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Diálogo
há 12 anos

Abram os olhos do povo e criem uma nova história

“No coração dos corsos inflama forte a paixão que busca justiça e paz. [Na Córsega] a traição e a ingratidão são tidas como as coisas mais vergonhosas” Daisaku Ikeda

18/04/2014

Abram os olhos do povo e criem uma nova história
DAISAKU IKEDA: Nós não podemos deixar passar despercebido que o clima e o ambiente da ilha de Córsega exerceram grande influência na formação da personalidade de Napoleão.

O senhor atuou como vice-prefeito da cidade de Ajaccio e como responsável de diversas organizações sociais e econômicas. Atuou também por longos anos como presidente da Associação Ambiental da ilha de Córsega.

É uma glória ter recebido a medalha de honra da cidade de Lecci, região sul de Córsega. Não pude estar presente, e meu primogênito participou em meu lugar na cerimônia de concessão da prefeitura.

Fui informado de que, nessa ocasião, a prefeita Poli [Adriana Poli Bortone, no cargo até maio 2007] discorreu orgulhosamente a respeito da bandeira da Córsega, que estava hasteada. Ela disse que a imagem de perfil de uma pessoa com uma bandana simboliza o ideal e a determinação dos corsos, e que este símbolo significa que o povo abriu os olhos, pois no passado estava com os olhos vendados, dominados como escravos, e agora segue edificando uma nova história de justiça e democracia.

A história da Córsega foi, do século 6 a.C. até a época de Napoleão, uma sucessão de invasões, tirania e domínio por diversos povos estrangeiros. Exatamente por isso que no coração dos corsos inflama mais forte a paixão que busca justiça e paz. Soube que no país, a traição e a ingratidão são tidas como as coisas mais vergonhosas.

PRÍNCIPE CHARLES NAPOLEÃO: Sim. Isto é algo estranho em um líder que comanda a guerra. Mas não havia, em absoluto, em Napoleão a sordidez de trair, armar cilada ou ressentir-se com as pessoas. Esta é uma das importantes características dos corsos.

Penso que teve uma grande influência na formação da personalidade de Napoleão o fato de ele ter nascido e sido criado na Córsega cercada pelo mar. É a influência exercida pela cultura e condições geográficas do mediterrâneo — a base da cultura europeia.

Napoleão era verdadeiramente corso, na aparência a na personalidade. Sua fisionomia — estatura relativamente baixa, corpo esguio, rosto delicado, olhos azuis e pele queimada (apesar de ele ter vivido depois longe da ilha e sua pele ter ficado pálida devido ao clima da região norte) — era característica mediterrânea. Uma personalidade ágil que mantém ativos o corpo e a mente é de fato uma característica mediterrânea.

Napoleão era uma pessoa que, mesmo que estivesse muito irado, logo voltava a ficar sereno e esquecia rapidamente as coisas ruins. Também sabia como agir para se mostrar alegre.

IKEDA: O primeiro presidente da Soka Gakkai, Tsunessaburo Makiguti, também foi um renomado geógrafo, e publicou em 1903 uma grande obra chamada Jinsei Chirigaku [Geografia da Vida Humana]. Nela, ele faz menção à característica geográfica das ilhas.

Ele afirma que há ilhas que são um “país insular, e fechado” e outras que são um “país oceânico, e aberto”. A mentalidade do povo de país insular é de se isolar, sendo excludente e conservador. Inveja as pessoas que se destacam. É arrogante externamente, mas medroso internamente. Por outro lado, a característica do povo que tem o pensamento oceânico é ser alegre, repleto de espírito empreendedor e magnânimo.

Ou seja, podemos dizer que Napoleão é de fato o representante típico do pensamento oceânico aberto.

Napoleão: A afirmação do presidente Makiguti é aguçada. Como ele disse, Napoleão foi um homem repleto do pensamento oceânico.

A vida dos habitantes da Córsega tem como base a família maternal — a mulher é muito forte. Ou seja, as “coisas importantes”, como educação das crianças, são todas realizadas pelas mulheres; e as “coisas pequenas”, atividades como guerras e política, são realizadas pelos homens (risos).

IKEDA: O que disse agora é fundamental. Uma sociedade em que as mulheres resplandecem é vívida. Nesse lugar, são corretamente respeitadas as [coisas] mais importantes que são proteger a vida e criar pessoas de valor.

Napoleão: Em suas memórias, Joseph, irmão mais velho de Napoleão, cita a lembrança de ambos terem percorrido a cavalo o único caminho que atravessava a ilha. Comenta que, durante esse percurso, Napoleão contou acalorado a luta dos corsos contra os invasores.

Joseph escreveu ainda nessas memórias que, se pudesse retornar à época de quando era jovem e livre de problemas e preocupações, não se importaria em trocá-la por toda a sua fortuna.

A ilha de Córsega foi um lugar em que eles acumularam momentos tão maravilhosos na vida.

É exatamente por isso que na outra ilha onde Napoleão viveu seus últimos anos, em Santa Helena, ele citou diversas vezes a respeito da Córsega em suas memórias ditadas.

IKEDA: Foi mesmo. Em Santa Helena, Napoleão falou orgulhosamente a respeito dos corsos:

“São sempre criativos e originais”, “Possuem firmeza de caráter e espírito totalmente autêntico e vigoroso” .

Conta-se também que falou extasiado por mais de uma hora ao seu criado sobre os ilimitados fascínios de Córsega: “Tudo dela é superior”, “Até o cheiro da terra é diferente. Algo que não se vê em nenhum outro lugar, a ponto de se sentir o cheiro da terra natal mesmo de olhos fechados”. No coração do herói que travou uma batalha tempestuosa, a grande natureza da saudosa terra natal deve ter resplandecido em sua memória mais que qualquer palácio luxuoso.

Napoleão: Em 1793, a família de Napoleão foi banida da ilha de Córsega. Após isso, ele esteve somente por dois dias nessa ilha, durante o retorno da Campanha do Egito (1799). Esse foi seu único retorno à terra natal. Ele disse que, quando subia ao deck, sabia a distância da praia somente pelo cheiro agradável do vento carregado da ilha de Córsega. O aroma único da sua terra natal era tão inestimável para ele.

A Córsega tem a imagem de um lugar onde o Sol sempre brilha. Na ilha, existe uma variedade de pinheiros raros do mundo, que se levantam lado a lado como grandes guarda-chuvas. Há ainda uma castanheira que é uma das árvores típicas da região. A farinha de sua castanha vem sendo utilizada como alimento desde o passado.

A história dessa ilha está ligada à história da família Napoleão. Por isso é também a minha raiz.

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