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Estudo
há 16 anos

[2.3]“Carta aos irmãos”

01/09/2010

[2.3]“Carta aos irmãos”
A obra Grande Concentração e Discernimento, do Grande Mestre Tient’ai, é a essência dos ensinamentos de sua existência e o coração de todos os ensinos sagrados do Buda. (...)

A doutrina dos Três Mil Mundos num Único Momento da Vida revelada no quinto volume de Grande Concentração e Discernimento é especialmente profunda. Ao propagá-la, demônios surgirão sem falta, pois se isso não ocorresse, não haveria como saber que este é o ensinamento correto. Em uma passagem do mesmo volume, consta: “Conforme a prática progride e a compreensão aumenta, os três obstáculos e as quatro maldades se manifestam de forma confusa, competindo uns com os outros para interferir. (...) A pessoa não deve ser influenciada nem amedrontada por eles. Se for influenciada, será conduzida para os maus caminhos. Se ficar amedrontada, sua prática será impedida”. Essa declaração não somente se aplica a mim mas também é um direcionamento para os meus seguidores. Façam deste o seu louvável ensinamento e transmitam-no como uma importante lição de fé para as futuras gerações.

Os três obstáculos mencionados nesta passagem são os obstáculos dos desejos mundanos, do carma e da retribuição. O obstáculo dos desejos mundanos indica os impedimentos à prática causados pela avareza, ira, estupidez e por outras tendências semelhantes. O obstáculo do carma representa os impedimentos causados pela esposa ou pelos filhos. Por fim, o obstáculo da retribuição corresponde aos impedimentos apresentados pelo soberano ou pelos pais. Das quatro maldades, as funções do Rei Demônio do Sexto Céu são desse último tipo.

No Japão atual, muitas pessoas afirmam ter dominado a prática de concentração e discernimento. No entanto, existe alguém que realmente tenha enfrentado os três obstáculos e as quatro maldades? A declaração “Se uma pessoa cai sob a influência deles, será conduzida para os maus caminhos” indica não apenas os três maus caminhos mas também os mundos dos seres humanos e seres celestiais e, de modo geral, todos os nove mundos. Por essa razão, com exceção do Sutra de Lótus, todos os demais sutras — os dos períodos Guirlanda de Flores, Agama, Exatidão e Semelhança, Sabedoria, Nirvana e Mahavairochana — conduzirão as pessoas aos maus caminhos. Além disso, com exceção da escola Tendai, os adeptos das outras sete escolas são, na verdade, guardiões do inferno que levam os outros aos maus caminhos. Mesmo na escola Tendai, há os que professam a fé no Sutra de Lótus, mas, na realidade, conduzem outros aos ensinamentos pré-Sutra de Lótus. Eles também são os guardiões do inferno que fazem as pessoas caírem nos maus caminhos.

Vocês dois, irmãos, são como o eremita e o homem íntegro. Se um dos dois desistir no meio do caminho, ambos deixarão de atingir o estado de Buda. (...)

Vocês duas, esposas, não devem guardar ressentimento mesmo que seus maridos venham a ofendê-las por causa da fé neste ensinamento. Se ambas se unirem para encorajar a fé de seus maridos, seguirão o mesmo caminho da filha do Rei Dragão e tornar-se-ão um modelo para as mulheres atingirem o estado de Buda na era maléfica dos Últimos Dias. Contanto que ajam dessa maneira, não importando o que aconteça, Nitiren pedirá aos dois sábios, aos dois reis celestiais, às dez filhas-demônio, a Sakyamuni e Muitos Tesouros para torná-las budas em cada uma das existências futuras. Uma passagem do Sutra dos Seis Paramitas afirma que devemos nos tornar mestre de nossa mente, em vez de permitir que ela nos domine.

Independentemente do problema que enfrentarem, considerem-no apenas como um sonho e pensem unicamente no Sutra de Lótus. O ensino de Nitiren foi particularmente difícil de acreditar no início, mas agora que minhas profecias foram concretizadas, os que cometeram calúnias infundadas acabaram se arrependendo. Mesmo que, no futuro, outros homens e outras mulheres venham a se tornar meus discípulos, não poderão substituí-los em meu coração. (...)

Esta carta foi escrita, principalmente, para Hyoe no Sakan [o mais jovem dos irmãos Ikegami]. Também deve ser lida pela esposa dele e a de Tayu no Sakan [o irmão mais velho].

(WND, v. 1, pp. 500-502.)

Explanação

O fundador e primeiro presidente da Soka Gakkai, Tsunessaburo Makiguti (1871–1944), disse certa ocasião: “Fazemos de nossa vida a morada do Buda que nos conduz à felicidade ou, em vez disso, a convertemos em função maléfica que nos leva à infelicidade? Temos de escolher entre uma e outra opção. Se combatemos ativamente as funções negativas em nós e as vencemos, isso nos conduzirá à felicidade e ao Kossen-rufu”.

Junho é o mês do nascimento do sr. Makiguti. [O fundador da Soka Gakkai nasceu em 6 de junho de 1871]. Por meio de esforços incansáveis para manter e defender o Budismo de Nitiren Daishonin, ele nos ensinou que o caminho da fé para atingir o estado de Buda nesta existência e concretizar o objetivo do Kossen-rufu implicava uma luta incessante contra as funções maléficas.

Havia um membro da Soka Gakkai, um jovem professor, que recebeu cartas de incentivo e orientação do sr. Makiguti quase todo mês, em 1938. Muitos anos depois, ele viria a recordar: “A cada três cartas, mais ou menos, o sr. Makiguti citava estas palavras [de Tient’ai que constam nos escritos de Daishonin]: ‘Conforme a prática progride e a compreensão aumenta, os três obstáculos e as quatro maldades1 se manifestam de forma confusa, competindo uns com os outros para interferir’”.2 E ele não foi o único a ficar impressionado com essa característica do primeiro presidente da Soka Gakkai. O sr. Makiguti sempre enfatizava aos membros sobre a importância de praticar a fé com a firme disposição de combater os três obstáculos e as quatro maldades e de triunfar sobre eles. Isso porque a fé é a própria essência do Budismo de Nitiren Daishonin. Herdando o espírito destemido do sr. Makiguti de lutar contra as funções malignas, os membros da Soka Gakkai têm praticado o ensinamento correto do budismo exatamente como Daishonin instrui.

O segundo presidente da Soka Gakkai, Jossei Toda, devotado discípulo do sr. Makiguti, liderou a Soka Gakkai com o mesmo comprometimento inabalável para combater as funções malignas e bradar pelo que é correto. [Durante a Segunda Guerra Mundial, o sr. Toda e o sr. Makiguti foram presos pelas autoridades militares japonesas por terem se recusado a comprometer suas crenças, e o presidente Makiguti faleceu na prisão em novembro de 1944.] Após ser libertado (em julho de 1945), o sr. Toda jurou triunfar sobre as opressivas forças do autoritarismo responsáveis pela morte de seu mestre. Ele se ergueu como um indomável defensor da Lei Mística, e levou corajosamente a bandeira do Kossen-rufu sozinho.

Como discípulo do sr. Toda, eu fiz o máximo que pude para apoiá-lo e ajudá-lo. Vencendo a tempestade de obstáculos que combatemos juntos como mestre e discípulo, o sr. Toda enfim assumiu como segundo presidente da Soka Gakkai (em maio de 1951). Ele deu início a uma revolução religiosa sem precedentes, uma batalha para livrar o mundo do sofrimento e da infelicidade, dissipando a escuridão ou ignorância fundamental3 inerente na vida das pessoas — a causa primordial de todo o mal — e livrando assim a humanidade do sofrimento decorrente da pobreza, do ódio, da violência e de outras circunstâncias negativas. Meu mestre edificou uma fortaleza com o compromisso de concretizar o princípio de Daishonin do “estabelecimento do ensino correto para a paz da nação”.4 Isso foi alcançado, convocando-se a magnífica força dos Bodhisattvas da Terra5 (na forma de 750 mil famílias da Soka Gakkai, prontas a enfrentar corajosamente as funções malignas) e vencendo os três poderosos inimigos6 do budismo.

Além disso, como fica evidente em sua Declaração pela Abolição das Armas Nucleares,7 de 1957, o sr. Toda empreendeu uma incansável batalha por toda a vida contra o mal e os impulsos destrutivos que se encontram alojados no coração humano. E, em seu último pedido feito aos discípulos antes de falecer, ele lhes solicitou que combatessem a corrupção e a calúnia contra a Lei dentro do clero da Nitiren Shoshu e que jamais afrouxassem a luta contra quaisquer funções malignas que procurassem destruir o espírito humano.

Combater as funções malignas é a própria essência da orientação dos três primeiros presidentes da Soka Gakkai durante a luta que empreenderam em prol do Kossen-rufu em exato acordo com os ensinamentos de Daishonin. Se essa fé para desafiar as funções malignas for mantida agora e no futuro, sem dúvida, o Kossen-rufu será concretizado. O escrito “Carta aos irmãos” apresenta a fórmula para isso. Nesta parte, discutiremos sobre a batalha contra os três obstáculos e as quatro maldades, a importância de estarmos unidos no mesmo propósito e a fé embasada no compromisso compartilhado entre mestre e discípulo.

“Um direcionamento para os meus seguidores” e

“Uma importante lição de fé para as futuras gerações”

Neste trecho que conclui “Carta aos irmãos”, Daishonin cita uma passagem de Grande Concentração e Discernimento, de Tient’ai, esclarecendo por que os três obstáculos e as quatro maldades aparecem. Ele emprega essas palavras para esclarecer aos irmãos Ikegami,11 que se encontravam numa situação desesperadora, que eles não deveriam em hipótese alguma ser derrotados por essas funções negativas. Nitiren Daishonin já havia explanado detalhadamente nesta carta, e sob diferentes perspectivas, qual a razão de os praticantes do Sutra de Lótus enfrentarem dificuldades, e agora ele reconfirma que a fé na Lei Mística é, em última instância, uma infindável batalha contra os três obstáculos e as quatro maldades.

Daishonin volta sua atenção em especial para o quinto volume de Grande Concentração e Discernimento, e indica que sua profunda doutrina dos Três Mil Mundos num Único Momento da Vida revela a essência dos ensinamentos do Buda. Essa doutrina expressa a essência do ensino da iluminação universal que consta no Sutra de Lótus como um guia para a prática da “observação da mente”12 a fim de realizar a própria transformação interior, ou iluminação.

No início do capítulo intitulado “Prática Correta”, do quinto volume de Grande Concentração e Discernimento, enquanto se prepara para revelar essa suprema doutrina, Tient’ai faz, em primeiro lugar, uma advertência aos praticantes do Sutra de Lótus para que não abandonem a prática por temerem os três obstáculos e as quatro maldades. Daishonin observa perspicazmente esse fato com a seguinte explicação: “Ao propagá-la [esta doutrina], demônios surgirão sem falta, pois se isso não ocorresse, não haveria como saber que este é o ensinamento correto”.13 Em outras palavras, os obstáculos e as funções malignas surgem para atacar os que praticam o ensinamento correto. Daishonin ensina aqui um ponto importante para a vitória em nossa prática budista — pois somente pelo reconhecimento dessa verdade e estando prontos a combater esses obstáculos com coragem e triunfar quando eles surgirem é que será possível realizarmos nossa transformação interior.

A passagem que Daishonin cita de Grande Concentração e Discernimento inicia dizendo que “Conforme a prática progride e a compreensão aumenta...”, indicando um estágio em que os praticantes aprofundaram a compreensão do Sutra de Lótus e, como resultado, solidificaram sua prática. Os três obstáculos e as quatro maldades atacam exatamente por causa dos genuínos esforços empreendidos pelos praticantes para transformarem sua vida no nível fundamental. Em nosso contexto atual, isso significa que esses obstáculos serão desencadeados quando nos empenharmos com toda sinceridade nas duas formas de prática e estudo e avançarmos na vida e em nossos esforços em prol do Kossen-rufu. Daishonin afirma que os três obstáculos e as quatro maldades surgem quando estamos prestes a atingir o estado de Buda.

A seguir, a passagem afirma que “os três obstáculos e as quatro maldades se manifestam de forma confusa, competindo uns com os outros para interferir”. Essas funções negativas procuram apanhar os praticantes do Sutra de Lótus desprevenidos e, com vários meios maldosos, tentam intimidá-los, persuadi-los, desencorajá-los, enfraquecê-los ou deixá-los na inércia.

Tient’ai delineia dois ingredientes essenciais para o tipo de fé necessária a fim de combater os três obstáculos e as quatro maldades: (1) “não ser influenciado por eles” e (2) “não ficar amedrontado”.14 Aqueles que se permitem ser influenciados pelas funções malignas serão arrastados para os maus caminhos da existência, ao passo que os que se permitem ser intimidados por elas serão impedidos de praticar o ensinamento correto. Resumindo, a sabedoria e a coragem são a base para a vitória nesta batalha — a sabedoria para enxergar as funções malignas pelo que elas são e não ser dominado por elas e a coragem para enfrentá-las sem medo. A recitação do Nam-myoho-rengue-kyo é a fonte de sabedoria e coragem necessárias para derrotar essas forças negativas. Isso porque a força do Nam-myoho-rengue-kyo, a Lei Mística, transforma instantaneamente a escuridão ou ignorância inata em natureza fundamental da iluminação,15 permitindo-nos atingir uma condição de vida em que conseguimos considerar as dificuldades com que nos deparamos no caminho da fé com paz e tranquilidade.16

Em outro escrito, Daishonin cita a mesma passagem de Grande Concentração e Discernimento sobre o surgimento dos três obstáculos e das quatro maldades, mas inclui ainda esta frase: “No entanto, o senhor deve ser como a montanha dourada que brilha ainda mais quando arranhada por um javali,17 como o mar que envolve todos os vários riachos, como o fogo que aumenta sua chama à medida que a lenha é adicionada, ou como o inseto kalakula que aumenta de tamanho quando o vento sopra”.18 Combater as funções malignas faz com que nossa fé seja polida. Exatamente como uma montanha dourada brilha com ainda mais esplendor, como o oceano fica mais cheio, como o fogo arde com mais intensidade e como o kalakula fica ainda maior. A forte fé no Sutra de Lótus faz manifestar o magnífico benefício da Lei Mística da “transformação do veneno em remédio”,19 convertendo, assim, o infortúnio em boa sorte.

Daishonin diz em outro trecho: “O devoto do Sutra de Lótus é como o fogo e o kalakula, ao passo que as perseguições que ele sofre são como a lenha e o vento”;20 e “Quanto piores forem as adversidades que recaírem sobre ele [o devoto do Sutra de Lótus], maior será a alegria que sentirá devido a sua forte fé”.21 Os grandes obstáculos fortalecem a vida dos genuínos praticantes do Sutra de Lótus. Ao enfrentar corajosamente esses desafios, eles conseguem fazer seu estado de Buda brilhar com ainda mais esplendor.

Em “Carta aos irmãos”, podemos perceber que Daishonin está ensinando aos irmãos Ikegami sobre o princípio de que “os obstáculos levam à iluminação” e que está lhes pedindo que fiquem preparados para lutar até o fim.

Para todos nós, discípulos de Nitiren Daishonin, é uma imensa boa sorte que o Buda tenha deixado um exemplo pessoal de luta e vitória contundente sobre as funções malignas. Ele é o próprio epítome do caminho da prática budista. Daishonin pede aos irmãos Ikegami que sigam sua liderança e percorram o mesmo caminho da vitória. Por isso, fazendo uma referência à passagem de Grande Concentração e Discernimento sobre os três obstáculos e as quatro maldades, ele diz: “Essa declaração não somente se aplica a mim mas também é um direcionamento para os meus seguidores”.22 Convicto de que a corajosa prática budista e a suprema vitória dos irmãos Ikegami serão um modelo eterno para os futuros praticantes, ele lhes diz: “Façam deste o seu louvável ensinamento e transmitam-no como uma importante lição de fé para as futuras gerações”.23

Vamos igualmente incorporar e transmitir com toda reverência o espírito de fé para combater as funções malignas, o qual nos foi ensinado pelos presidentes Makiguti e Toda, criando, assim, as causas no presente para o contínuo desenvolvimento da Soka Gakkai pelo eterno futuro.

Combater as funções malignas

é a essência da fé genuína

A seguir, em benefício dos irmãos Ikegami, Daishonin descreve algumas das formas específicas com que os três obstáculos e as quatro maldades se manifestam. E faz também alusão ao fato de que ele e seus seguidores, na leal batalha contra as funções malignas, são os únicos na época atual que estão realmente praticando o ensinamento correto.

Ele analisa em primeiro lugar os “três obstáculos” — os obstáculos que atuam na obstrução da prática budista e minam as boas causas acumuladas na vida da pessoa. A lista de obstáculos varia de forma considerável dependendo do sutra ou do tratado. O Sutra do Nirvana e várias outras escrituras referem-se aos três tipos de obstáculos — os obstáculos dos desejos mundanos, do carma e da retribuição.

(1) O obstáculo dos desejos mundanos refere-se aos impedimentos à prática, os quais se originam dos três venenos da avareza, ira e estupidez na vida da pessoa, e assim por diante. Os desejos mundanos, ou os impulsos originados da ilusão, enfraquecem a energia vital das pessoas, tiram-lhes a razão e até mesmo roubam-lhes a energia que alimenta sua vida.

(2) O obstáculo do carma refere-se aos impedimentos originados da influência negativa do carma gravado na vida da pessoa, que age para obstruir a prática budista. Isso se aplica no caso em que a pessoa sai do caminho correto da prática budista por causa de suas próprias atitudes equivocadas ou por causa de maus atos.

(3) O obstáculo da retribuição refere-se aos obstáculos provenientes dos efeitos negativos ocasionados pelas graves ofensas cometidas em existências passadas. Um excelente exemplo dessa punição está em nascer numa época de corrupção ou num ambiente hostil à prática budista ou que não a apoia.

Em “Carta aos irmãos”, Daishonin apresenta exemplos concretos desses três obstáculos num contexto relevante aos irmãos Ikegami. Ele explica assim que o obstáculo do carma corresponde aos “impedimentos causados pela esposa ou pelos filhos”, ao passo que o obstáculo da punição corresponde aos “impedimentos apresentados pelo soberano ou pelos pais”.27 Quero esclarecer especificamente que as pessoas que impedem a prática budista de outra — tal como o cônjuge ou os filhos, ou o governante ou os pais, conforme indica Daishonin — nada mais são que funções ou influências negativas (“maus amigos”); elas não são más na essência. Por fim, cabe inteiramente a cada praticante permanecer firme ou abandonar a fé em consequência da oposição de outras pessoas. Quando vencemos a nós próprios, conseguimos enxergar cada indivíduo como um “bom amigo”, ou uma influência positiva para nossa vida. Enfatizando ainda mais esta questão: ao realizar uma mudança bem no interior de nossa vida, conseguimos mudar também, ou exercer uma influência positiva na vida dos outros.

Daishonin examina, em seguida, as “quatro maldades”. O termo “maldade” ou “função maligna”, no budismo, origina-se da palavra sânscrita mara, traduzida para o chinês de diferentes formas, tais como “assassino”, “ladrão de vida” ou “destruidor”. Esse termo se refere às funções negativas no coração da pessoa, as quais procuram destruir o espírito dela e até mesmo tirar-lhes a vida.

Como no caso dos obstáculos, há também vários tipos de maldades descritas em diferentes sutras e tratados. A descrição das quatro maldades como impedimentos dos desejos mundanos, dos cinco componentes,28 da morte e do Rei Demônio consta em obras como o Tratado sobre a Grande Perfeição da Sabedoria.29

(1) O impedimento dos desejos mundanos refere-se aos impulsos derivados da ilusão que atormentam, provocam confusão espiritual e inibe a sabedoria nas pessoas.

(2) O impedimento dos cinco componentes, que inclui o impedimento da doença, refere-se ao desequilíbrio nos cinco componentes (por exemplo, a mente e o corpo) produzindo sofrimento e angústia que acabam levando à destruição da fé da pessoa.

(3) O impedimento da morte significa um praticante sendo despojado da vida — isto é, morrendo — e a morte da pessoa fazendo posteriormente com que outros praticantes duvidem da fé.

(4) O impedimento do Rei Demônio significa a fé dos praticantes, destruída pelas funções do Rei Demônio, também conhecido como “Demônio que se Regozija em Manipular Livremente as Pessoas e em Usurpar o Fruto dos Esforços Delas”.

Das quatro maldades, Daishonin menciona aqui apenas o impedimento do Rei Demônio. Isso porque ele estava enfocando o tipo de impedimento que os irmãos Ikegami estavam enfrentando.

Até este trecho da carta, Daishonin orientou em vários pontos sobre a necessidade de ter uma fé resoluta para enfrentar as funções insidiosas do Rei Demônio. No encerramento, Daishonin conclui que somente ele e seus seguidores podem provocar o ataque dos três obstáculos e das quatro maldades e triunfar sobre eles. Isso fica implícito em sua pergunta retórica: “Existe alguém que realmente tenha enfrentado os três obstáculos e as quatro maldades?”30 Ele observa que há muitas pessoas que “afirmam ter dominado a prática de concentração e discernimento [ensinada por Tient’ai como a prática correta para atingir a iluminação]”. Mas, pergunta ele, quem é que está sendo atacado pelos três obstáculos e pelas quatro maldades? A resposta dispensa explicações: fora Daishonin e seus seguidores, ninguém mais.

Por meio de nossos dedicados esforços em prol do Kossen-rufu como membros da Soka Gakkai, unidos pelo mesmo comprometimento de mestre e discípulo, estamos dando continuidade a este nobre espírito de luta de Daishonin. Com isso, na época atual estamos demonstrando que nós somos os únicos que realmente enfrentamos os três obstáculos e as quatro maldades.

Em novembro de 1942, no auge da Segunda Guerra Mundial, a Soka Kyoiku Gakkai (literalmente, Sociedade Educacional para a Criação de Valores, precursora da Soka Gakkai) realizou sua 5ª Convenção. No discurso proferido nessa ocasião, no qual tratou dessa mesma passagem de “Carta aos irmãos”, o sr. Makiguti declarou: “Quem dentre os tradicionais praticantes da Nitiren Shoshu [ou seja, o clero] foi atacado pelos três obstáculos e pelas quatro maldades? (...) Os que dizem conduzir os outros mas que não provocam o surgimento de obstáculos não seriam como ‘guardiões do inferno que levam os outros aos maus caminhos’?31 Ser atacado pelas funções malignas é o que distingue os ‘praticantes’ dos meros ‘seguidores’. (...)

“As pessoas que vivem uma existência dedicada ao bem menor e que praticam a fé somente para seu próprio benefício, com certeza, não enfrentarão obstáculos; mas aqueles que vivem em prol do bem maior, dedicados à altruística prática de bodhisattva, certamente serão atacados pelas funções malignas. (...)

“Assim como as flores de lótus que desabrocham sem serem maculadas pelas águas lamacentas onde crescem, nós [membros da Soka Gakkai] nos lançamos corajosamente no meio das forças hostis ao ensinamento correto — interagimos com pessoas dedicadas ao bem menor e ao bem relativo que caluniam a Lei — e procuramos corrigir seu grave erro e suas más ações. Portanto, é natural que os três obstáculos e as quatro maldades caiam furiosamente sobre nós. De fato, o surgimento deles faz com que possamos ser chamados de ‘praticantes’.”32

Não devemos ser “seguidores” fracos que desejam apenas o benefício menor para si próprios e que sentem muito medo de combater as funções malignas. Os autênticos “praticantes” são aqueles que se lançam com toda seriedade na batalha contra os três obstáculos e as quatro maldades, aspirando ao grande benefício de atingir o estado de Buda nesta existência e propagar o Kossen-rufu para a felicidade de todas as pessoas. Todos os membros da Soka Gakkai são nobres “praticantes do Sutra de Lótus” da era moderna.

Combatendo as funções malignas que fazem

as pessoas caírem nos maus caminhos

Daishonin cita aqui a passagem relacionada aos três obstáculos e às quatro maldades que consta em Grande Concentração e Discernimento: “Se a pessoa cair sob sua influência, será levada aos maus caminhos”. Os sacerdotes de várias escolas budistas da época de Daishonin, por terem propagado ensinamentos errôneos por todo o país, agiram como “maus amigos”, ou influências negativas, fazendo com que as pessoas caíssem nos maus caminhos. Daishonin descreve essas pessoas como “guardiões do inferno” que levam os outros aos três maus caminhos e aos nove mundos dos ensinamentos pré-Sutra de Lótus [os quais articulam uma separação clara entre os nove mundos e o estado de Buda]. Ele declara ainda que mesmo na escola Tendai, que originariamente valorizava o Sutra de Lótus, há aqueles que, embora professem a fé nos ensinamentos desse sutra, agem, na verdade, como “guardiões do inferno” por levarem as pessoas a caírem nos maus caminhos e a descartarem o Sutra de Lótus.

Durante o período de 1275 e 1278 [correspondente à era Kenji e ao primeiro período após ter se mudado para o monte Minobu], Daishonin intensificou as críticas a Jikaku e Chisho,37 patriarcas da escola Tendai que haviam criado a causa fundamental para a calúnia contra o Sutra de Lótus por todo o Japão ao incorporarem as doutrinas esotéricas da escola Verdadeira Palavra aos ensinamentos originais da Tendai. Esses sacerdotes, que deveriam ter preservado o Sutra de Lótus, acabaram deturpando os ensinamentos da escola e o resultado foi que se tornaram pessoas que “destroem o Sutra de Lótus”.38

Numa época em que as pessoas eram profundamente influenciadas por esses ensinamentos errôneos e pela calúnia contra a Lei que existia por todo o país, Daishonin enfrentou diretamente os sacerdotes a quem as pessoas consideravam como fortalezas de sabedoria, denunciando-os como a verdadeira fonte desse mal fundamental da calúnia. Uma vez que ele se lançou a uma batalha “tão feroz como a que o Buda e o Rei Demônio travaram”,39 é inevitável que os três obstáculos e as quatro maldades caiam sobre ele como vingança.

Os irmãos Ikegami estavam entre os leais discípulos de Daishonin que o apoiaram e compartilharam o peso dos ataques desferidos por essas forças hostis. Nesta carta, Daishonin pede-lhes outra vez, com toda firmeza, que continuem a lutar junto com ele para propagar o ensinamento correto.

A união é a chave para a vitória

O segredo para ter uma fé capaz de combater as funções malignas é compartilhar o mesmo compromisso do mestre e unir-se firmemente no mesmo propósito com os companheiros praticantes. Daishonin enfatiza claramente esses pontos essenciais nas passagens que encerram “Carta aos irmãos”. Em primeiro lugar, ele ressalta a necessidade da união.

O mais importante para os irmãos Ikegami é que eles permaneçam unidos. As funções malignas procuram criar divisões. Se o pai deles tivesse deserdado os dois por causa da diferença religiosa, então teria sido simplesmente uma questão de eles se empenharem juntos para esclarecer quaisquer divergências. Mas, ao deserdar o mais velho, o pai esperava desafiar o mais novo com a perspectiva de conquistar o direito à sucessão. Foi obviamente um estratagema para pressionar os dois irmãos e tal procedimento deve ser visto como uma manifestação das funções do Rei Demônio do Sexto Céu.

Somente uma força positiva e unida conseguiria derrotar essas funções malignas. Assim, Daishonin diz aos irmãos: “Se um dos dois desistir no meio do caminho, ambos deixarão de atingir o estado de Buda”.46 Em outras palavras, a união representa uma fortaleza inexpugnável que impede a entrada das funções malignas.

Daishonin instrui ainda as esposas dos irmãos, dizendo-lhes que elas devem manter também uma fé corajosa. Ele escreveu estas palavras: “Vocês duas, esposas, não devem guardar ressentimento mesmo que o marido venha a ofendê-las por causa da fé neste ensinamento. Se ambas se unirem para encorajar a fé do marido, seguirão o mesmo caminho da filha do Rei Dragão e tornar-se-ão um modelo para as mulheres atingirem o estado de Buda na era maligna dos Últimos Dias”.47

A fé das mulheres, com frequência, se mostra decisiva num momento crucial. Devemos gravar essas palavras de Daishonin. Mas, para se empenhar na fé por uma família harmoniosa e feliz, não há nenhuma necessidade de ficarem impacientes com os familiares que não praticam o Budismo de Daishonin. Uma pessoa que mantém a fé na Lei Mística é como o sol nascente que ilumina todos os membros da família e entes queridos, estendendo-se o benefício de sua prática budista a todos. O mais importante é orar e ter total convicção de que sua perseverança na fé conduzirá todos à felicidade.

Nesta carta, Daishonin escreve que “as mulheres apoiam os outros e, como resultado, recebem o apoio dos demais”48 e pede às esposas dos irmãos Ikegami que “se unam para encorajar a fé do marido”.49 Com isso, ele está dizendo que se elas mantiverem sabiamente uma fé inabalável, com certeza, conseguirão triunfar sobre os ataques das funções malignas e conquistar um ilimitado estado de Buda, que envolverá também toda a família. Com as cartas que Daishonin enviou aos irmãos Ikegami, podemos deduzir que o prudente apoio que as esposas deram aos maridos de acordo com a orientação de Daishonin teve um papel significativo no fato de o pai deles, Yasumitsu Ikegami,50 ter se convertido ao ensinamento correto.

Uma vida vitoriosa conduzida pelo princípio

de que o coração é o mais importante

Conforme Daishonin diz, “O que importa é o coração”.53 O coração humano ou a mente proporciona suprema dignidade e nobreza à vida. Ao mesmo tempo, pode cair na mais profunda depravação se sucumbir aos impulsos da escuridão ou ignorância fundamental. Transformar o coração é a base para toda mudança duradoura.

Se nos basearmos em nosso coração ou em nossa mente inconstante, não conseguiremos escalar as íngremes cordilheiras fustigadas pelos ferozes ventos das funções malignas. Devemos visualizar o pico sólido e inabalável do estado de Buda e sempre buscar dominar nossa mente. Esse é o significado das palavras “ser mestre de nossa mente, em vez de permitir que ela nos domine”.54

Dominar a mente significa fundamentar-se no inabalável alicerce da Lei. Aqui está a importância dos sutras ou escritos contendo os ensinamentos do Buda que despertou para a Lei e a propaga. Para nós, praticantes do Budismo de Daishonin, dominar a mente significa nos basearmos no Gohonzon e nos escritos do Buda. E, no budismo, é o mestre que põe os ensinamentos em prática, que nos ajuda a nos conectarmos com a Lei. Dominar a mente significa viver com um sincero espírito de procura na fé e, embasados no mesmo compromisso entre mestre e discípulo, não se deixando ser dominados pelo egoísmo, pela arrogância nem pela presunção.

Daishonin destaca a importância de viver com autodomínio — um domínio fundamentado na Lei — conforme diz a seguinte passagem: “Independentemente do problema que enfrentarem, considerem-no apenas um sonho e pensem unicamente no Sutra de Lótus”.55 Do ponto de vista da infinita escala da eternidade, qualquer evento ou fenômeno é tão fugaz quanto um sonho. Mas a Lei é eterna. Permitir-se ser derrotado pelas funções malignas e se desviar da Lei serão uma causa para eterno arrependimento. Nessa passagem, Daishonin pede aos seus seguidores que “pensem unicamente no Sutra de Lótus”, que enfoquem apenas o Kossen-rufu e se mantenham firmes na fé em prol da eterna vitória.

Na época atual, nós, da Soka Gakkai, estamos nos dedicando com toda seriedade a dominar nossa mente com base nesse espírito de abnegado compromisso com o Sutra de Lótus (Nam-myoho-rengue-kyo). Como resultado disso, estamos demonstrando uma magnífica prova real da vitória. Há agora incontáveis membros heroicos — pessoas comuns que estão se empenhando corajosamente na prática budista — no Japão e no mundo inteiro. Essas pessoas são realmente tesouros do Kossen-rufu e da humanidade. Baseando-se na Lei e incorporando o espírito da unicidade de mestre e discípulo, conseguiram transformar o carma e estabelecer um estado de vida de felicidade inabalável. E continuam, ao mesmo tempo, trabalhando incansavelmente para contribuir em prol da prosperidade da sociedade e da paz mundial, vivendo uma existência de incomparável significado e dedicada à felicidade de si próprias e também das outras pessoas. Nós entramos numa época em que importantes pensadores do Japão e do mundo estão elogiando os esforços de nossos nobres membros.

A fé fundamentada no compromisso

compartilhado por mestre e discípulo

No fim deste escrito, Daishonin reitera a importância de seus seguidores se empenharem com a mesma disposição e comprometimento que ele.

As funções do coração humano são infinitamente diversas. Ao observarem as predições de Daishonin se concretizarem, houve pessoas que se arrependeram e retiraram as críticas feitas anteriormente a ele e a seus seguidores. Mas houve também muitos outros que, embora tivessem tido fé nos ensinamentos de Daishonin, ficaram com medo de serem perseguidos por causa disso e abandonaram a fé. Alguns desses indivíduos acabaram sendo ainda mais hostis que aqueles que se opuseram a ele no início.57

Fraqueza, covardia e traição — o coração humano pode ser realmente temeroso. Não há dúvida de que foram esses aspectos que fizeram com que Daishonin escrevesse aos irmãos Ikegami e esposas, que se mantiveram fiéis ao caminho de mestre e discípulo: “Mesmo que, no futuro, outros homens e outras mulheres venham a se tornar meus discípulos, não poderão substituí-los em meu coração”.58 Esses seguidores que perseveraram pelo nobre caminho do Kossen-rufu, sem desanimar em meio às furiosas tempestades e sem se intimidar por aqueles que haviam abandonado a fé, são verdadeiros discípulos, diz ele, empregando palavras do mais alto louvor. Os laços de mestre e discípulo são um dos supremos tesouros da vida.

O sr. Toda disse: “Para nos elevarmos serenamente pelos céus do estado de Buda nesta existência, devemos nos lançar impetuosamente aos violentos ventos da adversidade. A fé que se mantém invicta diante de quaisquer dificuldades é o que nos permite construir um palácio de eterna felicidade na vida. Não há nenhum obstáculo que não possamos vencer com fé”.

Sua altaneira convicção é o epítome do espírito da Soka Gakkai, do espírito de Chakubuku de refutar o falso e esclarecer o correto, e do espírito de combater as funções malignas.

A fé é de suprema importância. Em outra carta, Daishonin diz aos irmãos Ikegami: “Os três obstáculos e as quatro maldades surgirão sem falta, e o sábio se alegrará ao passo que o tolo se acovardará”.59

Quando nossa fé é como a do “sábio que se alegra”, os ventos ferozes dos três obstáculos e das quatro maldades servirão apenas para dissipar as nuvens do carma que pairam sobre nós. No céu límpido do nosso coração aparecerá, sem falta, um

arco-íris de infinita alegria. Convictos de que a luz do sol da verdade, da felicidade e da vitória brilhará com todo esplendor, vamos desafiar corajosamente todos os obstáculos.

A vitória do discípulo sobre os três obstáculos e as quatro maldades é o maior desejo e a maior alegria dos mestres no mundo do budismo.

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