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há 2 anos
Em gratidão ao Mestre, eu me levantarei!
01/11/2024

“O dia de hoje ficará para sempre gravado em minha vida. (...) Agora, eu me levantarei.”1 Foi assim que Daisaku Ikeda expressou sua dor quando ouviu as palavras “Meu pai acaba de falecer” na ligação que recebeu do filho de Josei Toda. Ele ficou profundamente triste, mas tentou encorajar a si mesmo. Naquele dia, escreveu em seu diário:
Sensei [Josei Toda] deixou uma extensão de sua vida, e está para começar o segundo ato da batalha decisiva para tornar realidade os princípios budistas na sociedade. Eu me levantarei!2
Dessa forma, Ikeda sensei jurou, em gratidão, dar continuidade ao legado do seu mestre.
Se hoje a Soka Gakkai está presente no mundo inteiro é porque ele cumpriu essas palavras. O combustível que o moveu incessantemente foi o espírito de corresponder ao seu mestre.
No mês em que marca o primeiro ano do falecimento de Ikeda sensei, vamos refletir sobre a atuação do discípulo que dá continuidade aos ideais do Mestre a partir da gratidão que sente.
Digno comportamento humano
Ikeda sensei percorreu muitos países com a missão de expandir o budismo. Antes de chegar a uma nova região, ele procurava aprender ao menos uma palavra no idioma local: gracias (espanhol), grazie (italiano), spasibos (russo), danke (alemão), merci (francês), kamsaamnida (coreano), xie xie e duo xie (chinês) e “obrigado” (português). Era assim que ele ligava seu coração ao da outra pessoa, olhando-a nos olhos e expressando sua consideração.
Ele afirma:
Quando ouvimos ou dizemos a palavra “obrigado”, removemos a armadura do coração e nos comunicamos em um nível profundo. “Obrigado” é a essência da não violência. Contém respeito pelo outro, humildade e uma profunda afirmação da vida. Possui um otimismo alegre. Tem força. Uma pessoa que consegue dizer obrigado com sinceridade possui um espírito vigoroso e saudável; cada vez que dizemos essa palavra, nosso coração reluz e a energia da vida surge de dentro de nós.3
Esse reconhecimento das interações é um princípio antigo e comprovado pela ciência, inclusive entre os animais. Apesar disso, não há muitas pesquisas ainda sobre o assunto.
Um dos poucos estudos4 que existem avaliou os benefícios para a saúde que resultam do ato de escrever cartas de agradecimento. Após os entrevistados escreverem três cartas de gratidão por semana durante três semanas, os resultados indicaram aumento na felicidade e na satisfação com a vida e uma redução nos sintomas depressivos dos participantes.
Dessa forma, a ciência moderna tenta se aproximar daquilo que a filosofia milenar do Budismo de Nichiren Daishonin expressa. Contudo, a gratidão está na base do que o budismo ensina como o digno comportamento humano transcendendo qualquer recompensa que aquele que manifesta gratidão possa vir a ter. Pelo contrário, o primeiro passo é “compreender as dívidas de gratidão saldando-as”, como Daishonin afirmou em seu escrito Saldar as Dívidas de Gratidão.
Quando soube da morte do seu mestre, Nichiren Daishonin redigiu essa carta, que se tornou um de seus cinco principais escritos.
Dívida que traz prosperidade
No nosso dia a dia, dificilmente a palavra “dívida” está inserida em um contexto positivo. Pode nos fazer lembrar dos compromissos financeiros, de uma obrigatoriedade que temos de liquidar. E ainda pode nos levar à ideia de que, quando não estivermos mais “endividados”, sentiremos alívio.
Essa não é, porém, a interpretação que devemos dar ao ato de “saldar as dívidas de gratidão”. Ikeda sensei explica:
Hoje, as pessoas podem sentir que as palavras “obrigação” ou “dívida de gratidão” lhes soem antiquadas e impliquem algo unilateral imposto de cima para baixo, como um dever exigido por um superior ou pelos pais. No entanto, no budismo e nos ensinamentos de Nichiren Daishonin em particular, saldar as “dívidas de gratidão” constitui uma virtude universal, assentada na visão budista de que tudo, em última análise, mantém uma relação de interdependência.5
Assim, mantendo essa virtude, a satisfação de todos nós, comprovada por aquela pesquisa, é que Ikeda sensei nos garante provocar ainda mais prosperidade:
Ter gratidão e apreço pelas incontáveis pessoas e fatores que sustentam a nossa vida — consciência, sentimento e alegria — atrairá uma felicidade ainda maior.6
Encontramos o budismo graças a Ikeda sensei
Quando Josei Toda faleceu, Ikeda sensei, durante a reunião que houve no dia seguinte, citou uma passagem desse mesmo escrito e fez esta reflexão:
Encontramos o Budismo Nichiren graças a Toda sensei. Embalados por sua compaixão, aprendemos o verdadeiro caminho do ser humano. Como discípulo, de que modo devemos saldar nossa dívida de gratidão?
Após um ano do falecimento do nosso mestre, cabe-nos a mesma ponderação: “Encontramos o Budismo Nichiren graças a Ikeda sensei. Como seus discípulos, como podemos saldar nossa dívida de gratidão?”.
Diante da própria pergunta em 1958, Ikeda sensei, como jovem, clamou:
Só há uma maneira de saldar a dívida que temos com nosso mestre, Josei Toda. E essa maneira é realizar uma grande luta em prol do kosen-rufu, a causa pela qual ele deu a vida, para que possamos lhe relatar: “Sensei, veja a extensão do kosen-rufu que realizamos!”.7
Isso também é válido para nós. Devemos realizar uma impetuosa luta em prol do kosen-rufu trilhando pelo caminho que nosso mestre desbravou.
O conto dos corvos
Um antigo conto chinês ilustra de que maneira essa dívida poderá ser saldada com nosso mestre:
Certo dia, um rei descansava na grama e uma serpente se aproximou para picá-lo. Um corvo branco percebeu o perigo e o bicou para que ele se protegesse. O rei se sentiu muito agradecido por esse alerta e passou a procurar o corvo branco por todos os lugares, querendo saldar essa dívida com ele, mas não conseguia encontrá-lo. Um conselheiro sugeriu que ele demonstrasse gratidão aos corvos pretos e que, ao fazer isso, pagaria sua dívida de gratidão com o corvo branco.
Ikeda sensei explicou que o corvo branco, por ser extremamente raro, representa um venerável, e os corvos pretos, que são uma espécie comum, correspondem a todas as pessoas. Dessa forma, a história nos ensina que podemos saldar nossa dívida de gratidão com o Mestre dedicando-nos à felicidade das pessoas, que incluem nossa família, nossos vizinhos, colegas de trabalho e todos os seres vivos. Ikeda sensei ressalta:
Dedicar a vida à concretização do kosen-rufu, a propagação benevolente da grande Lei, é o modo supremo de saldar nossas dívidas de gratidão. É pelo nosso “comportamento como ser humano” que saldamos nossa dívida de gratidão com o mestre.8
As pessoas que nos trouxeram até aqui
“Pagar” a dívida que temos com o Mestre só nos deixará mais prósperos.
Em uma sociedade pautada no individualismo com tendências mais voltadas para satisfação de si, a Soka Gakkai, organização que põe em prática os ideais do Budismo Nichiren, incentiva que seus membros tenham ações de elevado respeito e consideração por todas as pessoas. Assim como salienta o presidente Ikeda:
Compreender o ato de saldar as dívidas de gratidão significa perceber que somos o que somos graças a todas as pessoas que fazem parte da nossa vida e, então, passar a lutar pelo bem delas a partir do senso de gratidão. É o que nos habilita a valorizar a pessoa que se encontra diante de nós. Quando agimos desse modo, conseguimos nos libertar da dor da solidão e estreitar laços de coração a coração com outras pessoas. Podemos expandir nossa condição de vida e enriquecer nossa própria humanidade, bem como a dos outros.9
“Somos o que somos graças a todas as pessoas que fazem parte da nossa vida” — o digno comportamento como ser humano ensinado no budismo nos orienta a reconhecer o papel daquelas pessoas e até de circunstâncias que contribuíram para o nosso eu de hoje.
Nem sempre a convivência com as pessoas é harmoniosa. Ao longo da vida passamos por relações que são complexas. Mas o fato é que se conseguirmos pôr em ação o comportamento humanístico do budismo, transformaremos o que poderia ser ressentimento em gratidão.
“Manter a chama acesa”
Neste mês completa-se também oitenta anos do falecimento de Tsunesaburo Makiguchi, primeiro presidente da Soka Gakkai. Josei Toda, como seu discípulo, quando soube da morte do mestre “chorou copiosamente e jurou vingança. Sua vingança foi atuar em prol da paz. Eis aqui o ponto primordial da relação de mestre e discípulo na Soka Gakkai”,10 afirma Ikeda sensei.
Agora não temos mais a presença do nosso mestre, mas somos a extensão de sua vida.
O Dr. Zhang Kaiyuan, historiador chinês e ex-presidente da Universidade Normal Huazhong, quando dialogou com Ikeda sensei, disse que seu lema é “manter a chama acesa”. Ele contou que incentivava os estudantes a herdar os valores de seus professores e a tornar real aquilo que os educadores não tinham conseguido em vida. Ele afirmou:
Na Soka Gakkai, a transmissão do firme compromisso com a paz do presidente Makiguchi para o presidente Josei Toda, e depois do presidente Josei Toda para o senhor, presidente Ikeda, é um excelente exemplo de “manter a chama acesa”. Tenho plena certeza de que a brilhante chama do compromisso com a paz será agora transmitida pelo senhor, presidente Ikeda, e [este juramento] será fielmente cumprido por seus jovens sucessores.11
Ikeda sensei passou para nossas mãos uma chama flamejante e ardente pelo bem da humanidade. Mas mesmo que a chama hoje esteja acesa, se ela não for protegida do vento e da chuva, poderá apagar. Essa chama também terá de ser constantemente cuidada, adicionando mais lenha no fogo para que perdure. Continuando essa analogia, nosso mestre explica que o budismo ensina como os discípulos devem herdar a chama espiritual dos seus mestres, e que “a gratidão é o coração do espírito de mestre e discípulo Soka”.12
Agora é minha vez
O Budismo de Nichiren Daishonin aprofunda o conceito de gratidão — concepção que contempla um benefício recebido - e o eleva à condição de virtude daquele que reconhece o papel das pessoas à sua volta para o próprio desenvolvimento e por isso se dedica ao bem delas em retribuição.
Quem nos ensinou esse grandioso modo de vida foi Ikeda sensei e, por essa razão, possuímos uma dívida de gratidão com ele. A forma que temos de saldá-la não é outra senão nos empenhar em dar continuidade ao seu legado de respeito pela dignidade da vida das pessoas. O presidente Ikeda confia especialmente nos jovens para cumprir esse propósito:
Todas as pessoas, sem exceção, possuem a natureza de buda. Por isso, respeitamos e prezamos a todos. Os jovens da Soka Gakkai, que abraçam este ensinamento de supremo humanismo, ensejarão uma nova era para as pessoas do mundo inteiro. Esses viçosos bodisatvas da terra, jovens munidos de genuíno compromisso, que mudarão o destino da humanidade, zarparam para uma nova jornada pela paz. Os esforços deles converterão desentendimento em união, transformarão a gélida escuridão da alienação na cálida luz da cooperação, e este mundo corrupto e repleto de desavenças, num reino de paz, estabelecendo os princípios humanísticos do Budismo Nichiren.13
Ikeda sensei jurou expandir os ideais do budismo para o mundo após o falecimento do seu mestre. Para tornar isso possível, levantou voo, atravessou as nuvens e cruzou os céus do mundo mesmo enfrentando fortes ventos contrários.
Abordo dessa aeronave agora é a nossa vez de alçar novos voos pela felicidade da humanidade. Vamos “decolar para uma nova jornada pela paz”, sendo a extensão do nosso mestre a partir do seu brado:
É chegado o momento de dar novos e firmes passos rumo ao kosen-rufu mundial. Meus amados discípulos, agora é a hora de se levantar com coragem. Meus queridos companheiros, façam emergir seu poder inerente como bodisatvas da terra! Chegou a hora de realmente mostrarmos ao mundo o que podemos conseguir por meio do juramento compartilhado entre mestre e discípulo.14
No topo: Getty Images
Notas:
1. Brasil Seikyo, ed. 1.841, 29 abr. 2006, p. B7.
2. IKEDA, Daisaku. Diário da Juventude: A Jornada de um Homem Dedicado a um Nobre Ideal. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, 2019. p. 459.
3. Brasil Seikyo, ed. 2.306, 16 jan. 2016, p. B2.
4. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/225805768_Letters_of_Gratitude_Further_Evidence_
for_Author_Benefits. Acesso em: 16 out. 2024.
5. Terceira Civilização, ed. 632, abr. 2021, p. 50-65.
6. Ibidem.
7. Ibidem.
8. Ibidem.
9. Ibidem.
10. Brasil Seikyo, ed. 2.021, 30 jan. 2010, p. A2.
11. Terceira Civilização, ed. 552, ago. 2014, p. 46.
12. Ibidem.
13. Terceira Civilzação, ed. 632, abri. 2021, p. 50-65
14. Ibidem.
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