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Contos
há 21 anos

O menino e a cerejeira

Conto Especial

01/09/2005

O menino e a cerejeira
PPassado algum tempo após a guerra...

Um menino chamado Taiti vivia com sua mãe num casebre comum a tantos outros construídos na cidade devastada pela guerra.

Sua mãe constantemente dizia:

— Se não tivesse acontecido a guerra...

Taiti sempre a ouvia, mas na realidade não compreendia o que era uma guerra.

— Que pena ter perdido seu pai! — Sua mãe, em alguns saudosos momentos, abraçava a cabeça do menino e murmurava baixinho essas palavras. Taiti também se compadecia desta dor em seu pequenino coração.

Sua mãe saía pelas manhãs e retornava apenas ao entardecer. Ela trabalhava arduamente numa estação de trem no centro da cidade engraxando sapatos.

— Taiti, espere-me quietinho em casa, esta bem? — Antes de sair para o trabalho fazia esta recomendação.

— Volte logo mamãe! — Após despedirse de sua mãe, Taiti fechava a porta e mantinha- se dentro de casa.

Passado algumas horas, já não conseguia seguir rigorosamente as recomendações de sua mãe e saía para brincar, mesmo sentindo-se culpado por desobedecêla. Isto acontecia todos os dias.

Lá fora, restos de madeiras carbonizadas encontravam-se espalhados pelo campo; tijolos e pedras formavam pequenos montes. As crianças da vizinhança brincavam em meio aos entulhos e corriam pra lá e pra cá, animadamente.

Muitas vezes, Taiti caía e machucavase, mas divertia-se tão concentradamente que continuava correndo pelas ruas da cidade destruída pela guerra.

Na hora do almoço, voltava para sua humilde casa, pois todas as crianças eram chamadas por suas mães para almoçarem. Nessa hora, Taiti sentia um pouco de inveja de seus amigos, pois sempre almoçava sozinho. Sua refeição era preparada por sua mãe, antes de sair para o trabalho. E depois do almoço, até a hora dela retornar, Taiti dormia ou saía para brincar. Porém, quando finalmente sua mãe voltava, ia correndo todo contente ao seu encontro.

— Taiti, você esteve bem durante o dia?

— Ela sempre se preocupava com ele.

À noite, muitas vezes sua mãe contava sobre o falecimento de seu pai.

— Logo que você nasceu, papai foi para a guerra. Ele levou a sua foto costurada na camisa...

Quase sempre era o mesmo assunto; entretanto, sua mãe sempre falava com muita saudade. Às vezes, Taiti bocejava por ter ouvido tantas vezes a mesma história, mas os olhos da mãe sempre estavam brilhando.” Será que mamãe está chorando?”, pensava. Então ficava triste e virava discretamente o rosto, fazendo de conta que não tinha visto o rosto da mãe.

Um novo dia chegou. O sol da manhã tingia a cidade com seus raios, tornandoa bela mesmo que estivesse em ruínas, deixadas pela guerra. E como de costume, a mãe de Taiti saía para o trabalho.

— Taiti, não vá brincar muito longe, está bem?

— Sim, mamãe.

Mesmo assim respondendo, logo saía para brincar sempre no mesmo lugar. Mas, às vezes, os coleguinhas o convidavam para ir a um lugar mais distante.

— Mamãe disse que não devo ir...

— Não vai acontecer nada! – diziam os colegas.

— Mas...

Taiti sempre recusava. “É uma promessa com a mamãe, eu devo cumprir!”— pensava ele. Entretanto, sentia-se muito só quando era deixado pelos amigos.

Certo dia, Taiti foi correndo na mesma direção para a qual seus amigos haviam seguido. Correu por cinco minutos, mas não conseguiu alcançá-los. Logo depois, chegou a um vasto campo. Por ser novembro, já os primeiros sinais de inverno faziam- se notar nas gramas que se tornavam secas. Mas, observando bem, havia também grama queimada pelos bombardeios.

“Onde será que eles foram?...” — se perguntou. E enquanto olhava os arredores, viu uma enorme árvore.

“Será que eles estão lá?”, esperançou-se Taiti, que saiu correndo em direção à árvore. Lá não encontrou ninguém, a não ser um velhinho que cuidava dela. Ele a enrolava com esteira de palha com clara intenção de protegê-la do inverno. Parecia ser um senhor bastante bondoso.

— Vovô, o senhor não viu meus amigos por aqui?

— Seus amigos? Não, eu não vi. O que aconteceu?

— Ah, eu estava brincando e me perdi deles.

Pelo jeito, o velhinho parecia gostar de crianças, pois logo subiu na árvore que tinha mais de cinco metros de altura e pôs-se a observar os arredores. Apontou o dedo e disse:

— Ah! Lá estão eles. Olhe! Eles estão naquela direção!

— Muito obrigado, vovô.

Contente, Taiti foi correndo para onde estavam seus amigos.

Alguns dias se passaram desde o encontro com o velhinho. Taiti estava brincando sozinho perto de casa. Seus amigos divertiam- se dentro de suas casas e não queriam sair nem para lhe fazer companhia.

— Vamos brincar? — Taiti convidava-os.

— Mais tarde eu vou... — mas não saíam de casa.

“Como é bom ter mamãe dentro de casa. A gente pode brincar com ela”, pensava Taiti, triste. Nesse dia também sua mãe tinha ido trabalhar. Cabisbaixo, voltava para casa chutando as pedras que encontrava pelo caminho.

De repente, surgiu a seus pés um gatinho.

— Coitadinho! Você também está sozinho? — e pegou-o nos braços. Aconchegado, o gatinho lambeu-lhe as mãos.

— Onde foi sua mãe?

Chegando perto de casa, surgiu um gato grande que logo começou a miar em volta de Taiti. O gatinho, então, pôs-se também a miar e parecia feliz.

— Ah! É a sua mãe, não é? Volte para junto dela!

O gatinho foi pulando de alegria.

“Como é bom ter mamãe”, murmurou Taiti. Ele sentiu-se ainda mais triste. Olhando para o alto, viu no céu azul uma nuvem branca que flutuava. Seus olhos encheram-se de lágrimas.

— Mamãe, volte logo! – Taiti gritou tão alto que até ele se assustou.

— Papai... — chamou também seu pai que nunca viu. “Não vou chorar”, pensava ele, mas as lágrimas rolavam pelo seu rosto. Taiti sentiu que seus pés estavam presos ao chão. Pareciam pesados demais.

De repente, lembrou-se do velhinho que ele havia encontrado no campo e pensou:

“Será que o vovô está lá?”. Imaginando seu rosto cheio de rugas, correu para encontrá-lo.

Taiti avistou a grande árvore ao longe e, à medida que se aproximava, via também o velhinho que, como de costume, estava enrolando-a com esteira de palha.

Vendo o garoto que chegava correndo, o velhinho com olhos bondosos perguntou- lhe:

— O que aconteceu?

— Hummmmm... não foi nada. Vovô, o que o senhor faz, que está sempre perto desta árvore?

— Ah...Eu? Eu estou cuidando desta cerejeira.

Esta árvore é como se fosse minha filha.

— E por que o senhor cobre a árvore de palha?

— Olhe, logo vai começar o inverno e a cerejeira também treme de frio como os homens. Esta árvore é velha e, por isso, sente ainda mais o frio. Para que ela possa suportar o inverno, eu a estou cobrindo de palha.

— Puxa! Não sabia que as árvores também sentiam frio como a gente.

— As crianças como você conseguem brincar animadamente mesmo com o vento frio de inverno, mas uma pessoa de idade como eu não pode fazer o mesmo. Isso acontece também com uma árvore.

Os dois já estavam sentados um ao lado do outro debaixo da árvore.

— Então, vovô, a cerejeira deve estar muito contente — O pequeno coração de Taiti encheu-se de um calor que ele nunca havia sentido.

— Vovô, eu também vou ajudá-lo.

— Ah, é? Obrigado.

Os dois começaram a trabalhar juntos.

Cobriam a cerejeira de palha, tiravam as pedras ou tijolos dos arredores da árvore, e às vezes até encontravam pedaços de ferro que eram fragmentos de alguma bomba.

— Ah... Hoje o trabalho rendeu bastante graças a você — disse o velhinho com suor no rosto, e parecia, de fato, muito contente.

— Taiti, quando a terra ao redor da cerejeira torna-se compacta, ela não pode estender suficientemente suas raízes e então não consegue nutrir-se adequadamente. Por isso nós devemos cuidar bem das árvores, para que cresçam sem nenhum problema.

Taiti achou que o vovô tinha razão e, mais do que isso, notou que ele tinha muita bondade em seu coração. Conversaram tanto que não perceberam o entardecer.

— Vovô, eu já vou embora.

— Puxa, já é tarde. Desculpe-me por têlo prendido até agora.

— Até logo, vovô.

O sol já se punha no horizonte do campo devastado pela guerra. Taiti voltou correndo para casa.

— Taiti, onde você esteve? — perguntou sua mãe, que já havia voltado do trabalho e estava à porta da casa, preocupada.

— Perdoe-me, mamãe...

Nessa noite, na hora em que estavam jantando juntos, Taiti disse à mãe:

— Mamãe, hoje eu me encontrei com um vovô muito bondoso. É bonzinho como o papai.

— Ué, Taiti, como você sabe se nunca se encontrou com o papai? — perguntou a mãe, feliz com o comentário.

Após o jantar, os dois continuaram conversando deitados na cama. Por ser sua casa um pobre barraco, podia-se ver o luar pelas fendas do telhado.

— O vovô está cuidando carinhosamente de uma cerejeira. Ele disse que a árvore era como se fosse sua filha...

Taiti contou tudo o que acontecera durante o dia, mas sua mãe acabou adormecendo, vencida pelo cansaço do trabalho e da vida dura que levava.

No dia seguinte, logo que sua mãe saiu para o trabalho, Taiti foi correndo para o campo. O velhinho já estava lá, cobrindo cada galho da cerejeira com esteira de palha, pois o inverno, afinal, já estava chegando.

— Vovô, hoje também vou ajudá-lo.

— Ah, é? Que bom você ter vindo hoje também.

Nesse dia, ambos trabalharam juntos.

Na hora do almoço, comeram o lanche que o velhinho trouxera.

— Vovô, quer que eu venha amanhã?

— Obrigado, Taiti, mas eu posso cuidar sozinho da cerejeira. Eu quero que você brinque bastante e fortaleça seu corpo. A guerra terminou e nosso país está enfrentando sérias dificuldades. Para construir um mundo de paz e sem guerra é necessário que vocês cresçam. Não são os adultos, mas vocês, jovens, que irão abrir o futuro. Para isso, deve fortalecer o corpo e, quando for para a escola, estude bastante.

Com os olhos fixos, o velhinho parecia conversar com o coração de Taiti. E continuou, com toda a seriedade:

— O mesmo acontece com a cerejeira. Uma semente dá origem a uma boa muda e, por sua vez, a uma frondosa árvore florindo o coração das pessoas com lindas flores. Os homens, na adolescência, devem cultivar a si para que, quando se tornarem adultos, possam incentivar os outros e serem estimados por todos tal como a cerejeira.

Taiti assentiu, concordando plenamente com o velhinho, e disse:

— Vovô, agora eu preciso ir embora. Até amanhã.

Com o coração cheio de entusiasmo, Taiti começou a caminhar de volta para casa. Um vento frio que anunciava a chegada do inverno fazia corar seu rosto.

Chegou o rigoroso inverno. O campo e a cidade devastada transformaram-se num mundo coberto de branco. O pequeno Taiti brincava com os amigos fazendo bonecos de neve ou então de batalha com ela, atirando muitas bolas de neve um no outro.

Um dia, resolveram ir para o campo. Chegando lá, Taiti aproximou-se da cerejeira que se mantinha firme à ação do vento frio sob o céu cinzento. Todos os galhos da cerejeira estavam cobertos de palha.

“Deve estar sentindo frio”, pensou Taiti e, balançando a árvore, tentou derrubar a neve acumulada em seus galhos. “Assim está melhor”, disse, colocando a mão no galho para sentir se ela estava mais aquecida.

Finalmente chegou a primavera. E Taiti aguardava, ansiosamente, o florescer da cerejeira. Sua preocupação era tanta que todos os dias ia até o campo ver a velha árvore.

Em toda a extensão das redondezas podia- se notar os primeiros sinais das flores silvestres. Entretanto, os botões da cerejeira pareciam ressequidos.

“Puxa! Já deveriam desabrochar...”, começou a se preocupar Taiti.

Uma noite, sem conseguir conter sua ansiedade e preocupação, Taiti perguntou à sua mãe:

— Mamãe, por que aquela cerejeira não floresce?

— Oh, Taiti! Tenha calma. Na verdade, aquele local, antes da guerra, não era um campo.

A mãe de Taiti explicou-lhe que, antes da guerra, naquele campo existiam várias casas que queimaram com os bombardeios.Aquela cerejeira pertencia a um jardim de uma mansão

— É estranho que restou somente aquela cerejeira — disse a mãe de Taiti. E continuou:

— Ela sofreu muito com os bombardeios. Por isso acho que não tem força para florir... Os vizinhos dizem que é natural que ela seque.

Ouvindo as palavras da mãe, Taiti sentiu- se bastante triste. Pensou no vovô: “Ele ficará muito desanimado se ela não florir.”

Subitamente, Taiti, em prantos, gritou:

— É mentira! É mentira! A cerejeira vai florir! Tem de florir! A mãe ficou assustada com isso. Taiti parecia até orar pelo florescimento da cerejeira.

Depois dessa noite, Taiti começou a acordar mais cedo e, todas as manhãs, ia correndo ao campo ver a cerejeira. Era sempre a hora do raiar do sol no horizonte. As andorinhas voavam alegremente nas manhãs de primavera.

Passou-se uma semana. A velha cerejeira tinha desabrochado alguns botões e começara a enfeitar-se de cor-de-rosa. Taiti contou-os: “Um, dois, três... dez!”, haviam dez botões em flor.

Taiti ficou tão contente que voltou correndo para casa. Sua mãe já estava saindo para o trabalho.

— Mamãe! Mamãe! Os botões de cerejeira abriram! Acho que todos vão abrir!

A mãe de Taiti também ficou muito feliz com isso. Depois que ela saiu para o trabalho, Taiti voltou para o campo e ficou o tempo todo olhando a cerejeira.

Depois de algum tempo, Taiti ouviu uma voz atrás de si:

— Taiti, finalmente a cerejeira floriu, né?

Era o velhinho.

Ele sorria todo feliz. Bateu levemente com as mãos no tronco da cerejeira. Taiti também fez o mesmo.

— Olhe, Taiti! Veja bem esta árvore. Ela suportou com toda sua força o rigoroso frio do inverno e fez desabrochar suas flores na primavera!

Depois de um longo inverno, sempre vem a primavera, a primavera das cerejeiras.

Os olhos de Taiti estavam brilhantes.

Vovô continuou:

— Todos os anos as cerejeiras crescem suportando o inverno e, na primavera, elas infalivelmente desabrocham suas flores em todos os seus ramos. Com os homens acontece o mesmo. Quanto mais rigorosa for a circunstância da vida que se depararem, mais forte crescerão. E justamente por isso poderão, inclusive, tornarem-se homens de coração magnânimo e amplo.

Mas, se for derrotado pelas circunstâncias adversas, aí, então, é o fim do homem.

Calado, Taiti ouvia atentamente as palavras do velhinho. Em seguida, levantou os olhos e balbuciou:

— Vovô, vovô da cerejeira... Vovô, o meu... o meu pai morreu na guerra.

O velhinho, colocando as mãos no ombro de Taiti, disse:

— Taiti, seja como a cerejeira. Não seja derrotado!

— Sim! — respondeu Taiti.

Passado alguns dias, a cerejeira já estava totalmente florida. Parecia um mar de flores.

Muitas pessoas começaram a freqüentar o campo. E sempre exclamavam: “Puxa, finalmente ela floriu!”, “É extraordinário. Ela conseguiu vencer aquele terrível bombardeio!”

Todos, sem exceção, elogiavam a forte energia vital da cerejeira. Taiti também levou sua mãe para ver a cerejeira. Muito emocionada, elogiou-lhe com toda a sinceridade:

— Parabéns, Taiti!

O peito de Taiti estufava de orgulho. Falou com voz firme para sua mãe:

— O vovô da cerejeira disse que foi por ela ter vencido o frio do inverno que conseguiu florir na primavera. Eu...Eu também...

Taiti olhou bem dentro dos olhos de sua mãe e completou:

— Não vou perder, mesmo que não tenha pai!

A mãe de Taiti ficou muito feliz com isso. Naquele momento, sobre os dois, as pétalas da cerejeira dançavam pelo ar, carregadas por uma suave brisa primaveril.

Numa época de pós-guerra, em que as pessoas lutavam arduamente pela sobrevivência, uma simples e velha cerejeira conseguiu dar a tão importante ilimitada esperança àquele povo tão sofrido.

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