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há 8 horas

Retratando, por meio da fotografia, a diversidade dos seres vivos

Entrevista: Fotógrafo americano Joel Sartore

Redação | Seikyo Shimbun

29/06/2026

Retratando, por meio da fotografia, a diversidade dos seres vivos

Entre as inúmeras espécies que habitam a Terra, não são poucas as que se encontram ameaçadas de extinção. O fotógrafo americano Joel Sartore lançou, em 2006, o projeto “National Geographic Photo Ark”, dedicado a fotografar seres vivos de todo o mundo, e já registrou mais de 17 mil espécies.

Seikyo Shimbun conversou com Sartore, que afirma: “Quero mostrar que ainda existem vidas que podem ser salvas antes que seja tarde demais”. O projeto está alinhado ao Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 15: “Vida Terrestre”.

— O senhor atua como fotógrafo principalmente para a revista National Geographic. O que o levou a se tornar um fotógrafo dedicado a retratar a diversidade dos seres vivos?

Quando criança, ao folhear um guia fotográfico de aves, tomei conhecimento da existência de espécies já extintas. O que mais me marcou foi o pombo-passageiro (Ectopistes migratorius), uma espécie que, apesar de ter alcançado uma população de bilhões de aves, acabou sendo extinta. Na época, eu não conseguia compreender como uma espécie tão abundante pôde desaparecer.

O livro trazia a fotografia de “Martha”, o último pombo-passageiro do mundo. A foto havia sido tirada antes de sua morte, em 1914, no zoológico de Cincinnati, no estado de Ohio, nos Estados Unidos. Infelizmente, era uma imagem em preto e branco, de baixa qualidade e bastante desfocada.

Ao olhar aquela fotografia, pensei: “Será que isto é tudo o que restou para transmitir às gerações futuras: a existência de uma espécie extinta?”.

Foi também nessa época que comecei a me interessar pela vida selvagem e pelas questões ligadas à conservação da natureza. Mais tarde, ao pegar uma câmera pela primeira vez no ensino médio, fiquei completamente fascinado pela fotografia e pela possibilidade de contar histórias por meio das imagens. Após estudar fotojornalismo na universidade e trabalhar em veículos de comunicação, tornei-me fotógrafo da revista National Geographic.

— O projeto “Photo Ark”, ao qual o senhor se dedica atualmente, é conhecido como uma espécie de “Arca de Noé fotográfica”. Poderia explicar em que consiste esse projeto?

O Photo Ark é um projeto que registra e divulga, por meio da fotografia, mais de 25 mil espécies de seres vivos mantidos em zoológicos, aquários e centros de conservação da vida selvagem ao redor do mundo. Iniciado em 2006, o projeto completa 20 anos neste ano de 2026.

Até agora, visitei mais de 60 países e fotografei mais de 17 mil espécies. E esse acervo continua crescendo até hoje.

Nem todos os seres vivos que fotografamos estão ameaçados de extinção, mas nosso objetivo é mostrar, por meio das imagens, a existência dessa imensa diversidade de espécies e ampliar o interesse das pessoas pela conservação da natureza.

Também prestamos apoio a pessoas e organizações que se dedicam à proteção e à recuperação de espécies ameaçadas de extinção.

O primeiro passo é conhecer

— O que o levou a iniciar o projeto Photo Ark?

Em 2005, minha esposa foi diagnosticada com câncer de mama. Até então, eu passava os dias viajando pelo mundo para realizar trabalhos fotográficos, mas me afastei das atividades e passei a ficar mais tempo em casa com minha família.

Felizmente, ela está bem hoje, mas, no momento em que recebemos o diagnóstico, foi como se o tempo tivesse parado. De repente, o futuro que eu acreditava estar garantido deixou de ser uma certeza.

Enquanto observava de perto minha esposa enfrentando a doença em meio à incerteza, comecei a pensar nos seres vivos que também enfrentam o risco da extinção. A luta desses animais para sobreviver diante da ameaça e a força de minha esposa para seguir em frente, apesar das dificuldades, passaram a se sobrepor em minha mente.

Não sabemos por quanto tempo as espécies ameaçadas conseguirão continuar existindo na Terra. Pensando em como poderia contribuir para protegê-las, iniciei o projeto no ano seguinte, em 2006.

— Com que propósito ou sentimento o senhor realiza essas fotografias?

Procuro captar a beleza e o encanto de cada ser vivo e produzir fotografias tão cativantes que as pessoas se sintam naturalmente atraídas a contemplá-las.

O fundo das fotografias é sempre branco ou preto, e nenhum elemento além do próprio animal aparece na imagem. Tanto os animais de grande porte quanto os pequenos seres vivos são retratados aproximadamente no mesmo tamanho. Dessa forma, quero transmitir a ideia de que todos os seres vivos têm o mesmo direito à vida.

Além disso, durante as sessões fotográficas, procuro registrar o instante em que meu olhar encontra o do animal. Acredito que, ao olhar em seus olhos, consigo sentir a “voz” dos seres que retrato e transmiti-la às pessoas por meio da fotografia.

O objetivo deste projeto é proporcionar às pessoas o encontro com espécies que elas jamais viram e das quais talvez nunca tenham sequer ouvido falar. Não é possível proteger aquilo cuja existência desconhecemos.

O primeiro passo para proteger os seres vivos da extinção é conhecê-los. O Photo Ark não é apenas um projeto destinado a registrar, para as futuras gerações, espécies que podem vir a desaparecer; é também uma iniciativa que visa mostrar que ainda existem vidas que podem ser salvas antes que seja tarde demais.

As fotografias do Photo Ark já foram publicadas em livros fotográficos, divulgadas na internet e apresentadas em palestras, alcançando um grande número de pessoas. Frequentemente, quem vê esse trabalho costuma fazer sempre a mesma pergunta: “Existe algo que eu possa fazer para ajudar a proteger os seres vivos?”. Na verdade, esse é justamente um dos objetivos do projeto. E minha resposta é sempre a mesma: “Sim, há algo que você pode fazer.”

Por exemplo, uma boa iniciativa é plantar flores no jardim de casa ou na varanda do apartamento. O néctar e o pólen das flores servem de alimento para borboletas e abelhas e, se a planta produzir frutos, eles também poderão alimentar os pássaros.

Quem não possui um jardim em casa pode procurar canteiros de flores em parques, escolas ou espaços comunitários da região. Em muitos casos, os moradores podem até participar da manutenção e do cultivo desses espaços.

Pode parecer uma contribuição modesta, mas ações como essas ajudam a sustentar e preservar os ecossistemas.

— O Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 15, “Vida Terrestre”, propõe a adoção de medidas urgentes para proteger espécies ameaçadas de extinção e impedir a perda da biodiversidade. Atualmente, a Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da IUCN inclui cerca de 48 mil espécies. Quais fatores o senhor acredita estarem por trás dessa situação?

Acredito que a perda de habitat seja a principal causa da extinção das espécies. Nos últimos anos, desastres como incêndios florestais e tempestades severas têm ocorrido com frequência em diversas regiões do mundo.

Além disso, o desmatamento e o desenvolvimento excessivo vêm destruindo o habitat da vida selvagem em um ritmo alarmante.

Esses fatores não apenas privam os animais e outras espécies de seus abrigos, mas também reduzem suas fontes de alimento. Como consequência, ocorre uma concentração excessiva de indivíduos em áreas menores e um aumento da competição pela sobrevivência, elevando ainda mais o risco de extinção.

Apoio às atividades de conservação

— Nos últimos anos, o senhor tem se dedicado não apenas ao projeto fotográfico, mas também ao apoio a especialistas que trabalham na conservação de espécies ameaçadas de extinção.

Por meio do Photo Ark, criamos o Projeto National Geographic Photo Ark para a Promoção da Conservação de Espécies. Trata-se de uma iniciativa que, ao mesmo tempo em que divulga a existência de espécies ameaçadas por meio da fotografia, apoia especialistas envolvidos em ações de conservação.

Por exemplo, existe um besouro chamado Miami Tiger Beetle(Besouro-tigre de Miami), que vive no estado da Flórida, nos Estados Unidos. Trata-se de uma espécie oficialmente classificada como ameaçada de extinção pelo governo federal norte-americano e que habita exclusivamente os Pine Rocklands – áreas de pinhais sobre afloramentos rochosos – do sul da Flórida.

Temos apoiado o especialista George Gann, que trabalha na proteção desse inseto. Graças ao seu trabalho dedicado e ao poder de divulgação do Photo Ark, a conscientização pública aumentou, o que levou a iniciativas para proteger, contra o avanço do desenvolvimento urbano, os pinhais que constituem o habitat do Miami Tiger Beetle.

— Os impactos da perda da biodiversidade sobre a humanidade têm sido apontados sob diversos aspectos, inclusive o cultural.

Entre as espécies ameaçadas de extinção, algumas desempenham um papel importante na cultura das comunidades onde vivem. Um caracol que vive nas árvores da ilha de Oahu, no Havaí, é conhecido na cultura havaiana como a “voz da floresta”. Ele é frequentemente mencionado em poemas e canções, estando profundamente enraizado no imaginário e no coração das pessoas. No entanto, atualmente, esse caracol encontra-se ameaçado de extinção.

No Photo Ark, apoiamos uma equipe que trabalha na conservação dessa espécie. Proteger seres vivos como esse da extinção não significa apenas preservar os ecossistemas; é também uma forma de salvaguardar e transmitir às futuras gerações as culturas únicas que se desenvolveram em cada região.

— No budismo, considera-se que o ser humano e o meio ambiente são inseparáveis e interdependentes. Com base nessa filosofia budista, a Soka Gakkai também vem desenvolvendo iniciativas de proteção ambiental. Na África Ocidental e na Amazônia brasileira, por exemplo, a organização tem se empenhado na recuperação de áreas florestais.

A natureza e a humanidade estão profundamente interligadas. É um equívoco acreditar que a extinção de uma espécie não tenha qualquer impacto sobre os seres humanos. Em última análise, salvar uma espécie da extinção significa também proteger a nós mesmos.

O que jamais devemos esquecer é que a extinção é irreversível. Quando uma espécie desaparece, ela desaparece para sempre. Por isso, precisamos agir agora para interromper esse processo de extinção. Cada um deve começar a agir da forma que estiver ao seu alcance, unindo esforços com os demais.

Em todo o mundo, existem pessoas que se dedicam com empenho à proteção dos seres vivos ameaçados. A existência delas nos inspira esperança, mostrando que somos capazes de promover mudanças. Isso não significa, porém, que todos precisem se tornar especialistas. As pequenas ações individuais podem se transformar em uma grande força quando somadas e realizadas em conjunto. Acredito que, ao unirmos os diversos talentos e capacidades que cada pessoa possui, seremos capazes de gerar mudanças reais.

 Além da revista National Geographic, Sartore contribui com artigos e fotografias para a revista Life, o jornal The New York Times e outras publicações.

Joel Sartore, nascido em 1962, nos Estados Unidos. Fotógrafo, escritor e ativista da conservação da natureza, atua principalmente por meio da revista National Geographic.

Em 2006, lançou o projeto “Photo Ark”, dedicado a registrar por meio da fotografia os seres vivos mantidos em zoológicos, aquários e centros de conservação da vida selvagem em todo o mundo.

Entre suas obras publicadas destacam-se Photo Ark babies: filhotes do reino animal, Photo Ark: um hino à vida, Photo Ark: animais à beira da extinção e Photo Ark: a arca dos animais, entre outras.

Entrevista publicada no Seikyo Shimbun de 18 de junho de 2026

Foto: Getty Images

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