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há 13 dias
Juntos, remover barreiras e fazer a vida brilhar
Redação
08/06/2026

Imagine um mundo no qual cada pessoa recebe o incentivo e o apoio de todos os membros da sociedade para que possa se desenvolver e revelar plenamente seu potencial único. Um mundo onde consiga fazer pleno uso de suas características individuais no lar, no local de trabalho e na comunidade, por meio do respeito mútuo e da igualdade.1 Incrível, não é mesmo?
Não existe paz genuína em um mundo no qual apenas alguns vivem com esperança, segurança e realização. Quando a dignidade da vida é reconhecida como valor absoluto, torna-se possível construir um ambiente em que a felicidade e a liberdade verdadeiras de cada pessoa orientem as esferas da sociedade. Como compreender, de maneira sincera em nosso coração, que exista uma conexão tão profunda entre as pessoas? Como o sofrimento de alguém tem impacto na vida do outro?
Rede da felicidade
O budismo oferece ampla compreensão dessa realidade por meio do princípio da origem dependente.2 Esse conceito explica que todos os fenômenos surgem a partir de relações interdependentes entre causas e condições. Nada existe de maneira isolada. Toda existência está conectada a vasta rede de influência mútua. Portanto, nenhum ser humano pode viver em completo isolamento; todos nós dependemos uns dos outros para existir, crescer e florescer.
Sobre esse ponto, Ikeda sensei esclarece:
Essa filosofia se opõe à ideia de rejeitar ou evitar determinadas pessoas ou grupos. O princípio da origem dependente nos incentiva a desenvolver o mais alto valor, a buscarmos uma forma para que os outros revelem seu potencial e estabeleçam laços de solidariedade entre todos.3
É possível compreender essa visão de forma ainda mais clara por meio da teia de Indra. Suspensa sobre o palácio de Indra — divindade mitológica que simboliza as forças naturais que protegem e nutrem a vida — encontra-se uma imensa rede. Em cada nó dessa rede há uma joia resplandecente. As joias refletem a imagem umas das outras, e o brilho de uma intensifica o brilho do conjunto inteiro. Nenhuma delas existe de forma isolada; todas se contêm e são contidas pelas demais.4
Essa imagem simboliza a maneira como os seres humanos estão conectados. Mesmo possuindo cada joia a própria luz, somente com o reflexo das outras é que ela pode atingir seu brilho máximo. Dessa mesma maneira, toda vida influencia incontáveis outras. Uma palavra de incentivo, ato de coragem ou gesto de compaixão ecoam muito além do que somos capazes de perceber. De modo similar, a dor, a discriminação e a exclusão sofridas por uma pessoa também afetam a sociedade.
Quando as ideias de segregação, de rejeição ou de desvalorização das diferenças tomam conta do coração das pessoas, é como se várias joias da rede fossem encobertas por uma barreira. Assim, torna-se impossível que a rede alcance a máxima luminosidade. De qualquer lado da barreira o brilho estará reduzido.
A importância da iluminação das mulheres
“Qual é o propósito da vida? É a felicidade. O objetivo do budismo e da prática da fé, também, é conquistar a felicidade.”5 A felicidade da qual falamos aqui é a manifestação de uma condição de vida inabalável, caracterizada pela sabedoria, benevolência, coragem, criatividade e energia vital ilimitadas.6 Atingir essa condição de vida é manifestar a condição de buda — a iluminação. Essa é precisamente a fonte do brilho de cada uma das preciosas joias da teia.
Em uma carta escrita a seu discípulo Horen, Nichiren Daishonin explica:
O Sutra do Lótus oferece um meio secreto para conduzir todos os seres vivos ao estado de buda. Ele conduz à iluminação a pessoa que está no mundo do inferno, a pessoa que está no mundo dos espíritos famintos e, por conseguinte, a pessoa que se encontra em cada um dos nove mundos da existência. A situação é como os nós de um bambu: se um nó for rompido, todos os demais se quebrarão.7
Todas as pessoas, independentemente de sua condição de vida, possuem a capacidade de atingir o estado de buda. Não importa quão difíceis sejam as circunstâncias. Esse potencial existe acima de quaisquer diferenças — de origem, gênero, idade, orientação sexual, religião, posicionamento político etc.
Quando passamos a enxergar que a pessoa tem o potencial de buda, entendemos que compartilhamos esse ponto essencial em comum. Quanto mais pessoas despertarem para essa condição de vida, mais a felicidade iluminará a sociedade e conduzirá a humanidade em direção à paz. “Tudo começa com um único indivíduo. Somente quando conseguirmos habilitar quem está bem diante de nós a atingir o estado de buda, será possível fazer o mesmo com todas as pessoas.”8
Dentro dessa perspectiva, a questão da iluminação das mulheres ocupa papel significativo. Ao longo da história, elas foram privadas frequentemente do reconhecimento do potencial e da dignidade da vida que todo ser humano possui. Porém, o Budismo de Nichiren Daishonin apresenta, em sua base filosófica, o entendimento sobre essa igualdade entre as pessoas. Em um diálogo, o presidente Ikeda explica:
O Sutra do Lótus ensina o caminho da iluminação universal, um conceito ilustrado pela história da filha do rei dragão. Em determinado momento, a menina-dragão enfrenta Shariputra, um dos principais discípulos do Buda, que não acreditava que a menina-dragão pudesse atingir o estado de buda. Demonstrando arrogância, ele se recusou a aceitar a ideia de que uma mulher poderia atingir a iluminação. Mas, para provar seu ponto sobre a iluminação universal, a filha do rei dragão diz ao arrogante Shariputra que a observe atingir o estado de buda, e assim o fez diante dos olhos dele. Nichiren Daishonin declara: “Shariputra pensa que ela se refere exclusivamente à própria iluminação, mas isso é um erro. Ela o está refutando e dizendo: ‘Observe como uma pessoa atinge o estado de buda’”. Em outras palavras, ela estava sugerindo que Shariputra deveria ver na iluminação dela a iluminação dele, bem como a iluminação de todas as pessoas.9
Podemos ver essa compreensão nos laços de sólida confiança estabelecidos entre Nichiren Daishonin e suas discípulas.10 A história dessas mulheres ficou registrada nas cartas de Daishonin. Até hoje, essas mulheres são exemplos extraordinários de coragem e de fé. Umas delas, Nichigen-nyo, permaneceu inabalável diante das perseguições sofridas pelos praticantes do budismo. Então, tocado pela determinação de Nichigen-nyo, Daishonin escreveu que parecia que o próprio buda Shakyamuni havia entrado no coração dela. Essa afirmação demonstra o respeito de Daishonin pelas mulheres que enfrentavam dificuldades sem abandonar sua humanidade nem sua esperança.
Outro exemplo marcante é o da monja leiga Ueno. Ela sofreu com sucessivas tragédias pessoais, incluindo a morte do marido e do filho mais novo, além das severas circunstâncias da Perseguição de Atsuhara. Apesar de tudo isso, sustentou sua fé e sua dignidade. Daishonin a encorajou afirmando que aqueles que abraçam o Sutra do Lótus podem transformar até o inferno de incessantes sofrimentos na Terra da Luz Tranquila.
Assim como na teia de Indra, o brilho dessas mulheres ultrapassou a vida delas e alcançou inúmeras outras pessoas. Suas corajosas ações contribuíram para que o Budismo Nichiren atravessasse o tempo e chegasse a cada um de nós.
Heroínas da paz
Nesse contexto, a atuação das mulheres na Soka Gakkai representa um exemplo concreto de como a valorização da dignidade feminina pode transformar a sociedade.
Toda sensei compreendia muito bem essa realidade. Ele sabia que nenhuma filosofia poderia fincar raízes sólidas em meio ao povo sem conquistar a confiança e a participação ativa das mulheres. Da mesma forma, entendia que a democracia somente se fortalece quando as mulheres despertam para sua dignidade e seu engajamento na sociedade. Por isso, dedicou grandes esforços para incentivá-las e valorizá-las. Sua primeira ação após assumir a presidência da Soka Gakkai, em 3 de maio de 1951, foi criar a Divisão Feminina no dia 10 de junho do mesmo ano.11
Nosso mestre, Daisaku Ikeda, também enfatizou repetidamente que a paz mundial jamais será alcançada enquanto a felicidade das mulheres continuar sendo sacrificada. Ele afirmou:
A Soka Gakkai poderia ser chamada de “A Soka Gakkai das Mulheres” porque é sustentada pelo poder de muitas mulheres diligentes. O poder das mulheres tem sido decisivo no desenvolvimento do movimento popular da organização pela paz e pela cultura. A maioria dessas mulheres são heroínas anônimas. Despertas para sua nobre missão através da busca de sua revolução humana, elas criaram um impetuoso movimento popular encorajando as pessoas, mobilizando-as, inspirando-as e incitando-as a agir.
O senso de solidariedade e companheirismo que elas criaram tem se espalhado pelo mundo através de 192 países e territórios. Nunca houve um movimento desse tipo na história do budismo. Através de sua corajosa fé como indivíduos, elas alcançaram uma grande transformação, libertando a si mesmas dos grilhões de seus carmas pessoais e, enquanto crescem como pessoas, unem-se aos outros em uma rede para a construção da paz. Como podemos encorajar, prezar e apoiar essas mulheres extraordinárias para que compreendam seu poder? Certamente não é exagero dizer que a perspectiva de futuro da Soka Gakkai Internacional depende de quão bem alcançaremos esse objetivo.12
Prezar cada pessoa
A necessidade de remover as barreiras que impedem a luz das mulheres de irradiar plenamente sobre a humanidade nos alerta para a existência de outros numerosos entraves criados pelo preconceito. De que forma então podemos nos tornar pessoas que contribuam para remover os bloqueios que encobrem as gemas preciosas da nossa rede?
Ikeda sensei nos ensina que, para construir uma sociedade baseada na dignidade da vida, precisamos desenvolver três qualidades fundamentais: sabedoria, coragem e compaixão.13
A sabedoria permite perceber a profunda inter-relação entre todas as formas de vida. Ela rompe a ilusão de separação e nos faz compreender que nossas ações afetam constantemente outras pessoas.
A coragem nos permite não temer as diferenças. Em vez de rejeitar aquilo que é diferente de nós, aprendemos a respeitar e compreender pessoas de diferentes culturas, histórias e perspectivas. A diversidade deixa de ser motivo de conflito e passa a ser fonte de enriquecimento humano.
Já a compaixão expande nossa capacidade de empatia além dos limites imediatos da nossa própria experiência. Ela amplia nossa sensibilidade diante do sofrimento humano, mesmo quando ocorre em realidades distantes da nossa, motivando-nos a ouvir e a agir em prol das pessoas.
O budismo apresenta diversos exemplos dessa postura compassiva. Um deles é o da rainha Shrimala,14 contemporânea de Shakyamuni. Segundo o sutra, ela fez o voto de jamais abandonar pessoas solitárias, injustiçadas, aprisionadas ou sofrendo com doenças e miséria. Prometeu oferecer apoio àqueles que necessitassem. Ela dedicou a vida ao cumprimento desse compromisso.
A atitude da rainha Shrimala representa exatamente o espírito dos bodisatvas da terra — caracterizados por sua sabedoria, coragem, compaixão e seu juramento de conduzir as pessoas à iluminação. Quando uma pessoa decide não abandonar os que sofrem, a rede se torna mais luminosa. Quando alguém escolhe agir com compaixão em vez de indiferença, cria-se uma corrente de humanidade capaz de transformar a sociedade.
Nesse sentido, a construção da paz começa nas relações humanas do cotidiano. Em sua Proposta de Paz de 2013, o presidente Ikeda enfatiza:
Para que o respeito à dignidade da vida seja o fundamento de um esforço contínuo é necessário que as pessoas do mundo inteiro sintam e vivam esse respeito de maneira palpável, em seu próprio modo cotidiano de ser e viver. Proponho três compromissos como guias de ação: Ter a capacidade de se alegrar ou de sofrer com os outros. Crer nas infinitas possibilidades da vida. Defender e celebrar a diversidade.15
Assim, em nossa prática diária, é importante refletirmos sobre esses três compromissos e buscarmos meios de compreendê-los e exercitá-los. Desse modo, despertamos de maneira autêntica para nosso juramento como bodisatvas da terra.
Ao refletirmos sobre todos esses pontos, compreendemos que criar uma sociedade em que as pessoas possam se desenvolver plenamente, da exata maneira como são, é do interesse de todos. Grande exemplo disso é o respeito pela dignidade da vida das mulheres. Por serem valorizadas e incentivadas pelo Mestre, nossas pioneiras realizaram a própria revolução humana e desempenharam papel essencial no estabelecimento da Soka Gakkai, contribuindo para o desenvolvimento de inúmeras pessoas.
Percebemos também que nossa contribuição para a construção de uma sociedade na qual cada indivíduo possa florescer começa nas atitudes diárias: no respeito às diferenças, no incentivo ao potencial do outro e na decisão de jamais abandonar quem sofre. Cada ação baseada na valorização da dignidade da vida remove barreiras invisíveis e permite que mais pessoas façam sua luz brilhar. E, cada vez que uma única joia da rede resplandece com mais intensidade, a humanidade se ilumina junto.
Notas
1. IKEDA, Daisaku; UNGER, Felix. O Princípio Humanístico: Diálogo sobre a Compaixão e a Tolerância. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, 2023. p. 149.
2. IKEDA, Daisaku. Nova Revolução Humana. São Paulo:Editora Brasil Seikyo, v. 18, p. 151, 2021.
3. Ibidem, v. 1, p. 147, 2021.
4. IKEDA, Daisaku. Sabedoria para Criar a Felicidade e a Paz —Parte 2: Revolução Humana. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, 2023. p. 126.
5. Idem. Sabedoria para Criar a Felicidade e a Paz — Parte 1: A Felicidade. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, 2024. p. 27.
6. Brasil Seikyo, ed. 2.665, 24 ago. 2024, p. 8-11.
7. Coletânea dos Escritos de Nichiren Daishonin. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, v. I, p. 535-536, 2020.
8. Brasil Seikyo, ed. 2.387, 16 set. 2017, p. B2.
9. IKEDA, Daisaku; HANCOCK, Herbie; SHORTER Wayne. Romper Barreiras: Um Diálogo sobre Música, Budismo e Felicidade. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, 2023. p. 153-154.
10. IKEDA, Daisaku. Flores da Felicidade. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, v. 3, p. 43-44, 2024.
11. Idem. Revolução Humana. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, v. 5, p. 80, 2023.
12. IKEDA, Daisaku; HARDING, Vincent. Coragem para Sonhar: Conversas sobre Esperança, Liberdade e Democracia. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, 2025. p. 307.
13. IKEDA, Daisaku; WIDER, Sarah. A Arte das Relações Autênticas: Conversas sobre a Essência Poética das Possibilidades Humanas. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, 2025. p. 185.
14. Ibidem, p. 186.
15. IKEDA, Daisaku. Compaixão, Sabedoria e Coragem: Para a Humanidade Viver em Paz. Proposta de Paz 2013. São Paulo, Editora Brasil Seikyo, jan. 2013. p. 10.
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