BS
Ensaio
há 23 anos
Em busca da esperança
Ensaio do presidente da SGI, Daisaku Ikeda, no qual ele sintetiza os temas essenciais de sua proposta de paz divulgada em 26 de janeiro de 2003 intitulada “Uma ética global da coexistência: rumo a um paradigma universal para a nossa época”.
22/03/2003

Eles estão aflitos pelo desequilíbrio absurdo que existe entre o nosso poder de destruição e a nossa fraca capacidade ética para a empatia e o comedimento. Sentem repugnância ante a imagem bizarra de milhões de dólares voando sobre a cabeça de pessoas que subsistem com um ou dois dólares por dia. Sentem que um mundo como esse percorre, perigosamente, o caminho da destruição.
Porém, tenho a firme convicção de que esse choque de civilizações não é inevitável. Pode e deve ser evitado. Creio que as pessoas possuem recursos incalculáveis e ainda não aproveitados — entre eles a capacidade de gerar uma harmonia criativa e dinâmica a partir da diversidade, por vezes desconcertante, de nosso mundo.
A chave para isso está numa nova ética de coexistência que incentive o reconhecimento de nossa inter-relação, a consciência de que o que afeta a um dos membros da família humana afeta a todos nós. Isso, por sua vez, requer que nos concentremos nos seres humanos, que estabeleçamos um paradigma ou abordagem universal, tão abrangente quanto a própria vida.1
Quando a realidade da vida de outros é apresentada às pessoas, surgem naturalmente sentimentos de familiaridade e empatia. É por isso que a guerra e a violência sempre começam com esforços para desumanizar o “inimigo”. É por isso também que a mídia, em todos os países, descreve “nosso” sofrimento em detalhes, enquanto minimiza ou ignora a miséria imposta sobre a massa anônima que são “eles”.
Se em nossa imaginação viajarmos para as terras inimigas e acompanharmos a vida daqueles que se encontram do outro lado da tela da TV, descobriremos pessoas iguais a nós, que buscam alegrias simples como companheirismo e amor, que celebram o crescimento vigoroso dos filhos, e que oram para que seus pais desfrutem segurança e saúde.
Essa é a realidade, a teia da vida diária que a guerra, o terrorismo e todas as formas de violência destrói, deixando apenas um grande rastro de miséria pois, no final, estamos falando da morte violenta de entes queridos. Por trás de gráficos que parecem jogos de computador estão seres humanos reais, exatamente como nós, filhos, filhas, amigos, grandes amores. Prédios podem ser reconstruídos, mas as feridas e cicatrizes da violência nunca se curam de todo.
A liderança genuína no século XXI deve ser alicerçada em um sólido compromisso de proteger a preciosa teia da vida cotidiana. Os cidadãos comuns do mundo estão elevando suas vozes para pedir que todos as decisões — incluindo as políticas, militares e econômicas — sejam tomadas levando em conta essas realidades humanas. A causa comum da felicidade das pessoas é a base mais sólida para a solidariedade. Num mundo de estreita inter-relação, a solidariedade não pode ser limitada a um único grupo ou nação. Deve abraçar todas as pessoas de todos os lugares.
Estou firmemente convencido de que isso não é mero idealismo. Não creio que as diferenças reais de cultura e de perspectiva mundial sejam, necessariamente, as que nos separam de forma definitiva. Esse paradigma universal possui, ao mesmo tempo, uma perspectiva cósmica. Quando realmente nos centramos no ser humano, conseguimos enxergar que cada pessoa manifesta aspectos únicos e singulares de um universo de possibilidades humanas — de um modo inestimável e insubstituível. O mesmo pode ser dito de cada cultura ou tradição. Cada qual é uma “onda” brilhante que se agita nas profundezas oceânicas de nossa humanidade comum.
A paz não se concretiza com uma espera passiva. Deve ser trabalhada com energia e concentração. A “arma” mais poderosa daqueles que desejam criar a paz é o diálogo, a recusa em abandonar a capacidade da linguagem, que é o que nos faz humanos. O diálogo e a comunicação — seja qual for o resultado imediato — são em si um ato de fé em nossa humanidade. É essa fé que devemos nos empenhar incessantemente para fortalecer e reafirmar. A luta para compreender e ser compreendido requer que cada um de nós retorne à fonte mais profunda de nossa humanidade, além das diferenças históricas, culturais e de crença.
Pois é nisso — e nas aspirações serenas de nossa vida cotidiana — que encontraremos respostas para os desafios atemorizadores que se colocam diante de nós.
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