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Ensaio
há 22 anos

A missão do Instituto de Filosofia Oriental

O Resplendor do Século da Humanidade (7)

14/08/2004

A missão do Instituto de Filosofia Oriental

Por Shin-iti Yamamoto1

Qual é a força mais poderosa que existe no mundo? É o poder das idéias. Foi com base nisso que o escritor francês Victor Hugo (1802–1885) declarou: “Vamos ter uma troca de idéias em vez de tiros.”2 Ele também escreveu as seguintes palavras: “São as idéias, e não as locomotivas, que movimentam o mundo”;3 e “Quem quer ser conquistado pela espada? Ninguém... Quem quer ser conquistado pelas idéias? Todos.”4 As “idéias” podem parecer algo abstrato ou intelectual, mas são realmente uma forma de ver as coisas, de observar o mundo. As idéias e filosofias podem não ser objetos tangíveis, mas influenciam e até mesmo controlam as ações das pessoas e determinam o destino das sociedades. Por causa disso, elas têm um enorme poder.

Quatro de fevereiro é o Dia do Instituto de Filosofia Oriental (IOP, sigla em inglês). Este ano se comemora o 42o aniversário de fundação desse instituto filiado à Soka Gakkai. O Grande Mestre Tient’ai escreveu que, após 42 anos de preparo, o Buda Sakyamuni ensinou o Sutra de Lótus durante oito anos. Da mesma forma, após 42 anos de conquistas reconhecidas tanto no Japão como no exterior, chegou a hora de o IOP fazer suas maiores contribuições — cumprir sua missão de iluminar esta era obscura, esta era que carece de uma filosofia grandiosa e inspiradora, com a brilhante luz do Sutra de Lótus.

***

Ao observar os manuscritos raros do Sutra de Lótus na exposição "O Sutra de Lótus e seu Mundo: Manuscritos Budistas do Grande Caminho da Seda" (realizada em Tóquio no ano de 1998), um famoso estudioso budista exclamou com um suspiro de alegria dizendo sentir-se muito feliz por ter vivido o bastante para ver esses textos. Ele também manifestou sua admiração pelo fato de o Instituto de Estudos Orientais da Academia de Ciências Russa (IOSRAS) ter permitido que pela primeira vez esses manuscritos fossem retirados de lá.

Eu também vi esses manuscritos. Foi uma experiência profundamente comovente. As palavras do texto pareciam vivas. Davam a impressão de que brilhavam e dançavam. Não eram apenas letras — eram a própria vida.

Nitiren Daishonin escreveu: “O Buda salva as pessoas por meio da palavra escrita” (Gosho Zenshu (GZ), pág. 153.) e “As pessoas que lêem o Sutra de Lótus não devem considerá-lo apenas como simples palavras escritas, pois essas palavras são o próprio pensamento do Buda”. (The Writings of Nichiren Daishonin [WND], pág. 86.) Cada palavra de cada cópia manuscrita do Sutra de Lótus guarda a sincera oração daquele que a transcreveu para transmitir o intento do Buda.

O Sutra de Lótus é o rei dos sutras. Ele dava esperança às pessoas que viajavam pelo Caminho da Seda, incitando-as a viver plenamente e declarando que poderiam mudar seu destino.

Por que somos derrotados pelo sofrimento? Porque não estamos cientes de que somos budas! O Sutra de Lótus nos desperta para essa verdade.

“Todos nós somos originalmente budas” — que emocionante mensagem! Incontáveis budistas venceram picos nevados, cruzaram desertos escaldantes e combateram em inumeráveis e assustadoras batalhas para transmitir essa mensagem ao coração de multidões.

Penso na batalha que o IOSRAS empreende. O Centro russo de nosso IOP encontra-se no mesmo local. O IOSRAS tem uma história de grande dedicação na proteção de muitos manuscritos budistas antigos e preciosos, incluindo o Sutra de Lótus. Fiquei muito comovido com o “espírito de luta” do instituto. Que exemplo inspirador seus funcionários oferecem!

Durante a Segunda Guerra Mundial, as forças nazistas alemãs lançaram um feroz ataque em Leningrado (atual São Petersburgo). Declarando que iriam acabar com o último vestígio da cidade, eles fizeram um cerco de novecentos dias — dois anos e meio. Mas essa cidade heróica sobreviveu.

Nós também combatemos as forças malévolas que estavam determinadas a apagar a Soka Gakkai da face da Terra.

O feroz bombardeio das forças alemãs abalaram as paredes do instituto. Os funcionários enfrentaram a destruição, a escuridão, um frio intenso, fome, a doença dos familiares e a morte dos amigos, e no entanto se recusavam a desistir. Estavam determinados a proteger o inestimável legado do instituto, o qual havia sobrevivido a incontáveis séculos, para as futuras gerações. Deram continuidade ao seu trabalho de pesquisa, derretendo a tinta congelada com a própria respiração e escrevendo com os dedos enrijecidos pelo frio. Ficando cada vez mais fracos, alguns deles morreram sobre a escrivaninha, ainda segurando a caneta na mão. Estavam totalmente comprometidos em continuar com a pesquisa e em escrever como se sua vida dependesse disso.

Era uma luta entre os guardas da civilização humana e as bárbaras forças da guerra. Era uma batalha pela civilização. Foi uma decisiva luta de vida ou morte pela dignidade e pelo valor da vida humana. Os funcionários não pensavam em sua própria vida. Praticavam a abnegação, ideal do pensamento oriental. Conforme o antigo sábio chinês taoísta Chuang-tzu [Zhuangzi] escreveu: “O Grande Homem é abnegado.” O Sutra de Lótus declara: “Não nos preocupamos com nosso corpo nem com nossa vida / mas ficamos ansiosos apenas com o modo inigualado.” (LS13, págs. 194–195). Os povos realmente cultos e civilizados não vivem com base no calculado interesse próprio. A cultura e a civilização são uma luta espiritual contra a autoridade, a exploração econômica, a hierarquia e a dominação.

Mas mesmo quando Daishonin estava decididamente engajado em uma batalha espiritual de vida ou morte, alguns de seus discípulos estavam mais preocupados com a fama e a aprovação social — por exemplo, o discípulo-

sacerdote Sammi-bo, que diante dos nobres de Quioto proferia sermões todo pomposos enquanto em seu coração desdenhava de Daishonin. Ele é um exemplo da autodestruição causada com a bajulação da autoridade e do poder visando a uma glória vã e vazia.

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Fundei o IOP com o desejo de que ele se tornasse um vencedor na batalha das idéias. Em janeiro de 1961, um ano após ter assumido a presidência da Soka Gakkai, embarquei em uma viagem pelos países asiáticos. Conforme visitava Hong Kong, Ceilão (atual Sri Lanka), Índia, Burma (atual Mianmá), Tailândia e Camboja, pensava constantemente em como poderíamos realizar a transmissão do budismo para o oeste da qual Daishonin havia falado. Imaginava como poderia corresponder às palavras de meu mestre Jossei Toda, que me disse: “Eu lhe confio o Kossen-rufu da Ásia.”

Sabia que uma aproximação egoísta e hipócrita nunca seria bem-sucedida.

Além disso, quando uma ideologia está errada pode ter resultados trágicos. A terrível Campanha de Imphal — o brutal ataque do exército japonês em Burma durante a Segunda Guerra Mundial — é um exemplo. Meu irmão mais velho perdeu a vida nessa campanha; ou melhor, ele foi forçado a morrer na guerra, pois foi sacrificado para a falsa e desumana ideologia do ultranacionalismo.

Eu acreditava firmemente que a propagação da filosofia do supremo valor da vida, que é a essência do Sutra de Lótus, era fundamental para a criação de um mundo sem guerra. Mas os ensinos de Daishonin, apresentados de forma direta, não eram logo compreendidos e apreciados pelas pessoas. Apenas na Ásia, a maioria das pessoas de alguns países eram seguidoras da tradição do budismo do sul; em outros países, predominavam os seguidores do islamismo. E cada país possui sua própria cultura, estrutura social e sistema político. Sem o reconhecimento apropriado da legitimidade de sua essência, não poderia haver nenhum diálogo.

Certo dia, quando estava em Bodhgaya, na Índia, local onde se acredita que Sakyamuni tenha atingido a iluminação, fiz a seguinte determinação: “Precisamos de uma organização que estude o Oriente e a cultura e o pensamento mundiais segundo uma variedade de perspectivas. O estudo acadêmico e a pesquisa intelectual são o lugar-comum onde toda a humanidade pode se encontrar e interagir. Podemos buscar o diálogo tolerante e aberto nesse lugar-comum. Vamos nos engajar num diálogo entre as civilizações e as religiões que seja aceito por todos. O Sutra de Lótus é chamado de o rei dos sutras porque abraça a tudo.”

O céu sobre Bodhgaya era de um azul transparente e parecia brilhar com a vasta promessa do futuro. Naquele momento, uma passagem do Registro dos Ensinos Orais (Ongui Kuden) relampejou em minha mente: “É graças à proteção do Bodhisattva Mérito Universal [que representa a função da sabedoria universal] que a ampla transmissão deste sutra para o oeste será concretizada.” (GZ, pág. 780.) O Bodhisattva Mérito Universal é o bodhisattva que promete proteger o devoto do Sutra de Lotus com a própria vida.

E foi então que no ano de 1962 o IOP (então chamado de Instituto de Ciências Orientais) foi fundado. No ano seguinte (1963), fundei um “lugar-comum” musical, a Associação de Concertos Min-On. Se o IOP é a incorporação do Bodhisattva Mérito Universal, a Min-On é a incorporação do Bodhisattva Som Maravilhoso. Também dei os primeiros passos no campo da educação e do governo. Um turbilhão de pensamentos soprava com força dentro de minha mente.

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O IOP relaciona-se atualmente com institutos de pesquisa e organizações acadêmicas do mundo todo. Tem filiais no Reino Unido, na Índia, em Hong Kong e na Rússia e conquistou reconhecimento internacional com a publicação dos manuscritos do Sutra de Lótus. Tudo isso se deve ao apoio de inumeráveis pessoas por quem eu, como fundador do instituto, sinto-me profundamente grato.

O periódico do IOP, Journal of Oriental Studies, lançou seu 151o volume. O Journal publicou, em 1977, um diálogo entre o estudioso da filosofia grega Michitaro Tanaka (1902–1985) e Shigeki Kaizuka (1904–1987), especialista em filosofia asiática. Esse diálogo foi intitulado Dialogue on the East and the West (Diálogo sobre o Oriente e o Ocidente).5 Os participantes concluíram seu diálogo observando que o maior defeito dos líderes do Japão era que eles não liam mais; apesar de que até o século XIX o que predominava nas salas de aula do Japão era a ampla leitura, isso já não acontece mais, lamentaram eles.

Ambos observaram que uma vez que os líderes da política e dos negócios não liam os clássicos, que estimulam a filosofia pessoal com relação à humanidade e ao mundo, eles haviam se tornado pessoas superficiais e irrefletidas. Quando os líderes carecem de filosofia, tanto o governo como os negócios ficam fadados à estagnação. Os líderes não precisam apenas saber como reagir aos acontecimentos; eles necessitam também de uma base filosófica fundamental que lhes proporcione uma sólida visão da vida.

Dois importantes pesquisadores do cérebro humano e da mente declararam que a maneira como a pessoa considera os seres humanos — seja como “filhos de Deus”, “instrumentos de produção”, “matéria em movimento” ou “espécies de primatas” — tem um dramático efeito no governo, na cultura e na vida diária.6 Assim, devemos nos preocupar com algo mais além do desenvolvimento econômico. O crescimento espiritual é crucial. É preciso um grande aumento na sabedoria para se equiparar ao notável aumento na informação que tem caracterizado nossa época.

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Há várias décadas, enterrei em Bodhgaya, na Índia, uma placa de pedra dedicada ao Kossen-rufu da Ásia. Apesar de isso ter ocorrido no dia 4 de fevereiro de 1961, deixei gravado na placa a data de “28 de Janeiro do 709o Ano7 desde o Estabelecimento do Verdadeiro Budismo” — porque foi nesse dia que eu dei início à minha jornada pelo Kossen-rufu da Ásia e também o dia em que Nitiren Daishonin proclamou seus ensinos pela primeira vez em 28 de abril de 1253.

No dia 28 de janeiro do ano passado (2003), decorridos 42 anos desde aquele dia, visitei o IOP após muito tempo e descobri que lá haviam surgido jovens talentosos de brilhante caráter e inteligência. Minha esperança é de que o IPO, objetivando seu 45o aniversário daqui a três anos e o 50o aniversário em 2012, continue a atuar na linha de frente das batalhas das idéias.

O pensamento é como uma semente. Apesar de invisíveis no inverno, quando chega a primavera as sementes têm o poder de cobrir as montanhas e os campos com seus novos e verdes rebentos.

O famoso economista John Maynard Keynes (1883–1946) concluiu uma de suas famosas obras com as seguintes palavras: “Tenho certeza de que o poder dos interesses adquiridos está sendo amplamente exagerado em comparação com a invasão gradativa das idéias. Não imediatamente, mas após um certo intervalo... As idéias... são mais poderosas do que em geral se imagina. De fato, o mundo é governado por algo mais.”8

Quais as idéias e qual o movimento que cativará e tocará o coração das pessoas no século XXI? A feroz competição pela distinção já começou. Um sistema de pensamentos pode conter uma variedade de idéias e conceitos, mas o que ela necessita acima de tudo em sua estrutura é de uma clara essência da iluminação — uma filosofia do humanismo, da paz e do caminho para a felicidade para toda a humanidade.

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