JUVENTUDE-SOKA
Artigo
há 23 dias
O que você acha de recomeços?
Muitas vezes, os jovens se deparam com problemas ou imprevistos que exigem o reajuste dos rumos da vida. Como olhar para essa situação sem se abater e decidir, com coragem, o que fazer?
Redação
31/03/2026

Recomeçar não é um atraso… é mais como mudar de trilho no meio da viagem. O trem não voltou para a estação inicial; ele só encontrou uma rota mais coerente com o destino.
A gente aprende, quase sem perceber, que existe uma linha ideal: estudar, trabalhar, se relacionar e “dar certo”, tudo em certa idade. Mas isso é mais um roteiro coletivo do que uma verdade universal. A vida real não é uma linha reta; é um caminho cheio de curvas, pausas e mudanças de direção.
Continuar algo que não faz sentido pode, a princípio, parecer confortável, afinal, recomeçar significa admitir que algo não funcionou, exige lidar com o olhar dos outros e encarar novamente o desconhecido.
Quando você muda de caminho, muitas vezes parece que perdeu tempo ou ficou “atrás” de outras pessoas. Mas, na verdade, você adquiriu clareza, experiência e critério. O ponto crítico é que isso tudo não aparece em comparações superficiais.
No livro Seja a Esperança, o presidente Ikeda conta um pouco sobre seu primeiro encontro com o presidente Josei Toda, em 1947, e relata o sentimento dos jovens da época, em meio ao pós-guerra (1945). Em momentos de ruptura histórica, não são apenas as estruturas políticas ou sociais que se transformam, mas também as bases internas que sustentam o pensamento e a identidade de uma geração. O trecho a seguir ilustra o impacto desse colapso de sentidos:
Com a mobilização de seus serviços e o trabalho durante a guerra, os jovens sentiam agora a necessidade de preencher o vazio de suas mentes. A maioria dos mais velhos ainda estava num estado de letargia por conta do violento choque da derrota na guerra, mas os jovens buscavam novos conhecimentos. Nossa geração, que desde a tenra idade tinha sido doutrinada para o nacionalismo tendo o imperador como um ser absoluto, descobriu que tudo tinha se transformado em um grande vazio. Contudo, ainda tínhamos um ardente desejo e disposição para recomeçar.1
O período pós-guerra foi marcado por profundas transformações sociais e psicológicas, especialmente entre os jovens que haviam sido intensamente influenciados por ideologias nacionalistas e que, subitamente, perderam o sentido e as referências. Apesar dos horrores e da violência da guerra, muitos jovens civis tinham o desejo de recomeçar a vida.
Apesar do exemplo um pouco drástico do pós-guerra, nós brasileiros vivemos impasses, escolhas difíceis e conflitos cotidianos que, à sua maneira, também desestruturam certezas e nos colocam diante da necessidade de recomeçar. Seja no fim de um relacionamento, na mudança de carreira, na frustração com expectativas não atendidas ou na simples percepção de que o caminho escolhido já não faz mais sentido, somos frequentemente confrontados com pequenos “colapsos” internos. Nesses momentos, aquilo que antes parecia sólido perde a forma e um certo vazio se instala – não muito diferente, em escala individual, do que uma geração inteira pode sentir após uma grande ruptura histórica.
É justamente nesse espaço de incerteza que nasce a possibilidade de reconstrução. Recomeçar, nesse contexto, não significa apagar o passado ou negar os erros, mas reconhecer que eles fazem parte do processo de amadurecimento. Cada escolha revista e cada caminho redirecionado carregam consigo um aprendizado que não existiria sem a experiência anterior.
Por isso, recomeçar exige não apenas coragem, mas também humildade. Coragem para abandonar aquilo que já não sustenta mais quem nos tornamos, e humildade para aceitar que ainda estamos em construção. Ao contrário do que muitas vezes se pensa, não há atraso em mudar de direção. Há, sim, consciência. E é justamente essa consciência, adquirida ao longo das tentativas, dúvidas e recomeços, que nos permite seguir de forma mais autêntica e alinhada com quem realmente somos.
Assim como os jovens do pós-guerra encontraram, em meio ao vazio, um desejo ardente de reconstruir suas vidas, também nós, em nossos próprios contextos, podemos transformar momentos de ruptura em pontos de partida. Diante das dificuldades, muitas vezes nos sentimos paralisados. É justamente nesses momentos que a prática pode se tornar um ponto de apoio. Nesse sentido, o trecho a seguir traz uma orientação clara sobre como agir:
Quando estiverem sofrendo, recitem daimoku. Quando acharem que estão presos num beco sem saída, recitem daimoku. Se assim o fizerem, a energia vital e a coragem surgirão, e vocês serão capazes de transformar sua situação. Nossa prática budista é o motor para a vitória em todas as esferas da vida.2
E, em outra orientação, o presidente Ikeda incentiva:
Mesmo quando estão frustrados ou desencorajados, se recitarem Nam-myoho-renge-kyo com uma nova determinação, poderão recomeçar com um novo frescor. O espírito de nunca ser derrotado é o espírito da Soka Gakkai!3
Recomeçar não significa esquecer o passado, mas sim usar a experiência vivida para escrever um futuro melhor, com mais consciência e maturidade. Mudar de rota, seja na vida pessoal ou profissional, é um sinal de que você amadureceu e entende que ficar parado pode custar mais caro do que reiniciar.
Notas:
1. IKEDA, Daisaku. Seja a Esperança. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, 2024, p. 107.
2. IKEDA, Daisaku. Sabedoria para Criar a Felicidade e a Paz. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, v.1, p. 242-243, 2024.
3. RDez, ed. 251, 1º nov. 2022, p. 4.
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