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Especial
há 4 anos
A Alvorada da Esperança da Civilização Universal (parte final)
Esperança que Constrói — parte 10
Histórico das palestras em universidades e instituições acadêmicasDiscurso proferido na Academia Brasileira de Letras, em 12 de fevereiro de 1993
Dr. Daisaku Ikeda
03/04/2023

Esperança pelo futuro
Em junho do ano passado [1992], a Soka Gakkai Internacional, com o precioso apoio de Vossas Senhorias, realizou a Exposição sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento, como evento oficial da Conferência Mundial das Nações Unidas, a Rio-92. Naquela ocasião, o Dr. Athayde, falando no simpósio promovido nesta academia, fez uma afirmação que gostaria de relembrar: “O povo brasileiro é um dos maiores da humanidade, é uma força de esperança, é com ele que devemos contar para transpor as dificuldades do século 21”.
Não é por acaso que a literatura do Brasil e a da América Latina vieram manifestando com notável vigor a consciência da crise de ordem cósmica, irradiando, nas últimas décadas, intensa vitalidade para o surgimento de um cosmo harmonioso. Enquanto isso, dois grandes poetas europeus, o inglês T. S. Eliot e o francês Paul Valery, já se inquietavam com o processo de enfraquecimento da energia criadora da arte dos países desenvolvidos, representando-o em termos como “terra devastada” e “fonte ressequida”, respectivamente.
Nesse sentido, é muito interessante o fato de Michel de Montaigne e Stefan Zweig — dois representantes dos cosmopolitas que viveram de forma intensa períodos tão diferentes da Europa moderna, sempre buscando igualmente o valor da espiritualidade universal — demonstrarem um sentimento caloroso em relação à terra brasileira.
Naturalmente, é necessário levar em conta que existe uma separação de tempo entre os brasis com os quais os dois tiveram contato. Para Montaigne, foram os costumes da sociedade indígena, numa época em que nem sequer existia o nome Brasil, com os quais ele se inteirou por meio dos relatos de um servo que viveu cerca de dez anos entre os nativos. Zweig, por sua vez, perseguido pelo nazismo, escolheu como local de exílio o Brasil dos meados do século 20, de notável avanço em termos de democracia étnica.
São experiências bem diferentes. Entretanto, as duas se irmanam. Zweig, à beira da morte, entretido com a leitura das obras de Montaigne, justamente em terras brasileiras. Existem impressionantes e fortuitas coincidências entre ambos, possuidores de raras características de cosmopolitas.
Ensaios, de Montaigne, é um dos livros de minha preferência desde a juventude. Tenho o prazer em destacar dessa obra, tesouro do pensamento humano, o trecho que se refere aos costumes do Brasil:
Não vejo nada de bárbaro ou selvagem no que dizem daqueles povos; e, na verdade, cada qual considera bárbaro o que não se pratica em sua terra. E é natural, porque só podemos julgar da verdade e da razão de ser das coisas pelo exemplo e pela ideia dos usos e costumes do país em que vivemos.1
Essa meditação de Montaigne, que se inicia observadora, é admiravelmente ousada e corajosa se levarmos em conta o pensamento preconceituoso da época a respeito dos costumes da sociedade indígena. Sua visão cristalina e seu senso de equilíbrio permitiram que ele alcançasse, com quatrocentos anos de antecedência, a concepção relativista da cultura, por meio da “descoberta do bárbaro”, que é uma das relevantes conquistas da antropologia cultural do século 20. Como o próprio Montaigne aprendeu com a vida, a visão multidirecional que descobre as coisas, colocando-se sempre no lugar de outras pessoas — não a forma egocêntrica de pensamento de “caixa fechada” —, é a condição indispensável a um cosmopolita. Já a visão unidirecional ou singular jamais conduzirá à concepção universal.
Zweig, obrigado a abandonar sua terra natal, lamentou: “De nada me valeu haver durante quase meio século educado meu coração a pulsar cosmopolitanamente, como o de um citoyen du monde”.2 E foi justamente o solo brasileiro que o acolheu, consolando-o da frustração e envolvendo calorosamente sua alma que se encontrava no abismo do desespero e da tristeza. Penso que sejam escassos os registros que testemunhem tão bem a generosidade brasileira, como o que se lê no seu testamento, incluído posteriormente em seu livro de memórias, O Mundo que Eu Vi:
Meu amor por este país foi aumentando dia após dia, e não teria preferido qualquer outro lugar do mundo para reconstituir a nova existência. O mundo para falar a própria língua havia desaparecido para mim e minha terra natal espiritual, Europa, destruiu-se a si própria.3
As duas grandes guerras mundiais, especialmente a brutalidade do nazismo [o qual se desenvolveu nessa época], não passaram de uma atitude suicida da civilização moderna. Aqueles que menosprezaram o bárbaro do alto de sua civilização acabaram por revelar sob a luz do sol que, na verdade, eles próprios possuíam uma natureza ainda mais bárbara. Imagino que Zweig estava plenamente de acordo com a afirmação de Montaigne a respeito dos indígenas: “Podemos, portanto, qualificar esses povos como bárbaros dando apenas ouvidos à inteligência, mas nunca se os compararmos a nós mesmos, que os excedemos em toda sorte de barbaridades”.4
Universal dentro do individual
Devo revelar que aprendi muito a respeito do Brasil através da obra A Moderna Cultura da América Latina, da inglesa Jean Franco, pesquisadora pioneira sobre esse continente [América do Sul]. Ela considera a cultura brasileira do século 20 como resultado da “tensão entre os movimentos em busca da tradicionalidade e da modernidade” e, por outro lado, da “tensão entre as pessoas que tentam enfatizar as características regionais ou locais e aquelas que tentam colocar o Brasil na vanguarda da cultura mundial”.5
É uma observação simples, mas precisa. Acredito que os resultados frutíferos do “grande universalismo” somente serão obtidos dentro dessa relação de tensão. A “universalidade”, quando separada da “individualidade”, possui o perigo inerente de começar a caminhar sozinha, como a “ideia” descrita por Conrad. Eis uma valiosa lição que o século 20 aprendeu a um custo bastante elevado, depois que a “ideia” de etnia e classes sociais espalhou terror pelo mundo.
É preciso compreender bem que a verdadeira “universalidade” só pode ser encontrada numa íntima relação com a “individualidade”, e dentro dessa incessante relação de tensão, é a ação criativa da imaginação — aspecto essencial da arte — que permite atribuir um contexto universal aos fatores individuais.
Essa noção de universalidade é a própria essência do ensinamento budista Mahayana, que significa literalmente grande veículo. Nichiren Daishonin, cujos ensinamentos guiam os membros da Soka Gakkai Internacional, define o espírito Mahayana da seguinte forma: “Os 84 mil sutras correspondem ao diário de minha vida” (as pregações de Shakyamuni, grande Buda histórico que viveu na Índia, são, na verdade, experiências vividas por ele) e “Um princípio é revelado a partir da vida de uma pessoa e o mesmo princípio se aplica a todas as outras”6 (nesse ensinamento budista, uma regra é transmitida utilizando como base as experiências de uma pessoa, esclarecendo que essa norma é igualmente válida para qualquer um).
Em outras palavras, as teorias e os conceitos universais em si, verdades abstratas, não possuem um significado concreto. Só passam a ter valor quando são vividas por um ser humano real.
Para conhecer a beleza mais autêntica de um povo, o melhor caminho ainda é a obra de seus grandes escritores. Infelizmente, são poucas as traduções de obras literárias brasileiras para o idioma japonês. Entre elas, convém distinguir Grande Sertão: Veredas, admirável romance de Guimarães Rosa, universo mágico onde convivem o primitivo e o moderno, o individual e o universal.
Confesso que fiquei impressionado quando me deparei com a afirmação do jovem jagunço Riobaldo, numa trégua de suas lutas no sertão do Brasil: “Eu queria formar uma cidade da religião. Lá nos confins do Chapadão, nas pontas do Urucuia”.7 Jamais esquecerei a perturbadora emoção que senti diante dessa enérgica expressão, de sonoridade cósmica. Em que lugar do mundo a religião se manifesta de forma tão pura e vigorosa nos dias de hoje? Reconheçamos que, neste fim de século, as religiões já não têm a mesma força de outrora; encontram-se enfraquecidas pela torrente da secularização. Estão perdendo a espiritualidade, escondida no íntimo envergonhado das pessoas. Atravessam altos e baixos efêmeros com seus ensinamentos duvidosos. Muitas práticas confundem-se com o ocultismo, ou funcionam como o gêiser cuja energia explode inesperadamente gerando conflitos sangrentos. A imagem que atualmente se tem da religião é, na maioria das vezes, negativa, sendo raros os casos, como o de Riobaldo, em que a religião é abraçada como fonte de esperança.
Pelas características da vida de jagunço, a religião floresceu em sua alma como uma necessidade. Sua paixão, apesar de aparentar ser selvagem e bruta, tinha raízes na rara sensibilidade que o torturava oscilando entre Deus e demônio, e o levava a questionar continuamente o amor, a confiança, a liberdade, a coragem..., enfim, a própria vida. Por isso, os conflitos pela hegemonia do sertão não eram, para ele, apenas questões de disputa pela supremacia, mas um golpe para despertar a si mesmo provocado pelo sentido de missão, que lhe era próprio. Como consequência natural, as andanças pelo sertão, entremeadas de combates, fortaleciam cada vez mais as contradições de sua “luta interior”. Riobaldo diz: “A gente tem de sair do sertão! Mas só se sai do sertão é tomando conta dele a dentro”,8 “Sertão é dentro da gente”.9
Trata-se de um processo de íntima transformação: o aprofundamento e a sublimação da particularidade do “sertão” para a universalidade do “sertão interior”. “Uma cidade da religião” significa ultrapassar a etapa da interiorização, transcender o cotidiano — como se fosse um símbolo “sagrado”, conforme a designação religiosa. O que vemos não é a religião desfigurada da era moderna, mas uma religião elevada com a força unificadora que envolve o homem, a natureza e o universo, tornando-se essência da fusão orgânica desses elementos e que age como fonte de energia para a restauração da cosmologia. Eis a razão pela qual as palavras de Riobaldo têm um conteúdo autêntico, digno de ser chamado “grande universalismo”.
Curar a loucura
Acho importante ressaltar que essa autenticidade está assegurada por uma vinculação profunda de Guimarães Rosa ao ser individual.
A busca do jagunço pelos valores do mundo primitivo, a descrição fiel da natureza do sertão — somente possível para um autor com profundo conhecimento de ciências naturais e de geografia —, os contos populares espalhados pela obra, tudo isso, de repente, produz em mim um efeito semelhante ao das montanhas íngremes primorosamente pintadas ao fundo em perspectiva, que realçam ainda mais o sorriso da Gioconda, a Mona Lisa, de Leonardo Da Vinci.
Vejamos como Riobaldo convive com a religião:
O que mais penso, testo e explico: todo mundo é louco. O senhor, eu, nós, as pessoas todas. Por isso é que se carece principalmente de religião: para “desindoidecer, desdoidar”. Reza é que sara loucura. No geral, isso é que é salvação-da-alma...10
Peço a vossa atenção para o trecho no qual ele diz que, para se curar o mal de uma época, só com uma oração de natureza religiosa. Aqui o dogma religioso está prudentemente evitado, o que existe é uma intensa busca da universalidade. O dogma, em vez de curar, tende a aumentar a loucura e o fanatismo num processo progressivo. Ao contrário, a religião deve, na prática, fortalecer a espiritualidade humana elevando-a para o bem, e ser o ponto de partida para estabelecer a harmonia mundial. Não tenho dúvidas de que o mundo religioso tão ansiado por Guimarães Rosa é a forma ideal do “grande universalismo”, e se tornará a espinha dorsal da civilização universal do século 21. Apesar da minha irrelevante força, tenho a firme determinação de trabalhar, cada dia mais, para desbravar essa espécie de Grande Sertão da espiritualidade universal.
Para concluir, como expressão da minha ilimitada confiança no futuro do Brasil, divido com os senhores os versos do grande Castro Alves (1847–1871), o poeta da liberdade:11
Sim! Quando o tempo
entre os dedos
quebra um século, uma nação...
encontra nomes tão grandes,
que não lhe cabem na mão!
Heróis! Como cedro augusto
campeia rijo e vetusto
dos séculos ao perpassar,
vós sois os cedros da História,
a cuja sombra de glória
vai-se o Brasil abrigar.
Muito obrigado.
No topo: Presidente Ikeda, à dir., torna-se sócio correspondente da Academia Brasileira de Letras. Ao centro, Austregésilo de Athayde, então presidente da renomada instituição (Rio de Janeiro, fev. 1993) Foto: Seikyo Press
Notas:
1. MONTAIGNE, Michel de. Essays [Ensaios]. Tradução: J. M. Cohen. Nova York: Penguin Books, 1958. p. 108.
2. ZWEIG, Stefan. The World of Yesterday [O Mundo que Eu Vi]. Lincoln: University of Nebraska Press, 1964. p. 412.
3. Ibidem, p. 437.
4. MONTAIGNE, Michel de. Essays [Ensaios]. Tradução: J. M. Cohen. Nova York: Penguin Books, 1958. p. 114.
5. FRANCO, Jean. The Modern Culture of Latin America: Society and the Artist. Nova York: Frederick A. Praeger, 1967. p. 267.
6. The Record of the Orally Transmitted Teachings [Registro dos Ensinamentos Transmitidos Oralmente]. Tradução: Burton Watson. Tóquio: Soka Gakkai, 2004. p. 843-844.
7. ROSA, João Guimarães. Grande Sertão: Veredas. Editora Nova Fronteira, 1994. p. 179.
8. Ibidem, p. 161.
9. Ibidem, p. 178.
10. Ibidem, p. 7.
11. ALVES, Castro. Ode Ao Dous de Julho. Castro Alves por Eugênio Gomes. Rio de Janeiro: Livraria Agir Editora, 1963. p. 42-44.
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