BS
Encontro com o Mestre
há 12 anos
Atuem com alegria e orgulho de uma mulher Soka
18/04/2014

Passados quarenta anos, a atuação das mulheres como líderes governamentais está se tornando uma tendência notável. Temos a primeira-ministra alemã Angela Dorothea Merkel, as presidentes Dilma Rousseff, do Brasil; Joyce Hilda Banda, da República de Malauí; e Park Geun-hye, da Coreia do Sul, que são observadas como líderes atuantes.
Em julho de 2010, foi fundada a ONU Mulheres, uma entidade das Nações Unidas para a Igualdade de Gênero e Empoderamento das Mulheres. Verónica Michelle Bachelet Jeria, eleita pela segunda vez como presidente chilena, foi a primeira secretária-geral dessa entidade.
Sinto que o movimento para atender às necessidades das mulheres do mundo está se fortalecendo gradativamente. Contudo, em minha opinião, acredito que precisemos fortalecê-lo ainda mais.
Dra. Seifert: Exatamente. Por isso, quero afirmar que é extremamente importante dar o direito de acesso ao estudo de excelência para as mulheres também. Em meu país, muitas mulheres estão assumindo uma posição de liderança se comparada a vinte ou trinta anos atrás. É o resultado da concessão de oportunidades de estudo às mulheres. Essa tendência é notável na União Europeia e na liderança das empresas. Quem, há trinta anos, imaginaria que surgiria a primeira-ministra alemã Angela Merkel? Todas as mulheres também devem ter acesso às universidades.
Pres. Ikeda: A educação é a fonte que ilumina a construção de uma nova sociedade.
Há localidades em que o acesso à educação pelas mulheres ainda é limitado. No Japão, essa oportunidade é oferecida igualmente às mulheres e aos homens na era moderna. Tem-se sobressaído a atuação das estudantes na Universidade Soka. No entanto, há muitos pontos a serem melhorados a fim de criar um ambiente propício para as mulheres trabalharem. A busca por um sistema que apoie as que trabalham fora tem aumentado consideravelmente.
Dra. Seifert, a senhora é um exemplo pioneiro de atuação da mulher na sociedade machista. Na época em que a sociedade era controlada em sua maioria pelos homens, a senhora foi nomeada a mais jovem chefe dos ministérios e das agências.
Recebi algumas perguntas de leitores mais jovens e, por essa razão, gostaria que nos contasse como foi sua juventude, como foi sua luta no local de trabalho. Soube que escreveu sua tese de conclusão de curso sobre Arthur Schopenhauer, filósofo alemão do século 19, tendo concluído o doutorado em filosofia. Por que se tornou funcionária de repartição pública?
Dra. Seifert: Sempre gostei de trabalhar, por isso entrei no mercado de trabalho ainda muito jovem. Eu tinha orgulho da minha própria renda e, além disso, sentia prazer em trabalhar. Fui professora particular de latim e grego por muito tempo e graduei-me nessa área.
Em minha época de faculdade, era líder do centro acadêmico. Era uma estudante apaixonada pelo que fazia. Ao ler histórias sobre os idiomas que lecionava, soube de um fato que ocorreu há 2.500 anos e que fez surgir em mim um forte desejo de contribuir para a sociedade atual. Comecei minha carreira no Ministério da Saúde e, após a minha transferência para o Ministério da Ciência e da Pesquisa, tomei posse como a gerente do Departamento Internacional, que fazia parte do Ministério da Educação e da Cultura.
Pres. Ikeda: Desde os tempos de estudante, a senhora vem realizando tudo com maior dedicação e sinceridade determinando assim seu caminho a seguir. O desejo de contribuir em prol das pessoas e da sociedade é digno de respeito. Tenho certeza de que será um grande estímulo aos estudantes da Universidade Soka que também vêm contribuindo com a própria escola e com os amigos de faculdade.
A vontade de trabalhar é estimulada quando se descobre o sentido do seu trabalho. Sente-se realizado e enxerga a razão de viver quando se descobre um objetivo nobre na vida. Assim, surge a energia para superar toda e qualquer dificuldade. A pessoa que encontra o real valor no seu trabalho e atua com orgulho é feliz.
O buda Nitiren Daishonin declara: “Considere o serviço ao seu lorde como uma prática do Sutra de Lótus. (...) Nenhuma das atividades da vida ou do trabalho se diferenciam de alguma forma da realidade última” (END, v. I, p. 342). Ele incentiva a todos que devem dar o melhor de si no seu local de trabalho contribuindo sobremaneira para a sociedade, ao mesmo tempo em que cresce como ser humano. Disseram-me que a senhora atuou com um sentimento muito especial em seu trabalho, que é unir os países por meio de intercâmbios culturais em uma época em que eclodia a Guerra Fria.
Dra. Seifert: Foi exatamente assim. O Ministério da Cultura e da Educação, em especial, teve a oportunidade de convidar artistas e pessoas que trabalham na área da cultura dos países do Leste Europeu para virem a Viena. Se não houvesse o convite de um órgão público, dificilmente teriam a oportunidade de realizar um intercâmbio cultural nem de obter o visto de entrada. Eu me posicionei como eixo cultural para ligar a Alemanha, os países da antiga Checoslováquia antiga e a Hungria a meu país, e me esforcei intensamente para que pudéssemos fazer uma atividade cultural em conjunto. Felizmente, obtive um resultado extraordinário e jamais esquecerei o aspecto radiante de alegria, satisfação e de gratidão de muitas e muitas pessoas envolvidas.
Sempre fui guerreira. Dediquei minha vida a angariar fundos para eventos e para sobrepujar a força da autoridade e impor meus direitos. Levava trabalho para casa nos fins de semana. Quando comecei a cantar e depois que me casei, passei a executar três funções: funcionária pública, cantora e dona de casa. Quase meio século sem férias, mas comprovei em minha vida o provérbio: “Gênio é sinônimo de esforço”.
Estudem, trabalhem e irradiem seu verdadeiro valor na sociedade
Pres. Ikeda: É notável que tenha trabalhado com afinco e com o orgulho do seu trabalho. Em uma entrevista no passado, a senhora disse que venceu no trabalho atuando como uma leoa.
Dra. Seifert: É isso mesmo. Mais que leoa, acho que fui uma tigresa. A ocasião exigia que eu fosse assim, pois, para ser reconhecida, a mulher tinha de mostrar uma capacidade 150% acima dos homens.
Quero contar um fato que aconteceu comigo. Minhas amigas me mostraram um ponto que eu não tinha notado. Havia anos que trabalhava tão intensamente e quando tive muita curiosidade em conhecer o budismo, conheci o senhor, presidente Ikeda, no Japão, e foi a oportunidade de redesenhar minha vida com base na filosofia budista. Na época, eu trabalhava rodeada de maravilhosos colegas e, certo dia, disseram-me: “Jutta, você passou por uma transformação notável nos últimos anos”. Daí, indaguei: “Pode me explicar como foi essa minha mudança?”. Uma colega respondeu: “Você se tornou mais calma, leve, atenciosa e bondosa”.
É difícil enxergar os próprios defeitos ou as qualidades. Talvez eu tenha deixado de valorizar apenas o combate ou de me preocupar com o superficial. Quer dizer, deixei de sofrer com os pequenos afazeres do dia a dia. Contudo, minha personalidade marcante e determinada é de nascença, por isso tive a coragem de superar tantas coisas na vida. Quando era mais jovem, superei diversas privações com muita dificuldade.
Pres. Ikeda: Tenho certeza de que os colegas de trabalho foram incentivados e depositaram confiança ao ver sua abnegada dedicação em realizar seu trabalho.
No budismo, quem compartilha seu espírito de procura é chamado de “bom amigo” ou “boa causa”, dando extrema importância a isso. Para avançar rumo ao grande ideal, é imprescindível a existência de bons companheiros, e o laço que os une é o maior tesouro.
Na longa história da humanidade, quantas nobres e respeitáveis mulheres entregaram a vida para a construção desta sociedade, que passou pela guerra, opressão do governo, epidemias e fome. Em todas essas situações, a mulher é a maior vítima da desordem e da insegurança. Contudo, em meio à confusão, também foi a força da mulher que conduziu persistentemente esta sociedade à esperança, ao bem, à felicidade, à paz.
Quando a sociedade se encontra em profundo caos, são as mulheres que abrirão a porta de esperança para o futuro. A construção de uma sociedade pacífica que dignifique de verdade a vida somente será possível se o século 21 for realmente o “século das mulheres”.
Dra. Seifert: Sem dúvida, será maravilhoso. E creio que seja necessário educar os homens ou que as mães sejam responsáveis pela educação dos seus filhos. Atualmente, é preciso que a mulher se dedique muito mais que antes como profissional devido aos problemas econômicos. Para manter um padrão de vida razoável, é necessário que o casal trabalhe fora. Além disso, a mulher é incumbida de três afazeres: cozinhar, criar os filhos e ir à igreja. Atualmente, essa concepção caiu de moda e, por esse motivo, precisamos construir uma sociedade com nova estrutura social.
A igualdade de direitos entre homens e mulheres é essencial. Ao analisar nossa vida no passado, creio que repetimos o ciclo de nascimento e morte inúmeras vezes.
Certamente tive uma existência como homem. Isso quer dizer que o ser humano vem a este mundo tanto como homem quanto como mulher. Desse ponto de vista, é radicalmente errado impor diferença de direito entre homens e mulheres. Se a mulher é digna ou não de respeito está nas mãos dos homens. Este é um ponto que gostaria de enfatizar, principalmente para os japoneses!
Estamos vivendo uma era em que o homem tem de mudar seu conceito. Precisa aprender a julgar a força da mulher de forma mais justa e correta. Mais uma vez, quero enfatizar este ponto, especialmente aos japoneses.
Pres. Ikeda: Estou certo de que sua opinião penetrou fundo no coração dos nossos leitores. Por outro lado, seu conceito sobre a vida e a morte está de acordo com o conceito budista que elucida a eternidade da vida.
Aconteceu no passado a exposição Sutra de Lótus e o Caminho da Seda nas dependências da Biblioteca Nacional da Áustria em Viena, na qual foram apresentados materiais sobre o budismo Mahayana. O Sutra de Lótus é a essência desse ensinamento. Nele, diferentemente de outros sutras, é elucidado o “princípio da eternidade da vida” por meio da iluminação do buda Sakyamuni há incontáveis eternidades. Além disso, é exposta a iluminação da mulher. O buda Nitiren Daishonin afirma: “Somente no Sutra de Lótus lemos, de fato, que uma mulher que abraça esse sutra não apenas supera, em excelência, todas as outras mulheres, mas também ultrapassam todos os homens” (END, v. 5, p. 190). No budismo não só não há diferença entre homens e mulheres, como elas são altamente louvadas.
Dra. Seifert: Creio que esse conceito se reflete na SGI, pois é notável que as mulheres ocupem uma posição alta na organização mais que na sociedade. Elas utilizam ao máximo a “força branda”, conduz a sociedade ao caminho do bem e, dessa forma, obtêm incontáveis resultados positivos em diversas áreas. Elas geram a vida e iluminam a escuridão da sociedade com a infindável luz como o farol que dá esperança a todo o povo.
Pres. Ikeda: Os membros da DF e DFJ do Japão ficarão imensamente felizes ao receberem suas palavras de louvor. Alegro-me ao ver maior interesse das mulheres em estudar a filosofia que dignifica ao máximo a vida.
Quando o estudo tem um objetivo definido e é contínuo, traz um resultado pleno de satisfação. Mesmo em meio à vida atribulada das mulheres, se tiverem o forte desejo de estudar e de avançar, encontrarão tempo para se dedicar ao estudo.
“Educação para ser feliz” — este era o conceito pregado pelo primeiro presidente da Soka Gakkai, professor Tsunessaburo Makiguti. Com o máximo de respeito pelas mulheres, ele abriu o caminho para que elas tivessem acesso à educação, e fundou uma escola de ensino médio, oferecendo curso a distância para mulheres em maio de 1905. Nesse mesmo mês, no dia 28, publicou matérias em forma de livro ou de apostilas oferecendo oportunidade para que um número maior de pessoas tivesse acesso à educação.
A escola Soka é a cristalização do ardente desejo do professor Makiguti. A Universidade Soka possui um curso a distância que, em breve, comemorará quarenta anos de fundação, oferecendo oportunidade para qualquer pessoa continuar estudando.
Em todo caso, se ao propiciar oportunidade às mulheres isto resolverá problemas sem solução da sociedade machista, por outro lado, capacitará os homens a expandir suas habilidades. Se a mulher brilha na sociedade, o homem também irradiará seu verdadeiro valor.
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