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há 3 anos
Conquiste a sua liberdade
Redação
01/03/2023

A questão da liberdade, valor universalmente almejado, é alvo de estudos e de reflexões desde a Antiguidade. Filósofos de diferentes correntes, tempos e culturas se debruçam na ciência humana para buscar respostas a indagações como “O que é a liberdade?”; “Somos de fato livres, para ir e vir, pensar, opinar, decidir?”.
Nesta edição, a proposta é mostrar como o budismo enxerga a liberdade e qual caminho ele apresenta para torná-la a força motriz de uma vida de felicidade plena, nos níveis individual e coletivo.
Fazer o que quiser, quando quiser: esse é o senso comum que permeia o imaginário das pessoas ao simples som da palavra “liberdade”. Mas, na verdade, compreender esse valor máximo das sociedades democráticas passa ao largo de concepções de uma vida sem regras, disciplina e responsabilidades:
Para boa parte da tradição filosófica, a liberdade denota a ausência de servidão e estaria ligada principalmente à vontade, ao livre-arbítrio, ao prazer de decidir. Ela seria vivenciada no interior do homem. Ou seja, liberdade é o nome que se dá ao fato de que temos autonomia para escolhemos nossos rumos.1
Mas será essa condição de livre escolha opção geral e irrestrita? Como então explicar os que vivem aprisionados por suas angústias ou padrões preestabelecidos, imersos na escuridão da ansiedade e do medo? Ou, mesmo quando temos tempo livre, nos falta vontade? Ou ainda nos momentos em que nos sentimos presos a fatores externos?
A filosofia vem buscando respostas para esses questionamentos, dando nomes para diversos tipos de liberdade. No entanto, essa tarefa não tem sido fácil para o ser humano tampouco é a busca pela liberdade possível de ser posta em prática na vida diária.
Numa sociedade cada vez mais acelerada, tensa e de valores distintos sobre o tema, a facilidade de perder-se entre liberdade e prisão tem sido realidade para muitos. Ainda assim, por trás de tudo isso reside o desejo de ser livre, que faz parte da natureza humana, e é entendido como condição imprescindível para a felicidade.
Como um ensinamento que iluminou os porões da mente humana, o budismo, desde o século 6. a.E.C., elucida as questões da vida, cuja origem remonta a busca por libertar as pessoas dos “quatro sofrimentos universais” — nascimento, envelhecimento, doença e morte. Sobre isso, encontramos:
Os quatro sofrimentos da vida são causados pelo pensamento de que a pessoa existe separada do universo, sendo possível viver de forma egocêntrica, baseada nos apegos pessoais e guiada pela indiferença em relação ao sofrimento alheio. Ao basear sua existência na vida cósmica que eternamente permeia o imenso universo, é possível transformar os quatro sofrimentos em quatro nobres virtudes do Buda — eternidade, felicidade, verdadeiro eu e pureza. A finalidade dos ensinamentos de Shakyamuni era esclarecer esse único ponto.2
Ao iluminar as questões da doença e da morte, do envelhecimento e da plenitude diante da angústia dos desafios existenciais, o budismo abre caminho para que as pessoas de diferentes épocas encontrem uma condição de liberdade interior capaz de afugentar o medo, as incertezas e construir um futuro de esperança não só para si, mas para todos os que as cercam.
Quem dedica esforços e atinge essa condição de vida é chamado buda — uma pessoa comum que despertou para a consciência de que escuridão e iluminação são lados da mesma moeda. Escuridão é prisão; iluminação, liberdade. Despertar então para o que originalmente está dentro de nós, e não fora — como sabedoria, coragem e empatia —, gera uma mudança efetiva no nosso modo de pensar e de agir. Veremos agora um exemplo prático desse processo.
Viver sem impedimentos
A Soka Gakkai surgiu em 1930 pelos esforços dos educadores Tsunesaburo Makiguchi e Josei Toda, que, à frente do seu tempo, creditaram à força da expansão do nobre propósito da transformação individual a forma efetiva de criar a paz no mundo. Um dos episódios marcantes vividos nos primórdios da Soka Gakkai completa 65 anos este mês.
Pouco mais de dez anos após o fim da Segunda Guerra Mundial, em 16 de março de 1958, o segundo presidente da Soka Gakkai, Josei Toda, reuniu 6 mil jovens para lhes transmitir seu legado de paz, em uma cerimônia no dia 16 de março. Imaginando as condições pelas quais passavam aqueles representantes, no período em que buscavam reconstruir a vida, essa atividade, conhecida como Dia do Kosen-rufu, poderia ter ficado apenas nos registros históricos. Mas não. A partir daquele marco, fileiras de jovens, tocados pela palavra do mestre, seguiram em direção ao propósito do movimento pela paz no mundo: o kosen-rufu. Se antes no coração deles existia medo do futuro, daquela data em diante passou haver esperança e convicção de vitória. Uma “liberdade espiritual” que não só mudou o rumo da vida deles, como abriu uma nova era mundial.
“Liberdade é poder” — essa é uma frase baseada nas palavras do pensador britânico John Locke. Significa a possibilidade de concretizar aquilo que pensa ou deseja. A verdadeira liberdade se encontra no poder que cada pessoa possui. Portanto, é um pensamento que focaliza o estado de vida de cada pessoa em seu interior. Quando se analisa a fundo esse pensamento, verifica-se a concordância com o budismo, que prega de forma concreta a “liberdade oriunda da transformação da vida”.3
A afirmação acima foi feita por um dos jovens presentes naquele 16 de março, Daisaku Ikeda, que mais tarde se tornaria presidente da Soka Gakkai Internacional, hoje à frente de 12 milhões de membros em 192 países e territórios. Como educador e pacifista, o Dr. Ikeda abriu as portas do diálogo, livre de preconceitos, respeitando culturas e etnias. Ele arremata: A “liberdade no íntimo do coração” não é de forma alguma um pensamento restrito à teoria.4
Essa liberdade no íntimo do coração é o que denota uma vida que, a despeito das dificuldades, assume as rédeas do seu carma e a tudo transforma:
A fé e a prática budista são para conquistar a condição de vida livre e sem impedimentos dentro da realidade de nossa existência (...). A verdadeira e eterna liberdade é conquistada ao vivermos pela Lei Mística em conformidade com ela, recitando-a e propagando-a corajosamente. Quem vive assim se torna uma pessoa que despertou para a liberdade, com sua vida resplandecendo livremente, sem obstáculos. Assim, entra na órbita da existência de liberdade, desfrutando plenamente a insuperável alegria e felicidade.5
Ir além do âmbito pessoal
A conduta exercitada na prática budista traz como referência algumas parábolas e personagens que exemplificam a força da empatia — conduta elevada, exercida por quem se livrou do egoísmo e oferece respeito máximo à pessoa diante de si.
Nichiren Daishonin menciona em diversas escrituras o bodisatva Jamais Desprezar (Fukyo), o qual é citado no capítulo 20, “Jamais Desprezar”, do Sutra do Lótus. O capítulo descreve esse personagem como alguém que reverenciava todas as pessoas com quem se encontrava com as palavras: “Eu o respeito profundamente. Não ousaria desprezá-lo nem ser arrogante, pois todos os senhores efetuarão a prática do bodisatva e seguramente atingirão o estado de buda”.6 Mesmo sendo ridicularizado, perseguido e atacado com pedras e bastões, Jamais Desprezar sempre acreditou no estado de buda existente na vida de cada pessoa. A passagem também expressa que essa conduta não deve ser exercida distante da nossa realidade. O budismo elucida a “teoria dos dez mundos”,7 ou a dinâmica da vida em movimento, que constantemente passa de experiências de impotência, sofrimento e ira para as de alegria e tranquilidade momentâneas e atinge os mais elevados sentimentos de empatia, compaixão e felicidade absoluta. Em resumo, a vida real, diária e constante, influencia diretamente nossos atos e aspirações. Por outro lado, o ensinamento budista nos aproxima da melhor compreensão dos baixos mundos que nos aprisionam e nos mostra como elevá-los:
A liberdade não se encontra em algum mundo separado, afastado da realidade da vida dos nove mundos que pode parecer aprisionada. Mesmo fugindo da realidade, a verdadeira liberdade não se encontra em algum outro lugar.
Mesmo que pense em fugir, não há como se afastar desse Universo. E mais, é impossível fugir para algum lugar fora de sua própria vida. Caso sua vida esteja amarrada pelo carma, presa pela própria fraqueza, derrotada pelos sofrimentos e atada pelas ideologias errôneas, não haverá liberdade onde quer que vá.8
A real liberdade, nessa assertiva, se encontra no fato de não buscarmos fora de nós soluções para o que nos aflige. Tudo está no âmago da nossa vida, no aqui e agora. Dessa maneira, nós nos conscientizamos da responsabilidade de darmos vida aos nossos sonhos, e de nos dedicar a aprimorar nossas habilidades e capacidades pessoais para as questões do trabalho, da saúde e da vida. Ou seja, não fugimos do mundo real, mas nos empoderamos da liberdade de, exatamente como somos, e independentemente do que a realidade apresenta, manifestar nossa melhor versão. O humanismo se apresenta como forma de viver a liberdade plena, o caminho do budista, conforme lemos na obra Diálogo sobre a Religião Humanística:
Um buda se relaciona de maneira direta com as pessoas, uma a uma, e enquanto se preocupa com os sofrimentos da existência nesse mundo real e preza cada uma delas sinceramente, atua de forma incansável e nobre, sem pausa, para guiar cada pessoa à felicidade. É precisamente nesse caminho intrépido do bodisatva que a vida do Buda resplandece.
Para que cada pessoa seja feliz, um buda pensa constantemente e emprega todas as estratégias que estão à sua disposicão. Ele mobiliza todos os dez mundos e, por isso, a condição de total liberdade do estado de buda possibilita manifestar, em qualquer momento, qualquer um dos nove mundos em determinada situação da vida.9
Ao estabelecermos nas ações do dia a dia os vetores dessa elevada condição de vida, podemos experimentar a liberdade original, desprovida de egoísmo, rancor e inseguranças. Nossa vida floresce ao mesmo tempo em que também iluminamos a vida de todos ao redor:
Às vezes, na vida, há momentos tão chocantes que não podemos falar, ou quando estamos atormentados por problemas pessoais, ou o que estamos sofrendo é tão doloroso que as palavras não podem descrever. No entanto, se tentarmos expressar e partilhar nossos sentimentos, mesmo que só um pouco, com alguém que é compreensivo e solidário, começaremos a ver um raio de luz e encontraremos um caminho. As palavras realmente têm o poder de nos fortalecer criando laços de coração a coração.10
Para uma vida que despertou para essa consciência, assim como reforça o presidente Ikeda, não há de faltar esperança. Ele encoraja:
É na condição de vida do estado de buda que se encontra a verdadeira liberdade. É uma liberdade suprema que persiste pelas três existências da vida do passado, presente e futuro. É uma condição repleta de força e sabedoria capaz de abrir um estado de vida de total liberdade, exatamente de acordo com a determinação num único momento manifestada em sua fé. A Lei Mística é a insuperável lei extraordinária capaz de concretizar a verdadeira liberdade em meio à própria realidade.11
Encontrar a própria liberdade, para o budismo, é olhar para si e, com a prática budista, enxergar dentro da própria vida o potencial ilimitado que ela possui. Além disso, é dedicar-se a evidenciar esse potencial por meio da determinação, da ação que visa vencer os próprios limites, e voar rumo aos sonhos e objetivos mais grandiosos, bem como ajudar outras pessoas nesse mesmo processo. Tudo isso tendo como norte os incentivos do Mestre e como apoio os companheiros da organização de base. É um processo profundo e, ao mesmo tempo, revelador, que produz um brilho sem igual, capaz de inspirar muitas pessoas.
Um exercício diário
Os desafios da sociedade são tantos que, às vezes, podemos nos sentir aprisionados por incertezas e desesperança. Ou, em outras vezes, nós nos perdemos entre dar conta de tarefas e driblar as circunstâncias, o que pode nos levar à sensação de perda de força diante da ansiedade. Tudo isso, por fim, nos remete a limites que, em certas ocasiões, achamos insuperáveis.
Porém, a prática budista nos oferece estímulo para reagir, nutrindo a vida de coragem e sabedoria, com as quais transformamos as condições desfavoráveis. Por essa comprovação, inspiramos outras pessoas, seja com nosso exemplo, seja pelo sincero diálogo, no exato local em que nos encontramos. Assim, expandimos as ondas de humanismo e o próprio caminho da paz, denominado kosen-rufu, um por um.
Ikeda sensei declara:
Por essa razão, se ajudarmos a criar um vínculo das pessoas com o budismo, a despeito da capacidade delas de compreender o ensinamento, possibilitaremos que um dia despertem sua natureza de buda. Quando oramos com toda a seriedade pela felicidade das demais pessoas, ratificamos tanto a nossa própria natureza de buda como a delas. Sem nos deixarmos influenciar pela reação imediata dos outros, seja negativa ou positiva, devemos continuar compartilhando o budismo com sabedoria e paciência, exatamente como fez o bodisatva Jamais Desprezar.12
Uma célebre citação do escritor alemão Johann Wolfgang von Goethe faz referência à confiança que se deposita na geração jovem: “A inspiração mútua entre os jovens traz as ações mais puras, oferece ao mundo entusiasmo e é a força que revigora”.13 Ao relembrarmos e celebrarmos o 16 de Março, Dia do Kosen-rufu, essa afirmação ressoa ainda mais o espírito do movimento Soka de respeito máximo à dignidade da vida.
Ao acreditarmos na natureza de buda existente dentro de nós e nos outros, com o sentimento de “Jamais Desprezar”, nós nos tornamos capazes de abrir as janelas do coração das pessoas ao redor, a fim de encontrarmos, juntas, formas de libertar cada uma de suas amarras e limitações — uma batalha espiritual fundamentada no diálogo para unir as pessoas, construir redes de esperança e do bem, de todos e para todos. Ikeda sensei pontua:
A nossa revolução religiosa é uma luta pela libertação do povo e do ser humano rumo à eterna liberdade da vida. A liberdade não é algo para se esperar sentado. É preciso conquistá-la por meio de luta. Para tanto, gostaria que cada pessoa se tornasse alguém capaz de dominar, antes de qualquer coisa, o seu próprio interior. Dessa forma, pode-se criar uma condição de vida livre, de felicidade, consistente do início ao fim, fazendo da determinação na fé para vencer a si própria o “início”, e de todo o resto, o “fim”.14
Liberdade, portanto, é evidenciada por meio da nossa luta diária para vencer as limitações internas e externas, e criar valor na vida, tanto na nossa e como na vida dos demais. E o Mestre ainda ressalta que esse “Humanismo é uma qualidade cada vez mais necessária. Nossa prática de respeitar os outros se tornará cada vez mais importante. As ações daqueles que acreditam na natureza de buda em si e nos outros brilhará intensamente”,15 assim como ilustrado no seguinte trecho de Canto da Estrada Aberta, de Walt Withman, que ilustra o empoderamento da consciência liberta:
A pé e de coração leve,
enveredo pela estrada aberta,
saudável, livre, o mundo
à minha frente.
(...)
A longa trilha diante de mim
me conduzindo
onde quer que eu escolha.
Daqui em diante,
não questiono a boa sorte,
a boa sorte sou eu.16
Foto: Getty Images
Notas:
1. Filosofia — O Tema da Liberdade. Disponível em: https://vestibular.uol.com.br/resumo-das-disciplinas/atualidades/filosofia-o-tema-da-liberdade.htm. Acesso em: 2 fev. 2023.
2. Brasil Seikyo, ed. 2.107, 12 nov. 2011, p. A6.
3. IKEDA, Daisaku. Flores da Felicidade. v. 2. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, 2023. p. 131.
4. Ibidem.
5. Ibidem, p. 135.
6. RDez, ed. 121, jan. 2012, p. 27.
7. Os “dez mundos” podem ser interpretados como potenciais dez estados de vida existentes em cada ser, ou seja, dez condições ou estados de vida que toda pessoa pode manifestar ou experimentar a qualquer momento. São eles: (1) mundo do inferno; (2) mundo dos espíritos famintos; (3) mundo dos animais; (4) mundo dos asura; (5) mundo dos seres humanos; (6) mundo dos seres celestiais; (7) mundo dos ouvintes da voz; (8) mundo dos que despertaram para a causa; (9) mundo dos bodisatvas; e (10) mundo dos budas.
8. IKEDA, Daisaku. Flores da Felicidade. v. 2. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, 2023. p. 132.
9. IKEDA, Daisaku; MORINAKA, Masaaki; SAITO, Katsuji. Diálogo sobre Religião Humanística. v. 2. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, 2018. p. 128.
10. Brasil Seikyo, ed. 2.133, 26 maio 2012, p. B1.
11. IKEDA, Daisaku. Flores da Felicidade. v. 2. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, 2023. p. 132.
12. Terceira Civilização, ed. 617, jan. 2020, p. 50-65.
13. GOETHE, Johann Wolfgang von. Shi to Shinjitsu [Poesia e Verdade]. Tradução: Shoho Yamasaki e Tadahiko Kawahara. Editora Ushio.
14. IKEDA, Daisaku. Flores da Felicidade. v. 2. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, 2023. p. 135
15. Terceira Civilização, ed. 436, dez. 2004, p. 18.
16. Brasil Seikyo, ed. 2.133, 26 maio 2012, p. B1.
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