TC
Capa
há 3 anos
Da semente à árvore
Definir objetivos claros é transformar os sonhos em um belo jardim de realizações
Redação
01/09/2023

A Amazônia é uma das regiões mais ricas do planeta em biodiversidade e é considerada patrimônio da humanidade. A Floresta Amazônica — parte do bioma amazônico —
abriga 2.500 espécies de árvores, um terço da madeira tropical do planeta, e cada exemplar passou pelo ciclo da vida de uma pequena semente até a fase adulta com sua imensa copa.
Podemos relacionar as etapas da vida de uma árvore com nossos objetivos. Ou seja, cada semente possui o potencial de se tornar uma frondosa árvore. Mas, para que isso ocorra, são necessários águas da chuva, raios solares, solo fértil etc. Assim como cada objetivo reserva infinita potencialidade para ser materializado. Para ser concretizado, é fundamental ter a determinação e a clareza de onde quer chegar.
Em uma orientação, o presidente da SGI, Dr. Daisaku Ikeda, assegura:
Uma forte determinação é a causa para um grande crescimento. Ter essa determinação é como plantar uma semente. Enquanto ainda é semente, ela é invisível aos outros. Mas, na época apropriada, ela brotará, fincará raízes e nascerão muitos galhos e folhas até se tornar uma grande árvore. A “semente” de uma determinação realmente profunda produzirá uma “grande árvore” que será admirada por muitos séculos pelas pessoas. Nós precisamos manifestar essa determinação agora, e não em alguma ocasião no futuro. O momento presente é a época para iniciarmos nossa batalha.1
Como Ikeda sensei enfatizou, por meio de simbologias, a natureza nos ajuda a refletir sobre os nossos sonhos e como transformá-los em realidade. Por exemplo, não se pode construir um belo jardim sem escolher o local, arar a terra, verificar as sementes certas, semear, adubar e cultivar com cuidado e atenção. O mesmo acontece com nossos objetivos. Para atingi-los, é necessário pensar nos detalhes práticos que auxiliarão a priorizar tarefas e otimizar as ações.
Assim sendo, matéria de Capa discorre sobre a importância de se ter o senso de progresso constante em todas as áreas da vida. A definição de objetivos desenvolve a iniciativa, a imaginação, o entusiasmo, a autodisciplina e o esforço concentrado, qualidades fundamentais para o sucesso.
Teoria da definição de metas
Especialistas se debruçam sobre esse entendimento. Na área profissional, por exemplo, é conhecida a teoria da definição de metas, denominação dada pelo psicólogo americano, Dr. Edwin A. Locke e publicada pela primeira vez em 1968. A teoria parte do princípio de que estabelecer metas claras, bem-definidas e mensuráveis melhoram bem mais o desempenho que objetivos indefinidos.
De fato, os objetivos devem ser relevantes para ser motivadores, porém realistas. Para que funcionem como esperado, é preciso identificá-los e defini-los de maneira sistemática. Objetivos difíceis nos fazem dar o melhor de nós, mas os impossíveis só nos desanimam e nos estressam.
Talvez isso já seja de conhecimento de muitos, contudo, nem sempre é fácil persistir. Às vezes, nem bem plantamos a semente do objetivo e já queremos logo obter a colheita; outras vezes, paramos no meio do caminho ao sinal da primeira praga que tenta correr em nosso jardim. E, assim, perdemos para as dificuldades.
O presidente Ikeda contextualiza o papel essencial de pensarmos grande. Ele enfatiza que ter grandiosos sonhos nos auxilia a não tropeçar nos pequenos buracos da vida. Diz que o genuíno sucesso é garantido na batalha contra a si. Um vencedor persegue seus sonhos sem cessar, mesmo que encontre obstáculos. E para isso, Ikeda sensei recomenda pontos essenciais, vejamos a seguir.
Quatro pontos para a vitória
Como percebemos até aqui, somos motivados a não abrir mão dos nossos objetivos, seja eles impossíveis aos olhos dos outros. Ikeda sensei apresenta quatro pontos essenciais para concretizá-los: decisão e oração, esforço e planejamento.
Vamos então arar nossa mente. No Budismo Nichiren, praticado na Soka Gakkai, a decisão vem revestida de forte energia capaz de fazer acontecer. E no momento exato em que determinamos a vitória, a causa para conquistá-la já está registrada.
Dessa forma, não importando se as raízes de um objetivo lançado há tempos andam enfraquecidas ou se há uma nova semente em mãos, a decisão de dar o primeiro passo e avançar com nova disposição ressignificará o resultado. Não podemos perder de vista que “O budismo está de acordo com a razão. A fé reflete-se na vida diária e na condição atual. Nossas orações não serão respondidas se não realizarmos os esforços adequados”.2 Daí entram planejamento e esforço.
Exemplificamos com uma experiência real. Um trecho do romance Nova Revolução Humana retrata um episódio vivenciado aqui no Brasil, quando um agricultor se dirige ao presidente Ikeda lamentando a falta de sorte em sua produção de hortaliças. Questões como a utilização certa do adubo, o tempo de cultivo, a escolha das sementes e trato da terra foram perguntadas ao agricultor. Hesitante em todas, ouviu do Mestre:
Antes de tudo, para não repetir o erro, deve avaliar o que causou o insucesso na colheita. O senhor pode consultar os agricultores que tiveram êxito na colheita e anotar o que eles têm para dizer. Procure também tomar as devidas providências para evitar outros fracassos. As pessoas que levam realmente a sério o que fazem, constantemente estudam e empregam a criatividade para resolver os problemas. Se negligenciar tudo isso, não obterá sucesso. É um grande erro pensar que terá uma colheita farta só porque está se empenhando na prática da fé. O budismo é um ensinamento da mais suprema razão. Portanto, a força de sua fé deve se manifestar no estudo, no planejamento, na criatividade e nos esforços redobrados. A recitação do daimoku com toda a seriedade é a fonte da energia para enfrentar esses desafios.3
É um sinal de alerta, explicitando a necessidade de um bom planejamento e esforço concentrado com visão do todo. Na conclusão das palavras do Mestre dirigidas aos membros com os quais se encontrou, eles demonstraram um novo vigor, ao ouvirem sobre a importância da oração, que, no Budismo Nichiren, tem sentido de forte juramento. Mais que um simples compromisso de vitória, a oração de juramento se configura no levantar baseado em nobre propósito, de ser feliz e também de guiar os outros à felicidade, ou ao kosen-rufu, movimento empreendido pelos membros da Soka Gakkai em 192 países e territórios. A recitação do Nam-myoho-renge-kyo com esse sentimento é o que proporciona a edificação de objetivos essenciais na vida.
O todo em partes
Por vezes, é difícil olhar para uma diminuta semente e enxergá-la formada. Antes de atravessar o nível visível da terra, concentra-se toda a energia para se tornar pequenos brotos. Assim como na vida, sonhos grandiosos se formam de pequenas conquistas, atitudes diárias que criam os contornos reais do que se deseja alcançar.
Vamos exemplificar por meio de dois termos japoneses: mokuhyo e mokuteki. Mokuhyo pode ser traduzido como “meta”, alvo a ser atingido. Essa palavra é dividida em: moku: “olho”; hyo: “rápido”, “imediato”. Ou seja, é o objetivo aparente ou imediato. Mokuteki, por sua vez, é composta por: moku: “olho”; teki: “claro”, “nítido”. Portanto, pode ser traduzida como “objetivo fundamental” ou “propósito essencial”.4
Com essa visão de que dentro do grande objetivo há fatias de pequenas conquistas que lhe dão vida, é vital valorizar cada uma delas e partir para o planejamento das próximas fases. Além disso, promover um esforço concentrado, ao mesmo tempo, em que se exercita a olhar para o seu interior e obter a resposta da pergunta “Para que desejo tal objetivo?”. Esse, sim, se torna um divisor de águas.
Lançamos mão de mais um exemplo da natureza. Há uma árvore, nativa da Amazônia e de outras regiões, chamada sumaúma. É gigante, podendo chegar a 70 metros, o que equivale a um edifício de 24 andares. Vital para a natureza, leva alguns nomes e o especial deles é “árvore da vida”. Em alguns estudos, essa espécie pode ser considerada como o GPS da floresta pela forma com que sua copa é projetada. Lê-se que “Das sementes também pode se extrair o óleo que, além do uso alimentar, é usado na produção de sabões, lubrificantes e em iluminação, e é ainda bastante eficiente no combate à ferrugem. Rica em proteínas, óleo e carboidratos, a torta das sementes serve de ração para animais e como adubo”.5
Há um fato curioso, que chama a atenção na abordagem “Para que desejamos tanto nossos objetivos”. A sumaúma consegue retirar a água das profundezas do solo e trazê-la não apenas para abastecer a si mesma, mas também para repartir com outras espécies, pois suas raízes, conhecidas como sapopemba, arrebentam em determinadas épocas do ano irrigando toda a área em torno dela.6
Portanto, uma reflexão oportunizada por essa “árvore da vida” dá conta de quanto nossos objetivos estão ligados a um nobre propósito. Como praticantes do Budismo Nichiren, somos estimulados a não perder de vista essa conduta. Em Sabedoria para Criar a Felicidade e a Paz, lemos este trecho revelador:
Uma vida dedicada a buscar o efêmero e as glórias transitórias do mundo também é efêmera e transitória. Perseguir ansiosamente formas de felicidade que são insubstanciais e impermanentes é uma maneira triste e vazia de se viver. Como Daishonin afirma, nosso próprio estado de vida elevado é o eterno e indestrutível palácio, a verdadeira fortaleza da felicidade.7
Quando a pessoa abre o palácio da própria vida, reforça Ikeda sensei, isso a conduzirá ao descortinar do “palácio da felicidade” na vida de outras pessoas e do “palácio da prosperidade” na sociedade.
Agenda 2030 e nosso compromisso
Estão aí como exemplo os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), propostos pela Organização das Nações Unidas, criando uma perspectiva global, permeada pela ação individual, no local em que cada um se encontre.
Implementadas pela anuência de 193 países-membros da ONU, a Agenda 2030, como ficou conhecida, segue ancorada em dezessete grandes objetivos, desmembrados em 169 metas. Ou seja, cada objetivo tem suas bases de alcance em partes. Buscam cercar os desafios da humanidade, constituindo-se num plano de ação global para eliminar a pobreza extrema e a fome, oferecer educação de qualidade ao longo da vida para todos, proteger o planeta e promover sociedades pacíficas e inclusivas até 2030.
Esse ano (2030) é bastante simbólico, quando será celebrado o centenário da Soka Gakkai. Nosso mestre, o pacifista Dr. Daisaku Ikeda, nos faz ampliar a visão de cidadania e de comunhão com as pessoas ao redor, promovendo o contato de coração a coração, extraindo a angústia e levando felicidade a todos, o kosen-rufu.
Como praticantes budistas, tendo como base o respeito máximo pela dignidade da vida, nós nos esforçamos para cumprir as metas de desenvolvimento social a nosso alcance. As atitudes diárias de diminuir o consumo, proteger a natureza e a biodiversidade vão ao encontro do que defende nossa crença. Na obra Revolução Humana, o presidente Ikeda enfatiza:
De acordo com os princípios budistas que pregam a unicidade de pessoa e ambiente (esho-funi) e os três mil mundos num único momento da vida (ichinen-sanzen), a desordem na vida e na sociedade estão inter-relacionadas e afetam também o meio ambiente natural. O budismo ensina que o universo é um corpo vivo em que os seres humanos e a natureza encontram-se numa relação de interdependência.8
A Agenda 2030 tem sido foco, portanto, de várias iniciativas abraçadas pelos integrantes da Soka Gakkai em âmbito mundial, assim como no Brasil, com movimentos de educação ambiental.
Visão sustentável
A Amazônia é a “terra dos sonhos” de Ikeda sensei. Há trinta anos, por iniciativa dele, da área que margeia o Encontro das Águas dos Rios Negro e Solimões, ergueu-se o Instituto Soka Amazônia. Uma semente de esperança, que hoje se frutifica em motivação e inspiração para vários projetos, ancorados no tripé da educação ambiental, proteção à natureza e pesquisa científica. Jovens e crianças, em especial, exercitam-se na educação em meio à natureza, aprendendo com os pássaros, as plantas e o convívio harmônico. Pesquisadores lançam-se a novos estudos, e renovadas fronteiras do saber e inspiração se abrem para um futuro sustentável.
Em junho, comemorando o Dia do Meio Ambiente, ocorreu uma parceria inédita: a afiliação do Instituto Soka Amazônia à Carta da Terra Internacional, a primeira assinalada na Amazônia, com a presença da diretora executiva Mirian Vilela. Diferentemente dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, que se ocupam dos desafios globais, a Carta da Terra trabalha com fundamentos éticos. Trata-se de documento, um movimento que convida instituições e pessoas comuns a se empoderar da consciência de interdependência e do cuidado para a proteção da vida — o planeta para as futuras gerações. “Transformar consciência em ação”, frisou Mirian Vilela. “Devemos trabalhar nossa capacidade de enxergar além do que realmente vemos.”9
Em suas palavras no evento, o diretor presidente do Instituto Soka Amazônia, Luciano Nascimento, fez uso do exemplo da árvore sumaúma para reforçar o papel da instituição, simbologia viva da semente de futuro plantada pelo presidente Ikeda. “As raízes dessa sumaúma do instituto estão se tornando essa grande fonte que nutre nossa vida de coragem, esperança e se tornará o grande castelo de proteção de Amazônia.”10
E os nossos objetivos?
Tendo como pano de fundo nuanças da vida natural, procuramos trazer inspiração para que você ilumine seus pensamentos e suas ações diante dos desafios diários, da conquista dos grandes sonhos que passam, necessariamente, pelas pequenas vitórias. O budismo esclarece que ter um propósito fundamental na vida impede que as pessoas sejam levadas a uma existência superficial e vazia. Traz também o ensinamento para aflorar a determinação daquelas que desistem no meio do caminho, achando brechas e respostas para a derrota.
Decisão, oração, esforço e planejamento são o objetivo para a consecução do que se deseja atingir. Aliado às metas claras, bem-definidas e mensuráveis, assim como constam na teoria do Dr. Edwin A. Locke. A base dessa concentração elevada de energia vital para fazer florir a vida encontra-se no resoluto daimoku (recitação do Nam-myoho-renge-kyo).
Recitar daimoku não é pedir ajuda a um ser superior. É uma oração suprema que nos permite fortalecer nosso espírito para que possamos fazer o nosso melhor. Depois de nos esforçar até o máximo de nossas habilidades, devemos recitar novamente e nos dedicar ainda mais para romper nosso próprio limite. A chave é orar com objetivos claros e empenhar todas as forças para conquistá-los.
No movimento de expansão dessa consciência, nós nos tornamos sensíveis a encontrar formas de exercer nosso papel como cidadãos, esforçando-nos a pôr em prática atitudes de impacto positivo na natureza, na sociedade e para um futuro sustentável. Aqui, temos referências nítidas de como uma semente plantada com visão de futuro frutifica-se inevitavelmente, e a partir de metas bem estabelecidas. O Mestre diz:
Nossa prática do Budismo Nichiren é um eterno desafio. É uma incessante luta para vencermos a nós mesmos. “O que devo fazer hoje?”, “Quais meus objetivos para este mês?” — é importante definirmos metas claras e orarmos especificamente para cada uma delas. Avançar um passo à frente de onde nos encontrávamos no ano anterior ou mesmo ontem — nisso reside a alegria da revolução humana.11
Vamos, portanto, avançar com consciência revigorada, pois “Não há barreiras intransponíveis para quem coloca o budismo em ação. Com a renovada decisão de “é a partir de agora” e com objetivos claros a cada dia, desafie com transbordante coragem!”.12
Ações pelo mundo
No Japão, alunos da Universidade Soka promovem a campanha “Diga Sim para Sustentabilidade, Não para Plásticos”, entre outras iniciativas em prol do meio ambiente, como o Encontro para Ação Climática, realizado no campus da instituição, em setembro.
Conheça: https://www.soka.edu/about/sustainability
No topo: Getty Images
Notas:
1. Terceira Civilização, ed. 421, nov. 2003, p. 36.
2. IKEDA, Daisaku. Juventude: Sonhos e Esperanças. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, v. 2, p. 146, 2020.
3. Idem. Nova Revolução Humana. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, v. 1, p. 237, 2021.
4. Terceira Civilização, ed. 483, nov. 2008, p. 66.
5. Disponível em: https://institutosoka-amazonia.org.br/sumauma-a-gigante-da-amazonia/. Acesso em: 2 ago. 2023.
6. Disponível em https://www.iguiecologia.com/samauma/. Acesso em: 2 ago. 2023.7
7. IKEDA, Daisaku. Sabedoria para Criar a Felicidade e a Paz. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, 2023. p. 33.
8. Idem. Nova Revolução Humana. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, v. 4, p. 207, 2018.
9. Brasil Seikyo, ed. 2.637, 24 jun. 2023, p. 8-9.
10. Ibidem.
11. Brasil Seikyo, ed. 2.424, 23 jun. 2018, p. B4.
12. Idem, ed. 2.539, 14 nov. 2020, p. 2.
Compartilhe
