TC
Diálogo Sobre Religião Humanística
há 24 anos
(4) Estabelecendo o ensino correto para a paz da nação - Parte 2
Um princípio para a concretização da felicidade das pessoas e de uma sociedade pacífica
01/03/2003

Katsuji Saito: Para começar, vamos considerar o significado desse conceito tendo como foco o trecho “estabelecimento do ensino correto”. O que essa frase implica exatamente? Nesse tratado, Daishonin fala detalhadamente sobre as crenças religiosas errôneas que são a causa dos desastres que assolavam o país, mas fala muito pouco a respeito do significado de “estabelecimento do ensino correto”.
Presidente Daisaku Ikeda: Na nona parte, dentre as dez1 que formam o tratado, Daishonin indica que a chave para concretizar o princípio de “estabelecer o ensino correto para a paz da nação” encontra-se em reformar os “dogmas que mantém em seu coração”. Em outras palavras, transformar a si próprio num nível fundamental é a base para o “estabelecimento do ensino correto”.
Morinaka: A passagem que o senhor menciona diz: “É lamentável que as pessoas saiam do portal do ensino correto para entrarem na prisão das doutrinas distorcidas! Que estupidez o fato de essas pessoas caírem umas após as outras nas armadilhas dessas doutrinas malignas e permanecerem tanto tempo emaranhadas nessa rede de ensinos caluniadores! Elas perderam seu caminho em meio à névoa e ao ar fétido que emana do solo e afundaram nas chamas devastadoras do inferno. Como uma pessoa poderia deixar de se afligir? Como poderia não sofrer? “Portanto, o senhor deve reformar rapidamente os dogmas que mantém em seu coração e abraçar o único verdadeiro veículo, a única boa doutrina [do Sutra de Lótus]. Se assim fizer, o mundo tríplice2 se tornará a terra do Buda, e como poderia a terra do Buda decair? As regiões nas dez direções se tornarão mundos do tesouro, e como poderia o mundo do tesouro sofrer dano? Se o senhor vive num país que não conhece declínio ou decadência, numa terra que não sofre nenhum mal ou destruição, então seu corpo encontrará paz e segurança, e sua mente ficará calma e tranqüila. O senhor deve acreditar em minhas palavras. Preste atenção ao que digo!” (Os Escritos de Nitiren Daishonin [END], vol. 1, págs. 60-61.)
Pres. Ikeda: Daishonin ensina aqui o nível fundamental no qual ocorre o princípio de “estabelecer o ensino correto”. Isto é, ele ocorre no nível do coração. Em outras palavras, sem a transformação interior do indivíduo, o ensino correto não pode ser estabelecido.
Daishonin diz que quando vencemos o mal fundamental da calúnia contra a Lei e reformamos as crenças que trazemos em nosso coração, então o mundo tríplice — o mundo real em que vivemos — torna-se a pura terra do Buda, um indestrutível mundo do tesouro. E diz também que o ensino em que devemos crer é a “única boa doutrina”. “Doutrina” significa verdadeiro ensino e refere-se especificamente ao Sutra de Lótus, e “único ensino” quer dizer bem fundamental.
O Sutra de Lótus ensina que todas as pessoas podem manifestar a natureza de Buda, e que é dever daqueles que abraçam o Sutra entrar em ação para fazer com que os outros também atinjam o estado de Buda. Esta é a sabedoria e o modo de viver de um buda. Essa prática do Buda e essa filosofia são exatamente o que quero dizer com bem fundamental. Da mesma forma, o ensino de Daishonin dos Três Grandes Ensinos Fundamentais nada mais é que a prática do bem fundamental para os Últimos Dias da Lei.
De toda forma, aqueles que abraçam esta filosofia e dedicam a vida a colocá-la em prática são iguais ao Buda tanto em espírito como no modo de vida. E o lugar onde vivem, seja qual for, é a terra do Buda. Podemos observar com isso que a Lei do budismo é a base fundamental da vida das pessoas.
A essência do “estabelecimento do ensino correto” encontra-se em acreditar no bem fundamental que é o Sutra de Lótus e em cada indivíduo estabelecendo a paz em seu coração. Só é possível construir uma sociedade realmente pacífica quando essa sociedade atua de acordo com o bem fundamental. Isso não quer dizer, no entanto, que cada pessoa numa determinada sociedade deve unir-se na fé no Sutra de Lótus. O que importa é que o espírito da grandiosa filosofia de paz exposta no Sutra de Lótus, com seu ensino de que todas as pessoas são budas, seja a base da sociedade como um todo. No nível social, “estabelecer o ensino correto” significa estabelecer os conceitos da dignidade humana e do máximo respeito à vida como os princípios que sustentam e que movem a sociedade.
Saito: Em seus escritos, Daishonin diz com freqüência que o budismo atua como um princípio subjacente que sustenta a sociedade. Ele diz, por exemplo: “Como o budismo foi se tornando confuso, o mundo secular também mergulhou no caos e na corrupção. O budismo é como o corpo e a sociedade, a sombra. Quando o corpo se curva, assim também faz a sombra.” (WND, pág. 1039.)
Pres. Ikeda: O budismo é como o “corpo”; esta é a base de tudo. Quando o budismo está em desordem ou seus ensinos se perdem, a sociedade cai num estado de confusão. A menos que haja uma filosofia capaz de sustentar a sociedade num nível fundamental, o mundo perderá a base. Como conseqüência, a sociedade cairá no caminho da Animalidade dominada pela lei da selva, no caminho da Ira sujeito ao conflito incessante, e no caminho da Fome confinado ao descontentamento. Por fim, ela cairá no mundo do interminável sofrimento do Inferno.
É por isso que “estabelecer o ensino correto” é da máxima importância. Uma vez que tiver sido estabelecido, “a paz da nação” será concretizada sem falta.
Morinaka: No entanto, as várias escolas budistas da época de Daishonin tentavam agradar as autoridades, ocupando-se exclusivamente em orar pela segurança dos que detinham o poder. Totalmente alheias ao objetivo da felicidade das pessoas, preocupavam-se unicamente em proteger sua posição e em receber concessões e privilégios. E insistiam erroneamente que essa relação cômoda era um exemplo da complementação do governo secular e da Lei budista.
Pres. Ikeda: No Japão da época, a relação entre o governo secular e a Lei budista era muito complexa. Originariamente, “governo secular” refere-se aos vários mecanismos e instituições sociais e governamentais. “Lei budista”, por sua vez, é o ensino exposto pelo Buda em seu esforço para conduzir todas as pessoas à felicidade, e é também o sistema para implementar sua prática.
Saito: Creio que a época de Sakyamuni oferece um exemplo do ideal de relacionamento entre essas duas esferas.
Pres. Ikeda: Sim. Antes de ter optado pela vida religiosa, Sakyamuni era príncipe. Tendo abandonado sua posição real, ele se devotou à realização de várias práticas ascéticas e em conseqüência tornou-se Buda. Com isso, fica claro que o governo secular e a Lei budista são diferentes. De fato, parece que a Lei budista transcende a do mundo secular.
Porém, algo muito importante nesse sentido — como já tratamos em outra parte — foi a experiência de Sakyamuni com a súplica do deus Brahma (Bonten, em japonês) logo após ter atingido a iluminação.
Saito: Permitam-me fazer um breve resumo do que aconteceu. Depois de ter atingido a iluminação, Sakyamuni descobriu que não havia ninguém em condições de compreender a Lei para a qual ele havia despertado, e que sua pregação havia apenas aumentado a confusão das pessoas. Por fim, exausto, decidiu abandonar seus esforços. Nesse momento, Brahma, considerado como o senhor do mundo, lamentou: “Se o Buda não pregar a Lei, então este mundo será destruído.” E pediu que Sakyamuni continuasse a expor a Lei.
Morinaka: O falecido Dr. Hajime Nakamura, estudioso do budismo, analisou esse episódio da seguinte forma: “Talvez a própria mente do Buda Gautama tenha hesitado sobre se deveria ou não pregar. Mas ele percebeu que, se não pregasse, não poderia aperfeiçoar sua iluminação... A iluminação não é uma condição em que alguém flutua em algum mundo abstrato e sem nenhuma ligação com as pessoas.”3 O Dr. Nakamura salienta que foi somente expondo o ensino aos outros e conduzindo-os à iluminação que Sakyamuni pôde aperfeiçoar sua iluminação.
A iluminação do Buda ocorreu pelo bem de todas as pessoas. Se fosse somente para sua satisfação pessoal, então teria ficado limitada ao estado de vida de um pratyekabuddha. Em outras palavras, não teria ido além do estado de Absorção.
Pres. Ikeda: Esse é um ponto importante. Desde o início, o budismo nunca foi exposto como um fim em si mesmo, mas como uma religião para os seres humanos. Era o esteio que protegia a sociedade da destruição. Exatamente por essa razão, Sakyamuni pediu aos seus discípulos: “Vocês devem viajar para outras terras pela felicidade das pessoas, por seu benefício e por sua paz e alegria!” Foi o grande rei Asoka4 da antiga Índia quem realmente colocou em prática esse espírito de Sakyamuni no governo secular.
Saito: Quando o rei Asoka viu o sofrimento resultante de sua conquista de Kalinga, seu coração sofreu uma mudança. A partir de então, ele abandonou sua política de “vitória pelo poderio militar” e passou para a “vitória pelo Dharma”. O primeiro capítulo do edito promulgado por ele em Kalinga diz: “Todos os homens são meus filhos. O que desejo para meus filhos, e eu desejo seu bem-estar e felicidade tanto neste mundo como na próxima existência, eu desejo para todos os homens.”5
Pres. Ikeda: Acatando ao pé da letra as palavras de Sakyamuni, Asoka aspirou à felicidade de todas as pessoas. Não existe nada mais bárbaro do que a guerra. Perdendo ou vencendo, o resultado é a miséria. Asoka deve ter compreendido isso. E ele iniciou assim uma batalha pela eterna felicidade das pessoas pelas três existências do passado, presente e futuro.
Em um de nossos diálogos, o Dr. Lokesh Chandra, importante filósofo indiano, fez a seguinte observação:
“O falecido Dr. Hajime Nakamura, velho amigo meu e excelente estudioso da Índia, disse que por “Dharma” o rei Asoka queria dizer um princípio humano, e que ele sentia que o budismo expunha isso corretamente.
“O rei Asoka, em vez de falar do budismo em geral, falava sobre o próprio Dharma. Embora esse pensamento tenha tido origem no budismo, ele revelou esse valor universal para as pessoas na linguagem comum.”
Asoka não forçou as pessoas a aceitarem a doutrina budista. Ele concedia em seu reino a liberdade de religião e reconhecia as demais crenças. É altamente provável que ele tenha permitido a competição religiosa aberta em prol da promoção da felicidade humana e da concretização de uma sociedade pacífica. Isso tem muito em comum com a “competição humanitária” defendida pelo presidente Makiguti.
Morinaka: Isso ajuda a esclarecer o que Daishonin queria dizer ao falar sobre a “fusão do governo secular e da Lei budista” (obutsu myogo).
Pres. Ikeda: As pessoas são sábias. É impossível manter as pessoas dominadas ou enganadas por muito tempo. É por isso que os impostores são sempre desmascarados no final. Este é o rigoroso julgamento da história.
O poder da Lei budista sempre se manifesta na sociedade e apóia os esforços desta para agir de acordo. Vamos citar as palavras de Nagarjuna6 como exemplo.
O significado da advertência
Morinaka: Nagarjuna, o grande erudito do Mahayana, deixou o Ratnavali, endereçado ao rei de Satavahana, seu amigo pessoal. Nessa obra, ele declara:
“Um rei que age
Com suas práticas iniciais, intermediárias
E finais
Não é prejudicado nem aqui nem no futuro.”
E também:
“As práticas são a melhor política,
É com elas que o mundo se contenta;
Nem hoje nem no futuro a pessoa
É iludida por um mundo que está satisfeito.”
Ele disse ainda:
“Se mesmo [no cotidiano] a dor produzisse
Benefícios futuros, [Aceitar o sofrimento] benéfico
Pela própria felicidade
E pela dos outros será de ajuda
Se esta prática antiga for reconhecida como método excelente.”7
Nagarjuna instrui o rei dizendo-lhe que, se se baseasse no budismo, desfrutaria a eterna prosperidade. E o adverte a dedicar a vida a um grande objetivo, sem se distrair com preocupações insignificantes de obter ganho imediato.
Pres. Ikeda: Esta é de fato a filosofia do “estabelecimento do ensino correto para a paz da nação”. Nagarjuna também diz: “Faça o que produz felicidade para si e para os outros. Esse é o eterno Dharma.”
Os seres humanos nascem para serem felizes. Qualquer posição que implique em exercer poder existe unicamente para essa finalidade. Nagarjuna nos instrui a despertarmos para essa verdade, a compreendermos essa missão.
Saito: Apesar de o rei ser seu amigo, ainda assim Nagarjuna foi muito corajoso para aconselhá-lo dessa forma. Ele próprio descreve seus pensamentos sobre essa questão da seguinte maneira:
“Um rei que faz o que não está certo
E o que não é apropriado é muito louvado
Por seus súditos, pois é difícil saber
O que ele tolera e o que não tolera;
Portanto, é difícil saber
O que é útil dizer e o que não é.
Se as palavras são úteis porém desagradáveis aos ouvidos
São difíceis de serem ditas a alguém,
O que poderia eu, um monge, dizer a um rei
Que é o senhor da grande terra?
Mas por causa de minha afeição pelo senhor
E de minha benevolência por todos os seres,
Digo-lhe sem hesitação
O que é útil, mas desagradável.”
Pres. Ikeda: Esse é o verdadeiro espírito da advertência. Falar com base na benevolência por todas as pessoas. Dar a vida para bradar pelo bem das pessoas e pela justiça. Esse é o correto caminho de um budista.
Morinaka: Porém, na época de Daishonin todas as escolas budistas do Japão procuravam adular as autoridades políticas e a proteção que recebiam era muito grande.
Por volta da época da introdução do sistema de “regente aposentado”,9 a expressão “governo secular” passou a indicar a ordem, a autoridade e o poder do imperador e de outras pessoas de influência no mundo secular. A “Lei budista”, por sua vez, passou a ser associada aos grandes templos e relicários, vistos como forças políticas e sociais, e também às suas atividades.10 Os templos budistas da época possuíam vastas extensões de terra e detinham grande poder.
Até mesmo o imperador Shirakawa,11 o primeiro a deter sozinho a autoridade sob esse sistema, admitia que ele próprio não exercia nenhum poder sobre as águas do rio Kamo, de Quioto, que periodicamente transbordava e inundava a capital, nem sobre o rolar dos dados, tampouco sobre os exércitos monásticos do monte Hiei.12
Saito: Brandindo sua autoridade religiosa, os grandes templos, incluindo o Enryakuji, no Monte Hiei, e o Kofukuji, em Nara, faziam repetidamente suas exigências despóticas num esforço para obter todos os tipos de privilégios especiais do governo.
Em geral, aceitava-se que os oficiais do governo que ocupavam posições de poder representassem o “governo secular”, ao passo que os bonzos maldosos que se gabavam de sua autoridade para manipular os que estavam no poder correspondiam à “Lei budista”. Quando Taira no Shiguehira ordenou que incendiassem templos de Nara, tais como o Todaiji e o Kofukuji, no ano de 1180,13 o nobre da corte, Kujo Kanezane,14 escreveu em seu diário intitulado Gyokuyo (Folhas de Jade): “Isso significa a destruição da Lei budista e do governo secular?”
Pres. Ikeda: Mas quando Daishonin fala do “governo secular” e da “Lei budista”, o significado é totalmente diferente. Ele se refere a esses termos em seu sentido original e não apenas como expressões de autoridade e de influência. O Budismo de Daishonin é um ensino para as pessoas.
O “governo secular” refere-se aos princípios fundamentais que sustentam a sociedade e também aos sistemas que tornam esses princípios uma realidade de fato. Ele abarca todas as funções da sociedade, incluindo a política, a economia, a educação e a arte.
A “Lei budista” refere-se à essência do ensino do Buda: é a Lei Mística que permite a todas as pessoas concretizarem a felicidade. A Lei budista não se restringe a uma província em particular de uma escola ou seita; é o coração benevolente do Buda que permeia todo o Universo, e também o espírito do Buda que está dotado das três virtudes de soberano, mestre e pais com a finalidade de proteger, conduzir e ensinar as pessoas. A Lei budista é a base para a promoção do avanço dos seres humanos e da sociedade.
Saito: Da mesma forma, quando Daishonin fala da “fusão do governo secular com a Lei budista”, ele está se referindo a fazer com que o espírito do budismo pulse e desabroche em todas as áreas da sociedade. E também a construir uma sociedade em que a felicidade das pessoas seja a preocupação principal.
Pres. Ikeda: Daishonin descreve seu espírito ao apresentar a tese “Sobre o Estabelecimento do Ensino Correto” em outro de seus escritos, “Perguntas e Respostas sobre o Objeto de Devoção”.
Morinaka: Ele diz assim:
“Como o verdadeiro e o falso no budismo tornaram-se confusos, o governo secular foi declinando gradativamente, e em conseqüência esta terra será vencida pelo poder estrangeiro e cairá na ruína. Como somente Nitiren tem consciência do fato e está preocupado com isso, pelo bem da Lei budista e do governo secular reuni num escrito importantes passagens dos sutras e apresentei-as ao falecido bonzo leigo do Saimyoji.15 Dei a esse escrito o título de ‘Sobre o Estabelecimento do Ensino Correto para a Paz da Nação’.” (Gosho Zenshu, pág. 371.)
Pres. Ikeda: Daishonin apresentou a tese “Sobre o Estabelecimento do Ensino Correto” para alertar sobre o estado em que se encontrava a relação entre a Lei budista e o governo secular que estava empurrando o país para a ruína. Pois, se a situação continuasse como estava, as pessoas se tornariam miseráveis e toda a sociedade seria atirada ao inferno de incessante sofrimento. Daishonin era motivado unicamente por sua preocupação com as pessoas, com a Lei e com a sociedade. Creio que ele quis criar uma terra próspera e pacífica em que a Lei budista e o governo secular se apoiassem mutuamente. Desde o início, ele se manteve afastado da relação distorcida com o estado que havia prevalecido no Japão durante tanto tempo, e nunca foi de seu interesse que a sua “Lei budista” recebesse um tratamento especial e fosse protegida pelo “governo secular”.
Morinaka: Naquela época, os bonzos de alto escalão pertencentes às várias escolas budistas distorceram e insultaram a Lei budista. Além disso, os seguidores estavam tão acostumados a reverenciar cegamente esses monges, que não enxergavam erros.
Pres. Ikeda: O nobre espírito de Daishonin estava além da compreensão desses bonzos, que julgavam a situação com seus próprios parâmetros covardes. Para eles, Daishonin estava tentando agradar os detentores do poder, assim como eles mesmos faziam. Por causa da escuridão que havia em seu coração, eles temiam Daishonin, que não possuía posição nem poder, e passaram a persegui-lo tanto de forma velada como aberta.
As pessoas maldosas temem sua própria sombra. Isso também é verdade nos dias de hoje. Aqueles que caluniam uma pessoa de justiça de forma infundada estão apenas projetando suas próprias ações maldosas e propagando falsidades.
Mas nem mesmo diante de contínuas perseguições Daishonin não retrocedeu um único passo. Ele combateu decididamente as forças negativas que ameaçavam lançar as pessoas no sofrimento.
Saito: Naquela época, havia no Japão muitas religiões influentes. Além das poderosas escolas budistas da Nembutsu, Tendai, Verdadeira Palavra, Preceitos e Zen, havia também o xintoísmo, o caminho do Yin e do Yang e o confucionismo. Nenhuma delas, no entanto, tinha forças para mudar as circunstâncias da época. Daishonin escreveu: “Hoje as tentativas de fazer as divindades agirem não surtem efeito e os apelos aos poderes do Buda não produzem resultados.” (END, vol. 1, pág. 11.) Mesmo assim, o clã Hojo, que ocupava a posição central no governo, intensificou sua devoção às várias escolas budistas, doando grandes templos, um após outro.
Morinaka: É isso o que Daishonin indica em “Sobre o Estabelecimento do Ensino Correto” quando diz: “Templos budistas que chegam a unir telhado com telhado, e tantos depósitos para guardar os sutras que eles podem ser alinhados de beiral a beiral. Os clérigos são tão numerosos quanto os pés de bambu e junco e os monges são tão comuns quanto mudas de arroz e cânhamo.” (Ibidem, pág. 21.)
Pres. Ikeda: Com certeza, os templos que eles erigiam eram construções suntuosas. E os bonzos apareciam em todos os lugares. Porém, todo esse florescimento era só aparência. Mesmo assim, ofuscavam os olhos das pessoas e as mantinham cativas. Na passagem seguinte, Daishonin manifesta sua severa indignação a respeito da situação.
Morinaka: Ele diz: “Mas os clérigos e monges de hoje são aduladores e desonestos. Eles confundem as pessoas e as desencaminham. O soberano e seus subordinados carecem de compreensão e não conseguem distinguir o certo do errado.” (Ibidem, pág. 22.)
Pres. Ikeda: Procurando libertar as pessoas dessa cega submissão, Daishonin apelou para a consciência e o senso de responsabilidade dos que estavam no poder. “Sobre o Estabelecimento do Ensino Correto” é realmente um documento de aviso e de advertência àqueles no poder.
Saito: No escrito “As Ações do Devoto do Sutra de Lótus”,16 Daishonin fala desse tratado: “Minhas advertências superaram até mesmo as de Po Chü-i17 em seus poemas Yüeh-fu, e minhas profecias não são inferiores às do Buda.” (WND, pág. 763.)
Pres. Ikeda: Uma vez que ele faz uma comparação com o Yüeh-fu de Po Chü-i e com as profecias de Sakyamuni, podemos deduzir que o próprio Daishonin considerava a tese “Sobre o Estabelecimento do Ensino Correto” como um escrito profético e de advertência.
Morinaka: Po Chü-i foi um importante poeta da dinastia Tang da China. Ele considerava a poesia como o caminho da verdade, e as baladas que descreviam os chamados de tristeza do povo e as advertências aos estadistas formavam a parte principal de sua obra. Com freqüência ele reprovava Xian Zong (805-820), o imperador da época. Embora o último deplorasse a falta de cortesia de Po Chü-i, aceitava muitas das críticas do poeta e se esforçava para melhorar seu governo.
Pres. Ikeda: “Poesia é aspiração.” Um espírito poético em fusão com uma suprema aspiração é a chave para romper a escuridão e a confusão espirituais. Esse é o sentimento do escritor quirguiz Tchinguiz Aitmátov, e também a de muitos outros escritores eruditos com quem me encontrei. Po Chü-i veio de uma família comum, estudou arduamente e se dedicou ao povo, observando rigorosamente as ações dos líderes políticos. O fato de Daishonin mencionar esse grande poeta chinês faz muito sentido. Morinaka: Em “Ji Tangsheng” (Poema Dedicado ao Povo de Tang),
Po Chü-i escreveu: “Não me interessa ter um ritmo elegante. Nem dou atenção às sentenças ou ao roteiro. Meu único desejo é expressar em versos o sofrimento das pessoas para chamar a atenção do imperador.”18 Ele escrevia numa linguagem clara e simples, preocupando-se unicamente em alertar o imperador para o sofrimento do povo.
Pres. Ikeda: Correto. A linguagem de fácil compreensão é importante. Independentemente da importância da mensagem, se não puder ser compreendida pelos outros, não servirá para nada. A força da linguagem também é importante. Uma única palavra cheia de convicção nascida da coragem toca o coração das pessoas. E a sinceridade que brota de um espírito profundo e amplo comove a vida das pessoas.
Saito: Em seu prefácio para o Yüeh-fu, Po Chü-i escreveu: “Em termos gerais, poderíamos dizer que os versos foram compostos para o governante, para os ministros, para o povo e para todos os assuntos e questões. Estas palavras não foram compostas como um fim em si mesmas.”19
Pres. Ikeda: Sua disposição era de sempre bradar pela justiça para proteger as pessoas. Este também deve ter sido o espírito que ressoava na vida de Daishonin. Em “Razões para Escrever a Tese ‘Sobre o Estabelecimento do Ensino Correto para a Paz da Nação’”, Daishonin declarou: “Digo isto unicamente pelo bem da nação, pelo bem da Lei, pelo bem das pessoas, e não pelo meu próprio bem.” (WND, pág. 164.) Ele não buscava prestígio social nem honrarias. Daishonin arriscou a vida para falar em defesa da sociedade, da Lei e do povo.
Saito: “O Estabelecimento do Ensino Correto para a Paz da Nação” é indubitavelmente o foco do budismo para as pessoas.
Pres. Ikeda: A Soka Gakkai promove a fé correta para estabelecer o ensino correto na vida do indivíduo. Ao fazer isso na sociedade, estamos difundindo o espírito de respeitar os seres humanos e de colocar as pessoas em primeiro lugar. Com base nesses conceitos, estamos propagando um movimento de cultura, de paz e educação na sociedade — em outras palavras, no mundo secular.
Creio que este grande movimento embasado no budismo, que abarca 180 países e territórios,20 irá se tornar sem falta uma força poderosa de contínuo avanço para a concretização da paz perene de toda a humanidade. O futuro começa agora.
Saito: Nós continuaremos a avançar com esse orgulho no coração. Muito obrigado. Há ainda muitas questões a discutir a respeito da tese “Sobre o Estabelecimento do Ensino Correto”, tais como o significado de “paz da nação” e a “profecia” de Daishonin. Por essa razão, gostaria de propor que continuemos este nosso diálogo na próxima ocasião.
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