RD
Entrevista
há 8 anos
Um salto para a felicidade
Emerson Souza Neves - Head coach
09/06/2018

Você pode nos contar sobre sua história nos saltos ornamentais?
Quando criança, minha tia levava minha irmã e eu ao Clube Atlético Juventus, em São Paulo. Minha irmã gostava de assistir lá aos treinos de saltos ornamentais. Certo dia, o técnico me convidou para treinar com eles e hoje guardo a experiência de participar de cinco campeonatos mundiais, ser campeão brasileiro e sul-americano diversas vezes e me classificar para os Jogos Olímpicos de Atlanta em 1996. No entanto, uma lesão me tirou da olimpíada naquela época.
Saí da modalidade para me dedicar à faculdade de fisioterapia. Foi uma fase difícil, pois parei de fazer algo do qual era apaixonado. Trabalhava de garçom à noite porque tinha de arcar com os gastos e estudava de manhã.
Como surgiu a chance de participar do elenco de um circo tão reconhecido mundialmente?
Tinha acabado de me formar na faculdade e, nas férias, fui para a Europa fazer um show de saltos a convite de uma amiga. Então substituí uma pessoa que estava indo para o circo e me pediram que enviasse um vídeo com uma apresentação minha. Em 2003, passei pelo processo de audição, mas somente em 2006 fui chamado a Montreal (Quebec, Canadá) para um treinamento de um show aquático de Las Vegas (Nevada, Estados Unidos) denominado O (pronúncia da palavra "água", em francês). Infelizmente não havia posição disponível, então me contrataram para atuar no Saltimbanco (o primeiro show do Cirque du Soleil que estreou no Brasil).
Como foi sua primeira experiência num espetáculo?
Foi incrível! Eu me descobri como ser humano. Passei por dificuldades nesse período e tive uma lesão, mas nunca desisti do meu sonho.
Em Saltimbanco, trabalhei como acrobata por seis anos e viajei para mais de quarenta países graças a esse emprego. Sentir a energia de cada lugar é algo indescritível. Logo após, em 2012, encerrei minha carreira como artista e continuei no circo como técnico.
Pode compartilhar mais experiências profissionais?
Eu me mudei para Macau (China) para trabalhar como treinador no maior show aquático do mundo e, em 2016, retornei à equipe do Cirque du Soleil como head coach (técnico principal) do espetáculo Ovo.
Fale-nos mais a respeito do espetáculo Ovo, do qual participa.
Ovo atualmente está em turnê na Rússia, o calendário é bem intenso, pois viajamos toda semana para uma cidade ou país diferente. Como o espetáculo foi criado pela famosa coreógrafa brasileira Debora Cocker, possui ritmos brasileiros que vão da bossa nova ao funk. Sou responsável pela parte acrobática do show, em que treino aproximadamente quarenta acrobatas. É minha responsabilidade manter o alto nível de performance no circo com um ambiente seguro e o mínimo de risco possível para os artistas. Também faço a preparação física e organizo cada ação dos artistas no show. Tenho de estar sempre atento e tomar decisões precisas. Fico nervoso quando um artista apresenta algo novo no treino ou show, pois não tenho controle sobre eles. Meu papel é prepará-los da melhor maneira possível, mas a execução depende somente deles.
Como é ficar longe da família e da organização?
É difícil ficar longe da família, atualmente moro em Atlanta, trabalho dez semanas, descanso duas e divido as folgas entre Brasil e Estados Unidos. Sou fukushi e minha mãe possui uma sede particular com nosso sobrenome. Quando morei em Taiwan, frequentava assiduamente as reuniões e mantenho contato com muitos amigos de lá.
O que você diria a um Estudante que deseja seguir esses mesmos passos?
Nunca desista dos seus sonhos. Tudo o que você passa no caminho se transforma em experiências de vida, necessárias para nos valorizarmos e nos tornarmos pessoas melhores. Mantenha-se humilde e respeite os outros ao seu redor. Foi com muito trabalho, anos de dedicação (gastava em média de 4 horas por dia dentro de ônibus lotados para ir treinar, durante quinze anos) que cheguei aonde cheguei.
No circo a luta continua, pois também abdico de família e dos amigos porque estou sempre viajando. Algumas pessoas ao seu redor podem até dizer que é besteira e que você está perdendo tempo, mas persista e seja sempre verdadeiro em relação à sua pessoa, ao seu verdadeiro eu.
Compartilhe
