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Diálogo Sobre a Filosofia Budista
há 16 anos

“Os Oito Ventos”

Convidados Ricardo Isao Ikeda, vice-presidente da BSGI; Gilson Shirayama, vice coordenador da DMJ da CCSP; Renata Udovic Lopes, responsável pela DFJ da Subcoordenadoria Grande ABC, CMSP.

01/09/2010

“Os Oito Ventos”
Ricardo Issao Ikeda: Os oito ventos são condições que impedem as pessoas de avançar no caminho que conduz à iluminação. Os indivíduos são constantemente desviados do caminho pelo apego à prosperidade, à honra, ao elogio e ao prazer, ou por temer o declínio, a desgraça, a censura e o sofrimento.

Renata Udovic Lopes: Nesse conceito, o vento pode ser entendido como algo inconstante, imprevisível, que exerce influência sem ser percebido pelas pessoas.

Gilson Shirayama: Vale ressaltar que os oito ventos podem ser divididos ainda em dois grupos: os quatro ventos favoráveis — prosperidade, honra, elogio e prazer — e os quatro ventos desfavoráveis — declínio, desgraça, censura e sofrimento. No entanto, independentemente de serem benéficos ou não, prevalece ainda a importância de não se deixar influenciar por eles e, ao contrário, não se deixar desviar por fatores impermanentes.

Renata: As pessoas sofrem as influências dos oito ventos de acordo com a condição de vida. É como se fôssemos uma árvore. Se as raízes não são profundas e resistentes, provavelmente um vento forte vai derrubá-la. Assim, devemos orar para atingir uma condição de vida que nos possibilite compreender os sofrimentos da vida como oportunidades de crescimento, autoaprimoramento e desenvolvimento.

Ikeda: Realmente. Porém, não sofrer as influências dos oito ventos é bastante difícil, até porque os opostos são presença constante em nossa vida — a alegria e a tristeza, a felicidade e a infelicidade. De fato, muitas vezes só se consegue valorizar a felicidade quando conhecemos o infortúnio e a desgraça. O caso é que, ao invés de eliminarmos os sofrimentos advindos dos obstáculos e das dificuldades, estes podem ser uma fonte para nosso progresso.

Shirayama: Estudando este princípio, numa situação tranquila e favorável fica mais fácil compreender como tudo se manifesta. Todavia, pôr em prática exatamente na hora em que as coisas acontecem considero determinante sobre os resultados de nossa vida. A oração por um propósito elevado e as ações valorosas que realizamos por meio das atividades e para o bem das pessoas, proporcionam naturalmente o fortalecimento do “eu” interior.

Ikeda: O presidente Ikeda orienta: “Quanto mais alta uma montanha, mais fortes são os ventos que a assolam. O rei das cadeias de montanhas, o Himalaia, é constantemente golpeado por ventos violentos próximo aos seus picos. De acordo com alguns dados, as temperaturas no Himalaia podem baixar a 40º Celsius. Implacáveis ventanias geladas podem alcançar, às vezes, a velocidade de mais de cem metros por segundo. Mas, mesmo com o vento mais forte, o ‘rei das cadeias de montanhas’ destaca-se com dignidade majestosa e calma imperturbável”.1 O budismo ensina que devemos viver com a perfeita serenidade e o domínio de nossa mente como o Himalaia, não nos curvando o mínimo que seja diante dos oito ventos, que podem atuar para extinguir a chama da prática budista.

Renata: Independentemente de que tipo de vento sopre, se a favor ou contra, nós devemos nos manter no correto caminho. Às vezes, quando acontece algo bom, muitas pessoas tendem a ser influenciadas e passam a não se dedicar à prática do Budismo como faziam antes, esquecendo-se do nobre espírito de gratidão. Quando sopra o vento contra, tendem a abandonar a prática por acharem que suas orações não foram respondidas. Ou ainda, só praticam quando têm problemas ou estão passando por dificuldades.

Shirayama: É importante não ser derrotado mesmo que tudo esteja caminhando na direção oposta. Nessas circunstâncias, temos a oportunidade de manifestar uma condição sublime de coragem e sabedoria. O presidente Ikeda ressalta: “Nós da SGI estamos atuando por meio de pensamentos, palavras e ações, estamos nos empenhando para realizar o Kossen-rufu. Que não fiquem cegos pela preocupação com fama e riqueza nem dominados por qualquer dos oito ventos, vamos continuar praticando com o espírito e a consciência de que ‘o budismo é vitória ou derrota’. Quando assim fizermos, o mundo do estado de Buda surgirá em nossa vida”.2

Ikeda: O benefício da recitação do Daimoku é ultrapassar a escuridão fundamental inata na vida. É comum encontrarmos pessoas mergulhadas em problemas, alegando que eles são a razão de não haver progresso. No entanto, se pararmos para pensar, não é exagero dizer que, pelo simples fato de nos basearmos numa visão míope dos problemas, não haverá solução clara. É como se diséssemos: “Estou cansado. Portanto, não posso andar”, impondo um limite a nós mesmos. Saber atuar mesmo em meio às dificuldades é, na prática, o motor que impulsiona o desenvolvimento. Na realidade, a história da humanidade nos revela que aqueles que assim agiram foram pessoas que entraram para a história como as precursoras de um novo mundo.

Renata: Neste escrito, Daishonin também nos incentiva a estabelecer um senso de felicidade absoluta que não pode ser influenciado pelos ventos das circunstâncias. Isso é possível tendo como base a fé na Lei Mística. Quando manifestamos o estado de Buda, estamos em sintonia com o Universo e assim criamos a condição de ter proteção, boa sorte e benefícios em nossa vida. Se manifestarmos estados inferiores de vida, não ativaremos nem boa sorte, nem proteção ou benefício, apenas nos arrastaremos pelos sofrimentos ou alegrias momentâneas.

Shirayama: Por mais intensas que sejam as orações, se tiver um coração corroído por qualquer sentimentalismo, não terá o efeito desejado. A base para a vitória da vida está diretamente ligada à dedicação que realizamos em prol do Kossen-rufu e a prática da fé.

Ikeda: Para seguirmos qualquer caminho, não precisamos de um mestre. Porém, para seguirmos a estrada correta, o caminho do bem, há necessidade de seguirmos um mestre. O mestre é aquele que nos orienta a trilhar pela estrada certa para ativarmos a grandiosa ferramenta da prática budista. Ainda que pratiquemos corretamente, se nos esquecermos de pôr em prática a profunda relação de mestre e discípulo, estaremos fadados ao fracasso.

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