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Entrevista
há 5 anos

Ler é cultivar o futuro

Neste significativo mês em que oficialmente foi publicada em português a Proposta de Paz de 2021 do presidente da SGI, Dr. Daisaku Ikeda, Brasil Seikyo entrevista o jornalista Cícero Sandroni, responsável pela revisão da tradução do documento

13/05/2021

Ler é cultivar o futuro

Cícero Augusto Ribeiro Sandroni, ou simplesmente Cícero Sandroni, definitivamente é um homem além do seu tempo. Jornalista e escritor, em 2003, tornou-se o sexto ocupante da Cadeira no 6 da Academia Brasileira de Letras (ABL), a qual presidiu entre os anos 2008 e 2009. O reconhecimento às suas contribuições na área da literatura e da comunicação é uma maneira de fortalecer o que está explícito em suas obras: enorme talento e sensibilidade.

Ao conhecer um pouco da sua história, percebemos a paixão pelas palavras. Formado em jornalismo (comunicação social), trabalhou em importantes veículos, como Tribuna da Imprensa, Jornal do Brasil e O Globo. Também, na área de publicações, foi um dos fundadores da revista Ficção, responsável por apresentar mais de quinhentos autores em suas páginas. Ele teve ainda uma forte atua­ção no cenário político nacional.

Na literatura, Cícero Sandroni se destaca tanto na presença frequente em júris de concursos literários como na publicação de livros. Entre suas obras estão o ensaio histórico O Vidro no Brasil (1989), 50 anos de O Dia (2002), o romance O Peixe de Amarna (2003) e a biografia Carlos Heitor Cony: Quase Cony (2003). Outra obra que merece absoluto destaque é Austregésilo de Athayde, o Século de um Liberal (1998), vencedora do Prêmio José Ermínio de Moraes de 1999, da ABL. O professor Austregésilo de Athayde estreitou laços com a obra do Dr. Daisaku Ikeda, presidente da Soka Gakkai Internacional (SGI). Ao revisar a versão em português das propostas de paz desde 2018, essa aproximação se dá também com o acadêmico Cícero Sandroni, que entrevistamos nesta edição do Brasil Seikyo.

Brasil Seikyo: Em fevereiro de 1993, o Dr. Daisaku Ikeda, presidente da SGI, encontrou-se com o professor Austregésilo de Athayde, cuja principal biografia publicada no Brasil é de sua autoria. O senhor também prefaciou a edição comemorativa dos 25 anos do livro Diálogo: Direitos Humanos no Século 21, obra conjunta desses dois grandiosos homens. Qual a importância dessa interlocução hoje?

Cícero Sandroni: O livro Diálogo: Direitos Humanos no Século 21 representou o encontro das inteligências de dois pensadores que sempre lutaram pela paz e pelo apoio às populações mais pobres e oprimidas de todo o planeta. O Dr. Daisaku Ikeda prossegue em sua luta para o estabelecimento do progresso planetário dos menos favorecidos; e o jornalista e acadêmico Austregésilo de Athayde, um dos signatários da Carta dos Direitos Humanos, assinada em 1948, encontraram nesta obra conjunta uma forma de advertir os estadistas de todos os países, bem como o público em geral, sobre a necessidade de garantir a paz e resgatar as populações carentes nas áreas de saúde, educação, direito de ir e vir, alimentação e até de se entreter com suas próprias fontes culturais, em vez de se submeter às culturas imperialistas. A importância desse diálogo, com a defesa de aspirações humanísticas, se era primordial na época em que foi divulgada, hoje ampliou-se com o aumento dos arsenais nucleares de nações hegemônicas disputando entre elas seus poderes contra as mais fracas.

BS: O senhor é o responsável pela revisão da tradução em português, desde 2018, da Proposta de Paz, de autoria do Dr. Daisaku Ikeda. Qual a sua impressão ao tomar conhecimento sobre as ações e a obra literária do Dr. Ikeda?

CS: Antes de tudo, ansiamos que o Dr. Daisaku Ikeda receba o Prêmio Nobel da Paz. Mas acredito que, tal como Churchill, ele terá antes o Prêmio Nobel de Literatura. Todos sabem que sou analfabeto em japonês, porém as traduções para o inglês da obra do Dr. Ikeda me dão a impressão de um texto forte, de leitura agradável, ao mesmo tempo em excelente estilo literário. É preciso lembrar também que, além de excelente escritor de obras sobre política internacional e livros para a infância, o Dr. Ikeda é um fotógrafo que capta a essência da realidade e reproduz a beleza, em especial das flores japonesas. Quanto às obras, seria necessário escrever uma enciclopédia, acompanhada de um mapa-múndi, para descrever os trabalhos que o Dr. Ikeda vem realizando no planeta no sentido de tornar o homo sapiens mais humano em todos os aspectos.

BS: Desde o ano passado, vivemos um período crítico, no qual o isolamento social precisou ser adotado como medida de combate à pandemia ocasionada pelo coronavírus. Nesse isolamento, a leitura foi uma das maneiras que parte da população encontrou para tornar os dias um pouco mais leves. Como o senhor analisa a importância da leitura e da literatura em meio a esse cenário?

CS: A pandemia do coronavírus levou a humanidade ao isolamento — à exceção de alguns grupos que insistem em participar de festas ou, então, incentivados por ideias irresponsáveis, teimam em se aglomerar, por exemplo, nas praias ou em eventos. A ciência continua insistindo na prática do isolamento indispensável ao combate à pandemia. No centro dessa tragédia planetária, a leitura realmente ajuda uma parte da população. É preciso lembrar que a Covid-19 obrigou ao fechamento de muitas livrarias, bibliotecas, editoras e assim diminuiu, de forma assustadora, a publicação e a venda de livros no mundo. Mas, sem dúvida, os que dispõem de um bom número de livros em casa têm na leitura uma maneira de ligar-se ao prazer de ler, instruir-se e, por um lado, esquecer-se por um momento da tragédia que a humanidade vive em todos os pontos do planeta. Quanto à literatura, devo dizer que o isolamento permite que romancistas, contistas, poetas, ensaístas, memorialistas e críticos encontrem mais tempo para realizar seus trabalhos.

BS: Suas contribuições no ramo de publicações no país, tanto de notícias como literárias, são extremamente relevantes e impressionantes — condição que o habilita a traçar uma análise sobre as mudanças na área ocorridas com o passar dos anos. Considerando este novo cenário em que vivemos, quais os ganhos dos leitores com o constante avanço tecnológico?

CS: Minha contribuição à publicação de livros e de revistas literárias se deve ao fato de ter sido nos últimos quase setenta anos um jornalista que, no exercício da profissão, se dedicou como repórter, colunista e editor em jornais, revistas e na televisão a reservar espaço para a atividade literária no Brasil. Nesse sentido, editei o suplemento literário do Jornal do Brasil, lancei o mensário Rio Artes, além da revista de contos Ficção, a qual publicou escritores novos, contemporâneos e clássicos de todas as literaturas do planeta. A leitura e a literatura constituem uma tábua de salvação nesta tragédia planetária que é a Covid-19, mas também mesmo antes da pandemia e certamente depois que esta praga sanitária tiver fim. A leitura é um exercício mental que engrandece o ser humano, e a literatura na forma de ficção, poesia, ensaio e crítica é uma maneira de contar a história do ser humano; desde as marcas que o homem das cavernas deixou nas paredes do seu refúgio até a obra de James Joyce ou a poesia de Carlos Drummond de Andrade.

BS: Qual a importância da leitura para as próximas gerações? Poderia também dedicar algumas palavras sobre isso para os nossos leitores?

CS: Segundo a crítica e en­saísta de literatura infantojuvenil, Laura Sandroni, o hábito da leitura tem de ser cultivado desde a infância. E na adolescência, se garotos e garotas não leem dez livros no correr de um ano, passarão dez anos sem ler um livro. Dessa forma, a partir da leitura ou da oitiva de contos de fadas, de aventuras, serão levados ao hábito da leitura. E na vida adulta, prosseguirão com a rotina que muito ajudará na sua formação. Nesse sentido, tanto as escolas como as salas de leitura e bibliotecas poderão ajudar muito. Os programas educativos dos meios audiovisuais são fundamentais também para a formação das próximas gerações. Para os leitores deste jornal, espero que as palavras deste veterano, que dependeu delas no desempenho de seu ofício, tenha de alguma forma conseguido incentivar o hábito da leitura. Talvez seja pretensão de minha parte porque para os leitores deste jornal, tenho certeza, a leitura constitui uma rotina criativa desde sempre.

cicero

Cícero Augusto Ribeiro Sandroni. Jornalista e escritor, em 2003, tornou-se o sexto ocupante da Cadeira no 6 da Academia Brasileira de Letras (ABL), a qual presidiu entre os anos 2008 e 2009

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Ao lado do vice-presidente da SGI, Hiromasa Ikeda, Cícero Sandroni participa do lançamento da edição comemorativa do livro Diálogo: Direitos Humanos no Século 21, de autoria do presidente Ikeda e do jornalista Austregésilo de Athayde (Rio de Janeiro, 1o mar. 2018)

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