BS
Nova Revolução Humana
há 6 meses
Diálogo humanístico
Capítulo “Juramento Seigan”, volume 30
Dr. Daisaku Ikeda
08/08/2025

Ilustração: Kenichiro Uchida
Parte 57
No dia 2 de janeiro de 1991, o presidente da Soka Gakkai, Eisuke Akizuki, e o diretor-geral, Kazumasa Morikawa, foram ao templo principal solicitar um diálogo com o sumo prelado Nikken Abe, que foi recusado. Depois disso, o clero da Nichiren Shoshu continuou se recusando a dialogar com os líderes da organização com justificativas de que eram “indignos de audiência com o sumo prelado”.
Outra correspondência do clero datada de 12 de janeiro foi entregue à Soka Gakkai. Na inquirição original continha graves erros nas citações atribuídas a Shin’ichi Yamamoto. Havia também um nítido erro de interpretação do significado da declaração de Shin’ichi em alguns questionamentos, além de perguntas que se baseavam em boatos completamente infundados.
A correspondência de 12 de janeiro era uma resposta aos itens apontados concretamente pela Soka Gakkai. O clero reconheceu vários erros e retirou alguns dos questionamentos. Assim, a própria base de argumentos caiu por terra.
No entanto, recusaram-se a rever as medidas irracionais contra a organização, e no que se refere à relação entre clérigos e adeptos afirmaram:
“Dizer que essencialmente todos são iguais e promover a união harmoniosa entre clérigos e adeptos assumindo tal igualdade é manifestação de grande arrogância e equivale a ‘causar desunião na Ordem budista’, um dos ‘cinco crimes capitais’”.1
Para tal alegação não se poderia mais fechar os olhos — era uma distorção aos princípios fundamentais do Budismo Nichiren que poderia se tornar a causa básica para cortar pela raiz o movimento pelo kosen-rufu mundial.
A Soka Gakkai exigiu um pedido público de desculpas. Também solicitou respostas a vários outros erros graves apontados por ela no texto original da inquirição do clero, o qual recusou todos os sucessivos pedidos de diálogo.
Nichiren Daishonin foi um firme defensor do diálogo, assim como escreveu no tratado Estabelecer o Ensinamento para a Pacificação da Terra: “Vamos analisar minuciosamente a questão”.2 Ele ensinou a importância de se estar aberto ao diálogo com qualquer pessoa e de promover a compreensão, a simpatia e a concordância por meio da razão e da lógica. A postura dele era oposta à de impor sua vontade a outras pessoas com pressões externas como armas, poder e autoridade.
O diálogo simboliza o humanismo budista, e rejeitá-lo equivale a negar o próprio espírito de Nichiren Daishonin.
A Soka Gakkai expandiu amplamente o jardim florido do kosen-rufu pelo acúmulo de atividades de base centradas no diálogo, tais como visitas familiares, reuniões de pequenos grupos e reuniões de palestra.
Parte 58
A ideologia do diálogo da Soka Gakkai está fundamentada na filosofia de respeito às pessoas e na confiança ao ser humano. É sustentada pelo princípio budista de igualdade entre as pessoas, o qual indica a presença da natureza de buda na vida de todos e a existência da nobre missão a ser cumprida.
Porém, Nikken e o clero da Nichiren Shoshu se opuseram a esse princípio, e adotaram o pensamento inerente ao tradicional sistema de paróquias do Japão em que os sacerdotes estão em posição superior aos adeptos leigos. E tentaram impor essa visão à Soka Gakkai, subordinando seus membros a eles.
Nichiren Daishonin se baseou no princípio filosófico de igualdade do Sutra do Lótus lutando contra todas as formas de discriminação, como as de diferenças sociais, conforme indicado por conceitos de “iluminação das mulheres” e “iluminação das pessoas dos dois veículos”.3 É por isso que os intelectuais do mundo valorizam altamente o budismo pelos seus princípios de respeito à dignidade da vida e pela promoção da harmonia entre as pessoas e da paz da humanidade.
Daishonin declara, com clareza, a igualdade entre as pessoas que ultrapassa as diferenças de gênero, ou entre clérigos e leigos: “...aquele que ensina aos outros mesmo uma única frase do Sutra do Lótus é o emissário d’Aquele que Assim Chega, independentemente de essa pessoa ser sacerdote ou leigo, monja ou leiga”.4
O objetivo do Budismo de Nichiren Daishonin é a felicidade das pessoas. Se fechássemos os olhos à atitude do clero de distorcer esse ponto essencial do budismo, permitiríamos um desenfreado autoritarismo anacrônico pela tirania dos sacerdotes clericais. E isso promoveria uma injusta discriminação, criando tumulto e infelicidade.
De fato, poderia levar à destruição dos ensinamentos corretos do budismo, tal como consta nos escritos de Nichiren Daishonin: “Os inimigos do budismo não são as pessoas más. São os sacerdotes que se assemelham a arhat com ‘três percepções e seis poderes transcendentais’5 que destruirão a Lei correta”.6
A Soka Gakkai também estava profundamente preocupada com a consciência do clero em relação à cultura, cuja atitude dogmática e exclusivista não se limitava a rejeitar Ode à Alegria da Nona Sinfonia de Beethoven. A Daibyakurenge, revista mensal de estudos da Soka Gakkai, havia publicado uma foto de um dos itens da exposição A Confiança do Príncipe: Mantos do Reino — Uma Mostra de 300 Anos de Vestimentas de Cerimônias Britânicas, exibida no Museu de Arte Fuji de Tóquio. Era uma foto do manto e da insígnia da Ordem da Jarreteira [a mais elevada honra que o soberano britânico pode conceder]. Quando um alto sacerdote da Nichiren Shoshu viu a foto, reclamou que continha uma imagem de uma cruz cristã, referindo-se ao símbolo bordado no manto.
Sem apreciar as tradições e culturas típicas de cada país, de cada região e de cada povo, não há a compreensão mútua dos seres humanos. O respeito à cultura é o próprio respeito ao ser humano.
Parte 59
As atividades da sociedade humana — como a cultura e as artes, os costumes e as tradições — são influenciadas em maior ou menor grau pela religião.
O calendário ocidental, por exemplo, estabelece o ano do nascimento de Jesus Cristo como o primeiro ano. A definição do domingo como dia de descanso deriva da designação cristã. E os vitrais também são frutos da cultura cristã, pois foram desenvolvidos para expressar a magnificência de suas igrejas. Muitas construções e estilos arquitetônicos da Europa Ocidental possuem profunda conexão com o cristianismo. Alguém que os rejeite devido à relação com o cristianismo ficaria impossibilitado de viver na sociedade.
O budismo ensina o princípio de “adaptação aos costumes locais” (zuiho-bini). Conhecido também como “adaptação à época e aos costumes locais” (zuiho-zuiji-bini), é um princípio que exorta os praticantes a respeitar os costumes e as tradições dos respectivos países e regiões em cada época, desde que não contrariem os princípios fundamentais do budismo.
Em outras palavras, desde que não se viole os ensinamentos fundamentais do Budismo Nichiren — aceitando e abraçando o Gohonzon do Nam-myoho-renge-kyo (a essência do Sutra do Lótus), exercitando a fé, a prática e o estudo, e vivendo pela missão em prol do kosen-rufu —, deve-se manter uma atitude flexível em relação aos costumes e às culturas locais.
A prática da fé é a própria sociedade. Somente quando cada pessoa que abraça a Lei Mística manifesta o respeito à cultura, que é produto da sabedoria humana, e conquista a confiança da sociedade por meio de sua ativa participação, o kosen-rufu mundial se torna possível.
O poema Ode à Alegria composto por Schiller e inserido na parte cantada por coral da Nona Sinfonia de Beethoven menciona “os deuses” (götter). Entretanto, a expressão “deuses” não se refere, de forma alguma, a louvar a determinada religião.
Em dezembro de 1987, Shin’ichi Yamamoto havia assistido ao concerto comemorativo dos trinta anos de fundação da Divisão dos Universitários em que quinhentos membros apresentaram uma orquestra da Nona Sinfonia, incluindo um coral de Ode à Alegria. A emoção daquele momento tinha sido inesquecível.
Então, na reunião de líderes comemorativa dos sessenta anos de fundação da Soka Gakkai (em novembro de 1990), ele propôs que na comemoração dos 65 anos cantassem Ode à Alegria com 50 mil vozes e, na de setenta anos, com 100 mil vozes. E sugeriu ainda que passassem a cantar não só em japonês, mas também em alemão.
Música e arte grandiosas transcendem as barreiras de nação e de etnia, e sua melodia espiritual ressoa unindo o coração das pessoas.
Parte 60
Ode à Alegria é cantada no mundo como “hino ao ser humano” e “hino à liberdade”.
Em 1989, a Revolução do Veludo, na Tchecoslováquia, pôs fim ao regime comunista sem a tragédia do derramamento de sangue. E, em 14 de dezembro, foi realizado um concerto na capital tcheca, Praga, para comemorar. Nesse concerto, foi apresentada a Nona Sinfonia de Beethoven com um coral cantando Ode à Alegria.
Ao término do espetáculo, o auditório explodiu em aplausos. Quando o novo presidente da Tchecoslováquia, Václav Havel, subiu ao palco em meio aos incessantes aplausos, a plateia manifestou em coro: “Havel! Havel!”. A Nona Sinfonia expressou a alegria no coração das pessoas.
Nos dias 23 e 25 de dezembro, após a queda do Muro de Berlim, foram apresentados concertos comemorativos da unificação da Alemanha Oriental com a Alemanha Ocidental e foi executada a Nona Sinfonia.
E ainda, tendo como núcleo a Orquestra Sinfônica da Rádio de Baviera, a apresentação foi em conjunto com diversos grupos, incluindo músicos da Alemanha Oriental e da Alemanha Ocidental, e dos Estados Unidos, da Grã-Bretanha, da França e da União Soviética, os quatro países que haviam administrado Berlim após a Segunda Guerra Mundial, antes da construção do muro.
De fato, Ode à Alegria e Nona Sinfonia simbolizavam o triunfo da liberdade e da reconciliação.
Muitos intelectuais e estudiosos da sociedade se manifestaram seguidamente contra a objeção do clero da Nichiren Shoshu de que cantar Ode à Alegria em alemão constituía louvor a não budistas, ignorando completamente a universalidade e o valor cultural dessa grande obra.
O Dr. Haruo Kawabata, do Instituto de Tecnologia Shibaura, conhecido filósofo e estudioso japonês de Nietzsche, observou: “A arte é uma sublimação do espírito humano universal. Sujeitá-la ao dogmatismo religioso e condenar seus apreciadores como hereges são a manifestação de julgamento arbitrário similar à caça às bruxas de eras passadas”.7
Ele afirmou ainda que a expressão “deuses” utilizada por Schiller não estava louvando o Deus cristão monoteísta, mas se referindo aos deuses da Grécia antiga simbolizando os ideais e as mais elevadas qualidades inerentes ao ser humano. Segundo Kawabata, a única forma de articular novas ideias era por meio de expressões já existentes.8
O personagem do presidente Ikeda no romance é Shin’ichi Yamamoto, e seu pseudônimo, como autor, é Ho Goku.
Notas:
1. “Cinco crimes capitais”: São as cinco faltas mais graves no budismo e suas explicações variam conforme os sutras e os tratados. A versão mais comum é: (1) matar o pai; (2) matar a mãe; (3) matar um arhat; (4) ferir um buda; e (5) causar desunião na Ordem budista.
2. Coletânea dos Escritos de Nichiren Daishonin. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, v. I, p. 7, 2020.
3. Nos ensinamentos do budismo Mahayana provisório, anteriores ao Sutra do Lótus, as pessoas dos dois veículos, as mulheres e as pessoas más eram consideradas incapazes de atingir a iluminação. O Sutra do Lótus refutou essa ideia e estabeleceu que todas as pessoas desses três grupos poderiam atingir o estado de buda.
4. Coletânea dos Escritos de Nichiren Daishonin. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, v. I, p. 33, 2020.
5. Arhat se refere àquele que atingiu o estágio mais elevado de iluminação postulado pelo budismo Hinayana. Em sânscrito, significa “pessoa digna de respeito”. As “três percepções” são a capacidade de conhecer o passado, prever o futuro e erradicar as ilusões. São poderes atribuídos a budas e a arhat. Os “seis poderes transcendentais”, ou “seis poderes sobrenaturais”, são poderes demonstrados por budas, bodisatvas e arhat. Esses poderes são: (1) estar em qualquer lugar que desejar; (2) ver qualquer coisa em qualquer lugar; (3) ouvir qualquer som em qualquer lugar; (4) ler o pensamento de outras mentes; (5) enxergar existências passadas; e (6) erradicar ilusões.
6. The Writings of Nichiren Daishonin [Os Escritos de Nichiren Daishonin]. Tóquio: Soka Gakkai, v. I, p. 388.
7. De artigo publicado no jornal Seikyo Shimbun do dia 24 de janeiro de 1991.
8. Ibidem.
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