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Editorial
há 24 anos

Um bom budista cuida adequadamente de tudo

10/08/2002

Um bom budista cuida adequadamente de tudo
Há um ditado de origem budista que diz: “As funções do Universo (conhecidas também como ‘deuses budistas’) não protegem os descuidados.” Pode parecer contraditório, se analisado do ponto de vista cristão ocidental, em que se é orientado a pedir proteção. E ainda, de um outro ponto de vista, poderíamos pensar: “Se tomo cuidado, para quê preciso de proteção?”

Claro que, praticando ou não qualquer religião, estamos expostos a uma série de problemas dos quais não podemos fugir. A incompreensão dessa realidade leva muitas pessoas a perderem a fé, e não por acaso, um censo recente feito pelo IBGE tem constatado um aumento significativo de pessoas que se dizem sem crença.

Mas vale lembrar que somos budistas. E o nosso modo de pensar e agir não é e não deve ser o mesmo que o de praticantes de outras religiões. Então, nosso dia-a-dia deve estar permeado por ações embasadas nos princípios budistas.

Dentro desse raciocínio, a frase inicial toma uma outra dimensão: somos nós os únicos responsáveis pela nossa própria sorte. E avançando um pouco mais, podemos dizer que basta estar vivo para ficar doente, ou seja, entendendo que é intrínseca a possibilidade da doença, então, tomar cuidados com a saúde reveste-se de uma importância ímpar. Isso pode até ser óbvio, mas num universo de dez pessoas, por exemplo, há os que fumam, os que bebem, os que bebem e fumam, o boêmio que bebe e fuma, o hipocondríaco, aquele que se alimenta ou trabalha compulsivamente, e por aí vai... Ou seja, embora óbvio que sejamos potencialmente sujeitos a doenças, a vida cotidiana acaba por induzir as pessoas a conduzirem-se de forma cada vez mais inadequada, normalmente pautadas pela falta de sabedoria ou pela ausência ou incorreção do foco na condução de uma vida adequada.

Vamos a um exemplo prático: sabemos que uma pessoa obesa que não faz acompanhamento médico adequado e não reduz seu peso está fadado a uma série de doenças decorrentes dessa condição. Como conseqüência disso, hoje em dia há, por exemplo, empresas que se recusam a empregar pessoas obesas justamente por “ver” nelas uma certa incapacidade de lidar com sua própria condição. Ou ainda, se já empregada a pessoa passa a engordar além dos limites normais, ela é instruída a passar por uma reciclagem ou por tratamentos que modifiquem o quadro. Se constatada a negligência por parte dessa pessoa e a indisposição para a mudança, ela é “convidada” a sair da empresa.

Então, partindo de uma condição física inadequada, passamos à condição de desempregado, o que fatalmente vai diminuir nosso padrão de vida, que por conseqüência trará desarmonia ou desagregação familiar, e acabamos entrando num círculo vicioso de derrotas constantes. Os menos sábios diriam: “Não entendo por que as coisas estão dando tão erradas para mim.”

Na verdade, o que ocorre é que um defeito interior está impedindo que a pessoa atinja seu objetivo de vivência e convivência saudáveis. E a coisa mais difícil que existe é justamente reconhecer esse defeito e avançar sobre ele para extirpá-lo, o que enseja mudança de atitude, mudança de hábitos, de rotinas etc.

O presidente Ikeda orienta que “fé significa nós mesmos fazermos cem por cento de esforços — em nosso Daimoku e em nossas ações. Quando praticamos dessa forma, os protetores budistas emprestam-nos sua proteção”. (Brasil Seikyo, edição no 1.404, 1o de março de 1997, pág. 3.)

Isso significa que uma pessoa que se esforça constante e disciplinadamente no Daimoku e na ação diária, está mais habilitada a ter uma reação sempre adequada de seu meio ambiente do que aquela que conduz uma vida cotidiana com displicência. Essa “reação adequada do meio ambiente” é, na sua tradução, a proteção das funções contidas no Universo, prometidas pelo Budismo de Nitiren Daishonin — e talvez uma das grandes vitórias que podemos obter no cotidiano de nossas relações humanas e sociais. Afinal, quem não gostaria de estar trabalhando no ambiente adequado, dentro de normas racionais de interrelação e produção, obtendo avanços constantes?

Como a vida pode ser traduzida como um conjunto de causas e efeitos, nada mais lógico que pessoas disciplinadas na oração e ação receberam muito mais efeitos positivos do que aqueles que levam a vida displicentemente.

A recíproca da proteção (eu protejo então sou protegido) é uma verdade comprovada cotidianamente em nossa organização, já que somos a personificação da prática da lei de causa e efeito. Falando sobre isso, numa outra orientação o presidente Ikeda explica: “Se trabalharmos arduamente para protegermos e incentivarmos mil companheiros, mil protetores budistas irão nos proteger. Se protegermos dez mil companheiros, dez mil protetores budistas irão nos proteger. Se manipularmos nossos membros para nossos próprios objetivos egoístas, então os deuses budistas virarão as costas para nós existência após existência. Nós ‘exploramos’ os membros ou ‘servimos’ a eles? Tudo se resume a essa questão”. (Ibidem, edição no 1.449, 21 de fevereiro de 1998, pág.3.) Talvez seja essa a chave para elucidar por que algumas pessoas com muito tempo de prática, líderes em diversos campos de nossa organização, encontrem dificuldades em vencer no cotidiano e avançar como exemplos de praticantes da Lei Mística. Ao contrário de uma crítica, essa observação conduz a uma constante reflexão individual, pois o cotidiano às vezes mecanizado dos afazeres da organização também nos induz a erros que só a luta para manter uma sabedoria permanente pode impedir que eles se repitam.

De modo algum seria exagero afirmar que pessoas com o discernimento aqui apresentado tendem a ser pessoas cujo convívio se torna uma dádiva. Não são apenas agradáveis mas, sobretudo, pessoas que nos acercam de certezas e passos seguros na prática budista. São normalmente pessoas de coração belo e que ensejam respeito e admiração de todos. E podem perceber, elas são constantemente protegidas pelas funções do Universo, e denotam desenvolvimento, flexibilidade e sábia observação da realidade e da época.

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