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Diálogo Sobre a Filosofia Budista
há 25 anos
O estudo é uma fonte de grandes benefícios
01/02/2002
Kiyoshi Nakajima — Poderíamos iniciar este diálogo abordando um fato importante para o qual nem sempre as pessoas atentam. Uma das primeiras coisas que aprendemos ao iniciarmos nossa prática budista é o princípio fundamental da “fé, prática e estudo”. Acredito que qualquer religião prega ser essencial ter fé e seguir a prática conforme seus ensinamentos. No entanto, colocar o estudo como um dos princípios fundamentais só comprova a visão extraordinária que Nitiren Daishonin possuía, ainda mais quando consideramos a época em que ele viveu. Naquele tempo, o estudo era algo restrito e acessível somente a uma minoria privilegiada do Japão. Não havia escolas como nos dias atuais. Hoje, colocar os filhos numa escola é mais que uma obrigação dos pais e é dever do Estado garantir esse direito às crianças. Nos dias de Nitiren Daishonin, os templos eram um dos poucos lugares em que se podia aprender a ler e a escrever, e mesmo assim a educação era destinada às crianças de famílias da elite japonesa. Nitiren nasceu como filho de um pescador, ou seja, ele pertencia à classe mais baixa da sociedade japonesa, e entrou para o sacerdócio aos doze anos. Foi a partir de então que iniciou sua busca pela essência do budismo. Praticamente ele foi um autodidata para interpretar todos os sutras, todos aqueles textos extremamente complicados, sabe-se lá em que idioma estavam escritos, e chegar ao Nam-myoho-rengue-kyo, revelado por ele aos 32 anos. Ele realmente deve ter se empenhado muito, algo inimaginável nos dias de hoje e também foi extremamente sábio. Por isso ele é o Buda. Enfatizar o estudo como um dos princípios do ensinamento tem muito a ver com a própria origem do Budismo de Nitiren Daishonin.
Yoshinori Kanno — É verdade. Com certeza não é comum em outras crenças seu fundador dar tanta ênfase assim à questão do estudo. Sonia
Kato — Talvez em outras religiões não exista esse tipo de exame para verificar o grau de conhecimento quanto à crença que se pratica, como o que será realizado este ano em toda a BSGI.
Kanno — Existem muitas pessoas que têm medo de prestar exame. Mas conforme foi dito, o estudo é uma parte essencial do Budismo de Nitiren Daishonin e deveríamos sentir orgulho e até considerar um privilégio termos acesso a todos esses conhecimentos e poder aprender, dialogar e debater sobre todos esses conceitos tão profundos.
Nakajima — O Exame de Budismo é uma forma prática encontrada pela Soka Gakkai de estabelecer o estudo como algo vivo dentro das atividades pelo Kossen-rufu. De fato, bastaria que as pessoas lessem e estudassem diariamente, sem necessariamente ter de avaliar o quanto aprenderam. Contudo, esse exame criado pela Soka Gakkai desde seus primórdios tem estimulado de maneira incontestável o desenvolvimento de inúmeros valores humanos e ainda tem sido uma maneira de incentivar os membros para renovarem regularmente suas metas quanto ao desenvolvimento no estudo. Mas, sem dúvida, muitas pessoas não gostam desse exame e acham que nem deveria haver esse tipo de atividade...
Sonia — Na verdade, o estudo deveria ser um hábito e não algo que fazemos tendo em vista a realização de um exame. É claro que isso seria mais uma questão de desafio e empenho de nossa parte. Entretanto, em meio ao corre-corre diário, a realização regular do exame é providencial para não nos acomodarmos e deixarmos de estudar. O presidente Ikeda sempre orienta que é importante criar o hábito de abrir as escrituras de Nitiren Daishonin e ler nem que seja uma frase por dia.
Kanno — Parece ser fácil e simples, mas algumas vezes nem paramos para folhear o Brasil Seikyo da semana, ou pior ainda, sequer lemos a “frase da semana”! (Risos.)
Sonia — Quem iniciou a prática na década de sessenta deve se lembrar que, naquela época, estudava-se o Gosho em todas as atividades. As reuniões basicamente se restringiam à realização do Gongyo, à recitação do Daimoku e ao estudo do budismo. Lembro-me que muitas vezes ficava sem compreender o que estava sendo explanado. Mas, com o decorrer da prática, começamos a compreender com a própria vida. É como se o tempo ou os acontecimentos do dia-a-dia nos mostrasse e nos obrigasse a colocar os ensinamentos na prática, para compreendermos o porquê das dificuldades e dos sofrimentos, e saber como vencer todos eles. Eu mesma experimentei isso. Passei por situações difíceis que jamais havia imaginado. Mas o interessante é que, nesses momentos cruciais, as frases do Gosho vinham à minha mente como respostas. Isso foi muito importante para ter forças e não desistir. Tudo que estudamos parece ficar gravado em nossa vida e quando necessitamos, esse aprendizado se evidencia. A bagagem de conhecimento e sabedoria acumulada com o estudo ameniza o efeito do sofrimento porque nos torna mais fortes. Nós aprendemos o processo das coisas que envolvem nossa vida, nós sabemos os porquês. Nunca estaremos perdidos, não há beco sem saída.
Kanno — Essa sua colocação me faz lembrar da época em que o presidente Toda passava por sérias dificuldades, com sua empresa à beira da falência. Muitos começaram a criticá-lo e alguns até se afastaram da prática. Foi nessa época que o presidente Toda começou a se empenhar com todo afinco nas explanações regulares do Gosho e nas aulas matinais para seu discípulo Daisaku Ikeda. Só esse fato já é uma lição para nós. Demonstrando total convicção no Budismo de Nitiren Daishonin mantendo-se inabalável diante de todos os obstáculos, ele ensinou o espírito ou a disposição com que devemos estudar o budismo, ou seja, buscar aprofundar constantemente o aprendizado, principalmente nos momentos de maiores provações, de não guardá-lo só para si, ensinando também aos outros. Durante dez anos e até pouco antes de falecer, o presidente Toda dedicou a vida a ensinar tudo o que sabia para o seu fiel discípulo. O próprio presidente Ikeda diz que tudo o que é hoje, ele deve ao seu mestre.
Sonia — Em diversas ocasiões, o presidente Ikeda afirmou que o estudo do budismo não existe simplesmente para benefício próprio e que a verdadeira atitude do discípulo é fazer do estudo a base da sua convicção e de sua ação. Ele mesmo tem nos ensinado por meio de sua postura e de suas ações o fruto de seu abnegado empenho no estudo durante todos esses anos. Estudar o budismo é também um ato de benevolência, de poder ensinar as pessoas, de poder livrá-las do sofrimento.
Kanno — No meio acadêmico existe um ditado que diz: “Ensinar algo difícil de forma difícil é fácil. O difícil é ensinar algo difícil, um conceito difícil, de maneira fácil.” O estudo do budismo envolve não só o aprendizado para si. Na realidade social do Brasil e, por que não dizer, do mundo, há um incontável número de pessoas sem condições mínimas para viver, sem acesso à educação ou à informação, imersas na infelicidade e sem qualquer expectativa. Em meio a essa diversidade cultural, a essa disparidade social e educacional, ensinar o budismo não é uma proposição fácil. É um ato que requer coragem e ação. De maneira ampla, esse gesto é exemplificado pela luta do presidente Ikeda. Na sociedade, o estudo tem um propósito de certo modo egoísta, pois estudamos para ter uma profissão, ter conforto, status, para dominar alguma técnica ou conceito em benefício próprio. O propósito do estudo do budismo é mais profundo na medida em que pode beneficiar muitas outras pessoas.
Sonia — Voltamos ao ponto de origem do Budismo de Nitiren Daishonin, pois ele foi estabelecido graças aos incansáveis esforços de Nitiren Daishonin em buscar o ensino correto capaz de salvar realmente toda a humanidade dos infortúnios e sofrimentos. A luta dos três presidentes da Soka Gakkai também encerra essa benevolência, essa solidariedade com as pessoas, e é graças a essa luta dedicada que este maravilhoso budismo está disseminado hoje em 180 países e territórios.
Kanno — Refletindo sobre esse aspecto, podemos dizer que, se não fosse pela existência da Soka Gakkai, esse budismo de profunda benevolência para com a humanidade jamais teria se expandido para o mundo.
Nakajima — É verdade. Foi somente com o surgimento da Soka Gakkai que o Budismo de Nitiren Daishonin pôde se propagar para o mundo. Após a morte de Nitiren Daishonin, passaram-se mais de setecentos anos até que o mundo pudesse conhecer essa grandiosa filosofia de vida. Não é exagero dizer que a Soka Gakkai surgiu conforme o desejo do Buda. Em setenta anos de existência, a Soka Gakkai praticamente levou para todos os cantos do mundo a semente da esperança e da felicidade. Hoje, praticamente o mundo todo tem contato com o Budismo de Nitiren Daishonin. Sem dúvida, ainda não atinge a grande parte da população, mas mesmo assim é uma jornada fantástica.
Kanno — Ou seja, se dependesse somente do Templo Principal e dos clérigos, ainda hoje o Budismo de Nitiren Daishonin estaria restrito a um pequeno número de seguidores, na sua maioria parentes e familiares dos bonzos.
Nakajima — Exatamente. Para se ter uma idéia, este ano, a publicação histórica e inédita da Coletânea das Escrituras de Nitiren Daishonin (Gosho Zenshu) produzida pela Soka Gakkai está completando cinqüenta anos. Foi em 1952, época em que a Gakkai ainda estava reiniciando sua jornada pelo Kossen-rufu liderado pelo presidente Toda, que a coletânea foi concluída e lançada. Sem dúvida, o trabalho do sumo prelado Hori Nitiko, que se aposentou de sua função para se dedicar exclusivamente à compilação dos escritos de Nitiren Daishonin, foi importante, pois os originais estavam espalhados em diversos templos e era necessário reuni-los todos. Mas foi graças à Soka Gakkai e à determinação e ampla visão do presidente Toda que a publicação foi concretizada. A partir de então, abriram-se as portas para que todas as pessoas do mundo pudessem ter contato com os profundos ensinamentos do Buda Original da Era de Mappo. Aqui no Brasil também, apesar de não termos uma coletânea ou as obras completas, temos acesso a grande parte das escrituras de Nitiren Daishonin traduzidas para o português. E isso é extraordinário, vocês não acham? Se não existisse a Gakkai, todo esse tesouro deixado por Nitiren Daishonin teria se perdido no tempo. Realmente não consigo deixar de pensar na grandiosa missão que a Gakkai possui em relação ao Kossen-rufu.
Kanno — Acredito que antes do surgimento da Soka Gakkai, as poucas pessoas que tiveram a boa sorte de encontrar o Budismo de Nitiren Daishonin não devem ter compreendido a profundidade e o significado de seus ensinamentos devido às dificuldades de acesso às escrituras. Aqueles que estudaram, talvez o tenham feito somente em benefício próprio, pois, caso contrário, esses ensinos teriam se propagado amplamente muito antes do surgimento da Gakkai. Provavelmente, o estudo tenha se restringido somente para fins cerimoniosos, algo muito distante da vida real e das questões complexas que as pessoas em geral enfrentavam em seu dia-a-dia. Essas cartas deixadas por Nitiren Daishonin ficaram guardadas como tesouros históricos sem utilização prática para as pessoas por centenas de anos. Foi a partir da publicação do Gosho Zenshu e do empenho árduo nos estudos dessas escrituras por parte dos veteranos e pioneiros da Soka Gakkai que hoje podemos nos beneficiar amplamente desses ensinamentos.
Sonia — Realmente não podemos nos esquecer da luta dos nossos grandes veteranos. Graças aos seus tenazes esforços, espírito de procura e benevolência é que temos a nossa disposição as escrituras de Nitiren Daishonin, as explanações, as orientações do presidente Ikeda, que nos dão suporte à prática budista e ainda nos possibilita conduzir nossa vida de maneira digna e feliz. Porém, com todas essas facilidades, corremos o risco de nos esquecer do espírito fundamental de “não poupar a própria vida” (fuji-shaku-shinmyo) pela causa do Kossen-rufu ensinada por Nitiren Daishonin e pelos presidentes da Soka Gakkai. Deixamos de dar o devido valor ao que temos e na maioria das vezes nos acomodamos, esperando passivamente pelas respostas, orientações e soluções. Se almejamos perpetuar a corrente da propagação do budismo para a felicidade de todas as pessoas, não podemos jamais perder o espírito de procura, de querer avançar e aprender. Esse é o próprio processo da revolução humana e é o espírito ensinado de mestre para seus discípulos. Esse processo vai ainda além. Não basta estudar e ensinar aos outros, é necessário primeiro comprovar na vida esses ensinamentos.
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