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Caderno Especial
há 11 anos

Explicações sobre a revisão do Estatuto da Soka Gakkai no que se refere à doutrina religiosa

Departamento de Estudo do Budismo da Soka Gakkai (Matéria publicada no Seikyo Shimbun dos dias 29 e 30 de janeiro de 2015: tradução para o português revisada a partir do texto em inglês)

21/03/2015

Explicações sobre a revisão do Estatuto da Soka Gakkai no que se refere à doutrina religiosa

Introdução

Em 7 de novembro de 2014, o artigo 2 (Doutrina Religiosa) do Capítulo 1 do Estatuto da Soka Gakkai foi revisado e recebeu a seguinte redação:

“Esta associação reverencia Nichiren Daishonin como o Buda dos Últimos Dias da Lei. Acredita nas ‘três grandes leis secretas’ que incorporam a lei fundamental do Nam-myoho-renge-kyo, recita o daimoku da prática para si e para os outros ao Gohonzon, tendo como base os escritos de Nichiren Daishonin. Empenha-se, por meio da revolução humana de cada indivíduo, na realização do objetivo último da ampla propagação [kosen-rufu] mundial do Budismo de Nichiren Daishonin, cumprindo, assim, o testamento de Daishonin.”

O presidente Harada explicou que, considerando-se o desenvolvimento do kosen-rufu mundial após a nossa independência espiritual do clero da Nichiren Shoshu (em 28 de novembro de 1991),2 o objetivo desta revisão é “tornar ainda mais clara a identidade da Soka Gakkai como entidade religiosa independente” e “tornar o conteúdo desse artigo mais adequado à nova era do kosen-rufu mundial”.

Conforme o artigo revisado acima, “a identidade da Soka Gakkai como entidade religiosa independente” indica uma organização que se dedica incansavelmente a realizar o kosen-rufu mundial, a ordem e o desejo do Buda, onde cada membro segue as orientações dos três primeiros presidentes da Soka Gakkai e luta visando a sua revolução humana por meio da prática do Budismo de Nichiren Daishonin para si e para os outros.

Portanto, é natural que, com base nesse compromisso e missão, a Soka Gakkai, como uma religião viva, corresponda com responsabilidade às diversas questões e assuntos reais que possam surgir, tanto no presente como no futuro, devido às mudanças da época e ao avanço do movimento pelo kosen-rufu.

De fato, até hoje, os três presidentes, em especial o presidente Ikeda, vieram abrindo o caminho do kosen-rufu, respondendo a inúmeras questões e desafios.

Citando alguns exemplos, por ocasião da Convenção da Soka Gakkai realizada em maio de 1970, o presidente Ikeda declarou: “O kosen-rufu não é um ponto de chegada, mas sim o processo em si, que faz pulsar, vibrantemente, os ensinamentos vivos de Nichiren Daishonin na sociedade”. Naquela reunião, reconfirmou a sua convicção, tanto para os membros como para os não membros, de que o termo “santuário nacional” ou “plataforma de ordenação nacional”3 – referindo-se a uma ideia defendida por alguns membros do clero da Nichiren Shoshu – não deveria ser mais utilizado. Afirmou que o estabelecimento desse santuário deveria ser visto [não como algo criado pelo estado, mas] como algo alcançado sob o consenso de todos os adeptos, isto é, do povo em si. Dessa forma, o presidente Ikeda tomou medidas para evitar eventuais mal-entendidos desnecessários na sociedade japonesa ao longo da jornada da propagação do Budismo de Nichiren Daishonin no Japão, um país cuja Constituição garante, naturalmente, a liberdade religiosa.

E, também, em sua obra O Buda Vivo: Uma Biografia Interpretativa e o Budismo, o Primeiro Milênio, publicada em série [em língua japonesa] a partir de 1972, o presidente Ikeda fez uma abordagem da origem do budismo, introduzindo os fatos históricos de acordo com os mais recentes estudos na época, mencionando a vida de Shakyamuni e a data da compilação do Sutra do Lótus. Assim, desenvolveu uma análise sobre a linhagem ortodoxa do budismo, considerando as pesquisas acadêmicas sobre o budismo que estimam a época da compilação do Sutra do Lótus em torno do século I, E.C.4

Como mostram esses exemplos, é natural para a Soka Gakkai, como uma organização que promove o kosen-rufu em escala global, reexaminar as interpretações da doutrina para corresponder a novas questões que surgem com o crescimento e o desenvolvimento do nosso movimento. Nossa missão, como organização ativamente dedicada à realização do kosen-rufu mundial, está em oferecer uma filosofia para que todos os seres humanos alcancem a iluminação na época atual, levando em conta as variadas culturas e filosofias, e incorporando os resultados de pesquisas acadêmicas aceitas.

É um posicionamento totalmente diferente do clero da Nichiren Shoshu, que fica preso às interpretações arcaicas da doutrina, sem a menor preocupação e a responsabilidade com o desenvolvimento real do kosen-rufu.

A recente revisão do estatuto foi realizada 23 anos após a Soka Gakkai ter declarado independência espiritual do clero da Nichiren Shoshu. Seu objetivo foi o de esclarecer e de sistematizar as interpretações tradicionais da doutrina, retornando ao verdadeiro espírito dos ensinamentos de Nichiren Daishonin para, assim, corresponder às necessidades de uma época de crescimento contínuo do kosen-rufu mundial. Portanto, não se trata de uma mudança da doutrina, mas uma mudança de interpretação das doutrinas do Budismo de Nichiren Daishonin.

Além disso, nos quarenta anos desde a publicação de O Buda Vivo: Uma Biografia Interpretativa e o Budismo, o Primeiro Milênio [em língua japonesa], as pesquisas e estudos sobre o budismo avançaram ainda mais. Assim, junto com esta revisão do estatuto, dedicaremos maior esforço em direção ao desenvolvimento de um sistema doutrinário mais universal para a Soka Gakkai, incorporando os resultados de pesquisas acadêmicas e reexaminando cuidadosamente as interpretações do 26º sumo prelado Nichikan (1665–1726) e outros documentos relacionados com a herança dos ensinamentos de Daishonin.

I. Sobre as “três grandes leis secretas”

1. As “três grandes leis secretas”

Nichiren Daishonin identifica os ensinamentos (ou leis) secretos deixados por Tiantai, Dengyo e outros, após a morte de Shakyamuni, como: “o objeto de devoção do ensinamento essencial, o santuário do ensinamento essencial, e os cinco ideogramas do daimoku do ensinamento essencial” (WND, v. II, p. 488).5 E também escreve: “Quando... o país mergulhar-se na desordem e, depois, o bodisatva Práticas Superiores [o líder dos bodisatvas da terra] e outros veneráveis surgirem para estabelecer as três leis secretas do ensinamento essencial e propagarem o Myoho-renge-kyo amplamente (kosen-rufu) pelos quatro continentes e quatro mares! Haveria alguma dúvida disso?” (WND, v. II, p. 491)

Nichiren Daishonin revelou o Nam-myoho-renge-kyo como a lei fundamental inerente a todas as vidas e ao universo, para possibilitar às pes­soas da era maléfica dos Últimos Dias da Lei a atingir o estado de buda. E a revelou de forma concreta como as “três grandes leis secretas”, a saber, “objeto de devoção do ensinamento essencial”, “daimoku do ensinamento essencial” e o “santuário do ensinamento essencial”.

Com a recente revisão, as “três grandes leis secretas” foram interpretadas, de forma clara, pela Soka Gakkai, da seguinte forma:

Todos os Gohonzon – o mandala de ideogramas representativo dos dez mundos –, inscritos pessoalmente por Daishonin para toda a humanidade, como também as suas transcrições em cópia, são todos, igualmente, o objeto de devoção do ensinamento essencial, que incorpora a lei fundamental do Nam-myoho-renge-kyo. O Nam-myoho-renge-kyo recitado diante deste objeto de devoção do ensinamento essencial é o daimoku do ensinamento essencial, e o local onde se recita este daimoku é o santuário do ensinamento essencial.6

Essa interpretação é embasada no verdadeiro espírito do Budismo de Nichiren Daishonin, que possibilita a todas as pessoas dos Últimos Dias atingir a iluminação.

Nesse sentido, o objeto de devoção do ensinamento essencial inclui, mas não de forma exclusiva, o Gohonzon inscrito no segundo ano da era Koan (1279). Assim, não há nenhuma justificativa para a visão estreita e dogmática do clero da Nichiren Shoshu de que nenhum Gohonzon é eficaz a menos que tenha ligação com o Gohonzon inscrito no segundo ano da era Koan. Essa visão é uma clara e total violação dos ensinamentos de Nichiren Daishonin.

2. Sobre a razão do advento de

Nichiren Daishonin a este mundo

Até a recente revisão, a Soka Gakkai, com base na interpretação da Nichiren Shoshu, veio adotando a explicação de que a razão do advento de Nichiren Daishonin a este mundo estava em revelar o Gohonzon inscrito no segundo ano da era Koan (1279). Sua fundamentação estava na única frase: “...levou 27 anos...” (WND, v. I, p. 996) do escrito de Daishonin As Perseguições ao Venerável.

[Nota do editor: Esta frase aparece no seguinte contexto: “O Buda alcançou o propósito do seu advento em pouco mais de 40 anos, o grande mestre Tiantai levou cerca de 30 anos, e o grande mestre Dengyo, cerca de 20 anos. Tenho mencionado repetidas vezes sobre as indescritíveis perseguições que eles sofreram durante esses anos. Para mim, levou 27 anos, e as grandes perseguições que enfrentei durante esse período são bem conhecidas por todos”. (WND, v. I, p. 996)]

Entretanto, não há nenhuma referência ou textos históricos vinculando a passagem “Para mim, levou 27 anos,...” com o Gohonzon inscrito no segundo ano da era Koan (1279). Vamos, então, estudar, mais uma vez, As Perseguições ao Venerável e analisar cuidadosamente sobre qual é o real significado de Daishonin ao se referir à razão do seu advento neste mundo.

A leitura do escrito As Perseguições ao Venerável revela os seguintes pontos:

1. Daishonin não menciona especificamente o Gohonzon inscrito no segundo ano da era Koan em nenhuma parte deste escrito.

2. Daishonin indica o número de anos que o Buda (Shakyamuni), o grande mestre Tiantai e o grande mestre Dengyo levaram para cumprir a sua razão do advento neste mundo. E, então, Daishonin escreve a frase “Para mim, levou 27 anos,...”, enfatizando o fato de que durante 27 anos sofreu grandes perseguições. Todas as frases subsequentes deste escrito discorrem exclusivamente sobre as perseguições.

3. A obra As Perseguições ao Venerável foi escrita no primeiro dia do décimo mês do segundo ano da era Koan (1279), após Daishonin ter recebido o comunicado de que diversos camponeses seguidores de Atsuhara, que haviam sido presos pelas autoridades, permaneceram inabaláveis na fé, apesar de a vida deles ter sido ameaçada. Neste escrito, Daishonin transmite várias rigorosas orientações sobre a fé e calorosos incentivos a todos os seus discípulos, especialmente para aqueles que se encontravam diante das perseguições.

Portanto, pode-se afirmar que a referência de Daishonin ao período de “27 anos” e a ênfase às perseguições podem ser interpretadas como um elogio à dedicação altruística para propagar a Lei Mística, mesmo sob o risco de vida, demonstrada pelos camponeses presos durante a Perseguição de Atsuhara.

O propósito do surgimento de Daishonin neste mundo está no fato de ter assegurado o caminho para a iluminação de todas as pessoas dos Últimos Dias da Lei, estabelecendo as “três grandes leis secretas”.

No escrito Saldar as Dívidas de Gratidão, Daishonin identifica o objeto de devoção, o santuário do ensinamento essencial e o daimoku do Nam-myoho-renge-kyo como os três elementos que compõem o ensinamento correto, conforme a frase: “O Buda deixou esse ensinamento para beneficiar as pessoas dos Últimos Dias da Lei” (CEND, v. I, p. 769). Estabelecendo, assim, as “três grandes leis secretas”, Daishonin declara seu próprio juramento seigan:

Se a compaixão de Nichiren for real­mente grande e abrangente, o Nam-myoho-renge-kyo se propagará por dez mil anos e mais, por toda a eternidade, pois é dotado do poder benéfico de abrir os olhos cegos de todos os seres vivos do Japão e de bloquear a estrada que leva ao inferno de incessantes sofrimentos. Esse poder benéfico supera o de Dengyo e o de Tiantai, e também supera o de Nagarjuna e o de Mahakashyapa. (CEND, v. I, p. 770)

Assim, quando analisamos a vida de Daishonin como um todo, fica claro que essa ênfase para os “27 anos” foi para revelar explicitamente que em 27 anos desde que proclamou seus ensinamentos pela primeira vez (no 28º dia do quarto mês de 1253), em meio a grandes perseguições que se levantaram em decorrência da propagação do budismo das “três grandes leis secretas”, surgiram os praticantes comuns que persistiram na fé, “sem poupar a própria vida”, aceitando e abraçando esses ensinamentos.

Nesse sentido, o verdadeiro significado da razão do advento de Daishonin neste mundo se encontra em: (1) estabelecimento das “três grandes leis secretas” durante sua existência para que todas as pessoas dos Últimos Dias da Lei possam atingir a iluminação; (2) estabelecimento do budismo para o povo, como comprovado pela fé inabalável dos seus seguidores camponeses, durante a Perseguição de Atsuhara, que mantiveram suas crenças mesmo sob o risco de vida. Isso aconteceu no 27º ano após Daishonin ter proclamado seus ensinamentos pela primeira vez.

A inscrição do Gohonzon do segundo ano da era Koan, por Daishonin, está incluída no significado do estabelecimento das “três grandes leis secretas”, como também do budismo para o povo.

Portanto, a razão do advento de Daishonin neste mundo – de possibilitar a todas as pessoas dos Últimos Dias da Lei a atingir a iluminação – foi plenamente realizada não só pelo estabelecimento das “três grandes leis secretas”, mas também pelo surgimento de discípulos que compartilharam o seu espírito e o compromisso de abraçar e praticar a Lei Mística sem poupar sua vida. Aí se encontra a verdadeira realização do budismo para o povo.

A missão e o papel da Soka Gakkai se tornam cada vez mais importantes. Nós herdamos o objetivo fundamental de Daishonin e o propagamos amplamente para todo o mundo, sofrendo perseguições sem precedentes previstas pelo Buda para a época após a sua morte e descritas por Daishonin na frase de As Perseguições ao Venerável: “Como o ódio e a inveja por este sutra proliferam mesmo quando Aquele que Assim Chega vive neste mundo, quão piores serão depois de sua morte!” (WND, v. I, p. 996-997)

3. Sobre a “única grande lei

secreta” e as “seis grandes

leis secretas”

De acordo com a Nichiren Shoshu, a “única grande lei secreta” é o Gohonzon inscrito no segundo ano da era Koan (1279). Essa é subdividida em “três grandes leis secretas”: o “objeto de devoção do ensinamento essencial”, que é o Gohonzon inscrito no segundo ano da era Koan; o “daimoku do ensinamento essencial”, que é o daimoku recitado diante deste Gohonzon; e o “santuário do ensinamento essencial”, o lugar onde este Gohonzon se localiza. [Nichikan escreveu em Interpretação do Texto com base no seu Significado Essencial (Egi-hammon-sho): “Quando se fundem as “três grandes leis secretas”, estas são simplesmente o objeto de devoção do ensinamento essencial, que é a única grande lei secreta. Por isso, o objeto de devoção consagrado no santuário do ensinamento essencial é também denominado ‘objeto de devoção que incorpora todas as três grandes leis secretas’”.]

Conforme recente revisão do estatuto, a Soka Gakkai define as “três grandes leis secretas” da seguinte forma:

Todos os Gohonzon – o mandala de ideogramas representativo dos dez mundos –, inscritos pessoalmente por Daishonin para toda a humanidade, como também suas transcrições em cópia, são todos, igualmente, o objeto de devoção do ensinamento essencial, que incorpora a lei fundamental do Nam-myoho-renge-kyo. O Nam-myoho-renge-kyo recitado diante deste objeto de devoção do ensinamento essencial é o daimoku do ensinamento essencial; e o local onde se recita este daimoku é o santuário do ensinamento essencial.7

Nas explicações sobre os motivos desta revisão, o presidente Harada afirmou:

Nichiren Daishonin revelou o Nam-myoho-renge-kyo como a lei fundamental inerente a todas as vidas e ao universo, para possibilitar às pessoas da era maléfica dos Últimos Dias da Lei a atingir o estado de buda. E a revelou de forma concreta como as “três grandes leis secretas”, a saber, o “objeto de devoção do ensinamento essencial”, “o daimoku do ensinamento essencial” e o “santuário do ensinamento essencial”.8

Assim, a lei inerente a todas as vidas e ao universo, isto é, o Nam-myoho-renge-kyo, é a lei fundamental, e as “três grandes leis secretas” são sua concreta expressão.

Até hoje, viemos adotando os termos “única grande lei secreta” e “seis grandes leis secretas”,9 embasados no sistema doutrinário formulado por Nichikan. Entretanto, a interpretação de Nichikan de que a “única grande lei secreta” corresponde ao “objeto de devoção do ensinamento essencial” não consta em nenhuma parte do Gosho de Nichiren Daishonin.

No Gosho, a única referência ao termo “única grande lei secreta” se encontra no escrito Os Cinco Critérios para a Propagação (Soya Nyd dono moto gosho), no qual Daishonin identifica os “cinco ideogramas do Myoho-renge-kyo” como essa “única grande lei secreta” (WND, v. II, p.549).

Reiterando, nos escritos de Nichiren Daishonin não há nenhuma referência à concepção de “única grande lei secreta” como a fusão das “três grandes leis secretas” nem tampouco às “seis grandes leis secretas” como a subdivisão das “três grandes leis secretas”, tal como aparece nos tratados doutrinais de Nichikan.

Até hoje, respeitando as interpretações doutrinárias feitas pela Nichiren Shoshu, a Soka Gakkai veio aceitando a concepção de Nichikan que considera o Gohonzon inscrito no segundo ano da era Koan (1279) como o objeto de devoção fundamental.

Nas interpretações doutrinárias de Nichikan há dois elementos: (1) elementos universais que revelam a verdade dos ensinamentos de Daishonin e (2) elementos limitados ao contexto histórico que enfatizam uma ortodoxia exclusiva como meio para proteger a Nichiren Shoshu (na época, denominada escola Fuji) da corrupção e das distorções introduzidas durante um longo período em que altos sacerdotes foram recrutados do templo Yobo-ji.10 De agora em diante, é necessário discernir e separar esses dois elementos.

Hoje, a Nichiren Shoshu defende doutrinas errôneas totalmente contrárias ao ensinamento de Nichiren Daishonin. A Soka Gakkai, como organização que segue o verdadeiro espírito de Daishonin, está reavaliando as interpretações de Nichikan, com o propósito de estabelecer um fundamento doutrinário adequado ao seu desenvolvimento como religião mundial.

Nesse sentido, daqui para a frente, deixaremos de utilizar os termos “única grande lei secreta” e “seis grandes leis secretas” expostos por Nichikan.

Apesar de este posicionamento de distinguir os dois elementos e, de forma geral, reavaliar as interpretações doutrinárias de Nichikan, não há nenhum problema em aceitar e abraçar o Gohonzon transcrito por Nichikan, pois tal Gohonzon também é o objeto de devoção do ensinamento essencial que incorpora a lei fundamental do Nam-myoho-renge-kyo.

Ainda em relação a este ponto, surge a questão do porquê de “aceitar e abraçar” o Gohonzon transcrito por Nichikan, mas não o Gohonzon inscrito no segundo ano da era Koan (1279). A resposta é simplesmente que, embora ambos sejam igualmente o objeto de devoção do ensinamento essencial, nós não reconhecemos o Gohonzon inscrito no segundo ano da era Koan como o objeto a ser “aceito e abraçado em termos de prática real”, pelo fato de ele se encontrar no Taiseki-ji, o templo principal da Nichiren Shoshu, que se tornou hoje um centro de calúnia à Lei e um grupo religioso completamente separado.

II. A autoridade da Soka Gakkai para designar o objeto de devoção

Todos os grupos ou organizações religiosas independentes possuem autoridade para designar seu objeto de devoção, suas escrituras e textos sagrados, e suas instalações para a realização de orações. A Soka Gakkai, que promove o kosen-rufu mundial, a ordem e o desejo do Buda, também possui a autoridade para designar o objeto de devoção, ou o Gohonzon, que ela aceite e abrace.

Aqui, “aceitar e abraçar” têm o sentido de recitar o daimoku da prática para si e para os outros diante do Gohonzon designado pela Soka Gakkai. Portanto, “aceitar e abraçar” têm o significado de abraçar o objeto de devoção, porém, não limitado aos aspectos formais externos, tais como o objeto de devoção físico e o ato de orar diante deste. Seu significado abrange a prática da fé proa­tiva em sentido geral.

Os Gohonzon consagrados até hoje na sede da Soka Gakkai, nas sedes regionais e centros culturais, nas sedes comunitárias particulares e nas residências de cada membro são todos oficialmente reconhecidos e designados pela Soka Gakkai e, portanto, não haverá qualquer mudança na concreta prática da fé.

O real significado do Gohonzon é o de “Gohonzon em prol da realização do kosen-rufu”. Daishonin escreveu:

Quão maravilhoso é o fato de que, decorridos mais de duzentos anos dos Últimos Dias da Lei, eu tenha sido o primeiro a revelar, como o estandarte da propagação do Sutra do Lótus [Nam-myoho-renge-kyo], este grande mandala que nem mesmo [os eruditos budistas da Índia,] Nagarjuna e Vasubandhu, [e os grandes mestres da China,] Tiantai e Miaole conseguiram expressar. (END, v. I, p. 323)

Em relação a essa frase, o presidente Ikeda comentou em uma de suas explanações:

Nichiren Daishonin afirma que o “objeto de devoção do ensinamento essencial”, que é representado pela Cerimônia no Ar do Sutra do Lótus, não foi revelado durante os dois mil anos dos Primeiros e Médios Dias da Lei após a morte do Buda nem houve alguém nesse período que pudesse lhe dar expressão. Ele, então, diz que agora, cerca de dois séculos após o início dos Últimos Dias da Lei, ele é o primeiro a revelar o objeto de devoção, o Gohonzon, como “o estandarte da propagação do Sutra do Lótus”.

Somos os bodisatvas da terra que apareceram voluntariamente neste mundo saha de incessantes sofrimentos e conflitos, hasteando bem alto a bandeira do kosen-rufu e os nobres ideais do ensinamento correto do budismo. Abraçando a fé no Gohonzon revelado por Nichiren Daishonin, trabalhamos para a realização de um mundo de paz e felicidade para toda a humanidade. Daishonin, que lutou de forma pioneira e abnegada para propagar a Lei, elucidou o Gohonzon em prol do kosen-rufu e como um meio de nos despertar para nossa nobre missão em prol desse objetivo.11

Daishonin inscreveu muitos Gohonzon para os seus seguidores porque cada Gohonzon representa “o estandarte da propagação do Sutra do Lótus”.

A Soka Gakkai é a organização que veio propagando este Gohonzon em prol do kosen-rufu. Antes do surgimento da Soka Gakkai, a Nichiren Shoshu não fez nenhum esforço ativo para possibilitar outras pessoas a abraçar o Gohonzon. Conforme a história comprova, esse verdadeiro esforço só se iniciou com o primeiro presidente Tsunesaburo Makiguchi e o segundo presidente Josei Toda.

Do ponto de vista do princípio de “aceitar e abraçar o Gohonzon é, em si, observar a própria mente, isto é, atingir a iluminação”12 (juji soku kanjin), somente por meio da correta atitude de fé diante do Gohonzon é que se pode manifestar o poder dos “cinco ideogramas do Myoho-renge-kyo que contêm todas as práticas de Shakyamuni e as virtudes que ele consequentemente adquiriu” (cf. CEND, v. I, p. 383).13 O “objeto de devoção para observar a mente” é o mesmo que “objeto de devoção da fé”. Os três primeiros presidentes da Soka Gakkai, em especial, o presidente Ikeda, nos ensinaram sobre essa fé.

Por isso, é natural que a Soka Gakkai, que propaga o “Gohonzon em prol do kosen-rufu” e recebeu a “herança da fé”, tenha autoridade para designar e conceder o Gohonzon. Embora todos os Gohonzon sejam, igualmente, o “objeto de devoção do ensinamento essencial”, os membros da Soka Gakkai irão aceitar e abraçar o Gohonzon designado pela organização, dedicar-se em prol do kosen-rufu e conquistar os imensuráveis benefícios de sua prática budista.

As orientações dos três primeiros presidentes são todas voltadas para nos ensinar o significado fundamental do Gohonzon e a essência da fé no Budismo de Nichiren Daishonin. As declarações afirmadas, historicamente, na época da união harmoniosa entre clérigos e adeptos, também tinham, essencialmente, a finalidade de nos unir ao espírito e ao ensinamento de Daishonin. É responsabilidade nossa, como discípulos, interpretar corretamente esta verdadeira intenção de todas essas orientações.

III. Sobre o Auditório do Grande Juramento pelo Kosen-rufu e o Joju Gohonzon da Soka Gakkai

O testamento de Nichiren Daishonin, confiado para nós, é a realização do grande juramento da propagação do Sutra do Lótus [Nam-myoho-renge-kyo], ou seja, o grande juramento pelo kosen-rufu.

A Soka Gakkai dos dias de hoje foi construída por meio do “espírito de propagar a lei com a própria vida” dos três primeiros presidentes que se levantaram com o firme compromisso de realizar o “grande juramento pelo kosen-rufu” com o mesmo espírito de Nichiren Daishonin.

O presidente Ikeda, como discípulo de unicidade inseparável do segundo presidente Josei Toda, abriu o caminho do kosen-rufu mundial para 192 países e territórios, superando todas as formas de obstáculos e maldades que se possa imaginar. E, em Shinanomachi, o local do ponto primordial da liderança do segundo presidente Josei Toda, que herdou o espírito do primeiro presidente, Tsunesaburo Makiguchi, o presidente Ikeda estabeleceu o Auditório do Grande Juramento pelo Kosen-rufu como a principal fortaleza do nosso movimento, de “unicidade de mestre e discípulo” em prol do kosen-rufu. Nesse local, consagrou o Joju Gohonzon da Soka Gakkai, com a inscrição “Grande Desejo pela Concretização do Kosen-rufu, a Propagação Benevolente da Grande Lei”,14 como o “estandarte da propagação do Sutra do Lótus”.

Em relação ao significado de se participar do Gongyokai no Auditório do Grande Juramento pelo Kosen-rufu, o presidente Ikeda afirmou:

Como o Sutra do Lótus afirma, os senhores são bodisatvas que aqui se reúnem imbuídos de coragem, vindos de todas as partes do mundo, em perfeita “fusão da sabedoria subjetiva e realidade objetiva” (kyochi myogo) com o Gohonzon do kosen-rufu. Esta é, de fato, uma assembleia dourada em que a vida de grande juramento do remoto passado inicia uma renovada partida como o brilhante sol da alvorada, com a disposição de ter renascido agora.15

Assim, o Auditório do Grande Juramento pelo Kosen-rufu é o local onde nos reunimos como em uma assembleia, para, juntos, reafirmarmos o juramento de promover o kosen-rufu, orarmos pela felicidade e a prosperidade das pessoas, orarmos pela paz mundial e pela nossa própria revolução humana, unindo o nosso coração aos três primeiros presidentes da Soka Gakkai, nossos eternos mestres.

O juramento seigan é o coração do Budismo de Nichiren Daishonin.

Quando proclamou seus ensinamentos pela primeira vez, Nichiren Daishonin firmou seu juramento que manteve durante toda a sua vida, conforme escreveu: “Assim, jurei manter uma poderosa e inabalável determinação de salvar todos os seres vivos, sem jamais esmorecer em meus esforços” (CEND, v. I, p. 250). E, em meio à severa perseguição do exílio à Ilha de Sado, Daishonin reconfirmou seu juramento declarando: “Eu serei o pilar do Japão. Eu serei os olhos do Japão. Eu serei a grande nau do Japão. Este é o meu juramento, e jamais renunciarei a ele!” (CEND, v. I, p. 293)

Daishonin ensina então que os discípulos sucessores devem se levantar com o juramento seigan, com o espírito de unicidade de mestre e discípulo, afirmando: “O meu desejo é que todos os meus discípulos façam um grande juramento” (WND, v. I, p. 1003).

A inscrição “Grande Desejo pela Concretização do Kosen-rufu, a Propagação Benevolente da Grande Lei” atesta claramente a missão da Soka Gakkai, a organização formada por bodisatvas da terra que se levantaram em prol do kosen-rufu, herdando esse juramento seigan de Daishonin.

Continuaremos hasteando a bandeira do estudo do budismo da Soka Gakkai, e avançando pelo grande caminho do humanismo em prol da realização da paz e da felicidade de toda a humanidade, sempre alicerçados no significado essencial do Budismo Nichiren.

* * *

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