RD
Histórias da Minha Infância
há 21 anos
A arte de cultivar amigos
01/09/2005

Filha de uma educadora, nós (meus três irmãos e eu) estudamos em uma excelente escola que nos proporcionou momentos inesquecíveis com situações divertidíssimas e grandes amigos, parceiros das maiores “artes” por mim realizadas desde os três anos de idade. Graças a um grande professor de teatro, o querido amigo Celso Solha, ali decidi que seria atriz, e deu certo!
Todavia a grande arte, a maior de todas, foi o cultivo de amizades maravilhosas que criaram em mim uma identidade tão forte que fui eleita “a melhor amiga da escola”. Foi assim:
Todos os anos, esta escola oferecia temporadas em um acampamento fora de São Paulo onde os alunos gozavam de uma estrutura muito boa, além de jogos, brincadeiras e o impagável convívio com os amigos em um ambiente totalmente diferente da escola. Mas o melhor mesmo era estar longe dos pais, a possibilidade de passarmos dias e dias só na diversão onde nós aprontávamos as peraltices saudáveis e inocentes da infância e nossos monitores se empenhavam em conduzir os grupos de forma que aproveitassem as oportunidades para educar brincando e criar valor.
Acontece que isso tinha um custo, um alto custo, e como não éramos uma família rica, seria impossível participar. Seria, mas misticamente, sem saber, ali já acontecia em minha vida algo que fui compreender muito mais tarde: o princípio chamado Esho-funi, ou “inseparabilidade da pessoa e seu ambiente”, no qual um influencia o outro e se interage. Por eu ser muito comunicativa “faladeira”) e com espírito de liderança (leia-se também “mandona”, mas do bem!), além de habilidosa nos esportes e nas artes, a escola entendia que minha presença auxiliava os monitores a motivar os outros alunos. Sendo assim, eu ganhava a estadia nos acampamentos da escola. Era uma farra!
Havia uma amiga inseparável, a Lídia, companheira de todas as horas, fiel confidente dos mais profundos e puros segredos que só as crianças são capazes de partilhar. Nesses acampamentos, era só bagunça. Como se fossem os últimos dias de felicidade de nossa vida, brincávamos e fazíamos de tudo, desde o despertar da manhã até o profundo sono.
Um belo dia, eu e a Lídia brigamos. A desavença foi tamanha que todo mundo veio ver. Foi “pau” mesmo, desses de ter a turma do “deixa disso” e do “separa”. O motivo, não lembro mais, mas lembro de mim, em todos os meus 1,30m de “brabeza” e de Lídia, triste de dar dó, sem saber o que fazer. Alguém sugeriu: “Chama a diretora!” E lá veio ela, querendo apaziguar os ânimos. A Lídia até quis, mas eu não dei o braço a torcer. Eu já tinha minha opinião formada!
Mas o fato é que os outros dias de acampamento não foram mais os mesmos. Todos não sabiam de que lado ficar, o ambiente ficou esquisito e parecia que tudo terminava em briga, algo do tipo, jogo de futebol entre Brasil e Argentina...
Já no final da temporada no acampamento, a última atividade era elaborar um teatro e, é claro, o tema proposto foi “amizade”.
Foi aí que, do que me recorde, a primeira vez, improvisei em cena.
Como já não agüentava mais a falta de minha querida amiga, mas meu orgulho me impedia de voltar atrás, só encontrei uma saída: No meio de minha encenação, mandei uma declaração de amor à minha melhor amiga, dizendo o quanto ela me fazia falta e estava arrependida.
O público aplaudiu de pé, envolto em lágrimas e ovações. Foi neste momento que vivenciei pela primeira vez também o que significa tocar o coração das pessoas em cena. Foi emocionante!
Conclusão: Na noite de premiação, cujo objetivo era gravar os valores ali trabalhados para cultivarmos por toda a vida, ganhei a medalha de “melhor amigo”. Desta vez, quem chorou fui eu.
Desde então, a amizade vale ouro em minha vida. Muitos anos depois, já convertida ao budismo, pude me reencontrar com Lídia que, por meu intermédio, também se tornou budista.
Hoje, refletindo sobre minha vida, percebo que, das situações que me proporcionaram intenso desenvolvimento, cultivar os amigos é o que mais me faz crescer, pois em prol da amizade, sou capaz das mais profundas mudanças.
Uso nossa poderosa oração para perceber em mim quais pontos posso aprimorar a fim de cultivar meus preciosos amigos, pois como diz nosso querido mestre: “As pessoas que têm seus corações abertos respeitam os outros e se empenham para aprender algo com todas as coisas. Elas também buscam humildemente os amigos. (...) Num grau mais amplo, a força da nossa fé e a riqueza da nossa vida depende do fato de termos ou não amigos com quem compartilhar e discutir todas as questões.” (Brasil Seikyo, edição nº 1281, 23/07/94, pág. 3.)
A sensibilidade do ator proporciona que façamos a leitura das situações da vida para traduzi-las em arte usando, muitas vezes, nossa própria experiência como base. No meu caso, esta base se traduz em minha arte maior: a de cultivar grandes amigos!
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