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Os livros da minha juventude
há 3 meses
[Parte 1] Um farol para a liberdade da alma: Do Contrato Social, de Rousseau
Dr. Daisaku Ikeda
01/07/2026
![[Parte 1] Um farol para a liberdade da alma: Do Contrato Social, de Rousseau](https://meubs.com.br/assets/images/ebs-2026-07-01_12-05-04.jpeg)
Estátua de bronze de Jean-Jacques Rousseau esculpida por James Pradier (1835). Localizada no centro da Ile Rousseau, um pequeno parque arborizado no meio do Rio Ródano, em Genebra, Suíça. Foto: Getty Images
Lembro-me de uma ocasião em que alguns de nós se reuniram com o mestre, Josei Toda, para discutir a história e os antecedentes da Revolução Francesa. “Houve uma faísca que acendeu a Revolução Francesa”, disse Toda sensei. “Essa faísca foi Rousseau.”
As contribuições de Jean-Jacques Rousseau e de outros grandes pensadores do Iluminismo são bem conhecidas. As ideias têm um poder enorme. Elas podem mover a humanidade, dar origem a uma era e transformar o mundo. Os jovens que estudaram a filosofia de Rousseau passaram a conscientizar o povo e inspirar a energia que desencadeou a Revolução Francesa.
Meu mestre também disse: “Para entender a Revolução Francesa, é necessário, primeiro, ler Rousseau”.
Recordo-me de ter lido uma série de obras de Rousseau, uma após a outra, depois da guerra, incluindo Emílio, Do Contrato Sociale O Discurso sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade entre os Homens. Como educadores, Josei Toda e seu mestre, Tsunesaburo Makiguchi, adoravam ler obras de Émile Durkheim e de Jean-Jacques Rousseau.
Liberdade é evidência de humanidade
Do Contrato Social foi publicado em abril de 1762, há mais de 230 anos, quando Rousseau tinha 49 anos. Emílio foi lançado apenas um mês depois, portanto, essas duas obras históricas são contemporâneas.
O livro Do Contrato Social descreve a composição do Estado, ou órgão político. Segundo Rousseau, ao contrário da família, o Estado baseia-se unicamente no contrato. Ele compara a estrutura do Estado ao corpo humano: o poder soberano do governo seria a cabeça de uma pessoa; as leis e os costumes, o cérebro. O comércio, a indústria e a agricultura são como a boca e o estômago; as finanças públicas, como o sangue; e a economia, o coração.
Ele declara que o Estado não deve existir em contradição com a liberdade do indivíduo. Para Rousseau, tudo começa com a ideia de liberdade. A base de toda autoridade, afirma ele, deve ser um acordo celebrado pelo povo, por sua vontade.
Rousseau aborda a questão de como restaurar a liberdade e a igualdade em meio às realidades da sociedade. O livro começa com a famosa passagem: “O homem nasce livre, e por toda a parte encontra-se a ferros. O que se crê senhor dos demais não deixa de ser mais escravo do que eles”.1
Na passagem, Rousseau declara que todo ser humano é inerentemente livre, uma ideia ainda mais pertinente hoje. Como, então, essa natureza livre veio a ser acorrentada? Como as pessoas sucumbem à privação semelhante à da escravidão? O que a liberdade significa para a humanidade? Como os seres humanos podem desfrutar a verdadeira liberdade? Desde os tempos antigos, os filósofos têm procurado respostas para essas questões.
Em Emílio, Rousseau escreveu: “A liberdade não está em nenhuma forma de governo; está no coração do homem livre, que a leva consigo para todo lugar. O homem vil leva a todo lugar a servidão. Um seria escravo em Genebra; o outro, livre em Paris”.2
Em Do Contrato Social, Rousseau questiona a sanidade daqueles que se entregariam “gratuitamente” a outrem ou que procurariam fazer dos outros seus escravos. Ele assegura que renunciar voluntariamente à liberdade é renunciar aos direitos e deveres de alguém como ser humano. Onde não há liberdade, não há expressão genuína da humanidade e perde-se a virtude de assumir a responsabilidade pelas próprias ações. Ele conclui, portanto, que a liberdade é uma prova de humanidade.
A liberdade deve ser conquistada por meio de um grande esforço pessoal. Não é algo que surge espontaneamente. Esse apelo sincero de Rousseau ressoou profundamente entre o povo e sua influência se tornou generalizada.
A Revolução Francesa eclodiu onze anos após a morte de Rousseau. Foi uma luta que surgiu do intenso desejo do povo de ser livre, de ser libertado da opressão.
Um movimento que se espalhou pelo mundo
O contrato social não atraiu grande atenção durante a vida de Rousseau. Após sua morte, porém, tornou-se uma base para a luta revolucionária e energizou e elevou o espírito da democracia.
Em 1789, a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão (também conhecida como Declaração de 1789), estabelecida durante a Revolução Francesa, foi um excelente exemplo da influência do pensamento de Rousseau. A primeira alteração da declaração afirma: “Os homens nascem e são livres e iguais em direitos”.3
Em 1790, uma proposta para encomendar uma estátua de Rousseau foi apresentada à Assembleia Nacional da França. Um membro da assembleia declarou: “Devemos enxergar em Jean-Jacques Rousseau [...] o precursor da nossa grande revolução”.4 Posteriormente, uma estátua de Rousseau foi erguida no subúrbio de Paris, com uma inscrição enaltecendo-o como o pai da Constituição francesa.
O impacto de Rousseau não se limitou à Revolução Francesa, alcançou toda a parte, influenciando enormemente a filosofia, a educação, a literatura e outros campos. O famoso pedagogo e reformador social suíço Johann Heinrich Pestalozzi tinha seis anos quando Emílio foi publicado. Posteriormente, o encontro com a obra mudou profundamente sua vida.
Rousseau influenciou muitos escritores franceses, incluindo os românticos Madame Germaine de Staël, Victor Hugo, François-René de Chateaubriand, Alphonse de Lamartine e George Sand. Na Inglaterra, poetas e escritores como Lord Byron, William Wordsworth, Oliver Goldsmith e George Eliot também foram inspirados por ele. E na Alemanha, ele influenciou os pensamentos de escritores e filósofos como Johann Gottfried von Herder, J. G. Fichte, G. W. F. Hegel, F. W. J. Schelling, Johann Wolfgang von Goethe, J. C. F. Schiller e Immanuel Kant.
Hegel pendurou um retrato de Rousseau em seu escritório e guardou-o como um tesouro até o fim da vida. Kant, em particular, foi fortemente influenciado por Rousseau. Uma anedota famosa descreve como Kant, conhecido por caminhar exatamente no mesmo horário todos os dias, não conseguia sair de casa quando absorto na leitura de Emílio.
Kant reconheceu que aprendeu com Rousseau o respeito pela humanidade e a valorização das pessoas comuns. Kant defendeu a ideia de que o Estado ideal é aquele baseado em leis, uma ideia que está em consonância com a mensagem essencial da obra Do Contrato Social. Além disso, a filosofia da “paz perpétua” de Kant está de acordo com a perspectiva de Rousseau de que, independentemente das fronteiras nacionais, é o povo que estabelece as bases para a paz.5 O grande escritor russo Liev Tolstói também foi movido pelas ideias de Rousseau (dizem que elas o inspiraram a abrir uma escola para crianças carentes).
Continua na próxima edição.
Na segunda parte deste artigo, Daisaku Ikeda aprofunda a trajetória e o pensamento de Jean-Jacques Rousseau e destaca sua influência nos movimentos em defesa da liberdade e dos direitos humanos, bem como sua coragem diante das perseguições e injustiças sofridas por sustentar suas convicções.
Tradução dos extratos do livro The Books of My Youth [Os Livros da Minha Juventude]
Notas:
1. ROUSSEAU, Jean-Jacques. Do Contrato Social. In: Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1978. p. 22.
2. Idem. Emílio, ou Da Educação. Tradução: Laurent de Saes. São Paulo: Edipro, 2017. p. 551.
3. THE Declaration of the Rights of Man and of the Citizen (Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão). Élysée, 14 dez. 2022. Disponível em: https://www.elysee.fr/en/french-presidency/the-declaration-of-the-rights-of-man-and-of-the-citizen. Acesso em: 10 jun. 2026.
4. MILLER, James. Rousseau: Dreamer of Democracy. New Haven, CT: Yale University Press, 1984. p. 139.
5. Cf. ROUSSEAU, Jean-Jacques. A Lasting Peace Through the Federation of Europe and The State of War. Tradução: C. E. Vaughan. New Haven, CT: Whitlock’s, 1955.
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