RD
Orientação do Presidente Ikeda
há 21 anos
Palácios da beleza
01/09/2005

O poeta alemão Friedrich Hölderlin, cujas obras li avidamente na juventude, escreveu: “A arte aproxima e une as pessoas.” A arte tem o poder de promover o entendimento e a amizade; por esse motivo é uma força propulsora da paz.
Os Museus de Arte Fuji, de Tóquio e Shizuoka, levam o nome do monte mais famoso do Japão e têm realizado até hoje intercâmbios com aproximadamente trinta países. Já promoveram cerca de sessenta exposições, verdadeiros intercâmbios culturais, partilhando as mais belas peças de arte do mundo com o público japonês. Realizou também exposições de arte tradicional japonesa e pinturas ocidentais — exibindo obras que são parte de seu acervo —, em 28 cidades de 21 países, incluindo França, Áustria, Brasil, China e Coréia do Sul. Essa intensa atividade constitui uma prova irrefutável de nossa dedicação à criação de uma cultura de paz, porque a paz e o intercâmbio cultural estão unidos em um nível muito profundo. Quando os conflitos e a violência aumentam, a cultura declina e a história move-se em direção à escuridão e destruição. Acredito firmemente que o intercâmbio cultural representa a “arma” espiritual indispensável para romper esse ciclo de brutalidade e negativismo. É com base nessa crença que tenho agido.
A humanidade não deve se render a nenhum tipo de violência. Em 11 de setembro de 2001, como todos sabemos, os Estados Unidos foram alvo de um ataque terrorista que abalou o mundo. Foi um ato de barbarismo indescritível.
Na época, o Museu de Arte Fuji de Tóquio realizava os preparativos finais para a mostra “Musas, madonas e donzelas: A imagem da mulher no Oriente e Ocidente ao longo de cinco séculos”, cuja inauguração estava prevista para o mês seguinte. Era um evento apropriado para celebrar o início do “Século das Mulheres”, com a apresentação de obras como A Mulher Desconhecida (considerada a Mona Lisa russa), pertencente à Galeria Tretyakov, e de aproximadamente 250 importantes obras dos 54 museus mais importantes do mundo, como o Louvre, de Paris, e a Galeria Uffizi, de Florença.
Entretanto, depois do ataque terrorista, várias instituições acharam arriscado enviar as obras de arte ao Japão. Estávamos apenas a um mês da inauguração. Além disso, uma atmosfera de pessimismo envolvia o mundo inteiro e muitos consideravam que ante o poder destrutivo do terrorismo a cultura e a arte nada podiam fazer. A situação reproduzia a eterna luta entre a civilização e a barbárie.
O terrorismo e a guerra procuram controlar as pessoas a partir de fora mediante o uso de armas e da violência. Ao contrário, a arte e a cultura são expressões humanas que libertam o homem a partir de dentro.
O que possibilitou resolver essa crise foi a fé, a paixão e a coragem dos amantes da arte, das pessoas dedicadas à missão de preservar, promover e valorizar a cultura. A equipe do Museu de Arte Fuji de Tóquio fez um ardente apelo às autoridades dos diversos museus: “Justamente pelo fato de as forças malignas do terrorismo estarem neste momento tentando dividir a humanidade é crucial perseverarmos em nossos esforços para unir os corações dos povos, transcendendo fronteiras nacionais e heranças culturais.” Ainda mais por se tratar de uma exposição cujo tema era a beleza da mulher, a emissária da paz e da cultura.
Museus do mundo inteiro responderam favoravelmente a esse sincero apelo numa demonstração de solidariedade. Peter Parenzan, diretor da Galeria da Coleção Imperial de Móveis da Áustria — que enviou, entre outras peças, o magnífico quadro “Joana D’Arc de Armadura” (autor anônimo) — manifestou enfaticamente que não devíamos perder as esperanças ante a violência terrorista e observou que em momentos como aquele, continuar com os intercâmbios culturais era a única opção viável. Os encarregados das diferentes instituições começaram, um a um, a chegar à mesma conclusão e a mostra foi inaugurada conforme programada. Esta foi uma declaração de vitória, uma contundente proclamação de que o poder da cultura é muito maior que a barbárie.
O grande escritor russo Leon Tolstoi declarou: “Quando a arte deixa de pertencer ao povo e passa a servir somente a uma pequena elite endinheirada, deixa também de ser uma importante atividade humana para degenerar-se e se converter em um entretenimento banal.”
A arte deve ser acessível a todos. O primeiro presidente da Soka Gakkai, Tsunessaburo Makiguti, frisava a importância da beleza como valor, pois acreditava que o belo era algo disponível a todas as pessoas para criar felicidade.
Os museus nasceram na Europa como um subproduto da luta pela democracia. Foram estabelecidos para permitir o acesso à arte, antes reservada à aristocracia, ao maior número de pessoas possível.
O caminho que conduz ao triunfo da cultura é aberto pela luta espiritual que eleva a condição de vida de toda a humanidade a um estado de firme compromisso com a paz para refrear totalmente os atos de destruição e barbárie.
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