BS
Discurso do Presidente da SGI
há 26 anos
O coração determina tudo
Um diálogo sobre a religião no século XXI
11/03/2000

Pres. Ikeda: Espero que as pessoas considerem isso como um símbolo da boa sorte e benefício de todos os membros da SGI do mundo inteiro.
Eu não cursei uma faculdade. Ao contrário, dediquei minha juventude ao presidente Toda. Com a falência em seus negócios, mudei meus planos de entrar para a faculdade. Eu lhe disse: “Por favor, não se preocupe com nada. Eu trabalharei. Deixarei tudo em ordem. Por favor, fique tranqüilo.” E fiz tudo que disse que faria. Transformei a Soka Gakkai, que havia passado pelos piores momentos, em uma organização mundial. Fiz com que o mundo conhecesse a grandiosidade do presidente Toda e do presidente Makiguti.
Acreditava que proteger o presidente Toda era o mesmo que proteger o Kossen-rufu e o budismo. Não havia outro caminho. Devotei-me por completo ao caminho de mestre e discípulo.
Estou convicto de que o efeito da causa que fiz ao apoiar o presidente Toda em vez de seguir meus planos de estudo está surgindo agora na forma desses títulos honorários de universidades de todo o mundo. A lei de causa e efeito é infalível.
Suda: Essa é realmente uma prova da prova real do budismo a qual será eternamente lembrada pelas gerações futuras.
Pres. Ikeda: O coração é a chave de tudo. Devido ao seu espírito de fazer o oferecimento de um bolo de lama a Sakyamuni, Tokusho Doji renasceu como o grandioso rei Asoka.
Endo: Falamos há pouco sobre não “adornar” o próprio eu. Tudo depende da condição em que o coração se encontra, depende se a pessoa tem ou não uma força verdadeira como ser humano.
Pres. Ikeda: Devemos analisar minuciosamente o significado do fato de Nitiren Daishonin ter nascido na mais baixa classe social de sua época. Se fosse para expor um budismo que estivesse “de acordo com a mente dos outros”, ele poderia muito bem ter nascido como membro da nobreza ou de uma família de poder.
Mas ele nasceu como “filho de um homem do povo”. (The Major Writings of Nichiren Daishonin [MW], vol. 5, pág. 293.) O fato de ele não ser de uma família nobre ajuda a explicar porque sofreu perseguições sucessivas e inacreditáveis.
Endo: Daishonin diz a respeito de si próprio: “Nitiren... nasceu pobre nesta vida, filho de uma família chandala.”1 (MW, vol. 1, pág. 37.)
Pres. Ikeda: Para ajudar as pessoas a criarem uma ligação com o budismo mesmo que fosse por intermédio de uma relação inversa, ele assumiu com coragem e suportou grandes perseguições. Houve uma pessoa que, esquecendo-se dessa imensa benevolência, tratou Daishonin com desprezo. Ele disse o seguinte: “Também houve aqueles que pareciam acreditar em Nitiren, mas começaram a duvidar quando viram que ele estava sendo perseguido. Eles não só abandonaram o Sutra de Lótus como também se achavam sábios o bastante para orientar Nitiren.” (MW, vol. 1, pág. 42.) Isso é lamentável. Não existe budismo sem o caminho de mestre e discípulo.
Saito: Daishonin fala sobre como será o fim dessas pessoas arrogantes: “O que é triste é que essas pessoas maldosas sofrerão nas profundezas do inferno por muito mais tempo que os seguidores da Nembutsu.” (Ibidem.) Esse é um princípio imutável tanto nos dias de hoje como no futuro.
Pres. Ikeda: De qualquer forma, as pessoas comuns compreendem os sentimentos das pessoas comuns. Um cidadão realmente compreende os sentimentos de outros cidadãos. Daishonin nasceu como filho de uma família chandala, a classe social mais maltratada e aviltada.
No próximo verão, será comemorado o 53º aniversário do fim da Segunda Guerra Mundial. Soube que quando os combates chegaram a Okinawa, a ilha que fica no extremo sul do Japão, os residentes sofreram graves discriminações por parte de muitos oficiais e soldados japoneses [que em grande parte haviam sido mobilizados de outras partes do Japão]. Os únicos soldados que não os discriminaram foram os ainos, nativos do norte de Hokkaido.
Saito: Soube também de relatos revoltantes e inacreditáveis sobre como o povo de Okinawa foi tratado pelo exército japonês. Esses relatos contam que os soldados assassinavam as pessoas sob a suspeita de serem espiãs simplesmente porque conversavam no dialeto de Okinawa, o qual os soldados não compreendiam.
Pres. Ikeda: Mas os soldados ainos tratavam os moradores de forma diferente. Creio que isso se devia ao fato de eles próprios terem sofrido discriminação, por serem uma minoria. Parece que eles foram discriminados e mal-tratados até mesmo pelo exército. Provavelmente tenha sido por isso que eles trataram bem o povo de Okinawa e salvaram a vida de muitos. Eles eram realmente nobres.
Suda: Isso é muito comovente. Creio que a verdadeira humanidade é estar eternamente ao lado das pessoas, ao lado daqueles que são discriminados.
Chu Enlai: “Estou aqui pelo bem de todos”
Pres. Ikeda: A verdadeira humanidade é o verdadeiro budismo.
Quando uma delegação da Liga pela Libertação dos Buraku2 do Japão visitou a China (em 1962), o premiê chinês Chu Enlai recebeu seus integrantes. O chefe da delegação agradeceu-lhe por encontrar tempo em sua agenda lotada para encontrar-se com eles, ao que Chu respondeu: “Mas o que o senhor está dizendo? Um premiê que não recebesse o povo mais maltratado do Japão, o povo que está sofrendo as maiores dificuldades, quando visitasse o país não seria um premiê da China.”3
Na época da histórica Grande Marcha (1934–1935), Chu dividia sua ração com as tropas. Quando seu grupo avançou pelas regiões alagadas da Província de Szuchuan, não havia nada para comer. Chu tinha como suprimento de emergência um saco de carne cozida e seca e um saco de farinha de cevada. Essa ração poderia ser hidratada com água fria ou quente em qualquer lugar.
Os soldados, que não tinham provisões, começaram primeiro a comer ratos, folhas e raízes de plantas à medida que avançavam. Em conseqüência disso, todos começaram a sofrer de desnutrição. Ao saber disso, Chu solicitou que a carne fosse distribuída para os soldados, e suas rações foram divididas entre eles.
Após algum tempo, enfrentaram a fome novamente. Era muito triste o fato de pessoas que pareciam um pouco saudáveis na noite anterior serem encontradas mortas no dia seguinte. Chu mandou imediatamente que seu assistente distribuísse a farinha de cevada. Mas o assistente não se preocupou em fazer com que todos recebessem uma porção. Quando Chu o repreendeu por não ter seguido suas instruções, o assistente protestou, dizEndo: “Se eu seguisse suas ordens, o que o senhor teria para comer?” O premiê Chu se aproximou e, olhando bem no rosto do soldado, disse: “É por causa de todas essas pessoas que eu estou aqui. Se a vida de mais uma pessoa for salva, a justiça da revolução será demonstrada com ainda mais segurança. Peço-lhe que faça como eu disse.” Sem nenhuma alternativa, o assistente distribuiu as rações restantes entre todos os soldados. Por sorte, o grupo encontrou enfim um vilarejo quatro ou cinco dias depois.
É isso o que significa ser líder. É isso o que significa realmente estimar os companheiros. Os laços entre as pessoas que estão unidas por um mesmo objetivo são muito mais profundos do que os laços entre pai e filho ou entre irmãos. Não são laços de sangue, mas sim de justiça — de pessoas que lutam lado a lado para concretizar uma mesma meta. Cultivar e manter esses laços é uma prova de humanidade.
Os líderes existem unicamente por causa das pessoas que lideram. Um líder de verdade é aquele que toma a iniciativa e devota-se abnegadamente para alcançar algum objetivo. No entanto, há no mundo muitos “líderes” que usam as pessoas para conquistar seus objetivos particulares. A SGI existe para combater essas tendências malignas. Sem se opor aos “inimigos do povo” não se pode atingir o estado de Buda. Sem combater o “grande mal”, sem confrontar diretamente o “inimigo do budismo”, o Kossen-rufu não pode ser alcançado. Assim como Daishonin declarou com rigor, “deve-se abandonar todas as outras questões e devotar-se a combater a calúnia contra a Lei”. (MW, vol. 5, pág. 103.)
Saito: Entre os muitos tipos de calúnia, a ofensa de caluniar o devoto do Sutra de Lótus é particularmente grave. Consta no Sutra de Lótus que a ofensa de caluniar o devoto do Sutra de Lótus na época após o falecimento de Sakyamuni é muito maior do que a ofensa de caluniar o Buda continuamente durante um kalpa inteiro.
A ofensa de caluniar uma “pessoa comum” dedicada à prática do sutra é ainda maior que a ofensa de caluniar o Buda que prega a Lei. Isso pode parecer um tanto estranho, pois é impossível entender sem a compreensão de que são as pessoas comuns nos Últimos Dias da Lei que propagam diretamente a Lei Mística, a fonte maior para a iluminação de todas as pessoas.
Pres. Ikeda: É isso mesmo. Naturalmente, embora ao dizer devoto do Sutra de Lótus esteja se referindo especificamente a Nitiren Daishonin, nós que o seguimos somos da mesma forma devotos do Sutra de Lótus, e estamos vivendo da forma mais nobre.
O presidente Toda disse:
“Eu declaro que os grandes defensores do Chakubuku que realizarão o trabalho de Daishonin aparecerão agora sem falha... Em kuon ganjo, esses grandes defensores da propagação são os budas da absoluta liberdade que incorporam a unicidade de pai e filho; na parte intermediária da Assembléia no Pico da Águia, eles estão posicionados ao lado do Bodhisattva Práticas Superiores como seus assistentes; e no período mais próximo, durante a vida de Daishonin, eram sem dúvida as pessoas que fizeram o profundo voto de mestre e discípulo. Estou firmemente convicto de que essas pessoas colocarão em prática em sua própria vida a profecia de Daishonin. Elas prometeram com firmeza fazer com que o Buda Original dotado das três virtudes de soberano, mestre e pais não se torne um buda cujas profecias não sejam concretizadas; e eles com certeza vão se empenhar na prática com o espírito de não poupar a própria vida.
“O fato de a Soka Gakkai ter surgido nesta época [setecentos anos após o falecimento de Daishonin] é motivo de grande alegria!”
Não existe modo de vida mais honrado e de maior bem como esse.
Chegou a época dos Bodhisattvas da Terra!
Endo: Como membros da SGI, cada um de nós nasceu com uma enorme missão. O capítulo “Os Poderes Místicos do Buda” descreve as atividades do Bodhisattva Práticas Superiores da seguinte forma:
Assim como a luz do Sol e da Lua
Podem banir toda obscuridão e tristeza,
Quando essa pessoa passa pelo mundo
Pode dissipar a escuridão dos seres vivos,
E fazer com que inumeráveis bodhisattvas
Habitem no final o veículo único.
(LS21, 276.)
O Japão e o mundo estão atualmente envoltos em uma escuridão impenetrável. Creio que, exatamente por essa razão, nossa época chegou.
Pres. Ikeda: Correto. Quanto mais profunda a escuridão, com mais radiância brilha o Budismo do Sol.
Suda: Esta é nossa oportunidade.
Pres. Ikeda: É uma chance para ajudarmos incontáveis pessoas a se tornarem realmente felizes.
O Kossen-rufu significa capacitar as pessoas a “habitarem no final o veículo único” (LS 21, 276.) e a ter fé na Lei Mística. No Ongui Kuden, Daishonin diz: “‘No final’ significa o ‘Kossen-rufu’.” (Gosho Zenshu, pág. 772.) Foi por essa razão que nós nascemos neste mundo de acordo com nosso próprio desejo. Precisamos viver com plenitude ao mesmo tempo em que lutamos para cumprir nossa missão.
Quando nosso coração arde com o espírito de “empenhar-se com coragem e vigor” (LS2, 23.), brota uma vitalidade imutável e imortal. “Com coragem e vigor” significa uma imensa coragem. “Empenhar-se” tem dois significados: puro, no sentido de imaculado; e incessante, no sentido de atividade contínua e avanço invariável. Daishonin diz: “O Nam-myoho-rengue-kyo é a prática de se “empenhar”. (Gosho Zenshu, pág. 790.)
Nunca devemos parar de lutar; os “poderes místicos do Buda manifestam-se por uma fé como essa. Daishonin diz também: “Se empenhar cem milhões de aeons num único momento da vida, as três propriedades iluminadas do Buda aparecerão a cada momento de sua vida.” (Gosho Zenshu, pág. 790.) Isso significa “empenhar cem milhões de aeons num único momento” — não apenas um ou dois anos de esforço. Isso significa exaurir a própria mente e empenhar-se com toda sinceridade pelo Kossen-rufu. Significa “praticar no mundo”. Aqueles que entram em ação na sociedade são os Bodhisattvas da Terra que receberam a transmissão do capítulo “Os Poderes Místicos do Buda”. São pessoas que, sem arrogância, trabalham incansavelmente pelo Kossen-rufu na organização que está realizando o trabalho do Buda.
Essas pessoas são mais respeitáveis do que qualquer dignitário ou celebridade. São as “emissárias do Buda” nos Últimos Dias da Lei. E elas próprias são budas.
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