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Budismo e Sociedade
há 8 meses

O ambiente é de todos

Em meio às severas questões que afligem a humanidade, o humanismo budista surge como fonte de inspiração para uma sociedade sustentável

Redação

18/06/2025

O ambiente é de todos

Conflitos sociais, guerras e crise climática que se aprofunda. São cenas que refletem a necessidade urgente da coexistência pacífica entre todos os seres.

Quando se alcançar a revolução humana no ser interior e no ser exterior de cada vez mais pessoas, as relações humanas e a relação entre o homem e a natureza serão mais harmoniosas. Isto proverá uma base segura para a solução dos graves problemas — poluição ambiental, guerras, esgotamento dos recursos naturais etc. — que a humanidade enfrenta agora.1

Essa é a visão de sabedoria do pacifista Daisaku Ikeda. Ele faleceu em 15 de novembro de 2023, aos 95 anos, não sem antes deixar gravada sua convicção no poder humano para a paz.

Neste ano, o Brasil entra no centro da atenção mundial ao sediar a Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2025, também chamada COP30, marcada para novembro na cidade de Belém, PA. O ser humano busca caminhos para a sobrevivência do planeta, para hoje e para as futuras gerações.

Apresentamos, nesta edição, o pensamento de Ikeda sensei em resposta aos questionamentos globais, estreando a editoria Budismo e Sociedade.

Resultado de estimulantes diálogos com personalidades mundiais, ele nos brinda com conceitos e reflexões baseados no budismo milenar e no movimento que integra a rede de cidadãos comuns da Soka Gakkai. São 12 milhões de pessoas em 192 países e territórios que avançam com base no humanismo budista de respeito pela dignidade da vida, superando todos os tipos de diferenças para a construção de um mundo melhor.

Budismo e cidadãos comuns. Quais as bases dessa união para a transformação social?

A base filosófica de nossas atividades e de nosso pensamento é elucidada no tratado Estabelecer o Ensinamento para a Pacificação da Terra, escrito por Nichiren Daishonin, em 1260, enquanto ele presenciava o sofrimento do povo devido às guerras incessantes e aos desastres naturais que assolaram a sociedade japonesa no século 13.2

Para ele [Daishonin], “O coração da nação não está nem nas autoridades nem no território, mas nas pessoas comuns que nela habitam”.3 Ele promovia a crença de que em cada pessoa se encontra inerente uma força e um potencial extraordinários, que cada indivíduo pode se tornar protagonista da transformação social.

Quais os valores essenciais que a humanidade ainda desconsidera?

Desde 1983, e por um período ininterrupto de quarenta anos, o presidente Ikeda escreveu propostas de paz, as quais foram sugeridas às Nações Unidas. Há vinte anos, o ano 2005 marcou o início da Década das Nações Unidas da Educação para o Desenvolvimento Sustentável. No documento daquele ano, o presidente Ikeda já alertava:

As questões da crise ambiental global, de curto e médio prazos, já são parte da política internacional e do discurso econômico. Mas, numa análise mais profunda, essa crise precisa ser tratada de uma perspectiva de longo prazo, como algo que ameaça minar as próprias bases da sobrevivência humana. Precisamos repensar nosso modo de vida, bem como os valores essenciais e estruturais da civilização contemporânea.

O humanismo não pode limitar-se estritamente ao ser humano. A compreensão disso é essencial se quisermos estabelecer a prática do humanismo nas condições que hoje enfrentamos.4

Como o budismo exemplifica a interdependência homem-ambiente?

O revolucionário Budismo Nichiren esclarece, por meio do conceito de “unicidade da vida e seu ambiente” (esho-funi), que pessoa e seu ambiente são dois fenômenos independentes, porém unos em sua existência fundamental. Em outras palavras, a pessoa e seu ambiente formam uma vida única e completa, e nenhuma pode existir separada da outra. Nichiren Daishonin escreveu: “Sem o corpo, não pode haver sombra; e sem a vida, não existe ambiente. Do mesmo modo, a vida é moldada por seu ambiente”.5

Ao observar os reflexos da ação humana desprovida dessa consciência, a melhor compreensão de esho-funi abre um novo despertar de cidadania. Na obra Coragem para Sonhar, resultado do diálogo com Vincent Harding, o presidente Ikeda pondera e faz recomendações:

Esse ensinamento enfatiza que os seres humanos e o meio ambiente (incluindo natureza e sociedade) existem em uma relação de influência mútua. Seres humanos não podem existir sem a natureza. Destruir o ambiente é o mesmo que aniquilar a nós mesmos.

De agora em diante, a importante missão das comunidades será cultivar um etos de coexistência e transmitir isso para a próxima geração. 6

Representantes da Juventude Soka na Pré-Cúpula da Y20 levam reflexões humanísticas ao centro dos debates (Belém, PA, jun. 2024)

Representantes da Juventude Soka na Pré-Cúpula da Y20 levam reflexões humanísticas ao centro dos debates (Belém, PA, jun. 2024)

E o papel da juventude nesse processo?

O futuro está sendo construído agora. E o presidente Ikeda deposita sua máxima confiança na ação dos jovens como verdadeiros cidadãos do mundo atuando em meio às pessoas e contribuindo positivamente no local em que se encontram. No livro Vozes para um Futuro Brilhante, Ikeda sensei responde a um questionamento sobre como exercitar a cidadania plena.

Que admirável! Excelente pergunta.
Vocês já ouviram a frase: “Pensar globalmente, agir localmente”? Ela indica a condição essencial para ser um cidadão do mundo.
Essa frase é o slogan defendido pela futurista Dra. Hazel Henderson, com quem publiquei uma coletânea de diálogos [Cidadania Planetária] em busca da solução dos problemas ambientais do planeta. Ela afirmou em nosso diálogo que ser um cidadão do mundo não é algo difícil. Ela disse que, ao tentarmos solucionar problemas globais, precisamos fazer o que está ao nosso alcance no local em que nos encontramos neste momento.
São essas as palavras que quero dedicar a vocês. O que define se serão cidadãos do mundo ou não é seu coração e suas ações do dia a dia.7

Antes que seja tarde demais...

Capa do livro, que reúne o pensamento de Daisaku Ikeda e Aurelio Peccei, na foto, em encontro realizado em Paris, França (jun. 1983)

 Na foto, encontro de Daisaku Ikeda e Aurelio Peccei, realizado em Paris, França (jun. 1983)



Neste ano, celebram-se cinquenta anos do primeiro encontro do presidente Ikeda com Aurelio Peccei, primeiro presidente e cofundador do mundialmente famoso “fórum do pensamento global”, o Clube de Roma. A convicção de ambos em defesa da humanidade brinda-nos de sabedoria e de esperança de futuro ao apontarem a raiz da solução para o enfrentamento das crises ambientais. Suas reflexões estão na obra Antes que Seja Tarde Demais, lançamento da Editora Brasil Seikyo. Em destaque, alguns trechos:

DAISAKU IKEDA: “No curso de sua história recente, o ser humano foi levado a crer que a chave da felicidade reside em reformar o exterior. A consequência dessa ênfase equivocada no externo foi a negligência — até mesmo o total esquecimento — em relação aos mecanismos interiores da vida humana, a necessidade de refrear algumas ações mentais e estimular outras. A tarefa mais premente do ser humano, hoje, é a elevação e a reforma de sua vida espiritual interior. É o que eu chamo de revolução humana”.1

“O valor de uma religião depende de sua capacidade de suprimir a ambição, o ódio e a insensatez e, dessa forma, permitir que o espírito do amor e da compaixão aflorem. É por isso que abraço uma religião que ensina a revolução humana do ser interior.”2

PECCEI: “Não há dúvida de que nossas capacidades latentes de compreensão, imaginação, compaixão, solidariedade e criatividade; nossa aptidão básica para aprender; nossas habilidades negligenciadas, e outras atitudes e qualidades positivas ainda inexploradas, assim como nossas energias morais, que são parte de nossa própria humanidade, podem ser estimuladas, treinadas, desenvolvidas e mobilizadas para propósitos positivos. Elas estão aguardando serem chamadas”.3

Notas:

1. IKEDA, Daisaku; PECCEI, Aurélio. Antes que Seja Tarde Demais. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, 2025.

2. Ibidem, p. 178-179

3. Ibidem, p. 207


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Notas:

1. IKEDA, Daisaku; PECCEI, Aurélio. Antes que Seja Tarde Demais. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, maio 2025, p. 192, 2005.

2. Terceira Civilização, ed. 459, nov. 2006, p. 12.

3. Idem, ed. 459, nov 2006, p. 12.

4. Idem, ed. 441, maio 2005, p. 12.

5. Coletânea dos Escritos de Nichiren Daishonin. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, v. I, p. 673, 2020.

6. HARDING, Vincent; IKEDA, Daisaku. Coragem para Sonhar. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, p. 389, 2025.

7. IKEDA, Daisaku. Vozes para um Futuro Brilhante. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, p. 131, 2024.

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