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há 2 anos

Faça fluir a correnteza do kosen-rufu

A união de “diferentes em corpo, unos em mente” nos ensina a navegar

A união de “diferentes em corpo, unos em mente” nos ensina a navegar

Redação

07/03/2025

Faça fluir a correnteza do kosen-rufu

Foto: Getty Images

O presidente da Soka Gakkai Internacional, Dr. Daisaku Ikeda, afirmou: “A própria vida é o ponto mais fundamental que temos em comum. É o objetivo principal de iluminação do budismo”.1 O respeito pela dignidade e inviolabilidade da vida é premissa básica do Budismo de Nichiren Daishonin. Esse amplo ensinamento se traduz no conceito de “diferentes em corpo, unos em mente” que significa:

As pessoas aproveitarem ao máximo os melhores traços de sua personalidade e de suas qualidades peculiares, ao mesmo tempo que avançam unidas rumo ao nobre objetivo do kosen-rufu (...). Manter a união com o espírito de “diferentes em corpo, unos em mente” não consiste apenas em um meio para alcançarmos o nosso objetivo do kosen-rufu; é a própria materialização do ideal do kosen-rufu.2

Vamos discorrer sobre o princípio “diferentes em corpo, unos em mente” e analisar a aplicação desse conceito como pilar central da nossa prática budista e condição para cumprir nosso juramento.

O rafting e nossa vida

Você conhece o esporte aquático rafting?

O rafting é um esporte que usa um bote inflável para navegar em um rio ou em outro corpo d’água em movimento,3 utilizando remos para controle e navegação. O objetivo é superar os obstáculos naturais do percurso de forma coordenada e segura.

Nesse esporte praticado em grupo, temos o guia, que fica na parte traseira do bote; os remadores, os quais ficam sentados ao longo das bordas laterais; e os líderes de remada, que ocupam as duas posições dianteiras. Cada uma dessas posições tem uma função específica. O guia é alguém que possui vasta experiência em rios e fica na parte traseira para ter ampla visão do curso d’água e da equipe. Ele dá instruções para que todos possam remar em sincronia e funciona como um leme. Os líderes de remada interpretam as instruções do guia e conduzem o ritmo das remadas; como estão à frente, enfrentam os obstáculos primeiro e, ao mesmo tempo, motivam a equipe a
encarar o percurso. Já os remadores são a força propulsora do bote e responsáveis por distribuir o peso mantendo o equilíbrio no curso do rio. Também são caracterizados pela velocidade com que conseguem responder tanto ao guia quanto aos líderes de remada.

Podemos comparar a dinâmica do rafting com nossa vida como praticantes budistas e membros da SGI. O guia pode ser comparado à filosofia do Budismo Nichiren; os líderes de remada, aos Três Mestres; e os remadores laterais a nós, integrantes da SGI, a qual, por sua vez, pode ser comparada ao bote; e o rio compreende a trajetória e os obstáculos que enfrentamos na vida na jornada em prol do kosen-rufu.


Cada remador é único

Se observarmos as variações de personalidade combinadas com as variações genéticas, podemos concluir que não há um ser humano completamente idêntico ao outro.4 No rafting, embora estejam no mesmo bote e tenham o mesmo objetivo, é vital que cada remador desenvolva suas habilidades únicas de força, agilidade, observação, dentre outras. Somente dessa maneira poderão garantir o equilíbrio do bote. O mesmo pode ser dito sobre nós em nossa organização e sociedade. Com relação a esse ponto, Ikeda sensei afirma:

Nas organizações sociais, o indivíduo está sujeito a ser subsumido ao grupo. Entretanto, a Soka Gakkai é uma organização humanística baseada na unicidade e na diversidade, que se empenha para permitir que cada indivíduo perceba seu potencial pleno e personalidade. O propósito da organização é promover o kosen-rufu. Trata-se de um esforço nobre para estabelecer firmemente a filosofia da valorização da vida de cada pessoa, proteger a dignidade humana e permitir que a individualidade dela brilhe.5

De fato, todos nós possuímos pontos cujo aprimoramento favorecerá ainda mais nossa felicidade e a convivência harmoniosa com as outras pessoas. A luta pela própria revolução humana e o reconhecimento do potencial de buda existente em nós mesmos fazem parte do princípio “diferentes em corpo, unos em mente”.

Assim, da mesma maneira que cerejeira é cerejeira, ameixeira é ameixeira, pessegueiro é pessegueiro e damasqueiro é damasqueiro, podemos, por meio da prática da fé, manifestar o melhor das nossas melhores características e empregá-las com o melhor da nossa habilidade em nossa jornada pelo kosen-rufu. O ponto crucial é também manifestarmos essa mesma benevolência com aqueles que estão à nossa volta.

Remando com o mesmo objetivo

A teoria mais aceita pela comunidade científica em relação à origem do universo é a do Big Bang, que indica que o universo começou a partir de um único ponto: um aglomerado de partículas e de energia de inimaginável densidade. Em certo momento, esse ponto começou a expandir e essas partículas e energia passaram a se distanciar e a recombinar de formas diferentes dando origem às manifestações do universo que temos hoje.6 Isso reitera o ensinamento budista sobre a inter-relação entre tudo e todos.

Por mais diferentes que possamos ser, possuímos uma profunda relação com as outras pessoas e com o universo à nossa volta. No livro Escolha a Vida, o Dr. Arnold J. Toynbee explica:

A inseparabilidade de cada ser vivo com o Universo coexiste com uma separação entre o indivíduo e o mundo. Essa divisão pode provocar duas reações distintas e até antitéticas. Uma é o desejo que se origina no amor, o qual anseia se harmonizar com o cosmos; a outra é o desejo malévolo de subjugar e explorar o restante do Universo.7

No Gosho A Herança da Suprema Lei da Vida, Nichiren Daishonin usa a seguinte frase: “(...) transcendendo todas as diferenças que possa haver entre si, tornando-se inseparáveis como o peixe e a água”. Sobre ela, Ikeda sensei ressalta:

A palavra “diferenças” na frase “transcendendo todas as diferenças que possa haver entre si” indica a tendência de uma pessoa se considerar diferente e separada das demais, julgando que sua vida não tem nada a ver com a delas. Caracteriza-se, por exemplo, pela preocupação egoísta restrita aos interesses pessoais, pela pronunciada indiferença ou até mesmo hostilidade em relação aos outros, e por se deixar dominar pelas emoções. (...) A frase “inseparáveis como o peixe e a água” refere-se à profunda consciência dos fortes e indissolúveis laços que temos com nossos companheiros de prática. É uma metáfora -simbolizando aqueles que compartilham da missão do kosen-rufu apoiando-se e respeitando-se mutuamente como amigos preciosos e insubstituíveis.8

Em nosso rio da vida, não é coincidência possuirmos os companheiros de bote que temos. Ao percebermos que remar em sincronia em direção ao mesmo objetivo é mais importante que possuirmos o mesmo estilo de remada, poderemos enfrentar qualquer rio de forma efetiva e harmônica.

Dificuldades ao longo do rio

A expressão “unos em mente” vai além de realizarmos nossas atividades sem desavenças. Ikeda sensei destaca três pontos fundamentais sobre o significado dessa unidade:

Em primeiro lugar, “unos em mente” refere-se ao grande desejo ou juramento de concretizar o kosen-rufu. (...) Essa é a verdadeira essência da união de “diferentes em corpo, unos em mente”. O segundo ponto é que essa unidade de objetivo ou propósito é estabelecida com base no respeito genuíno por nossos companheiros. (...) O terceiro ponto, “unos em mente”, indica simplesmente uma fé fundamentada no comprometimento firmado entre mestre e discípulo. Isso quer dizer sintonizar nosso coração com o grande juramento do kosen-rufu, com o coração do Buda e de todo líder genuíno do kosen-rufu.9

Esse é um ponto de crucial importância. A cada rio em que navegamos, imbuídos da nossa missão, infalivelmente surgirão os “três obstáculos e quatro maldades”, isto é, vários obstáculos e adversidades que tentam impedir a prática budista. Com isso, a inabalável união dos remadores baseada nesses três pontos é a que protegerá o bote da nossa organização de qualquer pedra ou trecho sinuoso do rio.


Bote de bodisatvas

É natural sentirmos mais ou menos afinidade com pessoas diferentes. Porém, Ikeda sensei nos alerta que “É tolice sermos influenciados por simpatias ou antipatias pessoais e permitirmos que nossa prática enfraqueça em virtude disso”.10 Mas como é possível fazer surgir essa união entre pessoas tão diferentes?

Em um discurso proferido na Universidade Columbia, Ikeda sensei apontou:11

  • A sabedoria para perceber a inter-relação entre todas as formas de vida.
  • A coragem de não temer nem negar diferenças, mas respeitar e se empenhar para compreender pessoas de diferentes culturas e crescer por meio dos encontros com elas.
  • A compaixão para manter uma empatia imaginativa que vá além das cercanias imediatas e se estenda àqueles que estão sofrendo em lugares distantes.

Ele ainda reforçou:

O budismo ensina que tanto o bem como o mal são potencialidades que existem em todos. A compaixão implica um esforço constante e corajoso para buscar o bem em qualquer um, independentemente de quem seja ou de qual for o seu comportamento. Significa esforçar-se constantemente para cultivar as qualidades positivas em si próprio e nos outros. Esforço, contudo, exige coragem. Existem muitos casos em que a compaixão permanece como mero sentimento devido à falta de coragem. O budismo chama de bodisatva quem incorpora esses atributos — sabedoria, coragem e compaixão — e se empenha sem cessar pela felicidade dos outros.12

Esses atributos, que Ikeda sensei pontuou, nos remete ao bodisatva Jamais Desprezar. Por reconhecer a existência do estado de buda nas pessoas, ele reverenciava a natureza de buda de todas com as quais se encontrava, sem restrição. Assim, ao manifestarmos um profundo respeito pelas outras pessoas, podemos desencadear uma onda de sabedoria, coragem e compaixão uns nos outros.

Ikeda sensei declarou:

Seja qual for a situação, o caminho do diálogo sempre será positivo, propiciando o fortalecimento da solidariedade e da união. Recusar-se a dialogar é um erro e pode ser uma postura divisionista e destrutiva. O principal é se encontrar com o outro e dialogar. (...) O diálogo gera confiança, mesmo entre aqueles cujas opiniões não coincidem totalmente. (...) Como companheiros que abraçam a Lei Mística, é imprescindível que nos respeitemos mutuamente. Devemos nos encorajar, avançando juntos na longa e difícil estrada do kosen-rufu. Precisamos seguir em frente com a união de “diferentes em corpo, unos em mente”, atuando sempre como “bons amigos” uns para os outros.13

Bússola para navegar pela vida

Usando a analogia do esporte aquático rafting, vimos que, para percorrer as corredeiras agitadas da vida, com harmonia e segurança, isto é, adotando o princípio de “diferentes em corpo, unos em mente”, é necessário evidenciar sua máxima capacidade de avançar, respeitar o jeito único de cada companheiro no bote e remar juntos para a mesma direção. Diante das ondas que surgem, o seu levantar, ou seja, a sua ação em fazer a melhor remada, é o que define que os demais se unam a você no mesmo propósito.

Também é válido para objetivos individuais, mas, tratando-se de navegar pela vida, evidenciando seu “eu maior”, fazendo fluir a correnteza do kosen-rufu, Ikeda sensei nos alerta:

Aqueles que sempre mantêm com firmeza seu mestre espiritual como um modelo e bússola e se esforçam conforme esse mestre ensina são pessoas que vivem com base na Lei. O Budismo de Nichiren Daishonin é um ensinamento fundamentado na unicidade de mestre e discípulo.14

Assim, o primeiro ponto para viver com base no princípio de “diferentes em corpo, unos em mente” é estar em união com o coração do nosso mestre.

Vamos, então, com renovada disposição, remar junto com cada um dos nossos companheiros, desenvolvendo nosso potencial único e, ao mesmo tempo, enfrentar juntos, com o mesmo juramento, cada parte do rio da nossa missão pelo kosen-rufu. Nossa bússola é Ikeda sensei.

Notas:

1. IKEDA, Daisaku; MARINOFF, Lou. O Filósofo Interior. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, 2024. p. 326.

2. IKEDA, Daisaku. Sabedoria para Criar a Felicidade e a Paz — Parte 3: Kosen-rufu e a Paz Mundial. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, 2024. p. 159.

3. Federação Internacional de Rafting. Definição de Rafting. Disponível em: https://internationalrafting.com/about/irf/. Acesso em: 10 fev. 2025. 

4. National Library of Medicine. Understanding Human Genetic Variation. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK20363/ . Acesso em: 10 fev. 2025.

5. IKEDA, Daisaku. Nova Revolução Humana, v. 22. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, 2019. p. 288.

6. National Geographic. O que foi o Big Bang? Disponível em: https://www.nationalgeographicbrasil.com/espaco/2022/10/o-que-foi-o-big-bang#:~:text =Como%20o%20Big%20Bang%20criou,nas%20primeiras%20estrelas%20e%20gal%C3%A1xias. Acesso
em: 10 fev. 2025.
 

7. TOYNBEE, Arnold J.; IKEDA, Daisaku. Escolha a Vida. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, 2022. p. 425.

8. IKEDA, Daisaku. Sabedoria para Criar a Felicidade e a Paz — Parte 3: Kosen-rufu e a Paz Mundial. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, 2024. p. 158.

9. Ibidem, p. 161-163.

10. Ibidem, p. 168.

11. IKEDA, Daisaku. Educação Soka: Por uma Revolução na Educação embasada na Dignidade da Vida. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, 2017. p. 50.

12. Idem. Sabedoria para Criar a Felicidade e a Paz — Parte 2: Revolução Humana. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, 2023. p. 127.

13. IKEDA, Daisaku. Sabedoria para Criar a Felicidade e a Paz — Parte 3: Kosen-rufu e a Paz Mundial. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, 2024. p. 169-171.

14. Idem. Sabedoria para Criar a Felicidade e a Paz — Parte 1: A Felicidade. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, 2024. p. 152.

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