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Os livros da minha juventude
há 2 meses

(Parte final) Um farol para a liberdade da alma: Do Contrato Social, de Rousseau

Tradução dos extratos do livro The Books of My Youth [Os Livros da Minha Juventude]

Jean-Jacques Rousseau

31/07/2026

(Parte final) Um farol para a liberdade da alma: Do Contrato Social, de Rousseau

Na primeira parte deste artigo, Daisaku Ikeda discorre sobre a importância do pensamento de Jean-Jacques Rousseau, destacando como suas ideias sobre liberdade, igualdade e soberania popular inspiraram a Revolução Francesa e influenciaram profundamente a construção da democracia moderna. A partir de sua obra Do Contrato Social, Rousseau defendeu que a verdadeira autoridade deve nascer da vontade do povo e que a liberdade é uma condição essencial da humanidade.

A influência de Rousseau no Movimento pela Liberdade e pelos Direitos dos Povos no Japão, na Era Meiji (1868--1912), também é muito aparente. A primeira tradução japonesa da obra Do Contrato Social foi publicada em 1877.

Lembro-me com carinho do meu mestre, Josei Toda, discutindo essa obra. Em janeiro de 1955, fui com ele em sua primeira visita à província de Kochi. Naquela ocasião, em uma palestra, ele falou sobre dois nativos de Kochi: Taisuke Itagaki, conhecido como grande defensor dos direitos e da liberdade do povo, e Chomin Nakae, consagrado no Japão como “Rousseau da Ásia”. Citando esses exemplos, Toda sensei descreveu sua visão de uma revolução pacífica e enfatizou o grandioso potencial de uma filosofia baseada num novo tipo de humanismo.

Ondas avassaladoras de críticas

Rousseau nasceu e foi criado em Genebra, Suíça, quando a população não passava de 30 mil pessoas. Ele frequentemente assinava suas obras como “Cidadão de Genebra”, mesmo depois de mudar de cidade, para expressar seu carinho pela terra natal. Hoje, Genebra é o lar de muitas instituições internacionais e é considerada um centro de paz e humanidade.

Em junho de 1989, viajei para Genebra, onde tive a honra de receber o Prêmio Humanitário do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados. Ainda me lembro claramente da paisagem, com a vista privilegiada dos Alpes Suíços e da parte urbana alinhada às margens do lago Genebra.

Nos seus últimos anos, Rousseau lutou continuamente contra a má compreensão de suas ideias e a perseguição por parte de potências que pretendiam manter o status quo. Genebra foi o cenário dessa batalha.

As autoridades francesas confiscaram cópias de Emílio, apenas dois meses após o lançamento. Por trás dessas ações do regime francês estavam a Igreja Católica da França e o colégio teológico da Sorbonne. As autoridades acusaram-no de críticas subversivas à Igreja. Emílio foi condenado pelo tribunal superior de Paris, que emitiu um mandado de prisão para Rousseau. Em resposta, ele proclamou que as autoridades podiam privá-lo da sua vida, mas nunca poderiam lhe tirar a liberdade inata.

Embora Rousseau não se preocupasse com a prisão, por causa do seu estado de saúde, uma pena significaria a morte. Para evitá-la, ele fugiu de Paris para a Suíça. Mas o governo de Genebra, depois de ter confiscado e queimado tanto Emílio como Do Contrato Social, emitiu um mandado. As autoridades decidiram que ambas eram obras perigosas que visavam à queda das instituições religiosas e políticas da nação. Por trás das acusações estava a maquinação de autoridades religiosas intolerantes.

Essa decisão injusta chocou Rousseau. Ele escreveu a um amigo: “O quê! Decretaram sem me ouvirem! Mas onde está o meu crime? Onde estão as provas?”.1

Esse tipo de abordagem, em que o acusado não tem a oportunidade de responder às acusações, é um truque comum que as autoridades corruptas têm utilizado ao longo da história. Aqueles que se apegam ao poder temem o diálogo, porque não possuem intelecto nem caráter para persuadir os outros.

Rousseau contra-atacou de forma impressionante com a palavra escrita. Em Cartas Escritas da Montanha, encontramos:

Pode [ser declarado culpado pelo governo] me rebaixar? Não, isso me eleva, coloca-me na categoria daqueles que sofreram pela liberdade. Meus livros, o que quer que seja feito, sempre darão testemunho de si mesmos, e o tratamento que receberam não fará nada além de salvar do opróbrio aqueles que terão a honra de serem queimados depois deles.2

Rousseau se encontrava cercado de inimigos e sua vida estava em perigo. Mas ele não se deixou influenciar. Em seu coração brilhava a luz do sol da convicção e da justiça, e ele confiava na vitória. Fortes são aqueles cujo coração abraça um princípio profundamente enraizado sobre o qual viver. Eles nunca serão influenciados pelo clamor da opinião pública.

Resistindo à potência coercitiva da autoridade religiosa

Rousseau criticava ferozmente a corrupção da Igreja Reformada da França: “Com seu tom ridiculamente arrogante, com a sua fúria pelas sutilezas e pela intolerância, [os ministros] já não sabem no que acreditam, nem o que querem, nem o que dizem”.3

Os padres em questão eram realmen­te assustadores. Para eles, qualquer coisa que ameaçasse a autoridade deles era vista como mal, algo a ser corrigido. Ao prestarem mais atenção ao que estava acontecendo ao redor, eles deixaram de olhar para dentro, de olhar para si mesmos. Rousseau não podia desculpar a presunção e a arrogância de um clero tão egoísta e complacente, que explorava a fé das pessoas comuns.

Em um capítulo do livro Do Contrato Social, Rousseau discute a religião e, inicialmente, distingue dois tipos principais: a “religião do homem” e a “religião do cidadão”. Então, refere-se a um terceiro tipo: a “religião dos padres”. Ele classificou a religião do Japão nessa terceira categoria. Com relação a essas três formas, Rousseau afirmou:

A terceira é tão evidentemente má que constitui uma perda de tempo ocupar-se de o demonstrar. Tudo quanto rompe a unidade social nada vale; todas as instituições que põem o homem em contradição consigo mesmo não servem para coisa alguma.4

Quanto Rousseau realmente sabia sobre a religião japonesa não está claro. Ele escreveu, em meados do Período Edo, que viu o budismo se calcificar no que ficou conhecido como “budismo funerário”, uma religião preocupada com rituais e cerimônias presididos por sacerdotes. No entanto, parece ter apontado o aspecto essencial da sua natureza.

Um trabalho de pesquisa sobre Rousseau reuniu e organizou, dentre as obras do autor, uma lista de seus gostos e desgostos. Os seguintes itens apareceram sob o título religião: “Gosto: consciência; razão; compaixão; tolerância; amor pela humanidade; virtude. Não gosto: igreja; autoridade; misticismo; ritual; fanatismo; preconceito”.5

Essa lista fornece uma imagem da perspectiva de Rousseau sobre a religião. Para ele, a religião é algo que surge do “interno”, uma expressão do interior do coração. Aquilo que está fora de nós não tem significado religioso. Somente ouvindo a voz interior é que a fé religiosa pode se aprofundar.

Rousseau escreveu: “A boa instrução deve preocupar-se menos em determinar as escolhas que devemos fazer do que em ampliar os meios de escolher bem. Tal é o espírito genuíno da Reforma; tal é o seu verdadeiro fundamento”.6

A religião nunca pode ser algo que as pessoas sejam obrigadas a obedecer cegamente. O mundo hoje exige uma religião que proporcione às pessoas o poder de criar um eu melhor, que exista para o ser humano. É hora de nós, da época atual, clamarmos, com o mesmo espírito de Rousseau, por uma nova revolução no mundo da religião.

Notas:

1. WINWAR, Frances. Jean-Jacques Rousseau: Conscience of an Era. Nova York: Random House, 1961. p. 260.

2. KELLY, Christopher; GRACE, Eve (eds.). Letter to Beaumont, Letters Written from the Mountain, and Related Writings. Tradução: Christopher Kelly e Judith R. Bush. In: MASTERS, Roger D.; KELLY, Christopher (eds.). The Collected Writings of Rousseau. Hanover, NH: University Press of New England, v. 9, p. 236, 2001.

3. Ibidem, p. 157.

4. ROUSSEAU, Jean-Jacques. Do Contrato Social. Tradução: Rolando Roque da Silva. [S. l.]: Ridendo Castigat Mores, [s. d.]. Livro IV, parte VIII.

5. KUWABARA, Takeo. Rousseau Kenkyu [Estudos sobre Rousseau]. Tóquio: Iwanami Shoten Kangyo, 1968. p. 49.

6. The Collected Writings of Rousseau, v. 9, p. 155, 2001.

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