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há 11 horas

Um encontro ao ar livre

Memórias de Ikeda sensei e Aurelio Peccei

Redação

29/08/2026

Um encontro ao ar livre

Este é um conhecido enigma: Num lago crescem nenúfares. Grandes folhas de nenúfar flutuam na superfície. Elas dobram em número a cada dia. No primeiro dia há uma folha de nenúfar, no segundo, duas. No terceiro, quatro. No quarto, oito, e assim por diante.

Se no trigésimo dia toda a superfície do lago estiver coberta por folhas de nenúfar, em que dia o lago estaria coberto pela metade?

A resposta, claro, é no dia anterior, o vigésimo nono.

Um dia antes de o lago estar completamente coberto, metade de sua superfície estará vazia. Tudo parece estar muito bem — ainda há muito espaço livre. Mas logo no dia seguinte, num curto intervalo de tempo, o lago todo está tomado — não resta mais nenhum espaço.

Qualquer um poderia prever o final observando o lago no vigésimo oitavo ou no vigésimo nono dia.

Porém, uma pessoa percebeu o perigo muito antes e clamou: “Se não fizermos algo já, será tarde demais!” Esse homem foi o Dr. Aurelio Peccei (1908–1984), primeiro presidente e co-fundador do mundialmente famoso “fórum do pensamento global”, o Clube de Roma.

Ele alertava para as conseqüências devastadoras do crescimento populacional sem controle, o desperdício dos recursos naturais e para a terrível desigualdade na distribuição da riqueza entre nações desenvolvidas e em desenvolvimento. Todos esses fatores estão inter-relacionados, dizia ele, e se não forem tomadas providências, provocarão uma reação em cadeia que levará à destruição.

Não temos tempo

O Dr. Peccei disse-me que os líderes mundiais de hoje são irresponsáveis. Se permitirmos que a situação continue como está, o planeta se tornará estéril no século 21 e tanto a natureza quanto os seres humanos serão destruídos. Embora essa verdade esteja bem diante de nossos olhos, declarava ele, os líderes políticos, os homens de negócios, os cientistas, acadêmicos e burocratas nada fazem e só pensam em seus próprios interesses. Dão grande prioridade em preservar seu próprio estilo de vida em vez de se preocuparem com que tipo de mundo deixarão para seus filhos e netos.

Este é o motivo, dizia ele, de a própria humanidade precisar fazer uma revolução. E rapidamente, pois não há mais tempo.

Um encontro ao ar livre

Encontrei-me com o Dr. Peccei pela primeira vez sob o céu azul de Paris. A brisa primaveril agitava as flores brancas de macieiras. O Dr. Peccei viera diretamente da Itália para encontrar-se comigo em nosso centro da SGI de Paris. A princípio, acomodamo-nos na sala de visitas, mas pedi-lhe a permissão de fazer uma “mudança urgente”. Desculpando-me pelo fato de a sala ser pequena e apertada, disse: “O jardim é muito bonito. Por que não vamos para lá?” O Dr. Peccei disse achar uma excelente ideia e esboçou um caloroso sorriso. Ele parecia compartilhar minha aversão por formalidades vazias.

Ele se levantou e seus movimentos enérgicos, os de um homem de ação, de imediato me impressionaram. O Dr. Peccei era um sobrevivente de décadas de competição no mundo dos negócios. Quando nos conhecemos, em 16 de maio de 1975, ele tinha 66 anos.

Embora fosse o aniversário de sua esposa Marisa, ele adequou sua programação à minha e veio visitar-me naquele importante dia. Percebi a sinceridade e a generosidade que havia naquela pessoa robusta.

O sol estava muito forte, assim abrimos um guarda-sol laranja sobre o gramado e transportamos algumas cadeiras para fora. Em um instante, improvisamos uma bela sala de reunião.

Mais que uma revolução na tecnologia de informação, precisamos de uma revolução humana

Ao falar, algumas vezes o Dr. Peccei inclinava-se pronunciadamente para frente em sua cadeira. A raça humana, dizia ele, experimentou três revoluções até agora: a revolução industrial, a revolução científica e a revolução tecnológica. Todas elas foram revoluções externas. O problema é que a sabedoria necessária para decidir como usar os frutos dessas revoluções ainda não estava desenvolvida.

A raça humana, que possui conhecimentos surpreendentes, também é surpreendentemente ignorante sobre como se deve conduzir, dizia ele. Embora nossa tecnologia se desenvolva rapidamente, em termos culturais nosso desenvolvimento estacionou ou petrificou. Para preencher essa lacuna, dizia ele, era necessária uma renascença do espírito humano, uma revolução nos próprios seres humanos.

Isso foi em 1975. E estou certo de que hoje o Dr. Peccei também diria que a revolução humana é muito mais importante do que a revolução na tecnologia de informação que estamos vivenciando.

O ponto de partida de uma vida de lutas

Foi o grande historiador britânico Arnold Toynbee quem de fato recomendou que conversasse com o Dr. Peccei. O Dr. Peccei, por sua vez, já conhecia meu diálogo com o Dr. Toynbee. Ele trouxe consigo um exemplar de minha obra Revolução Humana em nosso encontro e mencionou que sabia que a Soka Gakkai havia lutado contra o fascismo. Ele também estava ciente da morte de nosso primeiro presidente Tsunessaburo Makiguchi na prisão e dos esforços de nosso segundo presidente, Josei Toda.

“O senhor também, Dr. Peccei,” disse eu, “é um guerreiro que suportou as provações da prisão”.

Senti, observando a sua postura, a convicção férrea que residia em seu peito. Queria perguntar-lhe sobre a fonte de sua força espiritual, o que havia em seu coração que o fez levantar-se e lutar quando os demais não puderam fazê-lo.

O Dr. Peccei foi preso em fevereiro de 1944. Nessa época, estava com 35 anos. O Dr. Peccei lembra que, em sua escura cela, veio a saber pela primeira vez que tipo de pessoa realmente era. Assaltado por uma interminável ansiedade, o Dr. Peccei concentrava-se no futuro, pensando em uma única coisa: não devemos permitir, sob nenhuma circunstância, que essa tragédia se repita.

Aprendendo com as adversidades

O Dr. Peccei confessou que sofreu terrivelmente, mas também reconheceu que as provações que suportou fortaleceram suas convicções. Ele também conseguiu saber quem eram seus amigos, ou seja, as pessoas em quem poderia confiar. Ironicamente, disse ele que aprendeu muito de seus captores fascistas. O Dr. Peccei sorriu, encolheu os ombros e acrescentou que, por essa razão, estava agora preparado para perdoá-los.

Fiquei profundamente emocionado pelo triunfo humano do Dr. Peccei, que se considerava afortunado por ter conseguido suportar onze meses no cativeiro.

Na prisão, ele chegou ao abismo mais escuro da perversidade humana e, ao mesmo tempo, às alturas mais elevadas da nobreza humana. Percebeu que há uma extraordinária força dentro de nós que busca o bem. Essa força pode estar dormente, mas está lá. Esse foi seu grande despertar.

Adotando uma visão de longo prazo

O Dr. Peccei abominava a curta visão dos jornalistas; essa perspectiva era extremamente oposta à sua. O co-fundador do Clube de Roma sempre enfatizou que, se não fosse adotada uma visão de longo prazo, todos os argumentos e esforços seriam inúteis. Quando está claro que um navio está em curso de colisão, a medida óbvia não seria mudar imediatamente a direção? O que se pode ganhar observando apenas as ondas que golpeiam a proa?

Os meios de comunicação ridicularizaram e consideraram com sarcasmo as atividades do Clube de Roma e difamaram o Dr. Peccei como um “profeta do apocalipse”. Também houve alguns acadêmicos que zombaram do Clube de Roma e foram contra suas advertências com todos os tipos de argumentos irresponsáveis. Por exemplo, um certo acadêmico japonês disse que a preocupação do Clube de Roma com o crescimento industrial e a explosão demográfica era como o temor das pessoas século 18, que diziam que o aumento das carruagens sepultaria o mundo em esterco de cavalo. Esse acadêmico disse que o Clube de Roma não havia se dado conta dos avanços da tecnologia.

Os comunistas chamaram o Clube de Roma de “capitalista”, e os capitalistas o denunciaram como um fórum “comunista”. Os países em desenvolvimento disseram que as ideias do Clube de Roma eram uma conspiração para impedir seu desenvolvimento, argumentando que os ricos eram incapazes de compreender os sentimentos dos pobres.

Mas aos poucos, o Clube de Roma foi ganhando apoio e hoje, o fato de a Terra ter uma capacidade limitada para sustentar a vida humana é reconhecido por todos. Finalmente a humanidade está despertando de sua obsessão pela riqueza material a todo custo. Em 1992, as Nações Unidas realizaram a Conferência sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento e, desde então, muitas organizações internacionais, governos e grupos privados começaram a tratar das inúmeras questões globais com que deparamos hoje.

O primeiro passo solitário do Dr. Peccei tornou-se um passo gigantesco para a humanidade.

Uma vida de contínuo trabalho e compromisso

Em 14 de março de 1984, esse grande pioneiro faleceu aos 75 anos. Sua vida foi de contínuo trabalho e compromisso. Doze horas antes de falecer, ele ditava de seu leito. O Dr. Peccei era um homem determinado. Seu último manuscrito, inacabado, foi intitulado Agenda para o Final do Século, publicado postumamente. O Dr. Peccei não chegou a vê-lo impresso.

Herdando o espírito de um grande indivíduo

Algum tempo após o falecimento do Dr. Peccei, conheci seus filhos, Roberto Peccei (físico) e Riccardo Peccei (sociólogo). Encontrei-me com Riccardo na Inglaterra. Compartilhávamos das memórias de seu pai, quando ele me disse: “Quando uma pessoa grandiosa falece, tendemos a esquecer seus ideais e seu espírito e deixamos que nosso próprio eu se reafirme. Essa é uma mostra da fraqueza e da fealdade humana. Acredito que o mais importante para nós é conduzir os ideais e objetivos do Dr. Peccei sem vacilar.”

O Dr. Peccei foi um homem de extraordinário caráter, como um pai afetuoso. Ele visualizava o distante futuro como um verdadeiro filósofo e possuía capacidade de julgamento e de decisão de um homem de negócios. A grandeza do Dr. Peccei e todas as suas demais qualidades derivavam de seu imenso amor pela humanidade.

Sempre que penso no Dr. Peccei, lembro-me do céu azul de Paris e da voz desse inabalável guerreiro que lutou tão ardentemente para criar um futuro tão brilhante e claro quanto aquele firmamento.

Ainda posso ouvi-lo dizer que, embora haja um limite para o crescimento econômico, não há limites para o aprendizado humano. Nossos recursos externos são limitados, dizia ele, mas nossa riqueza interior é ilimitada. Porém, ela não está manifesta, e a revolução humana é o que nos possibilitará manifestá-la. Devemos usar todos os meios disponíveis para impulsionar essa revolução humana, dizia ele.

“Estamos de acordo. Vamos fazê-lo!”, declarou estendendo a mão e assim nos congratulamos. “Vamos fazê-lo!”, disse ele, “em prol do século 21, em prol de nossos filhos e netos, antes que seja tarde demais”.

Leia discurso completo na Terceira Civilização, ed. 402, fev. 2002, p. 8 

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