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Série
há 2 anos
[Parte 1] Os livros da minha juventude
Tradução dos extratos do livro The Books of My Youth [Os Livros da Minha Juventude]
[Parte 1] O drama de um jovem que vive de acordo com sua convicção: O Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas
Dr. Daisaku Ikeda
07/03/2025
![[Parte 1] Os livros da minha juventude](https://meubs.com.br/assets/images/ebs-2025-03-07_12-51-38.jpeg)
Foto de Alexandre Dumas. (Wikimedia Commons)
“Leia apenas romances de alto nível”, dizia meu mestre, Josei Toda. A instrução permeava seus ensinamentos de leitura para os jovens.
Os materiais de leitura para o Suikokai1 foram cuidadosamente selecionados para estar de acordo com o espírito e a intenção de Toda sensei. Meu mestre era muito seletivo. Às vezes, o material proposto não combinava com sua visão. Nessas ocasiões, ele advertia os membros do grupo sem hesitação: “Este livro é medíocre. O protagonista é de segunda ou terceira categorias. Vocês devem aprender com livros de primeira linha”.
Leitura ativa
Para ajudar no desenvolvimento dos jovens, meu mestre também nos ensinou a ler ativamente, não passivamente, dizendo: “Leia o livro. Não deixe o livro ler você!”. Sob a supervisão de Toda sensei, o Suikokai não era um grupo de leitura comum.
Uma pessoa com convicção e ideais claros compreenderá completamente as intenções de cada livro enquanto lê nas entrelinhas. E assim, nós nos envolvemos em nossas discussões com seriedade e paixão, em uma feroz batalha filosófica.
O que realmente significa ler um livro? Meu mestre ensinou isso aos seus jovens discípulos com o próprio exemplo. Certa vez, ele nos fez estudar O Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas.
Ilustração do personagem Edmond Dantès na edição de 1846 do livro O Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas
Durante a Segunda Guerra Mundial, Josei Toda ficou preso durante dois anos por conta da repressiva Lei de Preservação da Paz2 do governo militarista japonês. Ao discutir a obra O Conde de Monte Cristo, ele relatou detalhes de sua vida na prisão e nos transmitiu a agonia que se experimenta ao ser rotulado como criminoso político.
Na prisão, Edmond Dantès, protagonista do romance, queria vingar ardentemente as injustiças sofridas. Toda sensei, por outro lado, usou os dois anos de sofrimento e de reflexão profunda em que esteve no cárcere como catalisadores para alcançar a magnífica revolução humana como budista.
Um conto de vingança
O Conde de Monte Cristo, finalizado em 1846, é uma obra-prima do gigante literário francês Alexandre Dumas.
Originalmente veiculada em série em um jornal francês,3 dizem que se a publicação fosse adiada um só dia, não apenas os parisienses, mas toda a França, cairiam num estado de tristeza. Hoje, continua a gozar de ampla popularidade como clássico da literatura mundial, transcendendo o tempo e as fronteiras nacionais.
O romance chegou ao Japão na virada do século 20: primeiro, com a tradução de Naohiko Seki, com o título Uma Misteriosa História Ocidental de Vingança. Mais de uma década depois, Ruiko Kuroiwa o traduziu e publicou sob o esplêndido título O Rei da Caverna. Com a tradução de Kuroiwa, O Conde de Monte Cristo passou a ser amplamente conhecido pelos leitores japoneses.
Embora seja uma história de vingança, não está impregnada de sangue e violência. Dantès executa seus planos e atinge seus objetivos com determinação inabalável. A história transborda romance e aventura. Além disso, um ar exótico e o espírito poético do mar fluem por suas páginas. Seus feitos emocionantes, como os de um super-herói, nunca deixam de despertar entusiasmo.
Antes que se deem conta, os leitores estão tão envolvidos que se imaginam no lugar do personagem principal.
À medida que a história avança, a mente de Dantès se transforma de maneiras sutis e complexas. Em última análise, ele busca vingança como se fosse o agente de um deus vingativo, enviado para punir os malfeitores. Ao encontrar o enorme tesouro na Ilha de Monte Cristo, após ter escapado da prisão, ele se convence de que a providência divina atua por meio dele.
Um jovem de coração puro
No início do romance, Dantès é um navegador de 19 anos, com um coração puro, o tipo de jovem que nunca pensaria em suspeitar dos outros. Portanto, é necessário um poderoso catalisador para Dantès se transformar no vingativo conde de Monte Cristo.
A história começa quando Dantès retorna a Marselha após uma longa viagem marítima. Durante o trajeto, o capitão do navio morre repentinamente e Dantès assume o comando. Ao retornar em segurança, o armador o promove a capitão.
Meu mestre abordou a intenção do autor nessa parte inicial:
Acho que, no início, Dumas queria escrever sobre uma juventude genuína. Dantès é como uma jovem árvore. Ele não tem educação formal, mas é inteligente. Após a morte do capitão, ele demonstra sua habilidade cumprindo de forma esplêndida os deveres do falecido. A juventude deve ser pura. Aqui, Dumas descreve a paixão imaculada de um jovem francês cheio de vitalidade. Existe a idade física e a idade espiritual. Dumas então envia a jovem vida do protagonista para uma tempestade, fazendo-o passar por uma luta de vida ou morte. Somente aqueles que vivenciam os sofrimentos da vida — tanto físicos quanto espirituais — podem se tornar fortes. Os jovens, portanto, não devem procurar conforto.
Mestre e discípulo na prisão
Ao retornar, Dantès leva a boa notícia de sua promoção ao pai idoso e reencontra alegremente sua noiva, Mercedes. No dia seguinte, porém, no meio da festa de casamento, ele é assolado por um infortúnio repentino.
Dantès é preso sob a acusação de ser cúmplice de uma conspiração para derrubar o governo. O jovem, é claro, nada sabe sobre tal esquema.
Por trás da detenção dele estão ninguém menos que seus supostos amigos: Fernand, que ama secretamente Mercedes, e Danglars, comissário do navio. Os problemas seguem um após outro. Villefort, procurador-adjunto em Marselha, motivado pela ambição e por interesse próprio, condena o inocente Dantès à prisão perpétua. Da noite para o dia, o jovem caiu do ápice da felicidade para as profundezas do desespero. Marcado como traidor, ele é enviado para as masmorras da ilha-prisão Castelo de If.
Castelo de If.
Ikeda sensei e sua esposa, Kaneko, avistando o Castelo de If em visita à França.
Dantès não tem ideia de quem o colocou nessa situação. Ele detesta seu destino e fica furioso com os absurdos da sociedade e com os enganos das autoridades. Na tentativa de escapar, cava através da parede de sua cela até um túnel escavado por um prisioneiro vizinho, o idoso abade Faria. Os dois se tornam muito próximos e Dantès considera Faria um pai e um mestre.
Ao ouvir o relato de Dantès, o astuto Faria descobre a identidade dos culpados pela prisão do rapaz para horror do jovem.
No décimo quarto ano da prisão de Dantès, Faria morre, privando-o da única pessoa com quem podia conversar. A essa altura, porém, o jovem já havia herdado o vasto conhecimento e o refinamento do mestre. Ele também descobriu a localização de um tesouro fabuloso. Confiando seu destino aos céus, Dantès escapa da prisão escondendo o corpo de Faria e colocando-se dentro do saco funerário do abade.
Continua na próxima edição.
Na parte final das reflexões sobre a obra O Conde de Monte Cristo, Daisaku Ikeda conta o que acontece após a fuga do protagonista e compartilha profundas reflexões de Josei Toda sobre o tema “vingança” e o olhar do leitor ao ler um clássico.
Assista ao trailer do filme O Conde de Monte Cristo lançado em 2024
Notas:
1. Suikokai: Grupo de 43 jovens escolhidos para estudar com Josei Toda e para se tornar líderes que pudessem assumir a responsabilidade pelo kosen-rufu no futuro. Eles estudaram grandes obras da literatura tanto do Oriente como do Ocidente. Recebeu esse nome, Suikokai [Grupo Margem da Água], após ter estudado o antigo romance épico chinês Suikoden [Margem da Água, também traduzido como Foras da Lei do Pântano]. É considerado um dos quatro grandes romances clássicos da literatura chinesa.
2. Lei criada pelos militares japoneses antes da Segunda Guerra Mundial para reprimir qualquer dissidência política.
3. A primeira parte de O Conde de Monte Cristo foi publicada no Le Journal des Débats, jornal semanal francês, entre 28 de agosto e 18 de outubro de 1844. A segunda parte seguiu-se imediatamente, mas a terceira foi adiada porque Dumas tinha outros compromissos. Consequentemente, a parte final apareceu na edição de 15 de janeiro de 1846.
Fotos: Divulgação | Getty Images | Wikimedia Commons
Ilustração: Kenichiro Uchida
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