BS
Relato
há 12 anos
Sons da alegria transformam a vida
Maria Júlia Mendes Nogueira, 56 anos, viúva, vice-responsável pela DF do Distrito Romana, RM Pinheiros, CCSP, é professora e pratica o budismo há 25 anos
18/04/2014

Isso aconteceu há 25 anos quando uma colega de trabalho a ensinou a recitar Daimoku para se tornar uma pessoa feliz. “Trabalhava em uma das maiores editoras de revistas do Brasil e naquele ambiente naturalmente competitivo, sempre acabava me sentindo insegura, preterida, mesmo que tudo estivesse correndo muito bem. Não sabia lidar com os desafios que surgiam e também não enxergava que tinha qualidades. Minha sensação interna era de alguém incapaz para qualquer profissão. Mesmo um tratamento com psicoterapia em grupo que realizei durante doze anos, apesar de ter me ajudado muito, não foi suficiente para extrair o imenso vazio dentro de mim. Foi nesse momento que a editora de beleza da revista onde eu trabalhava me ensinou a recitar o Nam-myoho-rengue-kyo e me apresentou à BSGI.”
Ela conta que frequentar as atividades da Soka Gakkai foi um diferencial em sua vida: “Observava as pessoas e o relacionamento entre elas. Ouvia relatos de grandes dificuldades que desencadeavam em incríveis vitórias. Comecei a dar espaço para olhar de fato quem eram essas pessoas. Passei a acompanhar alguns veteranos nas visitas aos membros e simpatizantes. Notava que toda vez que ia fazer essas visitas, podia até estar meio desanimada ou entediada, como era comum em minha vida, mas, sem que eu percebesse, saía da casa dessas pessoas totalmente revigorada. Passei a ter o sincero desejo de utilizar meus potenciais em prol dessa organização e, como toco violão desde pequena, comecei também a colaborar tocando para alegrar as reuniões”.
Batalha interior
Ao completar três anos como praticante do budismo e cinco anos como funcionária da editora, Maria Júlia decide atuar na área em que havia concluído a graduação: educação artística. “Desliguei-me da empresa e saí, finalmente, em busca de um sonho, um sonho que ainda não tinha forma definida, mas estava ligado à educação e à arte, é claro. Detalhe: desta vez prometi a mim mesma que não me acovardaria diante das dificuldades.”
Em pouco tempo, Maria Júlia já lecionava música em duas instituições educacionais, dando início a uma jornada focada no avanço da educação por meio da arte. E, embora estivesse concretizando um grande objetivo, Júlia relembra o complexo processo de seu desenvolvimento como educadora. “Não foi fácil. Minha insegurança, depressão, meu rotineiro desânimo e, consequentemente, minha tendência ao uso de drogas ressurgiram como a sujeira que se acomoda no fundo de um copo de água aparentemente limpa. Há mais de quinze anos trilhava esse caminho e não conseguia parar, aliás, nem tentava parar.”
Ela diz que somente conseguiu se distanciar do vício quando compreendeu que a felicidade residia no ato de não fugir dos problemas. “Precisei de algumas experiências para compreender o que acontecia comigo, algo que não necessariamente se manifestava na hora em que usava alguma droga, mas sim nas horas mais comuns, no dia a dia. Ao dar aulas, por exemplo, tinha de recorrer àquela pessoa afetiva que era, mas não a encontrava dentro de mim, e isso se manifestava nas aulas que dava. Não conseguia tocar o coração dos meus alunos. Por fim, parei totalmente com as drogas, não por existirem pessoas me pedindo para parar, nem por ter tido péssimas experiências e resultados negativos em minha vida, mas por entender que dentro de mim havia uma vida preciosa e muito digna, e não precisava de mais nenhum ingrediente externo. Assim, cumpri um importante princípio budista de transformar todo veneno em remédio.”
Nova história
Vencer a batalha contra as drogas com base no Budismo Nitiren fez com que Maria Júlia se fortalecesse para superar os obstáculos que iria enfrentar como educadora. “De professora que estava sendo testada a todo instante passei a prestar muito mais atenção em cada aluno. Desenvolvi atividades práticas despertando-lhes o interesse maior pela aula de música. Assisti a grandes transformações no comportamento de muitos deles, principalmente daqueles que deixavam o tédio, o desânimo e a insegurança tomarem conta de sua vida. Continuei crescendo profissionalmente e me inspirando cada vez mais nas impressionantes reflexões do filósofo, educador e pacifista Dr. Daisaku Ikeda. Suas propostas de paz inspiraram-me a ponto de incluir muitas de suas ideias nos conteúdos do meu trabalho e colocando-as em prática com meus alunos. Meu relacionamento com os alunos passou a me dar alegria e fui deixando de lado os sofrimentos. Assim, passei mais de vinte anos atuando ininterruptamente em diversas instituições educacionais, muitas vezes em duas delas simultaneamente.”
Enquanto professora, Maria Júlia lecionou por duas décadas. Há três anos foi convidada a integrar uma equipe de educadores de uma instituição educacional centenária do Brasil. “Quando recebi o convite, precisei dar uma pausa na prática como docente. Para minha surpresa, iniciei um trabalho cujo conteúdo eu não imaginava ser tão justo para o meu aprimoramento profissional, incluindo o prazer que sinto ao executá-lo: passei a escrever livros didáticos de arte. Essa é uma oportunidade de fundamentar toda minha experiência prática, minhas ideias educacionais, de me aprofundar na história da arte como um todo e, sem muita demora, de me preparar para as próximas etapas que integram meu objetivo profissional e ideológico. A finalidade principal dessa equipe com a qual trabalho atualmente é a de produzir um material pedagógico que traga em seu conteúdo essencial também uma formação humana de melhor qualidade para os alunos, o que gera interessantes e construtivos diáologos em nosso local de trabalho”.
Glórias e vitórias
Maria Júlia construiu ao longo de sua vida uma história cheia de alegrias e grandes desafios. Ela relembra: “A maior das alegrias é ter um filho lindo, inteligente, descolado, e que agora esta se revelando extremamente capaz em seu primeiro emprego. Vitor está com 19 anos e tem se empenhado em seu aprimoramento profissional; e, para isso, faz Daimoku e lê livros sobre a área em que atua. Ele é meu grande orgulho. Por outro lado, superei obstáculos desafiadores como a perda do meu pai, o violonista e mestre Paulinho Nogueira, em 2003; dez meses depois, a perda da minha mãe querida. Em 2005 foi a vez da minha sogra, que também era muito querida; e mais recentemente, em 2010, a perda do pai do meu filho. Sem dúvida, a família Soka e a prática da fé foram fundamentais para que eu superasse cada uma dessas perdas.”
Determinada, ela finaliza assegurando que nada pode apagar a alegria de viver em prol da felicidade das outras pessoas. “Nada mais tira o sentido da minha vida, nada pode destruir a esperança de que a vida de todos nós se tornará sim melhor e mais digna. Durante todos esses anos posso ter entrado e saído de muitas crises financeiras, profissionais, afetivas e emocionais, porém, o tanto que recebo como retorno de cada ação voluntária que dedico por meio da BSGI não tem preço. Tenho vários amigos e muitas outras pessoas esperam e contam com a minha alegria, com a minha arte e, principalmente, com o grande valor que vejo em cada uma delas. Ninguém pode roubar a certeza de que eu estou aqui muito bem disposta a ser melhor a cada dia, a vencer toda e qualquer enxurrada de influências negativas, pressões e desânimo que venham tentar me derrubar.”
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