BS
Discurso do Presidente da SGI
há 28 anos
Vamos cultivar o gosto pela arte e pela cultura - parte II
Diálogo sobre a juventude (XVI)
11/07/1998

Pres. Ikeda: Eu também nunca fui bom em desenho, nem em caligrafia, mas me esforcei para encontrar e observar as boas pinturas e caligrafias. Esse esforço teve um grande retorno em minha vida.
Devemos viver de forma sábia e ponderada. Muitas pessoas tendem a abandonar o caminho para atingir seus objetivos, achando que chegaram a um beco sem saída. No entanto, apesar de ser longo e difícil, sempre há um outro rumo a seguir.
Kimura: Creio que muitas pessoas fazem o mesmo com os estudos. Alguns se convencem de que nunca vão conseguir e em conseqüência disso desistem de seu objetivo nos estudos.
Pres. Ikeda: Quando na verdade esse não é exatamente o caso. Algumas pessoas encontram-se num beco sem saída unicamente porque decidiram que estão ali. O maior inimigo do aprendizado é o medo. Isso vale para o idioma, para a arte e para qualquer assunto ou área de estudo. Quando se sente medo de ser ridicularizado, de ficar embaraçado, de ser menosprezado pelos outros devido aos seus erros, às suas falhas, ou às suas limitações, o progresso torna-se difícil. O importante é ser corajoso. E daí se alguém rir? Quem ri dos que estão tentando fazer o melhor é que deveria ficar com vergonha.
Não há necessidade nenhuma de se comparar aos outros. O que importa é seu próprio crescimento, mesmo que seja um pouquinho de cada vez. Quanto melhor o professor, mais seus alunos sentem-se à vontade, porque esse professor compreende que o medo é o maior empecilho para o desenvolvimento do aluno em seu pleno potencial.
Igeta: Com certeza, a intimidação mata a cultura. A atmosfera em alguns museus e salas de concerto faz com que as pessoas se sintam tensas e pouco à vontade, quando na verdade esses lugares deveriam fazer com que nos sentíssemos tranqüilos e vivazes.
Pres. Ikeda: A arte e a cultura deveriam ser compartilhadas e desfrutadas por todos. Elas não discriminam. Quando encontramos o belo, retornamos para a essência de nossa humanidade, em que todas as pessoas são iguais. Não existem professores ou alunos, nem especialistas ou amadores. Essas distinções existem na sociedade, mas necessitamos de um local onde possamos restabelecer nossa humanidade. Esse local é construído pela arte e pela cultura. Criar um lugar assim é também um dos papéis fundamentais da religião.
O problema é como acalentar um espírito realmente culto nas pessoas que entram em contato com a arte e a cultura. Por exemplo, um japonês que fica se gabando de ser especialista em cultura estrangeira está na verdade usando apenas a cultura para conquistar prestígio social.
Kimura: Dizem com freqüência que o povo japonês é bem instruído, mas não culto. Isso pode estar relacionado com o problema de desenvolver "mentes realmente cultas".
Pres. Ikeda: Algumas pessoas dizem que o Japão ocupa o terceiro lugar no que diz respeito à cultura; outros dizem que está em quinto lugar. Os líderes, professores e estudantes japoneses ainda não são pessoas cultas. Eles não valorizam a importância da cultura. Nem mesmo tentam. Não fazem nenhum esforço concreto. Como se preocupam apenas com as aparências e com a cultura com uma formalidade, não têm nenhuma experiência real disso.
Até agora, o Japão veio enfatizando o desenvolvimento econômico. A cultura sempre foi considerada apenas como "extra". Nós, japoneses, temos também a tendência de julgar o valor da cultura pelo preço e pelo valor monetário, e isso se tornou uma característica nacional. Se não mudarmos isso, o futuro do Japão será obscuro.
Kimura: A idéia de que a cultura é algo "extra" ainda não está firmemente arraigada no Japão? Nós tendemos a pensar que agora que conseguimos chegar a uma economia forte é que chegou o momento de voltar a atenção para a cultura, mas essa visão trata a cultura como uma mera decoração, algo apenas para ser mostrado.
Igeta: Muitos japoneses parecem não compreender que a cultura não é algo "extra"; ela é uma necessidade vital para os seres humanos.
Pres. Ikeda: O escritor Natsume Soseki(1867-1916), do período Meiji, escreveu:
Tratem tudo de forma racional, e irá se tornar uma pessoa severa. Escore-se numa torrente de emoções, e será levado pela correnteza. Dê vazão aos seus desejos, e ficará desconfortavelmente confinado. Este nosso mundo não um lugar muito agradável para viver.
Quando a insatisfação aumenta, a pessoa tenta alcançar um lugar onde a vida seja mais fácil. É simplesmente no ponto em que se descobre em primeiro lugar que a vida não será mais agradável, não importando a altura atingida, que um poema pode ser composto, ou uma pintura pode ser criada.1.
Temos de viver. Nós trabalhamos, vivemos nossos dias e envelhecemos. Nossa vida é uma constante repetição de pequenas ações. Contra esse pano de fundo, nós progredimos, buscamos uma existência que seja plenamente humana, desejamos fazer com que as flores desabrochem. Desse sentimento surgem a arte e a cultura.
A vida é dolorosa. Ela tem espinhos, como o caule de uma rosa. A arte e a cultura são as rosas que nascem nesse caule.
Igeta: Uma vida sem arte é como a natureza sem flores.
Pres. Ikeda: A flor é seu próprio eu, sua humanidade. A arte é a liberação da humanidade que existe em uma pessoa.
As instituições da sociedade nos tratam como "peças" de uma máquina. Elas nos atribuem categorias e exercem uma pressão considerável sobre nós para cumprirmos nossos papéis definidos. Precisamos de algo que nos ajude a restabelecer nossa humanidade, que está perdida e distorcida. Cada um de nós tem sentimentos que foram suprimidos e fundamentados interiormente. Temos no fundo de nosso ser um brado silencioso aguardando para ser manifestado. A arte dá voz e forma a esses sentimentos.
Também podemos extravasar esses sentimentos com prazeres e divertimentos, que podem ser suficientes por um momento, mas a longo prazo essas distrações não trazem nenhuma satisfação nem senso de realização. Nossa vida ficará monótona e sem brilho, ficaremos com um sentimento de vazio., pois nosso verdadeiro eu, nossos verdadeiros desejos, não foram libertados de seu âmago. A arte é o brado do espírito que vem do fundo do ser.
Criar e apreciar a arte liberta o espírito que está preso dentro de nós. É por isso que a arte causa tanta alegria. A arte, muito além de quaisquer questões de habilidade ou da falta dela, é a emoção, o prazer de expressar a própria vida exatamente como ela é. Aqueles que consideram a arte dessa forma são movidos pela paixão, pela intensidade e pela beleza. Por isso é impossível separar uma vida humana plena da arte.
O conceito budista de cerejeira, da ameixeira, do pessegueiro e do damasqueiro - segundo o qual cada pessoa deve viver de forma autêntica, sendo fiel a sua individualidade - tem muito a ver com a arte e a cultura. A cultura é o florescimento da verdadeira humanidade de cada pessoa, e é por isso que ela transcende as fronteiras nacionais, os períodos de tempo e todas as outras diferenças. Da mesma forma, a correta prática budista significa cultivar a si próprio e servir de inspiração para conduzir uma vida realmente culta.
Igeta: Consigo compreender agora o profundo papel que a cultura desempenha na existência humana. Uma sociedade que considera a cultura simplesmente como algo "extra" não é uma sociedade completamente humanística.
Pres. Ikeda: Uma sociedade que valoriza a cultura também valoriza a felicidade da humanidade. O primeiro presidente da Soka Gakkai, Tsunessaburo Makiguti, dizia que a felicidade encontra-se na busca do belo, do benefício e da virtude. Num sentido mais amplo, o benefício é a busca de tudo que é recompensador. A virtude é a busca da justiça e a oposição à injustiça. O belo é a busca da arte e da cultura. Os três contribuem para a felicidade. Quando falta um dos três, há um desequilíbrio. Quando as pessoas ficam desequilibradas, a sociedade também fica, e as pessoas não conseguem conquistar a felicidade.
Atualmente, o Japão está desequilibrado em detrimento da política, dos interesses econômicos e da tecnologia, o que torna ainda mais importante restabelecer o equilíbrio enfatizando a importância da arte e da cultura e ao apoio de seu desenvolvimento. Esses esforços farão do Japão uma nação mais humanística, em que as outras nações poderão confiar com segurança, e em conseqüência poderemos contribuir para a paz mundial.
Kimura: Há muito tempo o senhor vem lutando para conseguir isso. Apesar dos seus empreendimentos, pessoas anti-éticas que não têm nenhuma compreensão da importância da arte e da cultura o atacaram e tentaram minar seus esforços. Isso nos deixa irados.
Pres. Ikeda: Desde quando me encontrei com o segundo presidente da Soka Gakkai, Jossei Toda, aos dezenove anos, compreendi que o único caminho para o Japão era se tornar uma nação culta. Somente por meio da cultura e da arte o Japão poderia se levantar espiritualmente das cinzas da guerra. Isso vale para qualquer nação.
Aferrei-me a essa crença durante anos, e é por isso que eu, apesar de ser um cidadão comum, pude me encontrar com tantas pessoas do mundo inteiro, e conquistar sua confiança e apoio. Tudo isso se deveu ao poder da cultura.
Há mais ou menos 25 anos(em 1972 e 1973), dialoguei com o Dr. Arnold Toynbee, o grande historiador britânico. Falamos sobre vários assuntos, entre eles a importância da cultura, e, em meio aos nossos diálogos, foi amplamente anunciado o encontro de dois líderes políticos. Naquela ocasião o Dr. Toynbee disse-me que apesar de nossos diálogos não terem atraído muita atenção no momento, dentro de dez ou vinte anos as pessoas de todo o mundo iriam concordar com o que dissemos e também elogiar. Sua predição tornou-se verdadeira.
Até agora, o diálogo entre o presidente Ikeda e o Dr. Toynbee foi publicado em 21 idiomas.
Às vezes, pode ser difícil descobrir o poder da cultura, mas essa é força fundamental, pois transforma o coração humano. O desenvolvimento político e econômico pode com freqüência ser vitorioso e ser a notícia do momento, mas, na verdade, a cultura e a educação são o que molda qualquer época. Não devemos cometer o erro de olhar apenas para as águas rasas que borbulham ruidosamente sobre as rochas; as correntes profundas são muito mais importantes para conhecer a verdadeira natureza do rio.
Igeta: Voltando a mesma questão, o senhor disse que não faz nenhuma diferença se a pessoa tem ou não habilidade. O senhor poderia explicar isso mais detalhadamente?
Pres. Ikeda: Claro. Seja ou não habilidoso, o importante é ter contato com a grande arte. O sentimento de admiração e de arrebatamento ao conhecer as grandes obras é a essência da arte. Ou seja, a essência da arte é ver, ouvir, sentir e então descobrir.
Kimura: Apesar de sabermos que devemos conhecer a grande arte, muitos de nós não sentimos que temos confiança de reconhecer o que é e o que não é a grande arte. Podemos não apreciar aquilo que os outros consideram uma obra-prima. Como podemos reconhecer a grande arte.
Pres. Ikeda: Uma grande obra de arte é aquela que comove e dá inspiração. Vocês próprios devem sentir-se comovidos. Não observem a arte com os olhos dos outros. Não ouçam música com os ouvidos dos outros. Vocês devem reagir à arte com seus próprios sentimentos, com seu coração e com sua alma. Se se permitirem serem dominados pelas opiniões alheias - "deve ser bom, porque todo mundo gosta"; "deve ser ruim, porque ninguém gosta" - seus próprios sentimentos, sua própria sensibilidade, que devem ser a verdadeira essência da experiência artística, irão murchar e perecer.
Para desfrutar a arte ao máximo, devem abandonar todas as nações preconcebidas, passando em branco em tudo. Então, confrontem a obra diretamente, com todo seu ser. Se ficarem profundamente comovidos, então essa obra será, para vocês, uma grande obra de arte.
Kimura: Então, o julgamento do que vem a ser uma grande obra de arte difere de pessoa para pessoa?
Pres. Ikeda: Apesar de as respostas subjetivas da pessoa serem muito importantes, também não se pode perder de vista a objetividade. É necessário acalentar, por meio do esforço, a capacidade de realmente apreciara grande arte. À medida que seu grau de compreensão for progredindo, aquela arte que no passado consideraram como boa parece não lhes satisfazer mais, e as obras que antes não lhe causaram nenhuma impressão passam repentinamente a exercer um enorme poder de comovê-los.
Por exemplo, as obras de arte que são reconhecidas em todo o mundo e que comoveram tantas pessoas durante séculos possuem as qualidades que fazem jus ao fato de serem identificadas como obras de arte grandiosas e universais. A arte que carece dessas qualidades, apesar de serem populares durante um certo período, tendem a não durar muito. Existem certas experiências para as quais quase todos os seres humanos parecem estar inclinados a concordar: quando olhamos para um límpido céu azul, todos nós achamos maravilhoso; quando observamos as flores de cerejeira, todos as achamos belas.
As grandes obras de arte possuem também uma qualidade universal. Elas possuem uma força vital semelhante à da própria natureza. Para instilar sua vida nessa obra, os grandes artistas sofrem demasiadamente, vertendo toda sua energia vital em sua arte.
Igeta: Como podemos acalentar a capacidade de reconhecer a grande arte?
Pres. Ikeda: Provavelmente, a melhor maneira seja ver e ouvir o máximo que puderem do que é considerado como grandes obras de arte de todo mundo, o que fará com que cultivem e refinem sua sensibilidade. Naturalmente, aprenderão a distinguir o bom do ruim.
Observar a arte de segunda e terceira categoria não os ajudará a compreender a arte de primeira categoria, mas, depois que a conhecerem, perceberão imediatamente o que é de segunda e terceira classe. Seu olhar crítico surgirá. É por isso que devem se esforçar para entrar em contato com o que há de melhor desde o início.
É claro que vocês podem ver a grande arte nos livros, mas ver a obra real, quando tiverem uma oportunidade, é uma experiência totalmente diferente. Ainda me lembro de ter ficado extremamente comovido quando vi pela primeira vez as grandes pinturas de Louvre. Essa é a diferença de ver a foto de uma pessoa e ver a própria pessoa.
Vejam as boas pinturas. Ouçam a boa música. Conhecer a grande arte fará com que seu espírito se desenvolva e seja estimulado.
Igeta: Pintar e a cantar como hobby pode também ser uma forma de participar do movimento para propagar a cultura. Recentemente, vimos até companhias japonesas recrutando empregados que tivessem algum talento. Existem muitas razões para isso, mas uma delas é que eles buscam esse tipo de pessoa pois valorizam o tipo de personalidade que aprecia a arte e a cultura. Todos nós devemos desenvolver o espírito de se alegrar, de louvar e de compartilhar o dom das pessoas que têm talentos artísticos e riqueza de sentimento, independentemente de eles conquistarem ou não um amplo reconhecimento. Cultivar essa beleza de espírito é um esforço muito digno.
A arte e a cultura não são um simples adorno tampouco são acessórios. O que importa é se a cultura enriquece a essência da nossa vida
Igeta: Sei que o importante é enriquecer nosso eu interior. A responsável pela Divisão das Estudantes Colegiais de Quito(na região de kansai), Reiko Fujita, trabalha no singular campo da tintura de tecidos, em que complicados motivos são pintados à Mão ou desenhados na seda. Reiko disse: "Meus sentimentos se expressam nas cores que uso. Por exemplo, se estou pensando na felicidade dos outros, isso aparecerá nos desenhos e nas cores. É por isso que preciso continuar a me desenvolver."
Ela também disse: "Espero buscar um mundo mais amplo e inspirar o ar fresco da mudança, impregnar minha arte com essa inspiração, e então compartilhá-la com o mundo como um exemplo da cultura japonesa. Meu objetivo é criar uma bela arte para o mundo, para os outros."
Pres. Ikeda: Isso é maravilhoso. Espero que possamos criar muitas outras pessoas que também respeitem a cultura e amem a arte. Quando muitos desses indivíduos se unirem, e quando essas nações se ligarem nesse espírito, nosso mundo será ideal e o século de verdadeira humanidade surgirá.
Kimura: Esse com certeza será o século da paz.
Pres. Ikeda: A paz e cultura são uma coisa só. Uma nação verdadeiramente culta é uma nação pacífica, e vice-versa. Quando os conflitos se multiplicam, a cultura declina e as nações caem numa existência abominável. A história da raça humana é uma luta entre a cultura e a barbaridade. Depois de termos deixado as tensões da Guerra Fria para trás, a questão premente passou a ser esta: "Como será o novo século?" A cultura é a única força capaz de acabar com o conflito e conduzir a humanidade para a paz.
Kimura: O senhor teve uma grande percepção ao fundar tantas instituições culturais, tal como a Associação de Concertos Min-On, o Museu de Arte Fuji(em Tóquio e em Shizuoka), a Universidade Soka e muitas outras. O senhor contribuiu grandemente para essa força cultural de que ele falou.
Pres. Ikeda: Na época, todos se opuseram a esses projetos! Ninguém compreendia o que eu estava fazendo.
Igeta: Buscar essa visão própria, contra a oposição dos outros, e realmente colocá-la em prática reflete um grande talento artístico no seu direito próprio.
Tanto na cultura como em outros campos, as pessoas dizem que os japoneses são bons imitadores e pobres inovadores. Como podemos aprender a inovar?
Pres. Ikeda: A busca do belo, assim como muitas outras atividades humanas, com freqüência começa com a imitação. Todo aprendizado inicia com a imitação; não se pode inovar sem que se aprenda primeiro o básico. Ficar dedilhando no piano sem ter antes dominado as teclas não é o que podemos chamar de inovador. A imitação é o primeiro passo para a criação de uma nova arte.
Mas não se pode ser um eterno imitador. No Japão, muitos artistas nunca vão além da imitação, nunca atingem o estágio em que criam algo próprio. Somos uma nação de imitadores; na tecnologia e em muitos outros campos, usamos nossa capacidade de imitar para ganhar dinheiro, e criamos o Japão de hoje. Mas, apesar de sermos habilidosos imitadores, parecemos não ter capacidade de dar o próximo passo, de romper barreiras. A única maneira de superar essa tradição restritiva é a revolução humana.
Kimura: O que é essencial para passar da imitação para inovação?
Pres. Ikeda: Se ficarem apenas repetindo o que viram e ouviram, nunca passarão além da imitação. O espírito é crucial. Vocês têm de sentir com o espírito e exprimir com o espírito para poderem inovar. Isso requer sangue, suor e lágrimas; isso requer incansável busca e contínuo esforço. Somente então vocês irão adquirir gradativamente a capacidade de expressar-se com plenitude e naturalidade.
O esforço é a chave. Leonardo da Vinci(1452-1519) escreveu em seus manuscritos: "Pobre Leonardo! Veja como você sofre!2." E dizem que Beethoven, em seu leito de morte, embora continuasse a estudar avidamente a música de George Frederick Handel(1685-1759), declarou que ainda tinha muito a aprender.
Kimura: Beethoven disse isso? Sempre pensei que Beethoven fosse tão orgulhoso a ponto de se considerar um gênio que não tinha nada a aprender com os outros.
Pres. Ikeda: Ele era orgulhoso, mas todas as pessoas grandiosas são também humildes, no verdadeiro sentido da palavra. Essas pessoas sabem o que significa respeitar e admirar os outros. Quanto mais insignificante for a pessoa, mais ela será propensa a invejar os outros.
Certa ocasião, Beethoven escreveu a uma menina:
O verdadeiro artista não tem nenhum orgulho; infelizmente, ele compreende que a Arte não tem limites. Ele sente vagamente como está distante do seu objetivo, e mesmo apesar de os outros o admirarem, lamenta sua falha em atingir esse objetivo que seu gênio superior ilumina como se fosse um sol distante.3.
Igeta: Essa profunda humildade deve ter sido o que permitiu a Beethoven criar suas grandes obras.
Pres. Ikeda: Creio que na mesma carta Beethoven escreveu: "Não conheço nenhuma outra vantagem dos seres humanos além das que os coloca nas categorias do bem e do superior; onde quer que encontre isso, esse será meu lar."4.
Kimura: O que importa é como nós somos como pessoas. Com certeza, houve artistas famosos que particularmente não foram boas pessoas.
Pres. Ikeda: É verdade. Apreciar a música ou a pintura de um artista é totalmente diferente de respeitar esse artista como ser humano. Devemos ter cuidado para não confundir as questões de habilidade artística e do talento com o respeito pelo artista como pessoa. Não é raro encontrar pessoas "cultas" que tiveram uma vida degenerada ou que cometeram atrocidades. Pode ser um caso extremo, mas Hitler se considerava um artista. Ainda existem muitas de suas pinturas, e apesar da divergência de opiniões, pode-se provavelmente dizer que elas não são inferiores do ponto de vista da técnica. No entanto, Hitler jamais poderia ser considerado como uma pessoa culta e civilizada. Ele foi um bárbaro, a personificação da natureza maligna do poder corrupto.
Um exemplo de artista de natureza muito boa foi o pintor francês Jean Baptiste Camille Corot(1796-1875), precursor dos impressionistas. Após ter atingido um relativo sucesso como pintor, era sempre gentil com os outros. Quando uma de suas modelos casou-se com um homem pobre, ele lhe deu um dote. Quando um pintor amigo dele estava para ser despejado da casa que havia alugado, Corot comprou a casa e a deu para ele.
Dizem que uma mulher que havia conhecido Corot fez o seguinte comentário: "Não sei se suas pinturas são obras-primas, mas ele próprio é uma obra prima criada por Deus."
Kimura: Até mesmo os artistas devem se examinar como seres humanos. Eles não se podem permitir tornarem-se egocêntricos.
Pres. Ikeda: Ser criativo é muito diferente de ser egocêntrico, assim como são diferentes uma verdadeira individualidade e de uma personalidade fácil e excêntrica. De fato, também pode acontecer de os indivíduos incomparáveis conseguirem expressar sua singularidade sem nem mesmo tentar. Essas pessoas buscam a natureza, a vida e a verdade e as aceitam, e tentam transmiti-las exatamente como são. Nesse processo, sua individualidade brilha naturalmente. Essa é a verdadeira criatividade, a autêntica inovação.
Creio que o escultor francês Auguste Rodin(1840-1917) queria dizer a mesma coisa ao falar que a vida é muito mais importante do que a criatividade na criação da arte.
Igeta: A autêntica criatividade é importante para todos nós, e não apenas para os artistas. No futuro, o Japão não poderá ficar apenas na mera imitação.
Pres. Ikeda: Isso é muito provável. Enfrentaremos uma "competição de criatividade." Mas é muito fácil falar de criatividade em vez de realmente ser criativo. Ser criativo é um batalha feroz. As pessoas criativas sempre enfrentam a oposição dos conservadores, e devem suportar a solidão e o isolamento dos incompreendidos. Elas precisam de coragem e de tenacidade. Precisam ter fé em seus empreendimentos de tal forma que não sejam influenciadas pelas condições superficiais de perda e de lucro.
Kimura: Quando as pessoas dizem que os japoneses não são criativos, podem estar salientando o fato de que muitos deles não têm essa fé e coragem.
Pres. Ikeda: Gostaria que vocês, que são nossos jovens, transformassem o Japão e o mundo em uma sociedade culturalmente rica e criativa. O século XX presenciou a matança de tantas pessoas, começando com as duas guerras mundiais. Apesar de ser considerado um século em que a civilização realizou seus maiores avanços, foi também o século em que ocorreram os massacres mais bárbaros. Auschwitz, Hiroshima, Nagasaki, o massacre da Nanquin e o expurgo stalinista são símbolos desse barbarismo. E são uma lição para todos nós: até mesmo uma sociedade aparentemente civilizada nunca terá paz sem que tenha indivíduos realmente cultos que amem a humanidade. Sem isso, as criações da civilização moderna transformam-se em instrumentos do demônio.
O Sr. Makiguti ensinava que a educação é a maior de todas as artes, a arte da criação de valores de excelente caráter. Essas são palavras douradas. A arte não pertence a apenas uns poucos escolhidos. Inspirar as pessoas e cultivar a própria personalidade também é arte. A arte se apresenta numa vida bela, em belas ações e em belas orações. A maravilhosa arte da paz devota-se inteiramente a ligar um belo coração humano a outro. Quando vidas cultas se unem à própria cultura, nascerá a verdadeira cultura humana do século XXI. Quando a humanidade completamente realizada e a arte se juntarem, uma arte autenticamente humana surgirá. É missão de vocês construir esse futuro criativo e espetacular.
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