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há 13 dias

Cada vida é um tesouro insubstituível

Redação

01/09/2026

Cada vida é um tesouro insubstituível

Cada vida é um tesouro insubstituível

As raízes da ideia de “dignidade” remontam à Antiguidade.1O próprio termo tem origem no latim dignitas, palavra relacionada às noções de honra e respeito. Porém, diferentes sociedades e épocas conferiam significado e abrangência distintos a essa qualidade. Na Roma antiga, por exemplo, dignitas estava vinculada, sobretudo, ao prestígio e à posição ocupada na estrutura social e política, sendo atribuída àqueles que desfrutavam maior status — condição reservada aos homens romanos, não reconhecida nas mulheres nem nos estrangeiros. 

Todavia, Marco Túlio Cícero, filósofo da Roma antiga, propôs uma visão distinta dessa concepção predominante. Para ele, dignitas não deveria decorrer apenas do status social, pois todos os seres humanos compartilhavam uma característica fundamental: a capacidade de raciocinar. A racionalidade seria, portanto, um atributo comum capaz de fundamentar o reconhecimento de igual respeito a todas as pessoas, uma vez que possibilita ao ser humano refletir e atuar sobre a realidade que o cerca.

Séculos mais tarde, a racionalidade também ocupou um lugar importante na concepção desenvolvida por Immanuel Kant — filósofo nascido no Reino da Prússia, no século 18. Porém, em sua abordagem, a razão aparece estreitamente relacionada à moral: Kant afirma que “A humanidade, na medida em que é capaz de moralidade, é a única coisa que possui dignidade”. Assim, a capacidade moral do ser humano seria o fator determinante para cada pessoa ser considerada um fim em si mesma, e não simplesmente um meio para alcançar determinado objetivo.

Ainda hoje, apesar da ampla concordância de que a dignidade humana possui caráter universal e exige o respeito a todas as pessoas, não existe consenso sobre qual característica fundamentaria esse valor. Entre as possibilidades discutidas estão a capacidade de raciocinar, de experimentar dor ou de elaborar projetos de vida a partir de escolhas conscientes e racionais. Entretanto, vincular essa qualidade inerente exclusivamente a uma dessas capacidades poderia excluir aqueles que não conseguem exercê-las plenamente. Se a realização de escolhas racionais, por exemplo, fosse considerada condição indispensável para possuir dignidade, muitas pessoas — bebês, adultos em coma ou que sofram de alguma doença que afete a racionalidade — e outros seres poderiam ter sua valia questionada. 

Então, que tipo de condição garante dignidade? É uma qualidade exclusiva dos seres humanos? Nesta matéria, examinaremos as respostas para essas questões da perspectiva do Budismo de Nichiren Daishonin.

1. Cf. STAFFEN, Marcio Ricardo; ARSHAKYAN, Mher. Sobre o Princípio da Dignidade: Fundamentos Filosóficos e Aspectos Jurídicos. Sequência Estudos Jurídicos e Políticos. Florianópolis, v. 38, n. 75, p. 43-62, 2017. Disponível em: https://periodicos.ufsc.br/index.php/sequencia/article/view/2177-7055.2017v38n75p43. Acesso em: 10 ago. 2026.

Cada vida é um tesouro insubstituível

Existência que resplandece

De acordo com os ensinamentos do budismo, as pessoas, a natureza, na verdade, o cosmos são manifestações de uma sublime energia vital, a Lei Mística.2 Por esse motivo, todo indivíduo possui valor insubstituível simplesmente por existir.

Em uma carta que Nichiren Daishonin escreveu a seu discípulo Abutsu-bo consta:

Neste momento, o corpo do honorável Abutsu é composto dos cinco elementos: terra, água, fogo, ar e espaço. Estes cinco elementos são, por sua vez, os cinco ideogramas do daimoku [Myoho-renge-kyo]. Por isso, Abutsu-bo é a Torre de Tesouro, e a Torre de Tesouro é Abutsu-bo.3

O aparecimento da Torre de Tesouro4 em questão acontece no capítulo 11, “Surgimento da Torre de Tesouro”, do Sutra do Lótus, após Shakyamuni pregar o Sutra do Lótus para a imensa multidão de discípulos e momentos antes do início da Cerimônia no Ar. 

Essa torre é apresentada como uma construção colossal, com 500 yojana5 de altura e 250 yojana de largura e profundidade — dimensões que corresponderiam aproximadamente a algo entre um terço e metade do diâmetro da Terra.

Depois de emergir da terra, ela permanece suspensa no ar. A grandiosidade dela é realçada pelos sete tipos de tesouros que a adornam — ouro, prata, lápis-lazúli, ágata, madrepérola, cornalina e pérola —, além de diversas bandeiras e outros ornamentos, características que dão origem ao seu nome. A torre ainda exala uma maravilhosa fragrância, reforçando a imponência e a preciosidade de sua manifestação.6

“Daishonin explica que, com o surgimento da gigantesca Torre de Tesouro, os discípulos de Shakyamuni ‘perceberam (…) a Torre de Tesouro na própria vida’”.7Em uma perspectiva contemporânea, essa torre representa a natureza de buda e a dignidade da vida, isto é, seu valor absoluto, único e insubstituível. 

O grande mestre Tiantai explica que as proporções extraordinárias da torre simbolizam a presença de todas as práticas realizadas pelo Buda, como causas, e de todas as virtudes por ele alcançadas, como efeitos. Da mesma forma, os inúmeros tesouros que compõem e ornamentam essa construção expressam a magnificência, a nobreza e o esplendor da condição de vida do estado de buda presente em cada um de nós.

2. Cf. TOYNBEE, Arnold J.; IKEDA, Daisaku. Escolha a Vida. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, 2024. p. 467.

3. Coletânea dos Escritos de Nichiren Daishonin. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, v. I, p. 314, 2020.

4. Cf. IKEDA, Daisaku. Sabedoria para Criar a Felicidade e a Paz — Parte 3: Kosen-rufu e a Paz Mundial. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, 2024. p. 95.

5. Yojana: Unidade de medida usada na Índia antiga, equivalente à distância que o exército militar real conseguia marchar em um dia. Segundo uma interpretação, corresponde a cerca de 10 quilômetros.

6. Cf. IKEDA, Daisaku. Sabedoria para Criar a Felicidade e a Paz — Parte 3: Kosen-rufu e a Paz Mundial. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, 2024. p. 95-96.

7. Ibidem

Cada vida é um tesouro insubstituível

Reconhecer a própria nobreza

Como podemos então fazer jus a esse extraordinário e profundo valor que temos? 

Ikeda sensei nos ensina: “Nossa vida, tanto o corpo como o espírito, é uma entidade do Nam-myoho-renge-kyo, e a revolução humana é o processo de manifestar em nossa vida o Nam-myoho-renge-kyo, a condição de vida do estado de buda”.8

Por essa ótica, dignificar a própria existência significa acreditar e fazer emergir o máximo potencial que possuímos e expressá-lo em nossa maneira de viver. O presidente Ikeda nos orienta: 

Tornar essa vida digna no sentido mais verdadeiro e real requer um esforço incessante. Cada ser humano deve assumir a responsabilidade pela própria dignidade. A dignidade da vida humana existe desde que as pessoas se capacitaram com uma consciência elevada, mas o homem trilhou um caminho histórico cheio de dissensão, ódio e injúrias. A única maneira de os seres humanos dignificarem todos os aspectos de sua vida no plano prático é abandonar o ódio e a injúria e se esforçar para agir com beleza e amor.9
Agir dessa maneira não exige que sejamos perfeitos. Todos, sem exceção, possuem aspectos da personalidade que gostariam de mudar e circunstâncias decorrentes do próprio carma que precisam enfrentar.10 No entanto, concentrar-se excessivamente nesses aspectos, a ponto de se desvalorizar, significa deixar de reconhecer a própria dignidade. Em vez disso, é essencial reconhecer quem somos e trabalhar continuamente para nos aprimorar e desenvolver um coração repleto de amor compassivo.
No Budismo Nichiren, esse processo de transformação tem como base a recitação do Nam-myoho-renge-kyo. Por meio do daimoku, podemos combater o negativismo, purificar nossa mente e fortalecer a energia vital necessária para conduzir nossas circunstâncias alicerçados em nossa natureza de buda. O Mestre afirma: “A vida é uma constante luta consigo próprio; é uma batalha decisiva entre o avanço e o retrocesso, entre a felicidade e a infelicidade”.11
Quanto mais lutamos pelo nosso desenvolvimento, mais nossas limitações deixam de determinar a maneira como vivemos.12 Assim, dignificar a si mesmo é acreditar na preciosidade da própria existência e empenhar-se para cuidar e fazê-la florescer em todos os aspectos.

8. IKEDA, Daisaku. Nova Revolução Humana. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, v. 19, p. 173, 2019.

9. TOYNBEE, Arnold J.; IKEDA, Daisaku. Escolha a Vida. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, 2024. p. 469.

10. IKEDA, Daisaku. Juventude: Sonhos e Esperanças. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, v. 1, p. 132, 2020.

11. Ibidem, p. 133.

12. Ibidem, p. 136

O brilho está em todo o universo

A percepção que temos de nós mesmos orienta também a maneira como enxergamos os outros. Quando temos noção da nossa própria dignidade, reconhecemos a dignidade das outras pessoas e também a valorizamos.13

Respeitar e prezar cada indivíduo como ele é, independentemente de qualquer tipo de parâmetro, constitui nossa missão fundamental. Ikeda sensei ressalta:

Isso se harmoniza profundamente com o propósito da Soka Gakkai de fazer a dignidade de todo ser humano, sem exceção, brilhar à plenitude máxima e evidenciar a torre de tesouro na nossa vida e na vida dos outros. Não seria exagero dizer que o mundo hoje busca avidamente por um movimento como o nosso, alicerçado na prática altruística de bodisatva, na qual indivíduos que despertaram para a própria dignidade se empenham para ajudar outros a revelar a torre de tesouro nas profundezas de sua vida.14

Esse respeito e apreço também devem se expandir além da humanidade. Em seu diálogo com Ikeda sensei, o proeminente historiador britânico Dr. Arnold J. Toynbee apresenta uma reflexão que vai ao encontro dos ensinamentos do budismo:

Não devemos limitar o termo “vida” à existência individualizada e separada dos seres vivos entre os quais nós mesmos nos encontramos. Todo o Universo, e tudo nele, está vivo no sentido de ter dignidade. As chamadas partes inanimadas e inorgânicas da natureza têm dignidade; por exemplo; na terra, no ar, na água, nas rochas, nas nascentes, nos rios, nos mares; se nós, seres humanos, violamos sua dignidade, estamos ferindo nossa própria dignidade.15

Nesse sentido, reconhecer e respeitar integralmente os seres vivos e o ambiente é fundamental. E tão importante quanto adquirir essa consciência é difundi-la. 

É justamente esse ponto que podemos aprender com Tsunesaburo Makiguchi, primeiro presidente da Soka Gakkai.16 Em sua obra, Soka Kyoikugaku Taikei [Sistema Pedagógico de Criação de Valor], publicado em 1930, ele apresenta três modos de viver: dependente, independente e contribuidor. 

No primeiro exemplo, a pessoa não reconhece plenamente o próprio potencial e tende a deixar que as circunstâncias ou outras pessoas determinem o rumo de sua existência. No segundo, assume a responsabilidade pela própria vida e procura solucionar seus problemas por meio dos próprios esforços, mas sua preocupação permanece concentrada principalmente em si mesma.

O modo de vida contribuidor amplia essa perspectiva. Ao desenvolver a própria capacidade e enfrentar seus desafios, a pessoa passa também a utilizar sua força, sabedoria e experiência para gerar valor na vida dos outros e na sociedade. Sobre esse ponto, nosso mestre Daisaku Ikeda esclarece:

O budismo enxerga o mundo como uma teia de relações na qual nada está completamente dissociada das outras coisas. A cada momento, o mundo é formado e moldado por essa mútua relação. Quando entendemos e sentimos nas profundezas do ser o fato de que nossa existência depende dessa teia de relacionamentos, percebemos claramente que não há felicidade que seja só nossa, nem sofrimento que aflija apenas os outros.
Neste sentido, nós — agora e aqui — somos o estopim de uma reação em cadeia de transformação positiva. Capazes de resolver nossos desafios pessoais e de contribuir para que o nosso meio ambiente e a sociedade humana caminhem numa direção correta. Esta plena consciência de interdependência nos dá a forma, o modelo, para reconsiderar a relação entre o eu e o outro, entre nós mesmos e a sociedade como um todo. Esta é a perspectiva que o budismo nos pede.17

A partir disso, compreendemos que garantir o reconhecimento e a proteção da dignidade da vida é uma responsabilidade da qual o futuro da humanidade depende. Em termo práticos, isso significa estabelecer uma sociedade em que nenhum interesse político, econômico ou social esteja acima do valor da vida. O presidente Ikeda reforça:

Acredito que a era vindoura será a era do respeito à dignidade da vida, a era da vida. Venho salientando isso há muitos anos, reiterando que essa é a única esperança de sobrevivência para a humanidade. Está se tornando cada vez mais evidente para as mentes pensantes do mundo que não podemos respeitar a dignidade do ser humano sem respeitar a dignidade da própria vida. É visível que o antropocentrismo egoísta, a ganância desenfreada e a ideia de direito a regalias só podem levar a humanidade ao precipício. A dimensão universal da torre de tesouro do Sutra do Lótus nos ensina que o ser humano é mais importante que o Estado. Nosso movimento para promover a paz, a cultura e a educação com base no budismo, nosso movimento em prol do kosen-rufu, revela a nobreza do ser humano tanto no âmbito filosófico como em termos práticos e efetivos.18

Como vimos, o budismo nos ensina que todos os seres animados ou inanimados possuem valor intrínseco e inviolável. A imagem da Torre de Tesouro ilustra essa grandiosidade e valia de nossa existência. Esses extraordinários tesouros existem inerentemente a cada pessoa e podem ser revelados em meio à realidade que vivemos, com nossas características e circunstâncias. 

Além disso, quando reconhecemos a Torre de Tesouro em nós, devemos agir para que tudo à nossa volta, pessoas e ambiente, tenham sua dignidade reconhecida e respeitada. Esse modo de vida é exatamente o mesmo dos membros da Soka Gakkai que dedicam a vida ao kosen-rufu.

Agora, vamos juntos entrar em ação e fazer do respeito pela dignidade da vida o alicerce sobre o qual construiremos uma sociedade de paz!

13. Cf. Idem. Budismo de Harmonia e Esperança: Rumo à Era do Humanismo. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, 2024. p. 68.

14. Ibidem, p. 68-69.

15. TOYNBEE, Arnold J.; IKEDA, Daisaku. Escolha a Vida. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, 2024. p. 466.

16. Cf. IKEDA, Daisaku. Respeito Universal pela Dignidade Humana: O Grande Caminho da Paz. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, 2016, p. 15-16.

17. Ibidem, p. 17.

18. IKEDA, Daisaku. Sabedoria para Criar a Felicidade e a Paz — Parte 3: Kosen-rufu e a Paz Mundial. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, 2024. p. 403.

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