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Série
há 2 anos
Empatia com os pobres: Os Miseráveis, de Victor Hugo
Os livros da minha juventude
Tradução dos extratos do livro The Books of My Youth [Os Livros da Minha Juventude]
Dr. Daisaku Ikeda
01/11/2024

Li Os Miseráveis, de Victor Hugo, pela primeira vez, quando tinha 14 ou 15 anos. Duas traduções para o japonês estavam disponíveis: a versão resumida, de Ruiko Kuroiwa, e a versão integral, de Yoshio Toyoshima. Escolhi a completa em três volumes, uma obra importante com cerca de 4 mil páginas. No Japão, o título do livro não era muito conhecido. Em vez disso, as pessoas estavam mais familiarizadas com o nome do protagonista, Jean Valjean, ou com o título em japonês Aa Mujo [Ah, Sem Piedade!], conforme foi traduzido por Kuroiwa.
Esboço da ilustração para a primeira edição de Os Miseráveis, feita pelo francês Émile Baynard em 1862, retrata a pequena Cosette realizando tarefas domésticas. A imagem tornou-se emblemática, representante de toda a história e utilizada na arte promocional de diversas versões do musical baseado na obra
Eu me recordo de ter lido o livro três vezes. Ao final do dia 30 de agosto de 1950, escrevi em meu diário: “Terminei de ler Os Miseráveis”.1 Essa foi minha terceira leitura completa. Lembro-me de ir, numa noite de verão, ao cemitério de Zoshigaya, em Tóquio, para ler o livro sob a luz do luar. Sentei-me sobre um tapete de palha, segurando uma lanterna. A quietude do cemitério deserto tornava o lugar ideal para uma leitura.
Alguém disse certa vez que um livro que não vale a pena ser relido, não vale a pena ser lido nem uma vez. Com Os Miseráveis, mesmo quando o li pela terceira vez, fiquei sentado virando página após página, alheio à passagem do tempo.
Dois meses depois, a versão cinematográfica estreou e fui vê-la em Shinbashi, em Tóquio, conforme registrei em meu diário.2
Reprodução do periódico francês de 1908 com matéria sobre Victor Hugo e o livro Os Miseráveis
Os Miseráveis é um romance épico ambientado na França do início do século 19. Poucos anos após o fim da monarquia francesa, com a execução do rei Luís XVI, Napoleão Bonaparte subiu ao poder com a ambição de conquistar toda a Europa. Uma invasão fracassada da Rússia, no entanto, levou à sua abdicação forçada. Apesar dos esforços para retornar, ele foi derrotado na Batalha de Waterloo pelo exército britânico liderado pelo Duque de Wellington.
Em vários momentos do romance, Hugo descreve vividamente os acontecimentos históricos desse tumultuado período, a partir do fim do século 18. A sociedade e a política mudavam a um ritmo acelerado, da monarquia à república e, por fim, ao império.
Em qualquer época, independentemente do progresso ou do quão próximo um governo está dos seus ideais, há sempre “os miseráveis” — aqueles que foram empurrados para os cantos da sociedade, mas que, no entanto, prosseguem com sua vida.
Ilustrações dos personagens para a primeira edição de Os Miseráveis: (de cima para baixo) Jean Valjean, Fantine e Javert
Olhar compassivo
Ao nomear seu romance de Les Misérables, ou seja, “Os Miseráveis” ou “Os Desgraçados”, Hugo expressa sua empatia pelos pobres. Brandindo sua caneta afiada, direciona seu olhar compassivo para a miséria dos pobres e condena os males sociais, inclusive a “condenação social, a qual, em meio à civilização, gera artificialmente um inferno sobre a terra”.3
O enredo do romance é bem conhecido. Jean Valjean, o protagonista, é preso por roubar um pão. Agravando sua ofensa com tentativas de fuga e desobediência, ele passa dezenove anos na prisão. Após a sua libertação, encontra o abade Myriel, que lhe ensina com as próprias ações a nobreza do espírito humano. Mesmo assim, é perseguido por um inspetor de polícia chamado Javert.
Dentre outros personagens estão Fantine e sua filha, Cosette. Apesar das circunstâncias infelizes, Fantine luta para cuidar de Cosette com uma devoção parental inspiradora. Após a morte de Fantine, Jean Valjean cria Cosette, que se torna uma bela mulher e se apaixona pelo jovem Marius. Há também o estalajadeiro Thénardier, um vilão sem coração, e Fauchelevent, o idoso jardineiro do convento que abriga Jean Valjean e Cosette.
(De cima para baixo) Ilustrações do bispo Myriel, do estalajadeiro Thénardier com sua esposa e de Marius
Com seu uso habilidoso do contraste, Hugo permite que cada personagem brilhe com uma qualidade única, trazendo à luz o bem e o mal da natureza humana.
Redimido pelo bispo Myriel, Jean Valjean se arrepende, se reinventa e recomeça com o nome de Madeleine. Na pequena cidade de Montreuil-sur-mer, Jean Valjean tem sucesso nos negócios, mas permanece frugal e oferece aos pobres, sem relutância, o apoio mais amoroso. Seus atos virtuosos lhe valem o cargo de prefeito e ele se esforça de maneira brilhante a cada dia, com carinho e boa vontade.
Um dia, o prefeito recebe um relatório do inspetor Javert de que “Jean Valjean” havia sido preso em uma cidade próxima. À noite, ele pega uma carruagem e segue rapidamente para o tribunal a fim de provar a inocência do homem, Champmathieu, que se parece com Valjean e que foi preso por engano. Champmathieu é inocentado da acusação equivocada e Jean Valjean, mais uma vez, vai para a prisão.
O crime de Jean Valjean é o seguinte: depois de deixar a casa do bispo Myriel, anos antes, ele rouba de Gervais uma moeda de 40 soldos, que o menino deixou cair e rolou em sua direção. É uma ação impulsiva. Quando ele recupera o juízo, procura desesperadamente Gervais, mas não consegue encontrá-lo.
Por causa do crime, Jean Valjean sabe que deverá passar o resto da vida como fugitivo. No entanto, embora bem consciente da severidade da punição que uma segunda ofensa acarretará, ele não consegue suportar a ideia de que o inocente Champmathieu seja punido pelas suas ações.
Continua na próxima edição.
No topo: Foto de Victor Hugo feita em 1870. Foto: Wikimedia Commons
Notas:
1. IKEDA, Daisaku. Diário da Juventude: A Jornada de um Homem Dedicado a um Nobre Ideal. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, 2019. p. 54.
2. Ibidem, p. 72.
3. HUGO, Victor. Les Misérables. Tradução: Lee Fahnestock e Norman MacAfee. Nova York: Signet Classics, 2013. p. xv.
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