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Especial
há 13 anos

Entrevista – Amaral Vieira

Amaral Vieira é pianista, compositor e músico de renome internacional. Dotado de extrema sensibilidade e coragem, dedica seus esforços na expansão de sua obra repleta de humanismo por todo o mundo. A seguir leia os trechos do diálogo que a equipe da RDez realizou com o músico.

08/04/2013

Entrevista – Amaral Vieira
RDez: Como nasceu sua paixão pela música?

Amaral: Comecei a estudar música com seis anos, por influência da minha irmã que também estudava. Meus pais achavam estranho um menino estudar piano, na época era coisa de menina. Com o tempo surgiram outros desafios. O meu professor de piano no Brasil, Souza Lima, tinha grande sabedoria. Ele dizia que havia uma música que ele queria me passar, mas que para tocar eu teria de me desenvolver muito ainda. De toda forma sempre deixava as partituras a disposição para eu levar para casa. Assim, eu tinha duas vezes mais vontade de provar para ele e para mim mesmo que era possível. Assim, ele me estimulava e eu me desenvolvia. É semelhante ao princípio utilizado na Escola Soka onde as crianças são estimuladas a assumir desde muito cedo a responsabilidade e a ter prazer naquilo que fazem.

RDez: Como gostar de música clássica?

Amaral: Existe uma grande barreira com a música clássica, pois algumas pessoas dizem que não a entendem por não frequentarem uma escola de música. Mas, a música se compreende com o coração e não com o intelecto, é uma linguagem universal. Sensei foi muito generoso e corajoso em romper este paradigma. Ele fundou a Associação de Concertos Min-On1 para que todas as pessoas tivessem acesso a arte. Pelo Min-On toquei em Okinawa, Japão, lugar afastado e que comercialmente não é vantajoso para as entidades. Foi a primeira vez que um concerto de piano apresentou-se naquele lugar. Levar a música para as pessoas e vê-las feliz é realmente extraordinário!

RDez: O que é uma boa música?

Amaral: A música pode ser um entretenimento, mas não é só isso. A música de qualidade, toca o nosso coração. A música que diz algo pra mim não é o mesmo que diz para o outro. É como um grande jardim, colhemos as flores que mais nos alegram - amarelas, vermelhas, coloridas - há para todos os gostos. A criança tem que ter acesso a esse jardim. Por outro lado há muitas músicas medonhas. Tudo o que se compôs de música desde a antiguidade na Grécia até as músicas mais recentes é resultado das combinações das mesmas notas. É o jeito de combinar que reflete fielmente qual o ser humano que esta por trás daquela música.

RDez: E o que fazer para compor uma boa música?

Amaral: Certa ocasião fui dar um curso no conservatório de Pequim e conheci uma garota de 17 anos que estudava 19h por dia. E então refleti: “O que uma pessoa que estuda 19h pode transmitir em sua música? Que experiência de vida ela tem? Ela não vê o ser humano, ela só vê aquele instrumento e o movimento da mão se repetindo. É uma pessoa que só tem o domínio técnico do instrumento. Se a pessoa não tiver capacidade de reservar quinze ou vinte minutos de seu dia para fazer algo prazeroso, ela não está sabendo viver.

RDez: O Daimoku e a música possuem alguma semelhança?

Amaral: A música e a oração possuem muitas semelhanças. Uma delas é o objetivo. Quando a pessoa está fazendo Daimoku do fundo do coração, ela está orando não somente para os membros da Soka Gakkai ela esta orando para toda humanidade; o artista quando escreve, compõe ou toca, ele também o faz pela felicidade de todos.

A música é uma forma de oração, pois possui uma energia fantástica. Outra semelhança é a harmonia. Como seres humanos nos tornamos muitas vezes dessarmônicos interiormente, como um piano desafinado. A gente chama um afinador e ele afina com base no seu conhecimento. É isso que uma boa música faz conosco. Deixar tudo harmônico novamente, assim como o Daimoku. Se não afinarmos nosso instrumento, chegará um momento que a música ficará irreconhecível.

RDez: Por que é importante aprender um instrumento?

Amaral: O que de melhor a nossa juventude poderia fazer é tomar a decisão de aprender a tocar um instrumento. Não importa qual, o importante é a experiência de fazer música. A partir do momento que temos contato com a música, crescemos como seres humanos. Você pode pensar que está aprendendo a dominar o seu instrumento, como um violino, por exemplo. Mas não é isso, você está aprendendo a dominar a você mesmo. O violino é um objeto. O que acontece é que aprendemos a dominar e a superar os próprios desafios. É igual a nossa vida, precisamos de paciência, persistência e disciplina.

RDez: Qual a importância da arte?

Amaral: Eu li recentemente um relato interessante. Um adolescente de 13 anos, numa aula de física, acabou dormindo. Quando acordou já era o fim da aula e na lousa havia uma fórmula que ele achou que era a lição de casa. Transcreveu em seu caderno e levou para casa. Quebrou a cabeça e não achava a resposta. Tentou tanto que no terceiro dia enfim conseguiu.

Ao entregar a resposta ao professor o mesmo perguntou: “Como você fez isso? Eu coloquei na lousa um dos teoremas que nunca foi solucionado por ninguém.” Como ele achou que aquilo era lição de casa, mobilizou todo o raciocínio e apresentou a resposta. Mal sabia ele que fazia mais de 150 anos que o teorema fora lançado e ninguém havia resolvido até então. Se tivesse conhecimento da dificuldade, de certo não teria conseguido. Todos nós temos esse potencial, mas nós temos muitas limitações auto impostas. O maior benefício que podemos dar para uma criança é alimentar a sua auto confiança, seu espírito de superação. “Tente de novo!” “Faça de novo!” “Você vai conseguir!” Dentro da arte, encontramos muitas respostas.

RDez: Quando você conheceu o presidente Ikeda? Como foi o encontro?

Amaral: Em 1977, depois de muitos anos na Europa, eu recebi um convite de um professor na Inglaterra para ser o chefe de departamento da Orquestra de Londres. Havia tido oportunidades maravilhosas na Europa e eu já tinha tocado em todos os continentes do mundo. Diante do convite, refleti profundamente que eu precisava voltar e contribuir para o desenvolvimento do Brasil. Só eu sei o quanto foi difícil esta decisão. Muitos foram contra à minha decisão. Quando eu contei esse episódio para o Sensei no primeiro encontro com ele em 1992, ele bateu na mesa com a palma da mão e disse vigorosamente: “Nao conheço ninguém que tivesse feito isso que o professor fez! Não conheço ninguém que teve essa coragem!” Quantos anos se passaram até chegar aquele encontro! Me senti compreendido pela decisão que eu tinha tomado anos atrás. A partir do instante em que ele manifestou seu apoio é como se ele estivesse estado comigo no momento de minha decisão. Naquela época, eu não sabia que o Sensei existia conscientemente. Mas em algum lugar do meu coração, eu já estava ligado a ele. Aquela decisão foi seguramente apoiada por ele mesmo que silenciosamente.

RDez: Qual é o seu sonho?

Amaral: Meu sonho é compartilhar com o maior número de pessoas o sonho do Sensei. O grande sonho do Sensei, de levar felicidade a todas as pessoas, engloba absolutamente tudo e envolve todas as áreas da atividade humana, entre as quais a música. Então, eu faço parte deste sonho do Sensei. Cada um de nós deveria buscar o seu verdadeiro sonho, seu ideal de vida, concretizar os sonhos em sua área de atuação, tentar fazer a coisa tão bem quanto Sensei faria se estivesse no nosso lugar. Se é um médico conduzindo uma cirurgia, que seja o Sensei fazendo a cirurgia, com a mesma dedicação e com o mesmo empenho em ajudar o ser humano. No meu caso específico a música é meu veículo. Seria demais, que o Sensei além de tudo o que já faz, fosse compositor, pianista e orientador da OFBHI.

RDez: Como vencer os desafios?

Amaral: Para vencer é preciso dominar a sua própria natureza e usar a ferramenta da disciplina, do discípulo, e acreditar que existe uma força maior apoiando essa causa. Se a causa que você elegeu para sua vida é uma causa nobre e que favorecerá as pessoas, você conta com a ajuda de toda energia dos bilhões de bilhões que Daimoku que foram lançado no espaço e que forma uma energia inigualável. Ela está lá, se você não ligar o seu aparelho na tomada, ele não vai funcionar. Mas, por meio das nossas orações conseguimos nos conectar com essa grande energia cósmica e teremos a força incondicional para que nossa causa seja bem sucedida.

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