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há 3 anos

Tributo ao Sagarmatha do Humanismo: Lições Vivas do Buda Gautama

Esta é uma série em que publicaremos os discursos proferidos por Ikeda sensei em universidades e instituições acadêmicas fora do Japão. A décima palestra que trazemos aqui é intitulada Homenagem ao Sagarmatha do Humanismo: As Lições Vívidas do Buda Gautama e foi realizada na Universidade de Tribhuvan, no Nepal, em 2 de novembro de 1995.

Dr. Daisaku Ikeda

01/09/2023

Tributo ao Sagarmatha do Humanismo: Lições Vivas do Buda Gautama

Recebo com grande honra e alegria a oportunidade que me concederam de proferir algumas palavras na Cerimônia de Formatura da Universidade de Tribhuvan neste lindo país, Nepal, terra natal do buda Gautama.1 Sinto-me profundamente grato e expresso-lhes meus sinceros agradecimentos.

Permitam-me também manifestar minhas sinceras congratulações a todos vocês que estão se graduando hoje nesta universidade, uma das instituições de ensino superior mais respeitadas da Ásia. Fiquei profundamente impressionado ao tomar conhecimento do solene juramento que realizaram durante a cerimônia de formatura. Meu coração se enche de infinita esperança e expectativa ao imaginá-los no futuro escalando as cordilheiras do século 21, e mantendo sempre em mente a nobreza e dignidade do juramento que firmaram na presente data.

O título de meu discurso de hoje é “Tributo ao Sagarmatha2 do Humanismo: Lições Vivas do Buda Gautama”. Aproveito este ensejo para ponderar com os senhores sobre o legado espiritual desse grande mestre da humanidade, concentrando-me em dois temas centrais pertinentes a sua filosofia e caráter: a penetrante luz de sua sabedoria e a vasta dimensão de sua compaixão.

Ao considerarmos a condição da humanidade contemporânea, que poderia ser comparada a uma passagem forçada por um mar desconhecido e tempestuoso, vêm-me à lembrança as seguintes estrofes de um dos grandes poetas nepaleses, Bala Krishna Sama:

Afasta-te de todas as altercações, como se viessem de um menino tolo.
Desaloja a desunião, prospera e abandona a fé cega!
Tenha fé no humanismo, viva e deixa os outros viverem!
Disputai sempre para se exceler na verdade e
na decisão de fazer o bem.
Rogo a ti, Oh Mundo!
Quebra o arco do átomo antes que
eu dê meu último suspiro.
Apaga o nome da guerra com a canção
da paz perene!3

Esse poema expressa um contundente anseio pela paz neste nosso século devastado pela guerra, assim como alguém no deserto deseja água. E esses sentimentos nobres e belos, tenho certeza, são compartilhados pelo povo do Nepal.

Nossa aspiração e anseio encontram resposta na visão do buda Gautama, que, em sua colossal sabedoria e compaixão, se destacacomo Sagarmatha do humanismo; sua vida foi de magnânimos e incessantes esforços para habilitar a humanidade a desfrutar paz e segurança.

O primeiro aspecto da sabedoria de Gautama que quero discutir é seu premente apelo para que evidenciemos o brilho máximo da torre de tesouro da nossa vida interior.

Desde o alvorecer da era moderna, as atividades da sociedade humana — tais como o desenvolvimento da ciência e da tecnologia, e o crescimento industrial e econômico — foram sustentadas pela forte fé no “culto ao progresso”, na qual o parâmetro do avanço sempre foi a expansão quantitativa. Isso, porém, continha uma armadilha imprevista. Enquanto a humanidade buscava o progresso, embriagada pela promessa de realizar seus sonhos, vimos a realidade sacrificada no altar dos projetos sociais; o presente, no do futuro; o ambiente, no do crescimento; a pessoa humana, no da teoria vazia.

Aí se encontra a causa primordial dos trágicos horrores do nosso século.

Em resposta aos nossos dilemas atuais, a sabedoria do buda Gautama nos insta a direcionar o olhar novamente para a dimensão mais profunda, mais fundamental da vida humana.

Um ponto de máxima relevância no Saddharma-pundarika-sutra, ou Sutra do Lótus — considerado o âmago dos ensinamentos do Buda —, é o surgimento de uma magnífica torre de tesouro adornada com preciosidades. Ela simboliza a vasta vida cósmica existente no ser humano, e foi à tarefa de habilitar cada indivíduo a cultivar essa dimensão de vida abundantemente fértil — o microcosmo que compõe o universo dentro do indivíduo — que o buda Gautama devotou seus esforços ao longo da vida.

Quando observamos a crescente atenção e ênfase atribuídas aos objetivos voltados para o desenvolvimento humano em anos recentes, não podemos deixar de sentir que a visão e o discernimento de Gautama reluzem de forma ainda mais intensa.

Há cerca de dez anos, mantive um diálogo com o cofundador do Clube de Roma, Aurelio Peccei, no decorrer do qual ele ofereceu o seguinte conselho às futuras gerações:

Dentro de nós reside uma prodigiosa riqueza de capacidades não desenvolvidas e não utilizadas que nunca foram sequer exploradas (...); uma fonte de aptidões de fato extraordinária, renovável e, ao mesmo tempo, expansível.4

A expressão que o Dr. Peccei e eu empregamos para descrever o processo de desenvolver o potencial inerente à vida humana foi “revolução humana”.

Nem é necessário dizer que o fator essencial para esse tipo de desenvolvimento é a educação, uma área em que o Nepal vem configurando continuamente um importante exemplo. Do mesmo modo, a educação mostra-se indispensável para a concretização dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e para cumprirmos nossas responsabilidades em relação às gerações futuras.

Os ensinamentos do Buda também contêm a seguinte passagem:

Se deseja saber as causas que foram feitas no passado, observe os efeitos que se manifestam no presente. E se deseja saber os efeitos que se manifestarão no futuro, observe as causas que estão sendo feitas no presente.5

Essa passagem indica um modo de vida que não se prende aos acontecimentos do passado nem é dominado pelo medo excessivo nem com a incerteza em relação ao futuro. Ou melhor, sublinha a importância da nossa integridade e das realizações no momento presente. O propósito dessa passagem é nos incentivar a “cavar a terra sobre a qual estamos pisando”, sabendo que, com certeza, encontraremos um rico manancial nas profundezas do instante eterno.

O buda Gautama nos exorta a evidenciar o brilho da torre de tesouro existente dentro de nós, neste exato momento e, com essa luz, iluminar o futuro, assentando o caminho para o genuíno progresso e avanço da humanidade. As palavras dele são de um gigante espiritual, um autêntico vitorioso na vida.

O segundo aspecto da sabedoria do buda Gautama que quero abordar é sua atitude de ouvir atentamente a voz das pessoas comuns.

E mais ainda que a verdade eterna e imutável, o budismo salienta a importância da sabedoria adaptativa adquirida por meio da fusão da vida com essa verdade. Em outras palavras, somos estimulados a despertar para a verdade que é válida e imutável em qualquer época ou circunstância e, desse modo, trazer à tona a sabedoria que flui livremente e pode responder à realidade em constante evolução que nos cerca.

Eu, particularmente, sinto que a fonte da sabedoria irrestrita de Gautama se encontra em sua atitude de ouvir com atenção e carinho as sinceras expressões dos cidadãos comuns.

O Buda encorajava constantemente as pessoas em volta dele a perguntar o que desejassem, a expor o que estivessem guardando no coração. Realmente, Gautama merece figurar ao lado de Sócrates como um dos grandes mestres do diálogo. Ele foi um inigualável gigante da educação humanística que guiou as pessoas mediante um contínuo processo de diálogo.

Quando, por exemplo, uma mãe que perdera seu amado filho implorou a Gautama que salvasse a criança, ele disse que poderia preparar um remédio para curá-la se ela lhe trouxesse algumas sementes de mostarda. No entanto, acrescentou, estas teriam de vir de uma casa que a morte nunca tivesse visitado. A mãe iniciou sua busca desesperada de casa em casa, mas, obviamente, não conseguiu encontrar casa alguma na qual ninguém jamais houvesse morrido.

Aos poucos, a mãe, devastada pela dor, passou a compreender que não estava sozinha em sua tristeza, mas que todos os lares carregavam o mesmo fardo de luto e perda. Portanto, ela determinou superar seu pesar e despertou para a missão de solucionar os sofrimentos humanos fundamentais de nascimento, envelhecimento, doença e morte. Essa história, como várias outras semelhantes, ilustram a profundidade da compreensão que o buda Gautama tinha do coração das pessoas e a sabedoria e a compaixão que ele aplicava ao trabalho de ajudá-las a elevar sua condição de vida.

No Sutra do Lótus, a virtude de ouvir a voz de todas as pessoas é indicada na descrição do praticante ideal do sutra:

As incalculáveis variedades de vozes humanas —
ele pode ouvir e compreender todas elas.
Novamente, pode ouvir as vozes dos seres celestiais,
sons de maravilhosas e delicadas canções,
e pode ouvir as vozes de homens e mulheres,
vozes de meninos e meninas.
No meio das colinas, rios e vales íngremes, as vozes do kalavinka, do jivakajivaka e outros pássaros —
Todos esses sons ele ouvirá.
Das multidões atormentadas do inferno
os sons de vários tipos de sofrimentos e angústias,
sons dos espíritos famintos incitados pela fome e sede
[as vozes dos bodisatvas e budas
do inferno Avichi ao céu de Akanishta,]
ele pode ouvir todos esses sons
sem jamais prejudicar suas
faculdades auditivas.6

Tenho a impressão de que isso proporciona um paradigma de liderança que se estende além dos limites da prática religiosa e abarca todos os campos da atividade humana, incluindo a política, a economia, a cultura e a educação.

No topo: Ikeda sensei profere sua palestra na Universidade de Tribhuvan, a mais renomada instituição acadêmica do Nepal, terra natal de Shakyamuni. Foto: Seikyo Press

Notas:

1. Buda Gautama: Nome pelo qual o buda Shakyamuni é conhecido no Nepal. Gautama é o sobrenome da família de Shakyamuni.

2. Sagarmatha: Nome do Monte Everest, a montanha mais alta do mundo, em nepalês. Também conhecido como Chomolungma, em tibetano, localiza-se na Cordilheira do Himalaia, na fronteira entre o Nepal e a China.

3. SAMA, Bala Krishna. Adieu, Adieu, O World. In: Modern Nepali Poems. Katmandu: Royal Nepal Academy, 1972. p. 70.

4. GAGE, Richard L. (ed.); PECCEI, Aurelio; IKEDA, Daisaku. Before it Is Too Late [Antes que Seja Tarde Demais]. Tóquio: Kodansha International, 1984. p. 116.

5. Abertura dos Olhos. InColetânea dos Escritos de Nichiren Daishonin. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, v. I, p. 292, 2020.

6. The Lotus Sutra [Sutra do Lótus]. Tradução: Burton Watson. Nova York: Columbia University Press, 1993. p. 253-255.

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