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há 4 anos
Como construir uma vida de primeira categoria
Redação
03/04/2023

Desde o século passado, estudiosos de diversas áreas do conhecimento, em especial psicólogos e psicanalistas, vêm identificando o desejo pela autorrealização como o ápice das necessidades humanas. E que esse desejo inato de se sentir realizado, isto é, a aspiração de “ser uma pessoa de primeira categoria” é o que concederia a motivação necessária para o indivíduo entrar em ação.1
Contudo, existem pelo menos duas formas, distintas, de buscar tal pretensão: uma é com o olhar focado no ambiente externo, comparando-nos com os demais e até competindo com eles; a outra é com os olhos voltados para o nosso interior. Nessa segunda forma, a comparação se dá entre o “eu do presente” e o “eu do passado”, e o desenvolvimento é conquistado na busca pela nossa melhor versão.
Na matéria de Capa deste mês, veremos os impactos de ambas as abordagens e verificaremos como desenvolver o segundo caminho, mais elevado, em nosso cotidiano.
Nosso melhor aspecto
O desejo de atingir o ápice de nossas habilidades muitas vezes tem bases genuínas e sinceras. Contudo, caso não seja corretamente direcionada, a busca pela autorrealização pode evoluir para um comportamento de constante comparação de si mesmo com os outros, o que acaba por ser bastante prejudicial.
A ação de comparar-se aos demais tende a conclusões simplistas e negativas, tais como “Fulano é melhor do que eu” ou “Eu sou melhor do que Sicrano”, as quais, além de ser parciais, para não dizer equivocadas, no fim, não contribuem em nada para o autoaprimoramento.
As redes sociais são um exemplo disso: ao encontrarmos o perfil de alguém que nos chama a atenção, comumente caimos na tendência de comparar a nossa vida à daquela pessoa — muitas vezes sem perceber que aquilo é apenas um recorte que vemos da vida dela, já que “a única história completa que conhecemos é a nossa”.2
Por essa razão — a de que “a única história completa que conhecemos é a nossa”3 —, a busca pela autorrealização deve superar o impulso de se comparar com os demais. A atitude mais elevada, nesse sentido, é a de seguir pelo caminho da auto-observação e da busca para elevar a própria condição de vida a fim de evidenciar o seu melhor aspecto nas diversas esferas da vida: no ambiente familiar, profissional, nos estudos e na sociedade.
Sobre isso, o presidente da Soka Gakkai Internacional (SGI), Dr. Daisaku Ikeda, orienta:
Não precisamos nos comparar com os outros. Devemos simplesmente viver de forma que sejamos verdadeiros com nós mesmos, sempre embasados na fé no Gohonzon. (...) A Lei Mística nos permite evidenciar o máximo do nosso potencial. E quando isso acontece, vamos a qualquer lugar e encaramos qualquer desafio com um profundo senso de confiança.4
De forma complementar, em outra ocasião, ele também afirmou:
Numa obra escrita em seus últimos anos de vida, Tolstói declarou: “A tarefa na vida de cada pessoa é tornar-se um indivíduo cada vez melhor”. Em essência, isso é revolução humana. Sem isso, qualquer revolução social seria incompleta. De acordo com Tolstói: “Se reconhecer que a sociedade está organizada de forma ruim, e você gostaria de corrigi-la, deve compreender que existe apenas uma forma de a sociedade melhorar. Todos devem se aprimorar. Para aprimorar cada pessoa, tem-se apenas um método sob seu controle — você próprio é que deve se tornar uma pessoa melhor”.5
Senso de confiança e autorreforma. Muito diferente do ato de comparar-se com o outro é o desafio de se autoaprimorar e ter como base bons exemplos com o sentimento de aprender constantemente. Ikeda sensei exemplifica: “Conheçam pessoas de primeira categoria, ouçam a melhor música, leiam literatura de excelente qualidade e vejam arte de excelente nível: essa é a forma de polir seu caráter até que ele também se torne de primeira categoria”.6
No entanto, mesmo conscientes dessa busca, temos de tomar cuidado com certas “armadilhas”, já que à primeira vista se pode imaginar que “ser uma pessoa de primeira categoria” significa ser melhor do que outros.
Autoaprimoramento versus competitividade
Além da forte tendência à comparação depreciativa de si ou dos demais, outros traços da busca pelo autoaprimoramento com foco no ambiente externo, tão tomado por estresse e pressão pela alta performance, são a competitividade perversa ou mesmo o sentimento de inveja.
Tanto a competitividade intensa como a inveja são manifestações características da baixa condição de vida, em especial do mundo da ira, conforme descreve um texto budista:
Uma vez que aqueles que estão no estado de ira desejam profundamente ser superiores e não suportam ser inferiores a ninguém, eles depreciam e desdenham os outros e exaltam a si próprios, assim como um falcão que, ao se lançar em alto voo, olha o mundo de cima.7
Portanto, o caminho para ser tornar uma pessoa de primeira categoria está intimamente ligado à busca para elevar a própria condição de vida, deixando para trás sentimentos egoístas e assumindo a decisão de evidenciar o melhor de si a cada instante.
Neste mês, comemoramos os 770 anos do estabelecimento do Budismo Nichiren. No dia 28 de abril de 1253, no Japão, o buda Nichiren Daishonin revelou e recitou pela primeira vez o Nam-myoho-renge-kyo. A recitação dessa frase, a essência dos 80 mil ensinamentos do Buda, possibilita a todas as pessoas, por um processo profundo de transformação, abrir o caminho da verdadeira felicidade e manifestar seu pleno potencial inerente.
Por meio dessa prática, despertamos para a vasta potencialidade intrínseca da nossa vida, chamada “estado de buda”, e passamos a encarar os desafios com esperança, assim como o presidente Ikeda resume nesta orientação: “Não há um caminho que seja fácil. Quanto maior for o objetivo, é natural que o caminho a percorrer seja árduo de dificuldades. A pessoa que supera tais dificuldades torna-se alguém de ‘primeira categoria’”.8
Ou seja, tornar-se alguém “de primeira categoria”, na visão do Mestre, seria o resultado do processo de revelar seu pleno potencial por meio da prática budista. Pois, ao realizá-la, elevamos nossa condição de vida e aprendemos a direcionar as situações que seriam de ira e de inveja de uma forma construtiva.
O budismo também elucida os conceitos de empatia e de resiliência que, uma vez cultivadas no coração de cada indivíduo que decidiu evidenciar um nobre espírito, podem contribuir não só para a felicidade dele próprio, como também tornar o mundo um lugar melhor a partir das condutas dele com os demais.
Em nosso caminho do diálogo,
há compreensão e empatia,
benevolência e respeito,
sinceridade e paciência,
coragem e justiça.
Há também crescimento
e a esperança de conquistar
a felicidade e a vitória.9
Esses belos versos do Mestre não são apenas palavras: eles carregam a história de um grande treinamento. Em uma orientação, Ikeda sensei explica o aprendizado que o levou a tal consciência:
Ao lado do meu venerado mestre, o professor Josei Toda, vivi o supremo drama da minha juventude de corpo e alma. Ele se empenhou intensamente em me treinar e me ensinar diversas coisas mesmo em meio à difícil situação em que se encontravam seus empreendimentos como se ele estivesse à beira de um precipício. “Tenha contato com as coisas de primeira categoria” — esta era a orientação coerente do meu mestre. A Lei Mística é a grande lei fundamental que permeia todo o imenso universo. É o “ensinamento do buda vivo” que possibilita criar infinito valor em todas as dimensões. Encontramos esta suprema filosofia que permite dar vida a tudo o que existe ainda na juventude. Por isso, a expectativa do meu mestre era que buscássemos tudo o que fosse de primeira categoria e nos tornássemos líderes em prol da paz, tendo como palco de atuação o mundo inteiro.10
Nesse sentido, o Mestre nos direciona a iniciar nossa própria revolução humana, cultivando a empatia, compaixão e resiliência, peças-chave para sairmos da espiral da competitividade e ingressarmos no círculo virtuoso de somar forças, interna e externamente.
Esse primeiro e corajoso passo para se tornar uma pessoa melhor, de primeira categoria, é o que coloca em marcha a poderosa transformação rumo a uma nova história, tanto da própria pessoa como da comunidade onde está inserida.
Mudar o foco da relação com o “outro”
A dedicação incansável de uma pessoa para desenvolver valor na própria vida se transforma em inspiração para as demais. Isso porque, uma vez que há foco no desejo de se tornar uma pessoa melhor a cada dia, livre das pressões das comparações externas, dissipam-se os ressentimentos e surge o avanço.
Nesse coração dotado de empatia e resiliência, não há espaço para vaidade, egoísmo ou autodepreciação. Há, por outro lado, grande benevolência e sincero desejo de inspirar os outros a seguir também pelo caminho da revolução humana.
No Estudo desta edição, inclusive, encontramos a seguinte orientação do presidente Ikeda: “A prática da recitação e propagação do Nam-myoho-renge-kyo não apenas põe os outros na rota da felicidade, mas também imbui nossa própria vida de boa sorte e benefícios. É o caminho direto para a felicidade — nossa e dos outros”.11
Por meio da prática budista, despertamos para a realização do nosso potencial inerente, bem como assumimos a missão de conduzir as pessoas a conquistar a própria felicidade, inserindo-nos ativamente na grande onda de coragem e de esperança que se espalha para a humanidade na forma do grande movimento humanístico da SGI.
Ampliar a rede de confiança
Como vimos, ser alguém de primeira categoria não tem qualquer relação com ser melhor que os outros, nem mesmo ser melhor que alguém em determinada habilidade, por exemplo, mas tem a ver com evidenciar o melhor de si, elevando a condição de vida e polindo o próprio caráter.
O presidente Ikeda direciona: “Praticamos a fé [no Budismo Nichiren] para nos tornarmos cidadãos exemplares, bons pais, bons maridos ou esposas e bons filhos. É um budismo que possibilita a elevação do próprio estado de vida que conduz a pessoa a se tornar alguém assim”.12
No romance Nova Revolução Humana, nós nos deparamos com exemplos emblemáticos de cidadãos comuns que, a partir da superação dos próprios dramas, sem se preocuparem em ser melhor que esta ou aquela pessoa, conduziram vidas vitoriosas, inspirando naturalmente todos ao seu redor. Esse é o propósito da existência da Soka Gakkai e da Soka Gakkai Internacional.
A Soka Gakkai atingiu três milhões de famílias em novembro de 1962. Dois anos depois, no final de outubro de 1964, no ano da Olimpíada de Tóquio, ocorreu a concretização de cinco milhões de famílias. Foram esses membros que, jurando construir uma sociedade mais humana e mais justa, desafiaram as adversidades da vida e empenharam-se no trabalho visando a tornarem-se profissionais de primeira categoria. Nessa luta, ocorreram muitos dramas da revolução humana.13
Na obra, há a história inspiradora de um jovem de 22 anos que vivia na cidade de Osaka, Japão, e trabalhava como gerente de manutenção de computadores. Logo depois que se formou no colégio técnico, ele conseguiu um emprego numa companhia de eletricidade.
Antes de praticar o budismo, ele não tinha iniciativa e passava por dificuldades no trabalho por causa de sua natureza extremamente passiva. Contudo, ao se tornar membro da Soka Gakkai em 1962, sentiu mudanças em seu interior à medida que se empenhava nas atividades junto com os companheiros.
Na empresa em que trabalhava, os colegas perceberam sua transformação e o elogiaram por estar cada vez mais radiante e prestativo, o que lhe proporcionou aumentar a confiança em si mesmo. Além disso, as orientações ouvidas nas atividades da organização para se desenvolver como uma pessoa indispensável no local de trabalho fez com que ele se esforçasse com seriedade e eficiência em todos os serviços.
Pouco tempo depois, os diretores da empresa o escolheram entre quinhentos funcionários para trabalhar numa corporação comercial de grande porte. Lá, ele foi designado a atuar como gerente de manutenção de modernos computadores e em uma função normalmente exercida por um profissional com curso superior.
O trabalho desenvolvido por ele não era fácil, sendo preciso estudar muitos livros técnicos. Além disso, o curso oferecido pelo fabricante americano de computadores era em inglês. Por isso, ao voltar para casa após as atividades da Gakkai, ele estudava a língua inglesa e os circuitos eletrônicos até tarde da noite para melhorar sua capacidade e desempenho no trabalho.
Assim, com muito esforço e dedicação, tanto no trabalho como na organização de base, esse jovem cumpriu plena e brilhantemente a pesada responsabilidade que lhe fora confiada e ampliou com sucesso não só a rede de computadores de sua empresa como a rede de confiança ao seu redor.14
Este é um claro e feliz modelo sobre como se tornar alguém de primeira categoria. E não se trata de um exemplo isolado em si, mas de um modelo de conduta possível de ser aplicado por todos nós. Como Ikeda sensei declara:
O presidente Josei Toda também disse que o mais importante é se tornar um funcionário indispensável onde quer que esteja. Em vez de lamentar o fato de o emprego não ser aquilo que gostaria de fazer, disse ele, torne-se alguém de primeira categoria nesse trabalho. Isso desbravará o caminho que conduz à próxima fase na vida, durante o qual vocês também deverão continuar a fazer o máximo. Esses esforços certamente levarão a um trabalho de que gostem, que sustente sua vida e que lhes permita contribuir para a sociedade.15
Todos os que se dedicarem a essa busca podem conquistar o mesmo objetivo — principalmente ao ter o Mestre como modelo e guia desse caminho. Na série Incentivos das Quatro Estações, Ikeda sensei enfatiza que sua missão é cultivar pessoas valorosas e resume que ser alguém de primeira categoria exige constante dedicação.
Desenvolver pessoas —
é a única coisa que tenho em meu coração.
A Soka Gakkai é a incalculável esperança da humanidade
responsável pela felicidade e paz dos povos do mundo.
Desejo criar pessoas de primeira categoria que sucederão de forma
extraordinária essa importante missão e a expandirão por todo o futuro.
O brilho da personalidade é o ponto mais importante
como ser humano.
Para isso, a luta espiritual é essencial.
Desafiar a fraqueza de si mesmo,
acumular árduos esforços
e lapidar o próprio espírito.16
Dessa forma, ao visualizarmos esse objetivo para nossa vida, devemos considerar que se trata de uma busca ativa, uma verdadeira luta contra as tendências negativas básicas presentes em nosso interior. É uma batalha árdua e diária, mas que vale a pena ser travada pela riqueza da trajetória e pelo grandioso resultado, onde conseguimos não só concretizar nossos objetivos, mas também ser inspirados e inspirar outras pessoas, nos vários âmbitos e ambientes que participamos. E, ao longo dessa jornada, compartilhamos desafios e celebramos todos juntos os triunfos de cada um.
Atitude motivadora
Há 770 anos, quando o buda Nichiren Daishonin revelou o Nam-myoho-renge-kyo, seu objetivo era proporcionar um meio eficaz para o indivíduo viver cada dia e fazer brilhar as potencialidades inerentes a si e aos demais.
Com esse esforço ativo do Buda, foi descortinado o caminho para o autoaprimoramento contínuo, desprovido de qualquer senso de competitividade destrutiva, egoísmo, vaidade ou sentimento depreciativos em relação a si próprio. Ser uma pessoa de primeira categoria, para o budismo da SGI e o Mestre, não tem a ver com pódio, nem com a linha de chegada, mas sim com uma busca constante para elevar a própria condição de vida, com dedicação e coragem, investindo o melhor de si para aquela tarefa diante de seus olhos, seja no trabalho ou no estudo, seja no relacionamento familiar ou na sociedade.
Trata-se da ação que motiva outras ações, individuais e coletivas. Esse comportamento, com o tempo, se torna uma grandiosa rede de inspiração para os demais, de maneira muito natural. Assim, cada um de nós passa a imprimir em letras douradas, na sua vida e na vida daqueles tocados por ela, feitos que certamente contribuirão para o desenvolvimento de um mundo melhor e mais humano, onde todos possam construir uma vida “de primeira categoria”.
No topo: Jovens líderes de bloco e acima durante a 2a Academia Índigo no Centro Cultural Campestre da BSGI (Itapevi, SP, mar. 2023) Foto: BS
Notas:
1. Disponível em: https://comitepelacidadania.org/piramide-de-maslow/. Acesso em: 25 fev. 2023.
2. Disponível em: https://vidasimples.co/colunista/pare-de-se-comparar-com-os-outros/. Acesso em: 25 fev. 2023.
3. Ibidem.
4. Brasil Seikyo, ed. 2.520, 20 jun. 2020, p. 9.
5. Idem, ed. 2.067, 15 jan. 2011, p. A3.
6. Idem, ed. 2.466, 4 maio 2019, p. A3.
7. Idem, ed. 2.383, 12 ago. 2017, p. A3.
8. IKEDA, Daisaku. Seja a Esperança. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, 2022. p. 21.
9. Terceira Civilização, ed. 464, abr. 2007, p. 3.
10. Brasil Seikyo, ed. 2.204, 23 nov. 2013, p. B2.
11. Terceira Civilização, ed. 656, abr. 2023, p. 52.
12. Brasil Seikyo, ed. 2.203, 16 nov. 2013, p. A4.
13. IKEDA, Daisaku. Nova Revolução Humana. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, v. 9, p. 204, 2019.
14. Cf. IKEDA, Daisaku. Nova Revolução Humana. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, v. 9, p. 204-205, 2019.
15. IKEDA, Daisaku. Juventude Sonhos e Esperanças. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, v. 1, p. 107, 2020.
16. Brasil Seikyo, ed. 2.402, 13 jan. 2018, p. B1.
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