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há 2 anos

Lu Xun

Heróis que superaram adversidades

Heróis que superaram adversidades (Parte 24)

Redação

01/11/2024

Lu Xun

Antes de tomar posse como terceiro presidente da Soka Gakkai, Ikeda sensei escreveu as seguintes palavras em seu diário: “O que é um caminho? É algo aberto ao caminhar por onde não havia um caminho. É algo construído pelo desbravar de uma mata densa”.1 Essa é uma passagem do Caminho da Vida, escrito por Lu Xun, o escritor revolucio­nário da China.

Este ano [2023] marca o 105o aniversário do surgimento do pseudônimo Lu Xun, guerreiro das palavras que lutou pelo futuro de seu país e sobreviveu ao período turbulento posterior à Revolução Xinhai e ao fim da dinastia Qing.

Lu Xun [seu verdadeiro nome era Zhou Shuren] começou a aspirar ao caminho da literatura por volta dos 20 anos.

Certo dia, quando estudava medicina no Japão, houve a projeção de uma sequên­cia de slides sobre a vitória na Guerra Russo-Japonesa (1904-1905) depois da aula. Nessa apresentação, ele viu uma cena em que um chinês, suspeito de espionagem, é executado pelo exército japonês. Uma multidão de chineses estava em volta observando o ato. Lu Xun ficou furioso com a aparente insensibilidade demonstrada por seus compatriotas. Ele afirmou: “A primeira tarefa que tínhamos de fazer era transformar o espírito deles. E, em se tratando de transformação do espírito, a meu ver, na época, a literatura era o melhor caminho”.

Mais que mudar a nação ou o sistema, para Lu Xun, antes de tudo, era preciso mudar realmente o ser humano. Erguendo-se com o poder da caneta, ele dedicou a vida para a construção da nova China, ansiando por uma era em que os corações acostumados à opressão mudassem e o povo chinês reconquistasse sua dignidade e felicidade.

Ao retornar ao seu país, em 1909, ele se devotou ao árduo e intenso treinamento para lapidar a habilidade na arte de escrever e, em maio de 1918, estreou seu romance Kyojin Nikki [O Diário de um Louco] na revista Novo Jovem.

O livro, que expõe de maneira brutal os males da velha sociedade chinesa por meio do diário do personagem principal, o qual sofre de paranoia, tornou-se muito popular entre os jovens por ser o primeiro romance em linguagem coloquial da literatura chinesa contemporânea. A obra abandonava a linguagem escrita de difícil entendimento pela linguagem falada.

No livro seguinte, Ah Q Shoden [A Verdadeira História de AQ], Lu Xun apontou, por intermédio do personagem principal Ah Q, o estado das pessoas que estavam presas à jaula de ferro do coração, denominada “resignação”, diante das regras do controle do status social.

Lu Xun

Lu Xun na juventude (1909)

Na mesma época, em outras partes do mundo, o povo oprimido começava a se levantar. Foram movimentos como o da não violência e da desobediência liderado por Gandhi, na Índia; e do anti-imperialismo, deflagrado na China, conhecido como Movimento 4 de Maio. Em meio a essa onda de lutas pelos direitos humanos, Lu Xun, que esperava a chegada de uma nova era, escreveu: “A vitória final não depende de quantas pessoas se contentam, mas, sim, de quantas lutaram até o fim”.

Lu Xun nasceu em 1881, em Shaoxing, província de Zhejiang, na China. Seu avô foi um alto funcionário do governo, mas acabou preso por conta de um incidente. Já seu pai ficou doente. Ele passava os dias indo e vindo da casa de penhores e farmácias.

Aos 20 anos, Lu Xun foi estudar no Japão e, depois de concluir os estudos no Kobungakuin, local em que o primeiro presidente da Soka Gakkai, Tsunesaburo Makiguchi, chegou a dar aulas, ingressou na Faculdade de Medicina de Sendai (atual Universidade de Medicina de Tohoku). Foi nessa instituição que ele conheceu aquele que viria a ser seu mestre da vida, o professor Genkuro Fujino.

Ao longo de sua existência, Lu Xun nunca se esqueceu da gratidão ao mestre que cuidou dele, independentemente da sua nacionalidade. Ele mudou o palco da sua missão em medicina para literatura e, ao retornar para seu país, devotou-se à formação de jovens como educador.

“Antes de tudo, é importante estabelecer o ser humano. Somente depois disso é que tudo começará a caminhar”, disse.

Ele deu palestras sobre clássicos como Romance dos Três Reinos e Margem da Água em diversas escolas, inclusive na Universidade de Pequim.

Argumentando com um aguçado senso histórico e crítica social, ele não mediu esforços para compartilhar seus conhecimentos com os jovens que assumiriam a responsabilidade pelo seu país natal.

Na década de 1920, na Universidade Normal Feminina de Pequim, ocorreu um conflito entre o diretor da instituição, que planejava reviver a educação feudal com o apoio do governo militar, e os estudantes, que se opuseram a ele. Lu Xun, então professor conferencista, apoiou o lado estudantil e enfrentou o governo.

A partir daí, a opressão do poder político e da mídia passaram a se intensificar sobre ele, mas Lu Xun jamais recuou.

Uma revista divulgou uma notícia falsa na qual afirmava que Lu Xun estava “incitando os estudantes à sombra” e que estava “recebendo propina”. Mas, na verdade, era exatamente o contrário. Pessoas ligadas à revista é que estavam causando tumulto na sociedade com boatos e recebiam apoio financeiro do governo.

Lu Xun

Em sua primeira viagem à China, Ikeda sensei visita a antiga residência de Lu Xun em Xangai, último endereço do escritor antes de falecer (10 jun. 1974). Na sala onde permanecem escrivaninhas, pincéis e outros itens utilizados por Lu Xun, há os dizeres: “Se eu continuar vivendo, naturalmente, continuarei aprendendo”

Lu Xun combateu veementemente essas informações distorcidas. Ele disse: “O boato é a verdade que o autor deseja do fundo do coração, por isso podemos ver a partir dele os pensamentos e as ações de algumas pessoas”.

A perseguição se acentuou ainda mais. Enquanto se deslocava de um lugar para outro, ao mesmo tempo em que travava sua batalha por meio da caneta, a saúde de Lu Xun foi afetada e ele mal conseguia se alimentar direito.

Em 1930, quando foi criada a Grande Aliança do Movimento pela Liberdade da China, sendo ele um dos fundadores, o governo o rotulou de “escritor corrupto” e emitiu um mandado de prisão contra ele.

Seus escritos passaram a ser alvo de rigorosa censura e seus livros foram proibidos de ser publicados. Para contornar essa opressão absurda, Lu Xun usou mais de cem pseudônimos diferentes para prosseguir em sua batalha pelas palavras de variadas maneiras.

A determinação de Lu Xun era: “Enquanto viver, pegarei minha caneta para enfrentar as armas deles”.

Mantendo essa decisão até o fim, junto com a chama da revolução ardendo em seu coração, o herói faleceu aos 55 anos, em outubro de 1936. Dizem que mais de 10 mil cidadãos compareceram para prestar homenagens nos dias seguintes à sua morte.

sensei e foto lu xun

Dr. Daisaku Ikeda (à frente) feliz no reencontro com o filho de Lu Xun, Zhou Haiying (ao lado) na antiga sede do Seikyo Shimbun em Shinanomachi, Tóquio (10 mar. 2004). Na ocasião, Ikeda sensei é agraciado com o certificado de Conselheiro Permanente do Centro de Desenvolvimento Cultural Lu Xun de Xangai. Além disso, ele recebe de presente uma foto de Lu Xun com o pequeno Zhou no colo

Reflexões do presidente Ikeda

Admirador das obras literárias de Lu Xun, Ikeda sensei veio divulgando, sempre que possível, esse espírito invencível do escritor e sua literatura da revolução humana.

Em reconhecimento a suas realizações e contribuições pioneiras pela amizade sino-japonesa, o Dr. Daisaku Ikeda foi agraciado com o título de conselheiro honorário dos três maiores salões memoriais Lu Xun (Pequim, Xangai e Shaoxing) como alguém que “herdou o espírito de Lu Xun de despertar as pessoas”.

Ikeda sensei também fez amizade com o já falecido filho de Lu Xun, Zhou Haiying.

Em março de 2005, atendendo à solicitação dos universitários e alunos que estudavam nas instituições Soka de ensino, o presidente Ikeda publicou sua segunda palestra cultural especial com o título Falando sobre o Escritor Revolucionário Lu Xun no Seikyo Shimbun. O Mestre desenvolveu a palestra associando o ser humano Lu Xun, sua filosofia e suas palavras.

“Tanto a revolução humana de si mesmo como a revolução espiritual de um povo não podem ser alcançadas do dia para a noite. Por isso, Lu Xun diz: ‘Esforce-se incansavelmente. Avance com forte perseverança’”.

Mesmo que aparentemente pareçam ter vencido por um tempo, sem falta as velhas forças reacionárias voltarão à cena. Por essa razão, Ikeda sensei adverte:

Só existe uma maneira para curar a situação de entorpecimento deste país. E é a perseverança ou a ação incansável e constante.

No decorrer da jornada de vocês, creio que haverá noites sombrias. Também haverá caminhos espinhosos. Contudo, não devem recuar jamais. Nesses momentos difíceis, deem um passo adiante. Porque é justamente esse passo que abrirá o caminho da vitória. Esperança é algo que vocês mesmos devem criar. Esperança é algo que vocês transmitem aos que virão depois de vocês, enquanto desbravam e abrem a trilha em meio aos espinhos. Essa é a “filosofia da esperança” que Lu Xun deixou por meio do próprio exemplo.

Ikeda sensei afirma:

Quando dizemos que “a revolução foi realizada”, estamos nos referindo apenas ao momento, mas, na realidade, a “revolução ainda não foi concretizada”. Não há um fim para a revolução. E se realmente existir algo neste mundo que possa ser considerado “supremo”, este mundo rapidamente acabaria se tornando imóvel.
Se vocês pararem, a revolução se interromperá exatamente aí. Revolução só existe em meio à contínua e eterna transformação. É por isso que os jovens sucessores são tão importantes.
Revolução é avanço eterno, desenvolvimento eterno, luta eterna.
Revolução permanente — esse era o modo de vida de Lu Xun.2

O que abre o grande caminho do triunfo do povo são a perseverança, a esperança e o avanço. “A luz virá sem falta, assim como a chegada do alvorecer não pode ser evitada” — essa foi a convicção de Lu Xun apresentada por Ikeda sensei na conclusão de sua palestra.

Adaptado da matéria publicada no Seikyo Shimbun, edição de 31 de março de 2023.

No topo: Lu Xun (1881–1936), escritor revolucionário chinês. Autor de romances como O Diário de um Louco e A Verdadeira História de AQ. Ele instigou continuamente as pessoas a mudar a mente e o espírito. Foto: ©Roger -Violle t/ Aflo

Notas:

1. IKEDA, Daisaku. Diário da Juventude: A Jornada de um Homem Dedicado a um Nobre Ideal. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, 2019. p. 552-553.

2. Ensaio publicado no Seikyo Shimbun dos dias 16, 19 e 24 de março de 2005.

Materiais de pesquisa:

Rojin Zenshu [Obras Completas de Lu Xun]. 20 v. Tradução: Toramaru Ito e outros. Gakushu Kenkyusha.

Rojin Senshu [Textos Selecionados de Lu Xun]. 13 v. Tradução: Yoshi Takeuchi e outros. Iwanami Shoten.

GU, Mingyuan. Rojin — Sono Kyouiku Shiso to Jissen [Lu Xun: Sua Filosofia Educacional e Prática]. Tradução: Hiroshi Yokoyama. Dodaisha.

YIGE, Shi. Rojin no Shogai [A Vida de Lu Xun]. Tradução: Jiro Kaneko e Shinichi Ohara. Toho Shoten.

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