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Ensaio
há 17 anos

Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA) e Universidade da Califórnia em Berkeley (UC Berkeley)

Formando laços com universidades de todo o mundo (13)

Formando laços com universidades de todo o mundo (13)

30/05/2009

Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA) e Universidade da Califórnia em Berkeley (UC Berkeley)

Em sua famosa obra Folhas de Relva, um canto inspirador ao espírito de um novo mundo, o poeta americano Walt Whitman (1819–1892) nos conclama a nos unirmos a ele para anunciar o poder e a liberdade.1

Foi em 1o de abril de 1974, há mais de três décadas, quando sopravam as refrescantes brisas da primavera, que eu proferi meu primeiro discurso numa universidade do exterior, a Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), nos Estados Unidos. O vice-chanceler Norman Miller (1918–2004) conduziu-me ao Auditório Dickson, onde se podia ouvir o burburinho dos seiscentos estudantes, professores e outras pessoas que estavam aguardando.

No palco, havia um banner com a seguinte inscrição: “‘Rumo ao Século 21’: Discurso do presidente Daisaku Ikeda, fundador da Universidade Soka”. Chegou afinal o momento. Pensei em meu mestre, o segundo presidente da Soka Gakkai Jossei Toda. Comecei a discursar pouco depois das 15 horas, ou seja, pouco depois das 7 horas da manhã do dia 2 de abril no Japão, aniversário de falecimento do Sr. Toda.

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Durante meu discurso, compartilhei tópicos que havia discutido em meu diálogo com o eminente historiador britânico Arnold J. Toynbee (1889–1975) da perspectiva da filosofia de vida do budismo e falei a respeito do caminho que eu esperava que a civilização seguisse no século 21. Enfatizei a necessidade de romper com um século frio e funcional que explora a vida como meio para um fim e mudar para um século da humanidade que respeita a dignidade da vida. Para alcançar isso, continuei, temos de parar de viver com base em nosso eu menor, controlado pela ganância e pelo desejo, e viver embasados no eu maior, de acordo com a Lei fundamental do Universo.

Encerrei meu discurso com estas palavras: “Cada pessoa deve encontrar seu próprio caminho. Eu encontrei o meu no budismo e, com fé em seus ensinamentos, embarquei muito tempo atrás na jornada da vida. Os jovens, que agora que se encontram numa importante virada da história, são capazes de construir muitas coisas pelo bem da humanidade”.2

Quando meu discurso de 75 minutos de duração se encerrou, a audiência, formada principalmente por jovens, levantou-se e me aplaudiu de pé, quase abafando as palavras do Dr. Martin, que disse: “Obrigado, presidente Ikeda, por seu histórico discurso, que nos infundiu de renovada coragem e inspiração”.

Os alunos correram para o púlpito querendo apertar-me a mão. Fiquei contente pelo fato de minhas palavras terem tocado aqueles jovens que estavam claramente procurando compreender o significado da vida.

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A partir do final da década de 1960 até a década de 1970, os ideais de liberdade e igualdade começaram a perder um pouco de seu brilho. A discriminação racial ainda estava profundamente arraigada na sociedade. A Guerra do Vietnã se arrastava interminavelmente. Pessoas inocentes no Sudeste Asiático estavam sendo submetidas às destruições da guerra, ao passo que os jovens americanos estavam sendo enviados um após outro para os campos de batalha. Por quê, bradavam os jovens, eles deveriam matar uns aos outros e por que deveriam sacrificar a vida?

Eu também deplorei a Guerra do Vietnã e pedi pelo término do conflito numa convenção da Divisão dos Jovens da Soka Gakkai realizada em agosto de 1967. Entreguei ao consultor de Segurança Nacional dos Estados Unidos, Henry Kissinger, uma proposta de paz para o Vietnã datada do dia 1o de janeiro de 1973, pedindo-lhe que a entregasse ao presidente Richard Nixon.

A partir daquela época, também visitei inúmeras universidades em todo o mundo como fundador da Universidade Soka — e a UCLA foi a décima primeira.

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O Sr. Toda disse-me:

“Você precisa fazer com que o mundo conheça o ensinamento budista da dignidade da vida. As universidades podem ter um papel muito importante nesse aspecto. Quando as universidades de todo o mundo passarem a apreciar o significado da filosofia budista, nascerá uma nova corrente de pensamento.”

O discurso que proferi na UCLA marcou o início de um novo desafio, como discípulo direto do Sr. Toda, para transmitir ao mundo a sabedoria do budismo.

Desde então, proferi 32 discursos em universidades fora do Japão, entre elas distintas instituições como a Universidade Estatal de Moscou e a Universidade de Harvard. O mais recente deles foi um discurso que eu preparei e foi proferido por um representante em março de 2007 na Universidade de Palermo, na Itália.

Discursar para audiências universitárias é muito difícil. Uma discussão muito superficial não seria adequada numa instituição acadêmica, mas um discurso muito esotérico poderia dar a impressão de que eu realmente não compreendi meu tema. Comentei de forma bem humorada sobre essa questão logo no início do discurso que proferi na Universidade de Pequim (em maio de 1990), fazendo com que todos os presentes rissem muito.

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Bem no auge da Corrida do Ouro na Califórnia em meados do século 19, com a onda de pessoas que seguiam para o Oeste, foi fundado um novo centro de estudos — a Universidade da Califórnia. Essa instituição foi criada com base na crença de que há coisas mais importantes que o ouro para o sucesso e a felicidade das gerações futuras. A Universidade da Califórnia em Berkeley (UC Berkeley) é seu campus mais antigo, fundado no ano de 1868. A UCLA foi anexada em 1919. E agora, com dez campi, o sistema da Universidade da Califórnia constitui uma das maiores e mais prestigiosas universidades públicas nos Estados Unidos.

Pulsa em todo o campus de Berkeley um sentimento de pioneirismo e de amor à liberdade, que ficou particularmente evidente durante a década de 1960, quando seus alunos se tornaram a força motriz por trás dos movimentos antiguerra e pelos direitos civis.

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Visitei a UC Berkeley, localizada do lado oposto da costa de San Francisco, no dia 8 de março de 1974, três semanas antes de discursar na UCLA. Pouco antes de me encontrar com o chanceler da UC Berkeley, Albert Bowker, eu e minha esposa paramos para conversar com alguns alunos que estavam prestes a se formar. Quando eles expressaram sua preocupação por estarem me atrasando, eu lhes disse: “Eu vim até aqui para me encontrar com estudantes como vocês e com quem mais puder. Espero que tenham grandes sonhos e que se tornem pessoas vitoriosas e possuidoras de boa sorte e sabedoria!”

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Durante a Segunda Guerra Mundial, cientistas da UC Berkeley participaram do altamente secreto Projeto Manhattan, que tinha como propósito construir a bomba atômica. Dentre eles estava o físico J. Robert Oppenheimer (1904–1967), que foi o diretor científico do projeto. Depois de a bomba ter sido lançada em Hiroshima e Nagasaki, Oppenheimer, atormentado por se sentir responsável pelo terrível sofrimento causado pelas bombas, disse que “[a bomba atômica] que desenvolvemos é, por todos os padrões do mundo, uma coisa maligna”.3

O Sr. Toda condenou o mal absoluto que essas armas representavam em sua Declaração pela Abolição das Armas Nucleares (proferida em 1957). No campus da UC Berkeley, jurei construir uma ampla rede de jovens brilhantes dedicados a defender o direito da humanidade à vida.

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Em 15 de março de 1993, quando as flores de cerejeira estavam desabrochando, visitei pela segunda vez a UC Berkeley. Encontrei-me com o chanceler Chang-Lin Tien (1935–2002) e ele me disse nessa ocasião que estava motivado a fazer sempre o melhor em seu trabalho embasado na convicção de que o que quer que acontecesse na UC Berkeley com certeza causaria impacto na sociedade no futuro e seria um modelo para as outras pessoas.

O chanceler Tien acreditava firmemente no diálogo com os alunos. Ele disse que a pessoa podia sempre utilizar as urgentes demandas das questões universitárias como uma desculpa para não se encontrar com os alunos, mas com isso a universidade perderia sua função essencial como local para o diálogo humanístico e o intercâmbio e para o desenvolvimento do intelecto. Portanto, ele afirmou que os indivíduos que reconhecem essa necessidade se dispõem a realizar firmes esforços em prol do diálogo.

Ouvindo essas palavras, senti como se tivesse captado um vislumbre da extraordinária tradição de Berkeley que criou mais de quarenta ganhadores do Prêmio Nobel. O diálogo serve como uma força para uma vigorosa criatividade e como fonte para novos triunfos.

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Um dos alunos da UC Berkeley com quem me encontrei nessa ocasião foi Edward Feasel, que na época estava fazendo o doutorado. Ao mesmo tempo em que realizava suas atividades como o primeiro líder da Divisão dos Herdeiros da SGI dos Estados Unidos (SGI-USA), que fazia com que ele precisasse viajar por todo o país, ele concluiu seu doutorado em Economia no ano seguinte (1994). Feasel sempre tinha em mente a advertência de sua mãe, que dizia que independentemente da grandiosidade que um estudioso alcançasse, jamais deveria permitir que isso subisse à cabeça nem perder de vista o fato de que ele era uma pessoa comum, assim como qualquer outra.

Hoje ele é decano da faculdade na Universidade Soka da América. Feasel está se empenhando incansavelmente para construir uma universidade que cultive cidadãos globais, trabalhando junto com o presidente da SUA, Daniel Habuki, que se formou na primeira turma da Escola Soka de Ensino Médio de Tóquio e na Universidade Soka.

Vamos também levar no coração as esperanças de nossas nobres mães!

***

Visitei os Estados Unidos pela primeira vez em outubro de 1960, ano em que assumi como terceiro presidente da Soka Gakkai. A última parada em meu itinerário dessa viagem foi a UCLA. Havia um membro da Soka Gakkai do Japão que estava estudando lá como aluno internacional. Nós passeamos juntos pelo belo campus. Recordo-me de ter ficado impressionado com o fato de o dormitório dos alunos ficar localizado no ponto mais alto do campus.

Mais de 40 anos depois, em 2001, bem no início do século 21, o novo campus da SUA foi concluído no Distrito de Orange, na Califórnia. Sugeri que os alojamentos residenciais também ficassem no ponto mais elevado do campus, no alto de uma colina, para simbolizar a suprema importância depositada nos estudantes.

O economista americano John Kenneth Galbraith (1908–2006), formado pela UC Berkeley, expressou suas esperanças de que a SUA se torne um modelo para as universidades dos Estados Unidos e também do mundo inteiro. Atualmente, os alunos da SUA e os da Universidade Soka e das Escolas Soka no Japão estão fazendo pós-graduação em importantes instituições de ensino superior no mundo todo, entre elas muitas que eu visitei — tais como a UCLA, a UC Berkeley, a Universidade de Harvard, a Universidade de Colúmbia, de Oxford e de Cambridge. Tendo me formado pela “Universidade Toda”, eu abri o caminho para as universidades em todo o mundo. Agora, uma grandiosa corrente de jovens brilhantes que transmitem minha visão continua a avançar pelo caminho da felicidade e da paz duradoura da humanidade.

O líder dos direitos civis americanos, Dr. Martin Luther King Jr. (1929–1968), que discursou na UCLA e na UC Berkeley, afirmou que ao nos recusarmos a transigir nossas crenças “conseguiremos seguir em frente e mudar o mundo e nossa civilização”.4 E ele declarou firmemente que para isso devemos continuar avançando.5

Aqui se encerra a série “Formando Laços com as Universidades do Mundo”.

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