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Caderno
há 24 anos

[23] A era das aves

Aprendendo sobre a vida a partir das ciências

10/08/2002

[23] A era das aves
Esta era atual é conhecida como a “era dos mamíferos”. Na verdade, existem poucos mamíferos nas florestas, porém, há uma incrível variedade de aves, presentes também nas zonas urbanas. As cidades estão repletas de pombos e os parques cheios de patos. Nas fazendas sempre se encontram galinhas; nas praias existem incontáveis gaivotas e os aterros sanitários estão repletos de urubus. Há ainda as aves migratórias que voam milhares de quilômetros.

Muitas pessoas consideram que as aves são animais vertebrados voadores, mas a definição biológica é um pouco diferente. Elas são animais vertebrados, ovíparos, homeotérmicos e cobertos inteiramente por penas. Observam-se, também, as evoluções características adaptadas ao vôo, como por exemplo, os braços transformam-se em asas e os pulmões são ligados a sacos aéreos que auxiliam a respiração. Existem aves que não voam, mas correm rapidamente por possuírem pernas fortes. Na região austral da Patagônia, encontra-se um tipo de avestruz, chamado “ñandu”, que chega a correr sessenta quilômetros por hora. No mundo há cerca de 8.600 espécies conhecidas de aves, apresentando as mais diversas formas. Assim, a presente era poderia ser chamada de “era das aves”.

As pernas das aves são cobertas por escamas. Além disso, há muitas características semelhantes aos répteis. Com certeza, as aves evoluíram dos répteis. O fóssil Archaeopteryx foi descoberto na Alemanha no século XIX e chegou a ser conhecido amplamente como a primeira ave da Terra. Ela viveu no final do período jurássico, há cerca de 150 milhões de anos, e seu esqueleto possuía características intermediárias entre as aves e os répteis atuais. Era coberta inteiramente por penas e possuía três garras nas asas, porém, sua capacidade de vôo era limitada. O fóssil Confunciornis, descoberto no final do século XX na China, foi uma ave da mesma época que o Archaeopteryx. Entretanto, era mais evoluída e tinha capacidade de vôo superior. Além disso, na China foi descoberto um fóssil de uma Sinornis, uma ave do período posterior que possuía características similares às das aves atuais.

Existem duas opiniões contraditórias sobre a origem das aves: a teoria tradicional, que sugere ter sido um réptil primitivo tal como um lagarto, e a teoria mais recente, de que seria um réptil mais evoluído, tal como um dinossauro. A teoria tradicional considera que um lagarto denominado Lagosuchus ganhou a capacidade de vôo ao pular de árvore em árvore, transformando-se posteriormente em uma ave. Existe um réptil voador com essas características nas florestas da Ásia. Atualmente, muitos cientistas consideram que os animais resultantes de tal forma de evolução realmente existiram, porém não eram aves, mas pterossauros.

Por outro lado, a teoria recente afirma que uma espécie de pequeno dinossauro carnívoro, como o Compsognatus, evoluiu para uma ave. Esse dinossauro era do tamanho de um gato, ou seja, do tamanho de um Archaeopteryx, e comia insetos e lagartos. De fato, as aves primitivas e esse tipo de dinossauro são muito parecidos, sendo difícil traçar uma linha divisória entre os dois. Em um museu de paleontologia da Alemanha, estão conservados cinco fósseis classificados como Archaeopteryx. Entretanto, estudos recentes revelaram que um deles foi erroneamente identificado, sendo na verdade um fóssil de Compsognatus. Um pequeno dinossauro descoberto na China na década de 1980, o Sinosauropteryx, era completamente coberto por penas. Ele também tinha as características intermediárias entre aves e dinossauros. Aceitando-se a teoria recente, os dinossauros não teriam sido totalmente extintos e sua era ainda continuaria.

Muitas espécies de aves alimentam-se principalmente de insetos e vermes. Aves grandes comem lagartos, cobras e ratos. Há aves que se alimentam de outras aves. Quando ocorre uma proliferação explosiva de insetos, grandes bandos destróem as plantas a procura de comida, provocando grandes danos na agricultura. As aves são predadores dos insetos e controlam sua proliferação excessiva. Dessa forma, elas convivem com a civilização auxiliando na manutenção das plantações.

As aves também transportam sementes de plantas a grandes distâncias, auxiliando a propagação das espécies vegetais. As plantas não possuem asas nem pernas, porém, suas sementes podem viajar até outros continentes cruzando oceanos.

Nos aterros sanitários, existe uma imensa massa de materiais orgânicos. Neles ocorre a proliferação excessiva de bactérias que se alimentam desses materiais. Esse fenômeno é chamado popularmente de “apodrecimento dos lixos”. Essas bactérias são seres anaeróbicos que sobrevivem em ambientes pobres em oxigênio. Quando ocorre sua proliferação explosiva, ocorre também a proliferação de pequenos organismos que se alimentam dessas bactérias. O ambiente no interior do lixo em apodrecimento é muito pobre em oxigênio e isso é perigoso às aves e aos mamíferos, que o consomem em grandes quantidades. Portanto, nesse mundo, os insetos e vermes ocupam o topo da cadeia alimentar. Entretanto, uma vez que saem dos lixos e aparecem na superfície, tornam-se ótimas presas das aves. Nas praias sujas do Rio de Janeiro, encontram-se belas garças brancas. Elas podem ser um resultado da poluição ambiental causada pelas pessoas.

Em comparação aos répteis, as aves possuem um cérebro evoluído. Porém, em comparação aos mamíferos, o cérebro dela parece subdesenvolvido. Em geral, o cerebelo (grande cérebro) é menos desenvolvido, o que indica menor capacidade de ponderação. Obviamente, há muitos casos excepcionais. Por outro lado, o cerebellum (pequeno cérebro) é altamente desenvolvido, possibilitando uma grande agilidade e rápida reação. Isto é, o cérebro das aves foi desenvolvido com um objetivo diferente do dos mamíferos. Devido a essa agilidade, algumas espécies de aves consomem muita energia, necessitando surpreendentemente de uma grande quantidade de alimento, água e oxigênio em comparação ao seu peso. Essa característica é totalmente oposta à das tartarugas, que têm um ancestral comum com as aves.

Certas aves possuem uma incrível capacidade de vôo. Alguns tipos de aves migratórias viajam pelos continentes distantes entre si milhares de quilômetros. Como essas aves realizam tal viagem sem mapa ou bússola? Seu cerebelo é pequeno demais para armazenar os dados necessários para a viagem. Existem várias pesquisas científicas, porém, o segredo das aves migratórias ainda não foi satisfatoriamente esclarecido. Algumas aves voam em altas velocidades. Uma espécie de andorinha voa a quase trezentos quilômetros por hora. Essa é a velocidade do trem-bala do Japão. O beija-flor, por exemplo, pode parar no céu como um helicóptero.

Recentemente, surgiu um animal com capacidade de vôo muito superior à das aves. É um mamífero chamado homem, que inventou o avião. Com sua máquina metálica, o ser humano voa a velocidades de novecentos quilômetros por hora a onze mil metros de altura, viajando do Brasil ao Japão em apenas 24 horas. Por outro lado, consome-se uma enorme quantidade de combustível. A maioria dos aviões projetados e fabricados a partir do final do século XX possui suas asas com uma saliência vertical na ponta, denominada winglet. Essa foi uma inovação inspirada na forma da asa de aves grandes. Com a adoção do winglet, pode-se economizar até 6% do combustível, sobretudo durante vôos de longas distâncias.

Talvez a ave mais familiar ao homem seja a galinha. Sua criação possui cerca de dez mil anos de história e começou junto com o início da agricultura. Para os cidadãos contemporâneos, a carne de frango e o ovo de galinha são alimentos indispensáveis. Entretanto, na América do Sul, no século XIX, a carne de frango era muito cara, sendo utilizada apenas como um alimento para pessoas doentes. Assim, a expressão “comer frango” significava que alguém estava doente. Posteriormente, essa mesma expressão chegou a ser usada para representar o mau desempenho de um goleiro de futebol.

Normalmente, a galinha é considerada uma ave herbívora. Mas, de fato, ela é mais carnívora do que herbívora, pois alimenta-se de vermes, insetos, lagartos e pequenas cobras. Uma galinha saudável gera um ovo por dia. Por isso, apesar de seu corpo pequeno, precisa de uma grande quantidade de alimento, equivalente ao de um homem. Uma granja pequena cria mais de vinte mil galinhas, portanto, o trabalho de criação é realmente árduo.

Antigamente, o esterco de galinha era tratado como lixo e jogado fora. Atualmente, ele tornou-se um importante material para adubo, sendo indispensável para a horticultura. O aproveitamento do esterco é uma forma de circulação dos materiais na região rural. A biosfera, incluindo a tecnosfera do ser humano, torna-se vívida e limpa por meio dessa circulação. Quando a circulação é paralisada, o mundo torna-se mais sujo e morto. Esse fenômeno é, de certa forma, similar à relação entre a economia e a circulação de moedas. A natureza tem seu próprio sistema de circulação de materiais. Entretanto, o ser humano o destruiu ou alterou, conforme sua conveniência. Os materiais que não circulam são tratados como sobras e transformam-se em lixo, causando grandes problemas sociais. Sob esse ponto de vista, a civilização atual ainda é imatura. Se a tecnologia deste século for destinada a transformar inteligentemente o lixo em um recurso, a circulação de materiais em torno da tecnosfera se ativará, o mundo será mais vívido e limpo e a prosperidade do homem continuará exatamente como a das aves.

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