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há 3 anos
Reconfigure seu mapa de memórias rumo à plenitude da vida
01/11/2022

Somos o resultado de boa parte das nossas lembranças, seja no âmbito individual, seja no coletivo. Nossa identidade se influencia pelas recordações que nutrimos desde pequenos, dando sentido e direção aos atos cotidianos: “Elas nos ajudam a compreender o mundo e moldam nossa visão. São aquilo que nós lembramos e aquilo que queremos esquecer”, explica Ângela Wyse, neurologista e poetisa, sobre a rede única e tão importante para cada pessoa, um de seus objetos de estudo como professora do Departamento de Bioquímica da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).1
Porém, do ponto de vista científico, ao contrário do que poderíamos imaginar a princípio, as memórias não são fixas. Elas estão em constante mutação, e são influenciadas pelo que vivemos a cada dia.2 Ou seja, é um caminho de dupla intervenção (as memórias na vida, e a vida nas memórias).
Diante disso, podemos nos questionar: “Como lidar com algo que faz parte de nós e, ao mesmo tempo, não é confiável como poderíamos imaginar?”. Felizmente, existe um caminho que nos permite “reconfigurar nosso ‘mapa de memórias’”, ressignificando-as, e usar todas elas de forma positiva, independentemente de sua origem e natureza.
Ao longo destas páginas, vamos compreender os caminhos para isso, não só visando conduzir uma vida plena, mas também inspirar pessoas que estejam buscando esse processo.
O mapa não é fixo
Estudos indicam que o desenvolvimento do cérebro de uma pessoa começa na gestação, segue na infância e na adolescência, e tem sua maturação biológica na fase adulta, por volta dos 25 anos.3 É nessa “caixa”, em uma rede de neurônios extremamente complexa, que as recordações se fixam, às quais às vezes são descartadas e outras vezes passam por uma metamorfose.
Sabe aquela sensação que muitas vezes experimentamos, da certeza de já termos visitado certo lugar até nos darmos conta de que jamais pusemos os pés lá? Dizem os especialistas que o cérebro é capaz de gravar uma situação, sem que ela tenha ocorrido de fato, e armazená-la junto com as memórias verdadeiras — tal situação pode ter sido contada por outra pessoa ou simplesmente imaginada. Alerta: nem tudo o que lembramos é verdade. Entretanto, antes de entendermos como lidar com isso, vamos nos aprofundar um pouco no processo de formação das memórias.4
No livro Desvendando os Mistérios da Vida e da Morte, encontramos uma concepção do neurocirurgião canadense Wilder Penfield, que realizou experimentos abrangentes durante as décadas de 1930 e 1940, contribuindo grandemente para compreendermos como a informação que o cérebro recebe através dos órgãos dos sentidos é processada. O mais interessante sobre as suas experiências é a conclusão de que, na medida em que o cérebro é o computador do corpo, a mente é sua programadora.5 Ou seja, não apenas recebemos informações, mas as reordenamos e damos significados a elas. Portanto, um mesmo fato pode ser visto, sentido e vivido de formas distintas por indivíduos diferentes.
Os pensamentos, componentes essenciais desse processo, trabalham os estímulos recebidos de acordo com memórias relacionadas, criam a teia da vida e moldam nossa identidade humana. Muito antes de a ciência decifrar essa dinâmica, a filosofia milenar do budismo se debruçou sobre esse processo e propôs caminhos não só para o seu entendimento, como também para lidarmos de forma elevada com ele.
No escrito A Iluminação das Mulheres, o buda Nichiren Daishonin elucida: “Os textos dos sutras6 nos dizem que uma única pessoa, no decorrer de um único dia, tem oito milhões e quatro mil pensamentos. E todos esses vários pensamentos produzem um carma que levará ao renascimento nos três maus caminhos”.7
Positivos ou negativos, os milhões de pensamentos vão moldando, momento a momento, a forma com a qual vivemos e nos relacionamos com o mundo — e assim construímos o que o budismo chama de carma, o qual nada mais é que o resultado de pensamentos, palavras e ações a cada instante em nosso cotidiano.
Nesse trecho, Nichiren Daishonin também expõe quão comum para o ser humano é agir de forma negativa, criar efeitos negativos e sofrer com eles. Daishonin também questiona: “[Então,] que prática deve ser realizada para se libertar dos sofrimentos de nascimento e morte? Simplesmente a prática da Lei maravilhosa do veículo único”8, ou seja, a recitação do Nam-myoho-renge-kyo.
O Budismo Nichiren, a filosofia da esperança, esclarece os pontos da essência da transformação do carma. Vamos entender melhor essa dinâmica a partir de um exemplo real, uma vida que transformou desesperança em fonte renovada de humanismo para a sociedade.
Viver por um ideal
Nascido de família humilde, ele foi abandonado pelos pais antes que completasse os 3 anos. A mãe o reencontrou e tentou suicídio, jogando-se ao mar com ele. Felizmente, os dois foram salvos a tempo e o menino passou a ser criado por um tio, Zendayu Makiguchi, de quem adotou o nome. Aos 30 anos, já casado e trabalhando como professor, sofreu oposição ao seu método de ensino. Assistiu à morte de quatro filhos. Se tivesse uma índole fraca, muito provavelmente o dono dessa biografia teria sucumbido em meio aos sofrimentos e se entregado às memórias negativas, constantemente estimuladas pelos acontecimentos de sua vida.
Porém, estamos falando de Tsunesaburo Makiguchi,9 pai da pedagogia Soka, que, ao descobrir as raízes do budismo, encontrou o alento que se somou à sua forte crença no poder da educação como forma de ver crianças felizes — desenhando um futuro bem diferente do que tivera na infância. Com esse sentimento, o ideal da “teoria da criação de valor” se sedimentou, cada vez mais solidamente, apoiado pelo discípulo Josei Toda, que o acompanharia em seu intento. Ambos viveram por esse grandioso objetivo, seguindo juntos também para a prisão, que ceifou de Makiguchi o direito de ver sua obra se materializar.
Com isso, depois de tanta luta, os ideais de Makiguchi poderiam ter ficado apenas como simples recordações em páginas de livros. No entanto, o sonho de ver edificado o sistema pedagógico baseado na criação de valor foi herdado por seu sucessor, Josei Toda, que, após sair da prisão, reconstruiu a Soka Gakkai, tornando-se seu segundo presidente. No encontro dele com um jovem discípulo, o legado foi novamente transmitido. E foi pelas mãos de Daisaku Ikeda, hoje presidente da Soka Gakkai Internacional (SGI), que a materialização do objetivo dos mestres Tsunesaburo Makiguchi e Josei Toda ganharam vida.
Essa herança por si só é grandiosa. Mas, além dela, podemos encontrar outro ponto em comum entre Makiguchi, o idealizador, e Ikeda, que concretizou tal feito. Num episódio destacado por Ikeda sensei, encontramos recordações de sua infância, adornadas de novo significado ao serem coloridas com as expectativas e os sonhos dos mestres predecessores:
Amo cerejeiras. Durante os dias obscuros da Segunda Guerra Mundial, quando eu ainda era garotinho, muitas cerejeiras eram cortadas para se tornar combustível ou terminavam em chamas nos bombardeios aéreos. Vendo isso, sonhei em plantar cerejeiras em todas as estações de trem do Japão para que suas flores abrilhantassem o coração das pessoas.
Quando fiquei mais velho, plantei cerejeiras em vários lugares. Recordo-me especialmente de plantá-las junto com cem membros, incluindo integrantes da DE-Futuro, em maio de 1967, no local em que tinha planejado para o campus da Universidade Soka do Japão. Nenhum prédio havia sido construído, porém, juntos plantamos mais de 16 mil árvores e arbustos diferentes, incluindo cerejeiras, pessegueiros e azaleias.10
Desde 1967, ano da fundação da rede de escolas Soka, tal qual o sonho de Makiguchi, o sistema de ensino humanístico vem abraçando crianças e jovens no Japão e no mundo, estimulados a evidenciar seu ilimitado potencial, sob a égide de “ser feliz enquanto estuda”.
Até hoje, os visitantes que se dirigem à Universidade Soka do Japão, por ocasião do início das aulas, em abril, desfrutam a bela paisagem das cerejeiras em flor, símbolo revigorante de memórias consolidadas em ação pelo futuro.
Ao imaginarmos a cena das pétalas de cerejeira caindo nas ruas do campus, podemos questionar o que esses exemplos nos ensinam em termos de lidar de forma sublime com nossas memórias.
Ressignificar memórias
No exemplo dos Mestres Soka, é possível extrair uma inspiração elevada para avaliar “Como estão a minha mente e a minha vida neste momento?”. Porém, apenas a contemplação não é suficiente. Para que não nos tornemos reféns dos pensamentos negativos e das ilusões, o Budismo Nichiren revela que “a verdadeira iluminação — substituir ilusões que distorcem a realidade pela sabedoria para perceber a verdadeira realidade — é a maneira de nos emanciparmos do sofrimento”.11 Conseguimos avançar nesse entendimento por meio do conceito da purificação da mente:
No capítulo 19, “Os Benefícios do Mestre da Lei”, do Sutra do Lótus, consta que um dos benefícios por defender o Sutra do Lótus é a purificação dos seis órgãos sensoriais — dos olhos, ouvidos, nariz, língua, corpo e mente. O benefício da purificação da mente significa que nossos pensamentos e palavras não divergirão da realidade; isto é, concordarão com o budismo. Pode-se dizer que esse benefício também deriva de um modo de vida embasado no princípio de que “budismo é vitória ou derrota”.12
De forma prática, esse modo de vida é conquistado por dois processos correlatos: o da recitação do Nam-myoho-renge-kyo, revelado por Nichiren Daishonin no século 13, que carrega nossa vida de energia revitalizadora, capaz de compreender tudo em sua essência e não mais por vieses de pensamentos ou memórias duvidosas; e o da decisão de vencer diante das circunstâncias que se apresentarem. Vamos explorá-los.
Quando praticada diariamente, a recitação do daimoku estimula o processo de reconhecer o potencial de iluminação inato na própria vida e na vida de todas as pessoas. Ao enxergarmos a existência em sua totalidade, incluindo melhor compreensão das nossas relações, do nosso passado e das nossas memórias, com renovada energia e disposição, conseguimos selar a decisão profunda de superar os obstáculos que antes nos faziam sofrer. Assim, naturalmente, nós nos tornamos exemplos de superação, inspirando e ensinando aos outros o caminho para que eles também alcancem essa elevada condição — processo chamado “revolução humana”.
Esse processo é justamente o de iluminar a melancolia do passado, as incertezas do futuro e o caos do presente, tendo como ponto central a decisão do agora. Esse é um exercício que reconfigura o mapa da vida, até então permeado de crenças muitas vezes irreais e de inseguranças.
A partir desse momento, construímos memórias renovadas de força e de sabedoria. Pois, mesmo que o passado seja incerto ou até negativo, o futuro não precisa ser assim. O budismo nos mostra os caminhos práticos para tomarmos nas mãos as rédeas da nossa vida, abraçando o nobre propósito da felicidade de si e do outro, sem nos distanciar de nossas deci- sões, ideais e objetivos.
Nossa mente é facilmente abalada pelas influências externas e é capaz de mudar a uma velocidade espantosa. Não há nada menos confiável que a mente. Por isso, é tão importante cumprir um objetivo. Os que são fiéis a um compromisso e se esforçam para cumpri-lo são autênticos, fortes e têm a capacidade de desfrutar uma existência de profunda satisfação e plenitude.13
É também pelo ensinamento budista que aprendemos a encontrar o tempo certo para fazer cada decisão florescer. O pensamento e a ação no “agora” (niji, em japonês) são o ponto de partida. O “agora” une o passado e o futuro eternos, é o momento de transformação de causas e efeitos — portanto, não há momento mais precioso. Com essa consciência, a mente direciona a vida para o sentido que determinamos, como diz o Mestre:
Nossa atitude muda tudo. Esse é um dos grandes prodígios da vida e, ao mesmo tempo, uma realidade incontestável.
Há um provérbio que diz: “Não te queixes porque a roseira tem espinhos; alegra-te porque o espinheiro tem rosas”. Nossa percepção se altera dependendo de nossa perspectiva, tornando-se luminosa, bela e expansiva.
A mente concentrada da fé no Gohonzon possui poder e funções que são realmente imensos e extraordinários. Quando o motor fundamental de nossa “mente” — nossa postura interior; ou determinação — começa a funcionar, e as engrenagens de todos os fenômenos dos três mil mundos são colocadas em movimento, tudo começa a mudar. Movemos tudo para uma direção radiante e positiva.
Quando envoltos pela grandiosa condição de vida do estado de buda, nós próprios, bem como as pessoas que nos cercam e o lugar onde vivemos, irradiamos a luz da felicidade e da esperança. Esse é o poder do Nam-myoho-renge-kyo dos “três mil mundos num único momento da vida” na prática. Assim opera o princípio budista da transformação dinâmica.14
Com isso, nós nos tornamos capazes de não só dar novas cores e significados às memórias que temos, reconfigurando esse “mapa” positivamente e usando-o como base de nossa determinação, mas também de transformar o ambiente em que estamos inseridos a partir da nossa mudança interior. Dessa maneira, mostramos que é possível atingir a plenitude da nossa vida ao trilharmos essa jornada dinâmica ao lado do Mestre e junto com os companheiros da organização, abrindo novos caminhos de esperança para a sociedade.
Decidir e agir
A ciência evidencia cada vez mais a sabedoria milenar do budismo, que trata da importância da formação das memórias, direcionadoras do nosso modo de ver e agir diante da vida.
A principal certeza para nós, membros da Soka Gakkai, é que, com a prática da recitação do Nam-myoho-renge-kyo, somos capazes de iluminar os cantos escuros da mente, transformando pensamentos negativos e ressignificando memórias em prol de um futuro melhor para todos. Esse é o benefício da “purificação da mente” elucidado nos ensinamentos do Buda. E é o exemplo da jornada de vida dos Mestres Soka, que nos mostram caminhos ultrapassados por eles e que servem de guias para transformarmos não só a nós próprios, mas também o ambiente em que estamos inseridos.
Se somos o resultado das nossas memórias, de início um tanto caóticas, vamos analisá-las, principalmente as que nos trazem sofrimento ou que nos apequenam. Então, vamos buscar ressignificá-las por meio da recitação do Nam-myoho-renge-kyo e decidir ver nossa vida de outro ângulo, enxergando a nós mesmos de maneira ainda mais elevada, convictos de que somos dignos do mais alto respeito, da felicidade e das vitórias.
Conforme diz Ikeda sensei, “A determinação mental da pessoa define a sua vida”.15 Num efeito de pedra lançada ao oceano, vamos decidir e agir juntos a fim de irradiar a filosofia da esperança para a sociedade, e ensinar o processo de “reconfiguração de rota mental” a todos os que se dispuserem a nos acompanhar nessa trajetória.
No topo: Representantes do Brasil dançam, felizes, durante atividade da Soka Gakkai (Japão, jan. 2020). Foto: Seikyo Press.
Notas:
1. Disponível em: https://www.uol.com.br/vivabem/reportagens-especiais/como-funciona-a-memoria-como-melhorar-a-memoria-e-como-criamos-lembrancas/#cover. Acesso em: 27 set. 2022.
2. Ibidem.
3. Disponível em: https://g1.globo.com/podcast/escuta-que- -o-filho-e-teu/noticia/2022/06/02/o-cerebro-so-esta-comple- tamente-formado-por-volta-dos-25-anos-explica-pedagoga- -maya-eigenmann.ghtml. Acesso em: 27 set. 2022.
4. Disponível em: https://super.abril.com.br/ciencia/como-nascem-as-memorias-falsas/. Acesso em: 27 set. 2022.
5. IKEDA, Daisaku. Desvendando os Mistérios da Vida e da Morte. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, 2018. p. 150.
6. Fonte desconhecida, mas uma afirmação semelhante consta em Coletânea de Ensaios sobre o Mundo da Paz e do Deleite.
7. Coletânea dos Escritos de Nichiren Daishonin. São Paulo: Brasil Seikyo, v. II, p. 725, 2019.
8. Ibidem.
9. Brasil Seikyo, ed. 2.325, 28 maio. 2016, p. A3.
10. RDez, ed. 218, fev. 2020, p. 12-14.
11. IKEDA Daisaku. Desvendando os Mistérios da Vida e da Morte. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, 2019. p. 163.
12. Brasil Seikyo, ed. 1.989, 30 maio 2009, p. A8.
13. Idem, ed. 1.904, 18 ago. 2007, p. A2.
14. IKEDA, Daisaku. Sabedoria para Criar a Felicidade e a Paz. Parte 1: “A Felicidade”, 2022. p. 159.
15. IKEDA, Daisaku. Nova Revolução Humana. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, v. 30-II, p. 289, 2022.
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