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há 2 anos

(parte final) O drama de um jovem que vive de acordo com sua convicção: O Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas

Os livros da minha juventude

Tradução dos extratos do livro The Books of My Youth [Os Livros da Minha Juventude]

01/04/2025

(parte final) O drama de um jovem que vive de acordo com sua convicção:  O Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas

Daisaku Ikeda participa de um dos cursos de aprimoramento do Suikokai logo após assumir a terceira presidência da Soka Gakkai (Tyoshi, jul. 1960) Foto: Seikyo Press

Na primeira parte das reflexões sobre a obra O Conde de Monte Cristo, Daisaku Ikeda conta sobre a escolha desse clássico para o estudo do grupo de jovens treinados por Josei Toda. Narra ainda como Edmond Dantès foi preso, os catorze anos que passou no cárcere e o encontro com seu mestre, o abade Faria.

O nascimento do conde de Monte Cristo

Depois de encontrar os vastos tesouros escondidos em Monte Cristo, Dantès inicia sua jornada de vingança. À medida que prossegue, ele assume várias personas, como Simbad, o marujo, abade Busoni ou Lorde Wilmore, aparecendo e desaparecendo misteriosamente.

Dantès emerge então como um galante aristocrata chamado conde de Monte Cristo. Com sua enorme riqueza, boa aparência e modos inteligentes, virou sensação em Roma e conseguiu encantar a alta sociedade parisiense.

Ao longo dos catorze anos que Dantès esteve preso, muita coisa mudou na vida de sua ex-noiva, Mercedes, e dos três principais culpados por sua prisão: Danglars, ex-comissário de navio, tornou-se um rico banqueiro e barão após ter especulado com ações durante a Guerra Civil Espanhola. Fernand, ciumento rival amoroso de Dantès, é agora conhecido como o conde de Morcerf. Ele é um nobre na França e está casado com Mercedes, por quem tanto ansiava. O casal tem um filho chamado Albert. E Villefort, que foi procurador-adjunto em Marselha, atua agora como procurador do rei e goza de poder e prestígio.

Os inimigos de Dantès são membros proeminentes e bem estabelecidos da sociedade francesa. Por mais intensa que fosse a paixão de Dantès pela vingança, eles não seriam facilmente derrubados de suas posições de status e popularidade. No entanto, com uma tenacidade surpreendente e uma determinação inflexível, Dantès atingiu os objetivos, um por um.

A emocionante segunda metade do romance se concentra em como Dantès conseguiu sua vingança. Mas penso que devemos ir além das atitudes tomadas por ele.

Confiança é o tesouro da juventude

Vamos novamente analisar a abordagem do presidente Josei Toda. Era 1954 e o Suikokai discutia O Conde de Monte Cristo. Em 9 de março daquele ano, escrevi em meu diário:

Às 18 horas, tivemos uma reunião do grupo Suiko [Suikokai] na sede central. Estudamos O Conde de Monte Cristo. Em cada grupo, observa-se o surgimento de membros com dois e três anos de prática que estão se destacando como jovens de valor. Tenho grandes expectativas com relação a eles. Fico realmente admirado com o discernimento, a sabedoria e a compreensão do Sr. Toda.1

Nas discussões em grupo, Toda sensei ouvia atentamente as opiniões. Quando ele sentia que haviam expressado plenamente seus pensamentos, compartilhava comentários breves, porém, impactantes a partir de sua perspectiva única.

Sobre o porquê Dantès havia alcançado tanto sucesso na alta sociedade, alguns disseram que era devido à riqueza abundante, enquanto outros atribuíam ao intelecto e à eloquência. Além da prudência e da boa aparência, afirmaram que Dantès conseguia compreender o sentimento das pessoas. Outros ainda acreditavam que a razão fundamental era sua profunda determinação em se vingar. Ele pensava na melhor forma de alcançar seu objetivo, observando os inimigos e estudando a natureza da alta sociedade.

Toda sensei foi um tanto crítico em relação às opiniões e explicou como os jovens deveriam cultivar as relações sociais:

Como todos vocês são jovens, não precisam abordar os relacionamentos da mesma forma que Dantès. Não gosto de ver jovens na casa dos 20 anos desconfiando constantemente dos outros, questionando se são amigos ou inimigos. Não gosto de ver jovens sem pureza no coração.

Ele complementou:

A confiança é o tesouro da juventude. A condição mais fundamental para ganhar confiança é cumprir promessas. Você não deve fazer promessas que não possa cumprir. Mas uma vez que diz que fará algo, deve absolutamente cumpri-lo, não importa o custo. Essa é uma habilidade social adequada aos jovens. E não custa dinheiro para adquiri-la.

Se lermos apenas para apreciar a história de um romance, não aprenderemos a desenvolver perspectivas tão únicas. Quando ouvi o presidente Josei Toda fazer esses comentários, enfim, entendi seu aviso: “Não deixe o livro ler você!”.

Toda sensei não era a favor da maneira como Dantès executou sua vingança. Lembro-me de ele falar: “Não gosto de sua astúcia e obsessão”.

Ele continuou:

Se questionarmos por que Dantès realiza a vingança da maneira como o faz, vemos permear na obra a ideia de que os seres humanos devem fazer justiça em nome de Deus, pois Deus não tem a capacidade de fazê-lo.

Eu me oponho a essa ideia. É errado os seres humanos punirem outros seres humanos em nome de Deus. A Lei universal traz punição para atos malignos. Com o poder dessa Lei, não há necessidade de os seres humanos punirem uns aos outros.

Alexandre Dumas deve ter tido a sensação de que não poderia concluir a história como um conto de vingança, somente com a punição aos maldosos. No fim, Fernand comete suicídio, Villefort enlouquece e Danglars entra em falência. Mas Dantès não se sente satisfeito. Em vez disso, atormentado pela culpa, ele confessa seu vazio interior: “Deus, que me instigou contra os meus inimigos e me tornou vingador. Deus, bem o vejo, não quer que haja arrependimento no fim da minha vitória. Queria castigar-me. Deus quer perdoar-me”.2

Dumas, ao que parece, não seria capaz de terminar a história sem Dantès murmurar essas dolorosas palavras. Aqui, percebo a intenção real do autor.

As valiosas lições do meu mestre

Meu mestre ensinou a nós, jovens, que, ao lermos um romance, devemos nos esforçar para compreender profundamente as ideias subjacentes ao livro e a intenção do autor. Além disso, ao lermos uma obra da literatura mundial, ele nos encorajou a investigar antecipadamente o cenário social e histórico.

Quando discutimos O Conde de Monte Cristo, prestamos muita atenção em Napoleão Bonaparte, presença constante no livro. Enquanto líamos, nós nos conscientizávamos de que o início do século 19 foi um período de turbulência sem precedentes na história francesa. Também refletimos profundamente sobre o cenário social no qual o livro foi recebido com entusiasmo por um público francês perturbado pela queda dos poderes estabelecidos e pela diminuição da influência do cristianismo.

Não posso me esquecer de como meu mestre ouviu nossas discussões acaloradas sobre esses tópicos e, embora às vezes com expressão severa, pareceu muito feliz em conversar conosco. Pensando bem agora, vejo Toda sensei tentando com todas as suas forças deixar suas lições inestimáveis para nós.


castelo

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Notas:

1. IKEDA, Daisaku. Diário da Juventude: A Jornada de um Homem Dedicado a um Nobre Ideal. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, 2019, p. 193.

2. DUMAS, Alexandre. O Conde de Monte Cristo. [S.L.]: LeBooks, [s.d], cap. CXVII.

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