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ABC do Budismo
há 8 horas

Ter um juramento no coração

Vamos entender o tema do mês com o escrito de Nichiren Daishonin

Redação

28/04/2026

Ter um juramento no coração

Nome do escrito: O Portal do Dragão

Data em que foi escrito: décimo primeiro mês de 1279

Quem recebeu a carta: endereçada a Nanjo Tokimitsu

Trecho do escrito:

Meu desejo é que todos os meus discípulos façam um grande juramento. (CEND, v.II, p.268).

***
A história por trás do Gosho

Escrita no décimo primeiro mês de 1279, essa carta foi destinada a Nanjo Tokimitsu, um discípulo de grande importância na província de Suruga. Seguindo os passos de seu pai, ele reconhecia Nichiren Daishonin como seu mestre e praticava a fé sob a orientação de Nikko Shonin. Na época em que recebeu a carta, Tokimitsu já havia amadurecido e assumido um papel de liderança entre os praticantes da região.

Naquele período, a propagação dos ensinamentos avançava rapidamente em Suruga, o que despertou a oposição de autoridades locais. O vice-sacerdote do templo Ryusen-ji, situado na vila de Atsuhara, passou a perseguir os seguidores de Daishonin. Como resultado, vinte agricultores foram presos injustamente, e três deles acabaram sendo executados. Em meio a esse cenário de perseguição severa, Tokimitsu demonstrou coragem ao colocar sua própria vida em risco para proteger seus companheiros de fé.

O Portal do Dragão

Nichiren Daishonin no início da carta utiliza a história do Portão do Dragão para ilustrar o quanto é difícil a caminhada para se atingir o estado de Buda:

Na China existe uma catarata conhecida como Portal do Dragão. Suas águas precipitam de uma altura de trinta metros, mais velozes que a flecha disparada por um robusto arqueiro. Dizem que inúmeras carpas se reúnem na base da catarata na esperança de subi-la, pois aquela que tiver êxito se transformará em um dragão. No entanto, nem um único peixe em cem, mil ou dez mil consegue realizar tal façanha, mesmo ao longo de dez ou vinte anos de esforços. Algumas carpas são arrastadas pela forte correnteza, outras caem nas garras de águias, falcões, milhafres e corujas, e as demais são pegas em redes, peneiras, ou então atingidas por flechas de pescadores que ficam enfileirados nas duas margens da catarata de dez cho de largura. Tal é a dificuldade que uma carpa enfrenta para se tornar um dragão (...)1
Superar as dificuldades através do juramento

Nichiren Daishonin destaca, nessa carta, que alcançar o estado de Buda exige enfrentar inúmeros desafios e até situações extremas. Para explicar essa ideia, ele recorre à lenda chinesa da cachoeira conhecida como Portal do Dragão, além de outros episódios históricos do Japão e de Shakyamuni.

Segundo a lenda, apenas a carpa que conseguisse vencer todos os obstáculos e subir o rio contra a correnteza se transformaria em um dragão, adquirindo o poder de controlar a chuva, os trovões e as tempestades. Essa história aparece no clássico chinês O Livro da Dinastia Han Posterior e, até hoje, a expressão “escalar o Portal do Dragão” é utilizada em diversos países orientais como símbolo de superação e conquista diante de grandes dificuldades.

Com essa metáfora, Nichiren orienta Nanjo Tokimitsu de que perseverar na prática budista de forma correta, até o fim, é um caminho repleto de desafio, assim como o esforço das carpas para alcançar o topo da cachoeira. A força da correnteza, que arrasta os peixes para baixo, pode ser comparada às condições difíceis de uma era marcada pelas chamadas “cinco impurezas”,2 descritas no Sutra de Lótus. Já os perigos representados pelas aves de rapina e pelos pescadores simbolizam os diversos obstáculos e influências negativas que surgem para tentar impedir as pessoas de alcançar o estado de Buda.

O presidente Ikeda em sua explanação afirma:3

Na carta, Nichiren Daishonin proclama: “Meu desejo é que todos os meus discípulos façam um grande juramento” (CEND, v. II, p. 269). Esse “grande juramento” é o juramento do Buda — a realização do kosen-rufu —, conforme explica: “O ‘grande juramento’ refere-se à propagação do Sutra de Lótus” .4

Assim como Shakyamuni, Nichiren Daishonin, Tsunesaburu Makiguchi, Josei Toda, Ikeda sensei expressou seu compromisso e juramento com o kosen-rufu e em suas palavras afirmou seu profundo objetivo em relação ao futuro, às crianças e aos jovens:

Meu desejo mais ardente e o objetivo que estou desafiando ao máximo é possibilitar a cada pessoa — especialmente aos jovens — desfrutar e irradiar a alegria profunda e absoluta que advém da nossa dedicação ao grande juramento do kosen-rufu.5

Considerando a complexidade de perseverar em meio a tantas adversidades e problemas, torna-se importante compreender o que fortalece essa caminhada — a fé na Lei Mística e a compartilhamento do budismo com as outras pessoas:

Precisamente por ser tão difícil manter a fé na Lei Mística numa era assim, os laços de mestre e discípulo adquirem importância decisiva no Budismo. Do mesmo modo, torna-se indispensável a existência de uma comunidade harmoniosa de praticantes solidamente unidos por um mesmo propósito — denominada por Nichiren Daishonin “diferentes corpos, uma única mente”. A Soka Gakkai possui laços de mestre e discípulo com a força necessária para resistir a quaisquer adversidades. Seus membros — pessoas comuns de espírito nobre, que estão polindo a vida enquanto se dedicam à fé com o mesmo compromisso que o Mestre — mantêm firme união. Como magníficos dragões nascidos da escalada triunfante da cachoeira, incontáveis membros vivem com dignidade e convicção fortalecidas pelo desafio pessoal de dar continuidade à fé. São pessoas que superam a si mesmas.6

Diante de discípulos que enfrentavam intensas perseguições, Nichiren Daishonin destacou que a verdadeira felicidade está em dedicar a vida ao “grande juramento” de difundir o ensinamento correto, visando a felicidade de todas as pessoas — um ideal que expressa o próprio desejo do Buda. Ao nos conectarmos com esse propósito, despertamos dentro de nós uma fonte inesgotável de sabedoria e força.

Referências:
Terceira Civilização, ed. 508, 11 dez. 2010, p. 21
DAISHONIN, Nichiren. Coletânea dos Escritos de Nichiren Daishonin. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, v. 2, p. 268,2017.

Notas:
1. DAISHONIN, Nichiren. Coletânea dos Escritos de Nichiren Daishonin. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, v. 2, p. 268,2017.
2. Cinco impurezas: As impurezas da época, do desejo, dos seres vivos, da visão (ou do pensamento) e da própria vida. São mencionadas no 2º capítulo do Sutra de Lótus, “Meios”.
3. Terceira Civilização, ed. 508, 11 dez. 2010, p. 21.
4. Orally Transmitted Teachings (Registro dos Ensinamentos Transmitidos Oralmente). Tradução de Burton Watson. Tóquio: Soka Gakkai, 2004. p. 82.
5. Terceira Civilização, ed. 508, 11 dez. 2010, p. 21.
6. Ibidem.

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