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há 2 anos
Coudenhove-Kalergi
Heróis que superaram adversidades - Parte 21
Redação
01/08/2024

Há 55 anos, em outubro, Daisaku Ikeda iniciou um diálogo intercultural e inter-religioso com intelectuais e líderes do mundo. A primeira pessoa com quem conversou foi o conde Richard Coudenhove-Kalergi, considerado o “pai da unificação europeia”.
O que impulsionou o conde a lançar o movimento Pan-Europa, que ele acreditava ser o caminho para a paz, foi a Primeira Guerra Mundial. O estopim foi o assassinato do príncipe herdeiro austríaco por um jovem de Sarajevo. Esse evento desencadeou a primeira guerra da humanidade em escala global que durou mais de quatro anos, começando em 1914, e transformou a Europa num campo de batalha.
Após a guerra, a Europa, dividida em muitos pequenos países, estava em uma situação que, a qualquer momento, poderia surgir uma nova faísca e estourar a Segunda Guerra Mundial.
A ideia da integração europeia já existia há muito tempo. No entanto, em uma sociedade na qual as divisões e os conflitos se intensificavam, torná-la realidade soava mais como uma fantasia.
O conde Coudenhove-Kalergi, que foi reconhecido como pensador influente na Europa Central aos 20 e poucos anos, publicou há exatos cem anos, em 1922 [texto originalmente publicado em 16 de outubro de 2022], um artigo sobre o movimento pan-europeu.
No ano seguinte, aos 28 anos, lançou o manifesto Pan-Europa, gerando grande repercussão. Além disso, formou a União Pan-Europeia e estabeleceu associações pan-europeias em cada país. Viajou e percorreu vigorosamente o mundo visualizando o ideal de uma única Europa. Ele havia adotado a palavra “pan”, que significa “todos”, com base em sua decisão de construir uma comunidade de nações soberanas.
Mas esse sonho acabou frustrado, a princípio, pela ascensão da Alemanha nazista. Forçado ao exílio, ele teve sua sede em Viena, na Áustria, tomada pelos nazistas, que destruíram todos os documentos ligados à Pan-Europa. E, em 1939, eclodiu a temida Segunda Guerra Mundial.
Mesmo assim, o conde Coudenhove-Kalergi não desistiu e foi para os Estados Unidos a fim de expandir o apoio pelo ideal da Pan-Europa. Com o término da guerra em 1945, ele retornou à Europa e recomeçou os trabalhos visando à concretização da unificação. O Conselho da Europa foi instituído em 1949, seguido da criação da Comunidade Econômica Europeia (CEE) em 1957, e da Comunidade Europeia (CE) em 1967, tornando o sonho realidade.
Nas palavras de convicção do conde constam: “O reino da paz só pode ser conquistado um passo de cada vez, e dar um passo adiante na realidade vale muito mais do que dar milhares de passos na imaginação. Lutar pelo que é certo significa felicidade. A vida é uma luta e para sempre deve ser uma luta constante”.
O conde Coudenhove-Kalergi nasceu no Japão como segundo filho de sete irmãos em 17 de novembro de 1894. Recebeu o nome japonês de Eijiro.
Ikeda sensei recepciona o conde Coudenhove-Kalergi e sua esposa (Tóquio, Japão, out. 1970)
Seu pai, Heinrich, era um poderoso aristocrata do Império Austro-Húngaro, e sua mãe, Mitsuko, filha de comerciantes japoneses. Os dois se conheceram e se casaram quando Heinrich estava no Japão como ministro interino. Quando o conde completou um ano no país, a família emigrou para a Áustria.
De ascendência holandesa, alemã, russa, polonesa e grega, seu pai era fluente em dezoito idiomas e tinha profundo interesse pela Arábia, Índia e pelo Oriente. Em sua residência, recebia muitos visitantes do exterior, e o jovem conde cresceu vendo o trabalho do pai como um cosmopolita. Seu escritório era repleto de estátuas de filósofos e diversos livros e seu pai, às vezes, lhe contava a respeito do mundo enquanto girava o globo terrestre.
Depois de emigrar, sua mãe enfrentou o preconceito dos que a cercavam e, para se tornar alguém à altura do título de condessa, ela se empenhou arduamente para criar os sete filhos enquanto estudava e aprendia o idioma e a cultura locais.
Em 1906, dez anos após emigrarem para a Áustria, a família do conde, que até então desfrutava uma situação tranquila e harmoniosa, se viu diante de uma grande provação: o pai morreu repentinamente de infarto. As pessoas se opuseram a
Mitsuko, de descendência japonesa, a herdar a propriedade e os bens do marido. Mas ela não cedeu às críticas e criou os filhos de maneira esplêndida, assumindo o papel de chefe da família.
Anos mais tarde, o conde Coudenhove-Kalergi recordou-se: “Minha mãe herdou totalmente o espírito de nosso pai, seu marido, no que se refere à educação dos filhos. (...) Penso que, se não tivesse uma mãe como ela, eu jamais teria iniciado o movimento pan-europeu”.
Pode-se dizer que o ponto de partida para a integração europeia, que depois se transformaria na União Europeia (UE), foram os pais do conde, que eram cidadãos do mundo.
O conde disse ainda: “No entorno de uma única pessoa existe a família, os amigos, a sociedade, a nação etc. Como o primeiro dever dos seres humanos é consigo próprio, creio que, antes de tentarmos mudar os outros ou o ambiente, devemos primeiro nos esforçar para tentar mudar a nós mesmos. (...) No final, não há outra maneira de garantir realmente a paz mundial além da religião”.
Ikeda sensei foi a pessoa para quem o conde transmitiu seus verdadeiros pensamentos.
Em 1967, quando a Comunidade Europeia (CE), antecessora da União Europeia, foi estabelecida, o conde Coudenhove-Kalergi pisou novamente em solo japonês depois de 71 anos. Ele estava com 72 anos.
Ele considerava a Soka Gakkai como um “novo movimento religioso embasado numa das religiões mais antigas e supremas [o budismo], uma religião de paz e amizade”. Uma das pessoas que expressou o desejo de encontrá-lo durante a visita dele ao Japão foi Ikeda sensei.
O primeiro encontro se tornou realidade em 30 de outubro. “Fiquei imediatamente impressionado com essa pessoa chamada Ikeda. Fiquei maravilhado com o dinamismo e o entusiasmo que emanava desse homem de 39 anos.”
Em um diálogo que relembrou esse encontro, o conde disse: “Foi um dos momentos mais agradáveis durante a minha estada em Tóquio”.
O conde Coudenhove-Kalergi e o presidente Ikeda se reencontraram em outubro de 1970, três anos depois. No decorrer da segunda visita do conde ao Japão, eles se encontraram quatro vezes e dialogaram por mais de dez horas. O conteúdo desse diálogo deu origem à obra Civilização: Ocidente e Oriente. Esse foi o primeiro livro da coletânea de diálogos publicado por Ikeda sensei em parceria com intelectuais estrangeiros. Em julho de 1972, dois meses após o lançamento da edição, o conde faleceu aos 77 anos.
O ideal de uma única Europa está aqui! Curso de Estudo de Budismo dos Jovens da Europa no qual todos estudam a filosofia de paz do budismo. Quinhentos amigos de trinta países participam do evento (subúrbio de Milão, Itália, ago. 2019)
Reflexões do presidente Ikeda
O conde Coudenhove-Kalergi, que também era um jovem líder, tinha grandes expectativas em relação aos jovens. Ikeda sensei, ciente desse sentimento dele, conclamou aos jovens, citando palavras do conde:
Sempre me lembrarei da confiança que o Dr. Coudenhove-Kalergi depositava nos jovens. Em certo momento do nosso diálogo, ele disse estar convicto de que os indivíduos realmente sábios e perspicazes ocuparão posições de liderança no futuro. E ele enfatizou que os estudantes de hoje precisam desenvolver seu caráter e se preparar para o futuro com a consciência de que serão os líderes que criarão o mundo de amanhã. “Não negligenciem seu próprio desenvolvimento” — esse foi o brado do Dr. Coudenhove-Kalergi aos jovens do mundo.
É importante que os jovens cultivem o espírito, o coração e o caráter. Se os jovens buscarem apenas o conhecimento e negligenciarem o desenvolvimento da própria sensibilidade, a sociedade seguirá rapidamente para a direção errada. É essencial criar indivíduos bem equilibrados com base no desenvolvimento de um sólido caráter.1
[Kalergi] Também fez a seguinte observação: “Somente o jovem possui paixão, vontade, esperança, convicção e força. (...) O jovem tem uma chama. Sem essa chama, um ideal não pode brilhar, tampouco triunfar”.
A Soka Gakkai venceu por causa dos membros da nossa Divisão dos Jovens. Graças à sua paixão, conquistamos uma extraordinária vitória. (...)
Os jovens que perdem a coragem não podem mais ser chamados de jovens. Os jovens são os maiores defensores da paz e da coragem. Ser jovem é ser um nobre defensor que possui ilimitada esperança. Gostaria que todos bradassem com essa convicção e força para fazer com que os outros se comovam e se inspirem.2
Já se passaram 55 anos desde o primeiro encontro entre o presidente Ikeda e o conde Coudenhove-Kalergi. A rede da juventude Soka está se expandindo amplamente pelo Japão, pela Europa e pelo mundo.
Notas:
1. Discurso proferido na 1ª Convenção da Divisão dos Jovens de Kansai, publicado no Brasil Seikyo, ed. 1.331, 12 ago. 1995.
2. Discurso proferido na 1ª Convenção da Divisão dos Jovens de Tiba, veiculado no Brasil Seikyo, ed. 1.646, 6 abr. 2002.
Materiais de pesquisa:
Coudenhove-Kalergi Zenshu — 9 [Obras Completas de Coudenhove-Kalergi — 9]. Tradução: Morinosuke Kajima e outros. Kajima Kenkyusho Shuppankai.
Koenshu — Tairiku Nippon [Coletânea de Discursos — Japão Continental]. Tradução: Toru Kagawa e outros. Ushio Shuppansha.
Bunmei — Nishi to Higashi [Civilização: Ocidente e Oriente]. In: Obras Completas de Daisaku Ikeda, v. 102; e outros.
No topo: Encontro entre Ikeda sensei e o conde Coudenhove-Kalergi (Tóquio, Japão, out. 1970). O diálogo deles foi publicado como coletânea intitulada Civilização: Ocidente e Oriente
Fotos: Seikyo Press
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