BS
Budismo Fácil
há 11 anos
A lei que rege o Universo
Nesta matéria, BS aborda um tema recorrente àqueles que iniciam a prática do Budimo de Nichiren Daishonin. Conheça o ponto de vista do budismo sobre Deus
08/08/2015

O poeta português Fernando Pessoa faz alusão a Deus não como o ser criador, mas o que se manifesta em todas as coisas e formas de vida, assim como escrito em seu poema O Guardador de Rebanhos:
Não acredito em Deus
porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu
acreditasse nele,
Sem dúvida que viria a
falar comigo
E entraria pela minha
porta dentro,
Dizendo-me Aqui estou!
...
Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e o sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a
toda hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.
Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para
eu o ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.
Num dos escritos do buda Nichiren Daishonin consta: “Todos os fenômenos do universo, isto é, o nascer e o pôr do sol e da lua, fluxo e refluxo da maré, o curvar das árvores diante do vento à luz da Lei Mística, nos seus aspectos reais são ações do Myoho-renge-kyo” (As Escrituras de Nitiren Daishonin, v. 1).
Toda a energia do universo, que é representada pelas religiões monoteístas como a força divina, é identificada como a Lei Mística no budismo, que se manifesta em todos os fenômenos, entre eles a natureza, assim como dito pelo poeta português.
Ser livre e independente
No livro Valores Humanos num Mundo em Mutação, o líder da SGI, Dr. Daisaku Ikeda, comenta: “As tradições judaico-cristã e islâmica postulam um deus antropomórfico e absoluto como última instância ao qual é subserviente todo o universo e que exibe os mesmos tipos de emoções que os seres humanos. Em contraste, o budismo baseia-se na crença em uma lei saturante, universal, abstrata e pura. A lei nem recompensa nem castiga da mesma maneira que o Deus judaico-cristão. Os seres humanos vivem em melhor ou em pior situação conforme a observem ou não. Além do mais, é acessível igualmente a todos e não tem um chamado ‘povo eleito’ por quem manifeste preferência nem acena com uma terra prometida específica” (Ed. Record, p. 19).
Essa lei pura e universal, comentada pelo presidente Ikeda foi identificada pelo Buda Nichiren Daishonin como Nam-myoho-renge-kyo e está presente em tudo. Toda forma de vida é manifestação dessa lei universal — ela (a Lei) capacita a pessoa a evidenciar suas potencialidades e sua máxima sabedoria que é manifestada pelo daimoku.
O budismo provê uma forma de viver livre e independente, sem a clausura do destino e a sensação de sermos constantemente observados e julgados — é justamente essa diferença no modo de compreender o conceito de Deus que faz com que o budismo possibilite a todos, sem exceção, serem absolutamente felizes.
Responsável pelo destino
A subserviência à força divina conduz as pessoas a aceitar a vida como ela é, tornando o indivíduo passivo diante dos fatos. Contudo, quando se recita Nam-myoho-renge-kyo diante do Gohonzon evidencia-se todo o potencial e força inerente tornando a pessoa responsável pelo seu destino.
Na série “Sabedoria do Sutra de Lótus — Diálogo sobre a Religião no Século XXI”, o presidente Ikeda afirma: “O budismo é um sistema de educação da vida em que o ser humano passa a evidenciar sua sabedoria inata e, por meio dela, busca uma vida elevada, passando a viver livre do medo do castigo de uma força superior ou de ser infeliz. O budismo ensina a condição de viver bem o dia a dia por meio de um comportamento adequado ao ritmo do universo. Por que o tripé fundamental da Soka Gakkai é a paz, a cultura e a educação? Porque a educação que assimilamos pela filosofia budista é a forma mais elevada de educação de um ser humano. A cultura que propagamos é a que proporciona o intercâmbio entre as pessoas para promover a paz. A Soka Gakkai é, portanto, uma escola da vida que torna esse budismo vivo e pulsante, deixando de ser uma religião pela religião. É a religião para o ser humano (Terceira Civilização, ed. 396, ago. 2001. p. 7).
Convicção na Lei Mística
Toda a teoria desenvolvida e relevada pelo buda Nichiren Daishonin é a forma lógica para compreendermos a dinâmica da vida. As revelações científicas, filosóficas e espirituais comprovam sempre a verdade exposta no budismo — a absoluta certeza de que tudo pode ser superado com a convicção na Lei Mística.
Depoimento
Antonio Nakamura, vice-presidente da BSGI
Iniciei a prática do Budismo de Nichiren Daishonin aos 23 anos. Antes, seguia o catolicismo, pois morava no interior do Paraná, onde predominava a religião católica. Aos 11 anos, perdi minha mãe, e isso fez com que eu fosse fortemente induzido a frequentar a igreja e rezar para compreender a vida e a morte. Por morar e trabalhar na zona rural, estudava à noite e normalmente caminhava sozinho pela estrada sem iluminação. O medo do escuro e da solidão fez-me apegar a Deus, de quem esperava proteção e alívio.
Mudei para São Paulo, com o objetivo de trabalhar e cursar faculdade. Próximo de casa morava uma família budista. Depois de vários convites, participei na reunião de palestra, que, confesso, não me atraiu de imediato pela controvertida questão sobre o que eu acreditava. No entanto, ao participar de outras atividades e iniciar a recitação do Nam-myoho-renge-kyo (daimoku), algo muito forte começou a mudar em meu íntimo, embora soubesse que persistia aquela sensação de “estar traindo o Deus” a quem devotava.
Com o tempo, entre a recitação do gongyo e daimoku e a participação nas reuniões, notei que um sentimento de liberdade começava a se manifestar. De fato, ao analisar o porquê do medo, do receio de “estar pecando”, percebi que tudo era consequência do próprio ensinamento cristão sobre punição. Aos poucos, o sentimento de culpa foi substituído por uma alegria imensa — minha mente se tornava clara.
Compreendi que o “Deus” que eu buscava fora se encontrava em mim mesmo, no meu interior. O estudo sobre a Lei Mística possibilitou-me entender que a vida é a própria manifestação dessa Lei e, assim, com a recitação do Nam-myoho-renge-kyo, ela se evidencia cada vez mais como uma luz de sabedoria e imensa gratidão natural a tudo.
Uma frase atribuída a Carl Jung (1875—1961), psiquiatra suíço, diz: “Quem olha para fora, sonha. Quem olha para dentro, desperta”. Enquanto eu procurava Deus lá fora, vivia na ilusão. Despertei-me para a realidade da vida quando senti que toda energia do universo, que muitos tentaram identificar como a força divina, encontrava-se em mim e podia fazê-la emergir com a recitação do daimoku.
No estudo da origem das diversas religiões, deparamo-nos com um ponto comum de que os seres sempre buscam o retorno à sua origem. Daí o termo “religião”, do latim religare, que significa religar-se a uma entidade.
Para o budismo, a energia cósmica do universo é essa força, que naturalmente se manifesta quando e onde há um ambiente favorável. Essa energia, ou essência da vida do universo, é que chamamos de Nam-myoho-renge-kyo. Dessa forma, recitar o daimoku corresponde também a “religar-se” à energia original da qual todos os seres vivos são oriundos. E mais, Nichiren Daishonin é conhecido como buda original, porque revelou a Lei original, que governa todos os fenômenos da vida, dos seres vivos e do próprio universo.
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