espírito do grupo e passei a travar minha própria luta com o sentimento de proteger cada membro de todo o coração, como se cada um deles fosse o próprio sensei diante de mim.

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Hoje, como secretária do Cerejeira da CRE Paraná, me dedico diariamente para estar presente e levar esse sentimento a todas as meninas da localidade.

Ao longo desses oito anos de prática, concretizei sete shakubuku, sendo seis jovens LGBT+. Assim como eu, alguns deles estavam passando por ansiedade e depressão e foi aí que compreendi algo muito importante sobre a minha missão. Entendi que minha luta também é para acolher esses jovens que não se sentem pertencentes a uma religião porque foram ensinados a acreditar que eram errados, pecadores ou indignos de felicidade. Jovens que aprenderam a sentir medo de serem quem são, o que a prática do Budismo Nichiren me ensinou justamente o contrário.

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Aprendi que eu não preciso escolher entre a minha fé e a minha identidade. Eu posso ser quem eu sou, sem medo, sem culpa e sem me diminuir para caber no olhar dos outros. Minha vida tem valor, missão e dignidade.

E, acima de tudo, aprendi a importância de ter um mestre da vida porque, por meio do coração do mestre e da prática do Budismo de Nichiren Daishonin, encontrei um caminho que não me pediu para negar quem eu era, mas que me ensinou a transformar meu sofrimento em missão, minha dor em coragem e a minha história em esperança para outras pessoas.

Se hoje eu consigo estar aqui, feliz, em paz comigo mesma, atuando pela felicidade de outras pessoas e lutando com orgulho pela minha missão, é porque um dia fui acolhida sem julgamento, fui ouvida com respeito e encontrei um lugar onde eu pude, finalmente, existir por inteiro. E é por isso que eu tenho tanta convicção em dizer: o budismo que eu pratico salvou minha vida e me ensinou a vivê-la sendo exatamente como sou.

Amanda Cortes Rodrigues, 33 anos, praticante do Budismo de Nichiren Daishonin há 8 anos. Na organização, atua como vice-responsável da Juventude Soka da RM Maringá e é secretária do grupo Cerejeira da CRE Paraná

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