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Recordações de Meus Encontros
há 25 anos

Aurelio Peccei

Co-fundador do Clube de Roma

01/02/2002

Aurelio Peccei
Este é um conhecido enigma: Num lago crescem nenúfares. Grandes folhas de nenúfar flutuam na superfície. Elas dobram em número a cada dia. No primeiro dia há uma folha de nenúfar, no segundo, duas. No terceiro, quatro. No quarto, oito, e assim por diante.

Se no trigésimo dia toda a superfície do lago estiver coberta por folhas de nenúfar, em que dia o lago estaria coberto pela metade?

A resposta, claro, é no dia anterior, o vigésimo nono.

Um dia antes de o lago estar completamente coberto, metade de sua superfície estará vazia. Tudo parece estar muito bem — ainda há muito espaço livre. Mas logo no dia seguinte, num curto intervalo de tempo, o lago todo está tomado — não resta mais nenhum espaço.

Qualquer um poderia prever o final observando o lago no vigésimo oitavo ou no vigésimo nono dia.

Porém, uma pessoa percebeu o perigo muito antes e clamou: “Se não fizermos algo já, será tarde demais!” Esse homem foi o Dr. Aurelio Peccei (1908–1984), primeiro presidente e co-fundador do mundialmente famoso “fórum do pensamento global”, o Clube de Roma.

Ele alertava para as conseqüências devastadoras do crescimento populacional sem controle, o desperdício dos recursos naturais e para a terrível desigualdade na distribuição da riqueza entre nações desenvolvidas e em desenvolvimento. Todos esses fatores estão inter-relacionados, dizia ele, e se não forem tomadas providências, provocarão uma reação em cadeia que levará à destruição.

Não temos tempo

O Dr. Peccei disse-me que os líderes mundiais de hoje são irresponsáveis. Se permitirmos que a situação continue como está, o planeta se tornará estéril no século XXI e tanto a natureza quanto os seres humanos serão destruídos. Embora essa verdade esteja bem diante de nossos olhos, declarava ele, os líderes políticos, os homens de negócios, os cientistas, acadêmicos e burocratas nada fazem e só pensam em seus próprios interesses. Dão grande prioridade em preservar seu próprio estilo de vida em vez de se preocuparem com que tipo de mundo deixarão para seus filhos e netos.

Este é o motivo, dizia ele, de a própria humanidade precisar fazer uma revolução. E rapidamente, pois não há mais tempo.

Um encontro ao ar livre

Encontrei-me com o Dr. Peccei pela primeira vez sob o céu azul de Paris. A brisa primaveril agitava as flores brancas de macieiras. O Dr. Peccei viera diretamente da Itália para encontrar-se comigo em nosso centro da SGI de Paris. A princípio, acomodamo-nos na sala de visitas, mas pedi-lhe a permissão de fazer uma “mudança urgente”. Desculpando-me pelo fato de a sala ser pequena e apertada, disse: “O jardim é muito bonito. Por que não vamos para lá?” O Dr. Peccei disse achar uma excelente idéia e esboçou um caloroso sorriso. Ele parecia compartilhar minha aversão por formalidades vazias.

Ele se levantou e seus movimentos enérgicos, os de um homem de ação, de imediato me impressionaram. O Dr. Peccei era um sobrevivente de décadas de competição no mundo dos negócios. Quando nos conhecemos, em 16 de maio de 1975, ele tinha 66 anos.

Embora fosse o aniversário de sua esposa Marisa, ele adequou sua programação à minha e veio visitar-me naquele importante dia. Percebi a sinceridade e a generosidade que havia naquela pessoa robusta.

O sol estava muito forte, assim abrimos um guarda-sol laranja sobre o gramado e transportamos algumas cadeiras para fora. Em um instante, improvisamos uma bela sala de reunião.

Mais que uma revolução na tecnologia de informação, precisamos de uma revolução humana

Ao falar, algumas vezes o Dr. Peccei inclinava-se pronunciadamente para frente em sua cadeira. A raça humana, dizia ele, experimentou três revoluções até agora: a revolução industrial, a revolução científica e a revolução tecnológica. Todas elas foram revoluções externas. O problema é que a sabedoria necessária para decidir como usar os frutos dessas revoluções ainda não estava desenvolvida.

A raça humana, que possui conhecimentos surpreendentes, também é surpreendentemente ignorante sobre como se deve conduzir, dizia ele. Embora nossa tecnologia se desenvolva rapidamente, em termos culturais nosso desenvolvimento estacionou ou petrificou. Para preencher essa lacuna, dizia ele, era necessário uma renascença do espírito humano, uma revolução nos próprios seres humanos.

Isso foi em 1975. E estou certo de que hoje o Dr. Peccei também diria que a revolução humana é muito mais importante do que a revolução na tecnologia de informação que estamos vivenciando.

Os limites do crescimento

Em 1972, três anos antes de o Dr. Peccei e eu nos encontrarmos em Paris, o Clube de Roma publicou seu primeiro relatório, “Os Limites do Crescimento”, que gerou uma grande controvérsia. Ele advertia que, se a população e o desenvolvimento industrial continuassem a crescer nas mesmas proporções que hoje, em menos de cem anos os recursos naturais do mundo se esgotariam, o meio ambiente seria contaminado e haveria escassez de alimentos.

Um ano depois, em 1973, ocorreu a crise do petróleo. “Não há combustível!” A suspensão no fornecimento de petróleo fez o mundo inteiro tremer. A advertência do relatório do Clube de Roma adquiriu uma proporção real em bem menos de cem anos. Então, todos começaram a se preocupar com a possibilidade de os recursos do presente se esgotarem em pouco tempo.

Mas a questão principal levantada pelo Dr. Peccei não era a de que deveríamos desenvolver fontes alternativas porque as antigas estavam se esgotando. Ele estava tentando elevar a discussão a níveis totalmente distintos. O Dr. Peccei afirmava que uma busca frenética por mais riquezas, mais desenvolvimento, mais crescimento econômico como único objetivo da humanidade era um erro terrível. Se continuarmos nesse caminho, seja qual for a fonte de energia, ela rapidamente se esgotará e o meio ambiente será contaminado.

Como salientou o Dr. Peccei, a atual geração consumirá mais recursos naturais durante sua existência do que todas as gerações precedentes. E para que fim? O Dr. Peccei acreditava que a humanidade havia sido corrompida espiritualmente pelo mito do crescimento econômico.

Esse mito insiste que devemos sempre produzir e consumir mais este ano do que no anterior. Pois do contrário, perderemos a corrida econômica e os negócios entrarão em colapso. Os líderes políticos não conseguirão ser reeleitos. Não há escolha: devemos continuar nesse caminho. Se o planeta acabará em ruínas ou se as nações exploradas e pobres passarão fome, isso já é algo inevitável. Essa é a mentalidade prevalecente.

A palavra “desenvolvimento” tornou-se o mantra de nossa era e por trás da falsa esperança que ela oferece está a realidade de uma catástrofe futura, que certamente não querem enxergar.

Uma era de insanidade?

Em alguns países em desenvolvimento, onde chega a faltar água potável, mais de trinta mil crianças morrem a cada dia. Isso representa uma criança a cada dois segundos. Ao contrário, nos países desenvolvidos, embora as necessidades básicas para a sobrevivência serem mais do que suficientemente supridas, ainda é preciso manter a produção e a venda de novos produtos para sustentar o crescimento econômico — nesse processo, desperdiça-se uma enorme quantidade de recursos naturais. Isso não é loucura?

O custo de três aviões de caça modernos daria para vacinar todas as crianças do mundo e protegê-las das doenças. E mesmo assim os aviões têm prioridade. Temos dinheiro para matar pessoas mas não temos para mantê-las vivas. Não é um absurdo?

Quando as futuras gerações olharem em retrospecto nossa época, certamente acharão que esta foi uma era de insanidade. Apesar disso, nós nos orgulhamos de possuir as sociedades mais desenvolvidas da história humana. Não soa estranho?

O ponto de partida de uma vida de lutas

Foi o grande historiador britânico Arnold Toynbee quem de fato recomendou que conversasse com o Dr. Peccei. O Dr. Peccei, por sua vez, já conhecia meu diálogo com o Dr. Toynbee. Ele trouxe consigo um exemplar de minha obra Revolução Humana em nosso encontro e mencionou que sabia que a Soka Gakkai havia lutado contra o fascismo. Ele também estava ciente da morte de nosso primeiro presidente Tsunessaburo Makiguti na prisão e dos esforços de nosso segundo presidente, Jossei Toda.

“O senhor também, Dr. Peccei,” disse eu, “é um guerreiro que suportou as provações da prisão”.

Senti, observando a sua postura, a convicção férrea que residia em seu peito. Queria perguntar-lhe sobre a fonte de sua força espiritual, o que havia em seu coração que o fez levantar-se e lutar quando os demais não puderam fazê-lo.

Quando o Dr. Peccei juntou-se à resistência anti-fascista na Itália, ele já era um bem-sucedido homem de negócios com experiência internacional na França, China e na Rússia. Ele havia retornado do exterior e juntou-se ao movimento de resistência.

O Dr. Peccei foi preso em fevereiro de 1944. Nessa época, estava com 35 anos. O poder de Mussolini já estava enfraquecendo e a aliada da Itália, a Alemanha nazista, praticamente controlava o país. O Dr. Peccei lembra que, em sua escura cela, veio a saber pela primeira vez que tipo de pessoa realmente era. Assaltado por uma interminável ansiedade, o Dr. Peccei concentrava-se no futuro, pensando em uma única coisa: não devemos permitir, sob nenhuma circunstância, que essa tragédia se repita novamente.

Suportando a tortura

Quando o Dr. Peccei foi preso, possuía consigo códigos e documentos confidenciais que detalhavam os planos militares da Resistência italiana. Isso o colocava numa situação difícil. Seus captores decidiram que se o fizessem falar, saberiam tudo o que os adversários planejavam, e então o torturaram impiedosamente. Eles empregaram uma violência terrível, disse o Dr. Peccei, e seu ódio e fanatismo apenas tornavam tudo mais cruel.

A tortura continuou, mas o Dr. Peccei recusou-se a falar. Certa manhã, uma mulher da vila foi até o presídio procurar por seu filho que havia desaparecido. Ela viu alguém sendo conduzido ao pátio da prisão e achou que conhecia aquela pessoa. “Aquele não é o Sr. Peccei?” Ela não conseguiu distinguir seu rosto, de tão machucado que estava, mas foi capaz de reconhecer o sobretudo que ele usava. “Tenho que contar isso já para seus companheiros,” pensou.

Quando souberam do paradeiro do Dr. Peccei e de como ele estava sendo tratado, fizeram uma exigência aos fascistas: se as torturas ao Dr. Peccei cessassem, sentenciariam à morte todos os comandantes da milícia fascista. Os fascistas parariam com as torturas com a condição de que seus comandantes permanecessem ilesos, do contrário matariam imediatamente o Dr. Peccei. O perigoso equilíbrio de forças prosseguia.

Um amigo que havia defendido o Dr. Peccei na prisão também foi torturado repetidamente. A intenção era que ele dissesse algo que pudesse ser usado contra o Dr. Peccei, mas ele o protegeu até o fim.

O Dr. Peccei relembrou que no cárcere uma pessoa somente podia apoiar-se na sua crença e em sua própria humanidade. Ele disse que aprendeu, por meio da observação, que as pessoas acostumadas a dar ordens caem facilmente em seguida e que as pessoas reservadas e trabalhadoras são as que demonstram ser as mais fortes nas circunstâncias extremas. Disse também que odiava os traidores acima de tudo.

O Dr. Peccei permaneceu na prisão por onze meses. Gradativamente, o curso da guerra voltou-se contra o fascismo. O perigo da vingança rondava o Dr. Peccei, e ele chegou a ser salvo por um fio. Uma facção fascista, temendo a retaliação após sua derrota, libertou o Dr. Peccei numa fria manhã de janeiro de 1945.

Aprendendo com as adversidades

O Dr. Peccei confessou que sofreu terrivelmente, mas também reconheceu que as provações que suportou fortaleceram suas convicções. Ele também conseguiu saber quem eram seus amigos, ou seja, as pessoas em quem poderia confiar. Ironicamente, disse ele que aprendeu muito de seus captores fascistas. O Dr. Peccei sorriu, encolheu os ombros e acrescentou que, por essa razão, estava agora preparado para perdoá-los.

Fiquei profundamente emocionado pelo triunfo humano do Dr. Peccei, que se considerava afortunado por ter conseguido suportar onze meses no cativeiro.

Na prisão, ele chegou ao abismo mais escuro da perversidade humana e, ao mesmo tempo, às alturas mais elevadas da nobreza humana. Percebeu que há uma extraordinária força dentro de nós que busca o bem. Essa força pode estar dormente, mas está lá. Esse foi seu grande despertar.

Uma nova partida aos sessenta anos

Após a guerra, O Dr. Peccei devotou seus esforços ao revivescimento econômico de sua terra natal e foi muito bem-sucedido como homem de negócios. Mas conforme viajava pelo mundo — cruzou a linha do Equador mais de trezentas vezes —, uma nuvem escura de dúvidas se avolumava em seu coração. Estava ele realmente certo trabalhando tão arduamente pelo crescimento e desenvolvimento econômico em seu próprio benefício? Se todos os seus esforços só conduziam à destruição do mundo, não eram em essência sem sentido?

A população do planeta aumentava cem milhões de pessoas por ano. Em meados do século XXI alcançaria dez bilhões. A produção agrícola jamais daria conta disso. Se o desmatamento continuasse nesse ritmo, todas as florestas da Terra desapareceriam em cem anos. O aquecimento global também estava progredindo a uma proporção alarmante.

Os nazistas foram culpados de genocídio, mas agora toda a humanidade era culpada de “ecocídio”, a destruição do ambiente natural. O Dr. Peccei havia jurado na prisão que jamais permitiria que atos bárbaros como esse ocorressem novamente. Em 1968, ele convidou importantes intelectuais para uma conferência em Roma. O mundo estava cheio de especialistas, pensava ele, mas o que faltava eram pessoas com senso de responsabilidade e que tivessem uma visão plena da realidade — do futuro da humanidade. Eram necessárias pessoas que sentissem essa responsabilidade e estivessem preparadas para agir.

Assim teve início o fórum interdisciplinar que é o Clube de Roma, e também os “anos dourados” da vida do Dr. Peccei, uma nova partida aos sessenta anos.

Recordações de uma amizade

Nossos diálogos, que começaram no encontro ao ar livre em Paris, continuaram por quase dez anos, até a morte do Dr. Peccei. Encontrei-me com ele pessoalmente cinco vezes.

Durante nosso segundo encontro, em Tóquio, ele visitou-me no prédio do Seikyo Shimbun, apesar de sua atarefada agenda, chegando ao Japão num dia e partindo no dia seguinte.

Quando nos encontramos em Florença, ele guiou seu pequeno carro durante quatro horas, vindo de Roma. Fiquei profundamente comovido ao saber que ele havia chegado de Londres no dia anterior! O Dr. Peccei também se dedicou de corpo e alma para publicar nosso diálogo, Antes que Seja Tarde Demais, que foi um dos assuntos daquele encontro.

Uma vez mais, encontrei-me com ele em nosso Centro Internacional da Amizade em Shibuya, Tóquio, quando caminhamos juntos pelo jardim. Estávamos tão entretidos em nossa conversa que quase caímos no viveiro de peixes! O Dr. Peccei murmurou, como se falasse para si, que, embora o jardim fosse belo, nada no mundo era mais belo que a amizade. Ele parecia dizer isso mais para confirmar seus próprios sentimentos.

Nosso último encontro foi novamente em Paris, em junho de 1983, apenas nove meses antes de falecer. Naquele dia, ele havia acabado de chegar a Paris após participar de uma conferência nos Estados Unidos. Do aeroporto ele foi direto para o hotel em que eu estava hospedado para encontrar-se comigo. Infelizmente, sua bagagem havia sido roubada. Embora ciente disso, adiou os procedimentos de reclamação pelo roubo e veio diretamente ver-me, não querendo se atrasar para o encontro. Aparecendo no hotel sem gravata, com as roupas que usara durante a viagem de avião, ele parecia brilhar com uma energia quase divina.

Durante aquele encontro, disse-me que estava determinado a fazer com que nossa amizade se aprofundasse ainda mais, não importando que tipos de ataques a mídia lançasse sobre nós. Essas foram suas últimas palavras para mim.

Adotando uma visão de longo prazo

O Dr. Peccei abominava a curta visão dos jornalistas; essa perspectiva era extremamente oposta à sua. O co-fundador do Clube de Roma sempre enfatizou que, se não fosse adotada uma visão de longo prazo, todos os argumentos e esforços seriam inúteis. Quando está claro que um navio está em curso de colisão, a medida óbvia não seria mudar imediatamente a direção? O que se pode ganhar observando apenas as ondas que golpeiam a proa?

Os meios de comunicação ridicularizaram e consideraram com sarcasmo as atividades do Clube de Roma e difamaram o Dr. Peccei como um “profeta do apocalipse”. Também houve alguns acadêmicos que zombaram do Clube de Roma e foram contra suas advertências com todos os tipos de argumentos irresponsáveis. Por exemplo, um certo acadêmico japonês disse que a preocupação do Clube de Roma com o crescimento industrial e a explosão demográfica era como o temor das pessoas século XVIII, que diziam que o aumento das carruagens sepultaria o mundo em esterco de cavalo. Esse acadêmico disse que o Clube de Roma não havia se dado conta dos avanços da tecnologia.

Os comunistas chamaram o Clube de Roma de “capitalista”, e os capitalistas o denunciaram como um fórum “comunista”. Os países em desenvolvimento disseram que as idéias do Clube de Roma eram uma conspiração para impedir seu desenvolvimento, argumentando que os ricos eram incapazes de compreender os sentimentos dos pobres.

Mas aos poucos, o Clube de Roma foi ganhando apoio e hoje, o fato de a Terra ter uma capacidade limitada para sustentar a vida humana é reconhecido por todos. Finalmente a humanidade está despertando de sua obsessão pela riqueza material a todo custo. Em 1992, as Nações Unidas realizaram a Conferência sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento e, desde então, muitas organizações internacionais, governos e grupos privados começaram a tratar das inúmeras questões globais com que deparamos hoje.

O primeiro passo solitário do Dr. Peccei tornou-se um passo gigantesco para a humanidade.

Uma vida de contínuo trabalho e compromisso

Em 14 de março de 1984, esse grande pioneiro faleceu aos 75 anos. Sua vida foi de contínuo trabalho e compromisso. Doze horas antes de falecer, ele ditava de seu leito. O Dr. Peccei era um homem determinado. Seu último manuscrito, inacabado, foi intitulado Agenda para o Final do Século, publicado postumamente. O Dr. Peccei não chegou a vê-lo impresso.

Em uma passagem do manuscrito, lê-se: “O progresso, como visto hoje, certamente não pode ser detido. Portanto, o único recurso da humanidade é melhorar a qualidade e a capacidade de seus membros em todo o mundo de forma que, aprendendo a domar os tigres tecnológicos que libertaram, os homens, e não as máquinas, sejam os protagonistas do amanhã.”1

A princípio, o Dr. Peccei chamou essa melhoria da qualidade e da capacidade da humanidade de “revolução humanística”, mas posteriormente alterou para “revolução humana”. Em um manuscrito redigido um mês antes de seu falecimento, afirmou: “O que precisamos é de uma nova filosofia de vida.”2

Herdando o espírito de um grande indivíduo

Algum tempo após o falecimento do Dr. Peccei, conheci seus filhos, Roberto Peccei (físico) e Riccardo Peccei (sociólogo). Encontrei-me com Riccardo na Inglaterra. Compartilhávamos das memórias de seu pai, quando ele me disse: “Quando uma pessoa grandiosa falece, tendemos a esquecer seus ideais e seu espírito e deixamos que nosso próprio eu se reafirme. Essa é uma mostra da fraqueza e da fealdade humana. Acredito que o mais importante para nós é conduzir os ideais e objetivos do Dr. Peccei sem vacilar.”

Hoje, conduzindo os ideais do Dr. Peccei, o Clube de Roma continua suas influentes atividades sob a liderança de seu presidente, Ricardo Díez-Hochleitner.

Riccardo Peccei contou-me que seu pai, nos últimos anos, freqüentemente dizia que a mudança do mundo dependia dos jovens e que eles fariam isso por meio da própria revolução humana. Em vida, o Dr. Peccei elogiou a Divisão dos Jovens da Soka Gakkai, dizendo que ela estava abrindo um caminho em seus esforços para propagar a amizade em todo o mundo.

O Dr. Peccei foi um homem de extraordinário caráter, como um pai afetuoso. Ele visualizava o distante futuro como um verdadeiro filósofo e também possuía capacidade de julgamento e de decisão de um homem de negócios. A grandeza do Dr. Peccei e todas as suas demais qualidades derivavam de seu imenso amor pela humanidade.

Sempre que penso no Dr. Peccei, lembro-me do céu azul de Paris e da voz desse inabalável guerreiro que lutou tão ardentemente para criar um futuro tão brilhante e claro quanto aquele firmamento.

Ainda posso ouvi-lo dizer que, embora haja um limite para o crescimento econômico, não há limites para o aprendizado humano. Nossos recursos externos são limitados, dizia ele, mas nossa riqueza interior é ilimitada. Porém, ela não está manifesta, e a revolução humana é o que nos possibilitará manifestá-la. Devemos usar todos os meios disponíveis para impulsionar essa revolução humana, dizia ele.

“Estamos de acordo. Vamos fazê-lo!”, declarou estendendo a mão e assim nos congratulamos. “Vamos fazê-lo!”, disse ele, “em prol do século XXI, em prol de nossos filhos e netos, antes que seja tarde demais”.

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