BS
Encontro com o Mestre
há 10 anos
19.1 Reconhecer o “nosso eu” como bodisatvas da terra
Sabedoria para criar a felicidade e a paz [45]
24/09/2016

O ensinamento essencial (que compreende os últimos catorze capítulos) do Sutra do Lótus começa revelando quem ensinará e propagará o Sutra do Lótus neste conturbado mundo saha após a morte do Buda. Shakyamuni recusa a solicitação dos bodisatvas descritos no ensinamento teórico (primeiros catorze capítulos) do sutra para que ele lhes permita realizar essa missão. Em vez disso, ele convoca os bodisatvas da terra, seus verdadeiros discípulos, e confia-lhes a missão de propagar o ensinamento correto nos Últimos Dias da Lei. Em A Sabedoria do Sutra de Lótus, o presidente Ikeda aborda o significado do surgimento dos bodisatvas da terra.
Discurso do presidente Ikeda
Adaptado do diálogo sobre A Sabedoria do Sutra de Lótus, v. 3 e 5, publicado em japonês em julho de 1997 e em setembro de 1999.
O surgimento dos bodisatvas da terra no Sutra do Lótus
Os bodisatvas da terra surgem de forma impressionante. A terra se abre e incalculáveis bodisatvas emergem simultaneamente, e cada um deles irradia uma luz dourada. Nenhum dos bodisatvas descritos em qualquer outro sutra tem aparência tão admirável como a dos bodisatvas da terra.
Os bodisatvas do ensinamento teórico2 e aqueles dos outros mundos, que se reuniram para ouvir o Buda pregar o Sutra do Lótus, ficam impressionados e maravilhados com a aparição deles.
O buda Nichiren Daishonin afirma que, em comparação aos bodisatvas da terra, os outros bodisatvas “pareciam uma horda de macacos entre os bodisatvas recém-chegados, que apareciam entre eles como uma multidão de Shakras”3 (CEND, v. I. p. 263-264). O Sutra do Lótus também salienta quão nobres e respeitáveis são os bodisatvas da terra.
Embora sejam denominados bodisatvas, na realidade são budas. De onde vêm os bodisatvas da terra? O grande mestre Tiantai afirma que eles residem “nas profundezas da natureza do Darma, na suprema região da profunda fonte”4 (OTT, p. 119). O domínio do qual eles surgem é a verdade que existe nas profundezas da vida, a Lei fundamental de Nam-myoho-renge-kyo.
Os bodisatvas da terra são pessoas que agem ininterruptamente com base na Lei Mística; estão sempre avançando. Fazer pulsar dentro de nós essa vibrante energia é “emergir como bodisatva da terra” em nossa própria vida. Isso significa romper a casca de nosso eu menor.
Emergir como um bodisatva da terra consiste em fazer uma revolução em nosso estado de vida. Propagar essa revolução do estado de vida de uma pessoa para outra é o esforço para transformar o estado de vida da sociedade e elevar o estado de vida da humanidade como um todo. Essa mudança é simbolicamente expressa pela imagem da terra se rompendo descrita no Sutra do Lótus.
O poder dos bodisatvas da terra está na capacidade deles de transcender todas as diferenças e ajudar outras pessoas a alcançar a felicidade por meio do poder fundamental que possuímos como seres humanos. Os bodisatvas da terra são pessoas simples, comuns, plenos e absolutos campeões humanos. Esse é o orgulho deles. O surgimento dos bodisatvas da terra é um acontecimento retumbante e uma estrondosa declaração do grande poder e potencial subjacente da vida.
A discriminação é absolutamente inaceitável. É um perverso desvio de conduta que fere tanto o outro como a nós mesmos. Distinções tais como raça ou etnia não constituem a verdadeira essência da nossa humanidade, são ilusórias como uma miragem. Em última análise, também não servem como “lar compartilhado” ou terreno comum para todas as pessoas. Atribuir ênfase exagerada a essas definições de identidade podem exacerbar nossas diferenças e atuar como causa de oposição e conflito. O que precisamos fazer é modificar a maneira como vemos nossa existência como seres humanos. Quando isso mudar, tudo será diferente.
Juntos, transcendemos as fronteiras de identidade étnica e a nacionalidade. Devemos perceber que não somos impotentes nem apenas amontoados de matéria física ou escravos de nossos genes. Necessitamos despertar para o fato de que somos muito mais, que possuímos um enorme e ilimitado potencial dentro de nós.
Os seres humanos são unos com o universo, e o poder que cada um possui é igual ao poder total do universo — esta é a mensagem do Sutra do Lótus.
***
“Se tiver a mesma mente que Nichiren, o senhor deve ser um bodisatva da terra”
Os bodisatvas da terra não vêm se arrastando relutantes após serem convocados por Shakyamuni; eles vêm saltando com muita disposição e entusiasmo, como se aguardassem há muito por aquele momento. Essa fé automotivada de saltar com máxima energia é a chave da eterna felicidade.
Garantir a felicidade eterna é o propósito da fé na Lei Mística. Esta vida é como um sonho. Praticamos o Budismo de Nichiren Daishonin para que possamos despertar desse sonho e consolidar a felicidade duradoura em nossa presente vida. É o que denominamos manifestar o estado de buda nesta existência, ou iluminação imediata. Por esse motivo, devemos nos esforçar com seriedade aqui e agora.
O que precisamos para fazer isso? Nichiren Daishonin declara: “Se tiver a mesma mente que Nichiren, o senhor deve ser um bodisatva da terra” (CEND, v I, p. 404). Aqueles que se dedicam ao kosen-rufu com o mesmo compromisso que Nichiren Daishonin são genuínos bodisatvas da terra.
O progresso do kosen-rufu pode ser comparado ao movimento da Terra em torno do Sol, enquanto nossos esforços constantes para a revolução humana equivalem à rotação da Terra em seu próprio eixo. Esses dois movimentos são inseparáveis.
Quando uma pessoa possui “a mesma mente que Nichiren”, ela não tem medo de nada. Durante a Segunda Guerra Mundial, Tsunesaburo Makiguchi e Josei Toda, primeiro e segundo presidentes da Soka Gakkai, se recusaram a recuar um passo sequer, mesmo diante da perseguição perpetrada pelas autoridades do governo militarista japonês do período da guerra. Eles mantiveram o espírito do coração de leão de Daishonin.
Há um profundo significado no fato de o despertar de Toda sensei, um acontecimento fulcral em nosso movimento, ter ocorrido na prisão. Ele foi preso por defender o correto ensinamento do Sutra do Lótus, e na cela subitamente compreendeu: “Sou um bodisatva da terra!”.
Toda sensei realizou sua revolução humana em meio a essa grande adversidade. As contrariedades no curso da prática budista são um degrau para a iluminação. Ele demonstrou com a própria vida a veracidade da afirmação de Daishonin: “Se tiver a mesma mente que Nichiren, o senhor deve ser um bodisatva da terra” (Ibidem). A menos que encontremos dificuldades no curso de nossos esforços pelo kosen-rufu, não teremos verdadeiramente “a mesma mente que Nichiren”.
O despertar de Toda sensei na prisão é uma eterna fonte de inspiração para a Soka Gakkai. É o momento em que o Sutra do Lótus renasceu novamente na época atual, o instante em que o sol da revolução humana se ergueu nos dias de hoje. Embora naquele período de profunda escuridão os outros não percebessem, a luz do nascer do sol começara a brilhar no coração dele.
“Sou um bodisatva da terra!” — o vigoroso rio do kosen-rufu de hoje começou a fluir dinamicamente a partir da sua poderosa convicção.
Ao ponderar intensamente sobre a questão “O que é buda?”, Toda sensei constatou que buda não é outra senão a própria vida da pessoa e a grandiosa vida do universo em si, e ambas são uma única coisa.
Um ditado diz: “Cave debaixo dos seus pés e aí encontrará uma nascente”. Quando Toda sensei investigou a origem de seu próprio ser, a base comum da existência de todas as pessoas foi revelada — a vida eterna do universo em si. Ao despertar para a origem de seu próprio ser, também despertou para a base comum de toda a humanidade — todos, no nível mais fundamental da vida, são bodisatvas da terra. Como membros da Soka Gakkai, agora compartilhamos desta consciência de um “lar” comum, uma fonte inesgotável da vida.
Foi isso que levou Toda sensei a se empenhar incansavelmente para transmitir essa profunda convicção para seus companheiros. Ao convidá-los a se juntar a ele na luta em prol do kosen-rufu, com frequência se referia a eles como “meus queridos companheiros bodisatvas da terra”.
Aqueles que são fiéis à essência fundamental de sua vida são fortes e admiráveis — esta é a lição que Toda sensei nos ensinou de todo coração e também demonstrou por meio do próprio exemplo ao longo da vida. Cada pessoa possui um poder colossal. Essa força jamais deixará de emanar na vida de um genuíno bodisatva da terra. Essa convicção é o ponto de partida para todos os nossos esforços.
A fonte ou manancial de nosso ser é a pura e expansiva vida do próprio universo; e a revolução humana é o processo de despertar para essa verdade e comprová-la.
***
Sair pelo mundo, estar entre as pessoas
Independentemente do lugar ou país, são sempre os bodisatvas da terra que se encarregam da missão de propagar amplamente o ensinamento correto recebido do Buda, compartilhando-o com todos os seres humanos. Qual a razão disso? Porque, no que se refere à sua iluminação interior, eles têm o mesmo estado de vida do Buda, porém, no âmbito de suas ações externas, se empenham como bodisatvas. Poderiam ser descritos como “budas-bodisatvas”.
Se não possuíssem o mesmo estado de vida do seu mestre, o Buda, não conseguiriam propagar a Lei Mística corretamente. Além do mais, realizar o kosen-rufu neste mundo cheio de problemas implica penetrar na sociedade, entre as pessoas, como seres humanos iguais. Assim, os bodisatvas da terra preenchem ambas as condições — incorporam o estado de buda inerente e se dedicam ativamente no mundo real. Desse modo, no final do capítulo “Os Poderes Sobrenaturais” (21º) do Sutra do Lótus consta: “Esta pessoa… avança pelo mundo (LSOC, cap. 21, p. 318). Os bodisatvas da terra se empenham no mundo; eles saem e se misturam ao povo.
Os bodisatvas da terra são iguais ao sol; e também são iguais às flores do lótus, que desabrocham com todo esplendor na água lamacenta. Eles vivem neste mundo corrupto, mas se mantêm imaculados sem se contaminar pelos seus males.
Se formos iguais ao sol, a escuridão na sua totalidade será banida de nossa vida. Cada dia será repleto de luz e iluminaremos com radiância a vida das outras pessoas também. Se formos iguais às flores do lótus, transformaremos o pântano lamacento dos desejos e sofrimentos em alegre iluminação.
O capítulo “Emergindo da Terra” (15º) do Sutra do Lótus descreve os bodisatvas da terra como “a flor do lótus na água” (LSOC, cap. 15, p. 263). Sendo bodisatvas da terra, habitamos o “pântano” da sociedade; e, certamente, não fugimos da realidade. Além disso, nossa vida de forma alguma é manchada ou contaminada pela sociedade. Por quê? É que nunca nos esquecemos da nossa missão.
Nichiren Daishonin afirma o seguinte sobre os bodisatvas da terra: “Seu único propósito é propagar o Nam-myoho-renge-kyo, a grande razão do aparecimento do Buda neste mundo”5 (GZ, p. 833). Eles abraçam o compromisso de concretizar o kosen-rufu e incorporam o espírito de compartilhar a Lei Mística com as outras pessoas [shakubuku]. Empenhar-se na prática budista com sincera dedicação ao kosen-rufu é o espírito deles.
Os bodisatvas da terra vêm praticando a Lei Mística diligentemente desde o passado distante. Eles lapidaram a vida centrada na fé e na Lei Mística. Daishonin os descreve como “os únicos que poliram completamente sua determinação” (WND, v. I, p. 953). Esse é o motivo pelo qual conseguem suportar grandes dificuldades neste conturbado mundo saha para propagar o correto ensinamento do budismo. Nas profundezas de sua vida, habitam o mundo dos budas.
Os bodisatvas do ensinamento teórico e aqueles dos outros mundos descritos no Sutra do Lótus são os que ainda aspiram a atingir a iluminação. Portanto, ainda não são fortes o bastante para propagar o budismo neste mundo saha. Os únicos capazes de suportar o peso dessa missão são aqueles do ensinamento essencial — os bodisatvas da terra —, especialistas na prática da Lei Mística do “tempo sem início”.
O Sr. Makiguchi expressou:
Embora se diga que mesmo o pó ao se acumular pode originar uma montanha, não há na realidade nenhuma montanha formada pelo acúmulo de pó. O máximo que o pó acumulado poderia formar é um pequeno monte. Montanhas reais são formadas por grandes movimentações na crosta terrestre. Analogamente, você pode acumular todo tipo de bem menor que desejar, mas estes nunca se transformarão no grande bem.6
Os bodisatvas do ensinamento teórico são como aqueles que tentam atingir a iluminação acumulando o bem menor. Em contraste, os do ensinamento essencial — os bodisatvas da terra — fazem a grande energia vital do mundo dos budas emanar das “profundezas da natureza do Darma” (OTT, p. 119), a porção mais recôndita do ser, com a força explosiva de um vulcão em erupção.
Os bodisatvas da terra praticam a Lei Mística constantemente e vivem cada momento em profunda sintonia com a dimensão eterna da vida. Embora no que se refira à prática eles sejam bodisatvas, no tocante à iluminação interior eles são budas.
No entanto, a imagem que as pessoas tendem a ter do Buda é a de um ser transcendente ou de um super-homem. Ao contrário dessa visão, os bodisatvas da terra se devotam como seres humanos comuns que praticam a Lei Mística. Eles se dedicam como pessoas reais, e isso possui um significado profundo.
A restauração da fé e da confiança nos seres humanos — esse é o fator essencial para a religião do século 21. Acredito que o mundo anseie intensamente pelo surgimento desse grande ensinamento sobre humanismo e vida.
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