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Especial
há 14 anos

A luta dos três mestres na prisão - parte 1

20/07/2012

A luta dos três mestres na prisão - parte 1

A inabalável convicção de Makiguti

Vários acontecimentos no Japão fizeram o governo avançar rumo ao extremo militarismo na Segunda Guerra Mundial. Em 1940, passou a vigorar a “Lei dos Grupos Religiosos”. No ano seguinte, houve a revisão da “Lei de Manutenção da Ordem Pública”, que visava a opressão sobre o pensamento e a religião. Ser contra o talismã xintoísta tornou-se motivo para a prisão.

Em meio ao perigo que se aproximava, o presidente da Soka Gakkai, Tsunessaburo Makiguti, bradava com coragem e determinação. Na 4a Convenção da Soka Kyoiku Gakkai, em maio de 1942, ele afirmou: “Devemos conduzir o Estado ao grande bem. É como aterrissar em campo inimigo”. O xintoísmo havia se tornado a base espiritual do Japão militarista e corrigir esse erro representava aterrissar diante do inimigo.

Em agosto do mesmo ano, Makiguti criticou o discurso de “unificação da cooperação” do primeiro-ministro japonês, Hideki Hojo. O primeiro-ministro dizia: “Coisas como religião é melhor ter do que não ter. Tendo, pode ser qualquer uma”. O presidente Makiguti criticou esse pensamento considerando-o ridículo e ultrajante.

Sob vigilância da polícia especial

Os detetives da polícia especial começaram a vigiar a Soka Gakkai em 1942. No ano seguinte, praticamente todas as reuniões estavam sob os olhares atentos dessa polícia. Apesar disso, o presidente Makiguti participou em cerca de 240 reuniões de palestra de maio de 1941 a junho de 1943 e realizou mais de quinhentos Chakubuku.

Com tamanha vigilância, os membros ficavam apreensivos. Mas, o presidente Makiguti conduzia a atividade criando um ambiente agradável para todos. Uma integrante da DF conta que o líder chegava até mesmo a dar boas-vindas aos policiais e os convidava a participar da reunião.

Essa atitude demonstra o nobre estado de vida do presidente Makiguti que avançou contra o autoritarismo, sem se abalar com o desejo do clero de concordar com o governo.

Em maio de 1943, um membro da Soka Gakkai desrespeitou o talismã xintoísta e, por isso, o presidente Makiguti foi detido por uma semana na delegacia de Nakano. Nessa época, o líder dizia às pessoas ao seu redor: “Começou a opressão. Mas não há erro no que estou fazendo. As perseguições, independentemente de serem gigantescas, são como pequenas pedras carregadas num grande barco. Fiquem tranquilos”.

Como parte dessa opressão, o periódico da Soka Gakkai, Kachi Sozo [Criação de Valor], foi extinto em maio de 1942. O responsável pela publicação foi ao Ministério de Assuntos Internos, onde lhe disseram: “É imperdoável o desrespeito ao talismã xintoísta”.

O juramento do discípulo

Qual foi o motivo da prisão do presidente Makiguti, do diretor-geral Jossei Toda e dos demais líderes da Soka Gakkai? Não foi apenas a opressão do autoritarismo militar. Por trás dessas prisões estava a manipulação do clero da Nitiren Shoshu.

Em torno dos militares e da seita Minobu, foi criado um grupo para a unificação de todos os grupos religiosos. Quem auxiliou esse plano foi o reverendo Jimon Ogasawara, superintendente de propagação da Nitiren Shoshu.

Em junho de 1943, o clero aceitou completamente o talismã xintoísta. No mesmo mês, Makiguti e Toda foram ao Templo Principal, sendo orientados a seguir as ordens do governo. Por um segundo, Makiguti pensou em como seriam incertos seu futuro e o dos três mil membros da organização, caso recusasse o direcionamento do Templo. Em seguida, lembrou-se das palavras de Nikko Shonin, discípulo direto do Buda Nitiren Daishonin: “Não se deve aceitar interpretações dogmáticas, mesmo de um superior, se contrariarem o Budismo Nitiren”.

O presidente Makiguti ergueu a cabeça e disse: “Nunca nos inclinaremos ante a Deusa do Sol”. Com essas palavras, ele e Toda saíram do Templo. No caminho de volta, Makiguti estava indignado com o comportamento do clero e falou: “Não temo a queda de uma religião tanto quanto temo a destruição de toda a nação. Temo a tristeza que isso causaria a Nitiren Daishonin. Não está na hora de admoestar o governo? Do que o clero tem medo? O que acha disso?”

Toda ficou em silêncio. Não sabia o que responder. Um pouco mais calmo, seu mestre perguntou novamente: “O que acha disso?” Com a voz baixa, mas forte, Toda fez seu juramento ao mestre: “Enquanto eu viver, seguirei o senhor fielmente. Estou pronto para morrer por nossa fé”.

No dia seguinte, o presidente Makiguti voltou ao Templo Principal e apelou ao sumo prelado, Nikkyo, para se levantar e advertir o governo. Novamente, o clero fugiu.

Dois anos depois, em 17 de julho de 1945, Nikkyo morreu carbonizado no grande incêndio no Templo Principal. Ele foi encontrado entalado num fogão à lenha. A parte superior do seu corpo estava carbonizada e a parte inferior, não. Provavelmente, o piso do primeiro andar do templo desabou e ele caiu em cima deste fogão, sendo queimado ainda consciente.

Recomendações ao Sr. Toda

Manhã do dia 6 de julho de 1943. O presidente Makiguti foi detido em Shizuoka, onde realizava o Chakubuku. Ao despedir-se da senhora que o acompanhava, confiou-lhe uma mensagem: “Transmita minhas recomendações ao Sr. Toda”. Porém, Jossei Toda também havia sido preso no mesmo dia, em Tóquio.

As acusações que caíram sobre eles foram: violação da lei da manutenção da ordem pública e suspeita de desrespeito ao santuário xintoísta.

Após as prisões, o clero tomou medidas de extrema covardia, visando apenas a autopreservação: proibiu os membros da Soka Gakkai de visitarem os templos Principal e locais.

Mais tarde, o presidente Toda registrou: “O espanto, o pânico e a confusão de todo o clero eram engraçados de se ouvir e vergonhosos de se presenciar. Apesar de ter sido uma época assim, são coisas cômicas e ridículas”.

“Não se preocupe com nada”

Quando o presidente Makiguti foi preso, sua família foi informada e recebeu instruções para comparecer no Departamento de Polícia Metropolitana.

A Sra. Sadako Kaneko, nora de Makiguti, atendeu ao chamado no dia 7. Ela chegou no Departamento de Polícia e ficou aguardando num saguão. E conta como foi esse encontro: “Ainda me lembro... Makiguti Sensei subiu a escada com passos firmes e bem-arrumado. Ao encontrar-me no saguão, falou: ‘Não há com o que se preocupar’. E disse reforçando: ‘Jamais descuide da prática da fé’”.

Após as prisões, os investigadores revistaram a residência do presidente Makiguti, a sede da Soka Gakkai e a Jishu Gakkan [escola particular de Jossei Toda]. Nesses locais, foram apreendidos livros dos escritos de Daishonin e documentos preciosos.

Na casa do presidente Makiguti, cinco investigadores levaram muitos de seus pertences, incluindo seus manuscritos. A Sra. Sadako relembra esse momento: “Quando um dos policiais ficou perto do oratório, levantei-me para proteger o Gohonzon. O investigador me disse: ‘Como nora, deve ser muito difícil servir uma pessoa assim tão rigorosa’. Respondi-lhe: ‘Não é nada disso. Ele é como um pai, gentil e benevolente. Para mim, é mais que meu próprio pai’”. Com isso, o policial não levou o Gohonzon da família Makiguti. “Foi algo místico”, disse ela.

Os dirigentes da Soka Gakkai foram presos, um após o outro, totalizando 21 líderes detidos. Mesmo depois disso, a polícia superior especial se mantinha atenta, verificando todas as pessoas que iam à casa do presidente Makiguti. Quem era detido era considerado inimigo da pátria. Por essa razão, a Sra. Kuma, esposa do presidente Makiguti, dizia a todos que a visitavam: “Por favor, não venha mais me visitar, isso lhe causará problemas. Sei dos seus sinceros sentimentos”.

Coragem no interrogatório

Durante dois meses e meio, o presidente Makiguti foi interrogado pela polícia. Em agosto de 1943, o Informativo Mensal da Polícia Superior publicou registros desse interrogatório. Nele, o presidente Makiguti refuta o pensamento de “guerra santa” vigente na época: “Consta na ‘Tese sobre o Estabelecimento do Ensino Correto para a Paz da Nação’ que, se vemos a extinção dessa Lei e não fazemos nada, ocorrerão conflitos internos, revolução, fome, epidemias e outras catástrofes, e este país chegará à destruição. (...) Os atuais conflitos do mundo se originam por sermos um país herético”.

O presidente Makiguti entendeu que a ideologia errônea dos líderes da nação é a causa que leva um país à extinção. E refutou a divinização do imperador, afirmando ser ele uma pessoa comum e igual aos outros, o que não agradou as autoridades daquele período. Isso demonstra quanto o presidente Makiguti bradou pela justiça à custa da própria vida.

“Sensei, por favor, cuide da saúde!”

Em 25 de setembro de 1943, o presidente Makiguti foi transferido para o Centro de Detenção de Tóquio. Lá, ficou numa cela de aproximadamente 5 metros quadrados, com mesa, cadeira, um tatame duro sobre o chão e um vaso sanitário.

Essa transferência foi o momento da despedida entre mestre e discípulo. O presidente Toda relembra: “Recordo-me da nossa despedida. ‘Sensei, por favor, cuide da saúde!’, foi o máximo que eu disse. Sem responder, ele apenas assentiu com a cabeça. Senti no seu aspecto, no seu olhar infinitos amor, benevolência e coragem”. Quando ia entrar no carro, o presidente Makiguti parecia procurar o discípulo, dizendo: “O Sr. Toda, o Sr. Toda...”

As 31 cartas

Enquanto esteve detido, o presidente Makiguti enviou 31 cartas à sua família. Numa delas ele escreveu: “Como indivíduo, é um infortúnio, mas pela perspectiva do estado de Buda, sem falta acontecerá a ‘transformação do veneno em remédio’. Acreditando nessa passagem do Sutra, encontro-me concentrado unicamente na prática da fé”. Em outra carta consta: “Dependendo do coração, há alegria até mesmo no inferno”. Esse trecho foi censurado na prisão e riscado com tinta preta.

A Sra. Sadako guardou todas essas cartas e afirma que, por suas palavras, sabia que o presidente Makiguti persistia na prática da fé sem mudar a determinação. “Não havia uma única frase em que dissesse estar sofrendo”, declara ela.

A morte do filho na Segunda Guerra Mundial

Yozo, terceiro filho do presidente Makiguti, foi convocado para a guerra pela segunda vez aos 37 anos. Ele sofria de pleurisia, uma doença respiratória, e morreu em 31 de agosto de 1944 na China. Ao saber desse fato, o presidente Makiguti enviou uma carta à sua família: “Fiquei chocado. E também fiquei profundamente triste”.

Ele ainda afirma: “Porém, mais importante que ficar triste, fiquei preocupado pelo quão triste isso deve ser para vocês duas [Sadako e Kuma]. Mas fiquei aliviado por sua esplêndida resolução”.

Sobre esse fato, o presidente Ikeda comenta: “Provavelmente, o presidente Makiguti percebeu que se persistisse em sua fé no Budismo Nitiren e recusasse a aceitar o talismã xintoísta, isso acarretaria problemas para seu filho na distante frente de combate. Mesmo assim, ele ainda ousava declarar corajosamente: ‘Não é precisamente esta a época para advertir a nação? Não sei o que o clero teme’.

“Não se sabe se a prisão do Sr. Makiguti influenciou de alguma forma o fato de Yozo ser mandado para a guerra, onde veio a falecer. O que temos certeza, entretanto, é da grandiosidade do presidente Makiguti por lutar destemidamente contra as forças autoritárias do Estado até o fim”.

A carta do dia 13 de outubro de 1944 foi a última. Na parte final, o presidente Makiguti escreveu: “Estou lendo atentamente a filosofia de Kant. É natural que os Três Obstáculos e as Quatro Maldades se levantem competindo entre si. Isso está de acordo com os sutras”.

Com as próprias forças até o fim

A guerra avançava e com ela a escassez de alimentos do povo japonês. Para quem estava na prisão, a situação era pior. Por isso, o presidente Makiguti ficava cada vez mais desnutrido.

No dia 17 de novembro, ele trocou de roupa, cortou o cabelo e foi para a enfermaria. Já estava sem forças até para andar, mas não aceitou ajuda de ninguém. Com as próprias pernas, dirigiu-se à enfermaria, mesmo cambaleando. Diante dessa situação, a família de Makiguti foi avisada. A Sra. Sadako Kaneko foi ao encontro do seu querido sogro.

Ela chegou às pressas no centro de detenção e foi recebida por um atencioso funcionário. Ele contou que o presidente Makiguti chegou à enfermaria, deitou-se e dormiu. O funcionário tentou arrumar um carro para levar o líder da Soka Gakkai à sua casa. Mas nenhum carro, nem mesmo de aluguel, foi encontrado.

A Sra. Sadako ficou com ele quanto pôde. Observou seus trajes e encontrou várias cartas debaixo do travesseiro. Mesmo ciente da morte, ele teve essa calorosa preocupação com sua família.

No dia seguinte, próximo das 6 horas da manhã do dia 18, o presidente Makiguti faleceu serenamente. Na magnânima luta na prisão, uma existência grandiosa encerrava-se. Tsunessaburo Makiguti foi um guerreiro da paz que persistiu na luta em prol dos direitos humanos.

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